{"id":24159,"date":"2025-05-08T14:54:39","date_gmt":"2025-05-08T14:54:39","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=24159"},"modified":"2025-06-13T17:20:00","modified_gmt":"2025-06-13T17:20:00","slug":"planejamento-indicativo-verde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/planejamento-indicativo-verde\/","title":{"rendered":"Planejamento indicativo verde"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Transi\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas em todo o mundo est\u00e3o diante de um impasse. Com a proposta do governo Trump de revogar a Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o e a <a href=\"https:\/\/www.politico.eu\/article\/lets-kill-eu-green-deal-together-france-far-right-leader-tells-center-right-jordan-bardella\/\">mobiliza\u00e7\u00e3o<\/a> da extrema direita europeia contra a legisla\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica existente, a efic\u00e1cia de um ambientalismo baseado em estrat\u00e9gias de mercado de proporcionar mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica real e sem demora parece cada vez mais improv\u00e1vel. Enquanto o rel\u00f3gio do clima avan\u00e7a, democracias liberais s\u00e3o empurradas em dire\u00e7\u00e3o a progressismos verdes vagos e cautelosos ou recrudescimentos agressivos e autorit\u00e1rios do modelo de crescimento liderado pelo capitalismo f\u00f3ssil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Nesse contexto, em meio a <a href=\"https:\/\/www.euronews.com\/green\/2024\/09\/14\/scientists-warn-70-of-the-worlds-population-to-see-rapid-increase-in-unprecedented-weather\">previs\u00f5es<\/a> clim\u00e1ticas preocupantes e \u00e0 falta de resolu\u00e7\u00e3o das disputas pol\u00edticas pelo futuro das economias desenvolvidas, nunca foi t\u00e3o importante vislumbrar caminhos realmente vi\u00e1veis para a transi\u00e7\u00e3o verde. Embora alguns economistas da esquerda tenham come\u00e7ado a recorrer a ideias como \u201cplanejamento econ\u00f4mico democr\u00e1tico\u201d ou \u201cplanejamento ecossocialista\u201d para descrever as institui\u00e7\u00f5es capazes de realizar essa transi\u00e7\u00e3o, o imperativo do planejamento\u2014determinar metas nacionais e internacionais relativas ao tamanho e \u00e0 composi\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o bruta de v\u00e1rios setores econ\u00f4micos e alcan\u00e7ar os n\u00edveis de gastos p\u00fablicos e privados necess\u00e1rios para gerar as respostas desejadas em termos de oferta\u2014n\u00e3o tem a reestrutura\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das economias como pr\u00e9-requisito para a redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de gases do efeito estufa.<a data-contents=\"Durand, C\u00e9dric, Elena Hofferberth e Matthias Schmelzer. 2024. \u201cPlanning Beyond Growth: The Case for Economic Democracy within Ecological Limits\u201d. (<)em(>)Journal of Cleaner Production(<)\/em(>) 437: 140351. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.jclepro.2023.140351'(>)https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.jclepro.2023.140351(<)\/a(>). Sobre \u201cplanejamento democr\u00e1tico\u201d, ver Nishat-Botero, Yousaf. 2024. \u201cPlanning\u2019s Ecologies: Democratic Planning in the Age of Planetary Crises\u201d. (<)em(>)Organization(<)\/em(>) 31 (7): 1035\u20131057. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1177\/13505084231186749'(>)https:\/\/doi.org\/10.1177\/13505084231186749(<)\/a(>). Sorg, Christoph e Jan Groos. 2025. \u201cRethinking Economic Planning\u201d. (<)em(>)Competition &amp; Change(<)\/em(>) 29 (1): 3\u201316. https:\/\/doi.org\/10.1177\/10245294241273954.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Durand, C\u00e9dric, Elena Hofferberth e Matthias Schmelzer. 2024. \u201cPlanning Beyond Growth: The Case for Economic Democracy within Ecological Limits\u201d. (<)em(>)Journal of Cleaner Production(<)\/em(>) 437: 140351. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.jclepro.2023.140351'(>)https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.jclepro.2023.140351(<)\/a(>). Sobre \u201cplanejamento democr\u00e1tico\u201d, ver Nishat-Botero, Yousaf. 2024. \u201cPlanning\u2019s Ecologies: Democratic Planning in the Age of Planetary Crises\u201d. (<)em(>)Organization(<)\/em(>) 31 (7): 1035\u20131057. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1177\/13505084231186749'(>)https:\/\/doi.org\/10.1177\/13505084231186749(<)\/a(>). Sorg, Christoph e Jan Groos. 2025. \u201cRethinking Economic Planning\u201d. (<)em(>)Competition &amp; Change(<)\/em(>) 29 (1): 3\u201316. https:\/\/doi.org\/10.1177\/10245294241273954.<\/span> Ao contr\u00e1rio, como <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/13563467.2024.2434469#abstract\">argumentamos<\/a> recentemente, a pr\u00f3xima transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica pode ser planejada pelos Estados como existem hoje, a despeito das limita\u00e7\u00f5es que o capital privado\u2014corpora\u00e7\u00f5es multinacionais, ag\u00eancias de classifica\u00e7\u00e3o de risco, investidores em t\u00edtulos soberanos e investidores institucionais globais\u2014pode impor a isso. Na verdade, o planejamento pode ser a via mais direta para que os Estados recuperem o controle sobre o capital privado em benef\u00edcio do interesse p\u00fablico. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A abordagem de planejamento que propomos \u00e9 de natureza mais indicativa. \u00c9 responsiva e complementar \u00e0s institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, em vez de tentar suplant\u00e1-las, como propuseram tantos programas de transi\u00e7\u00e3o para o socialismo no s\u00e9culo XX. Trata-se da continuidade da longa tradi\u00e7\u00e3o de <em>planejamento indicativo <\/em>das sociedades do p\u00f3s-guerra, amplamente esquecida durante a era do neoliberalismo. A hist\u00f3ria das economias mistas herdadas da Grande Depress\u00e3o e da Segunda Guerra Mundial mostra que o planejamento econ\u00f4mico e a coordena\u00e7\u00e3o intersetorial s\u00e3o poss\u00edveis em democracias liberais que administram economias predominantemente capitalistas. Quando a dimens\u00e3o hier\u00e1rquica do planejamento permaneceu fortemente integrada aos processos deliberativos das autoridades pol\u00edticas existentes, a evolu\u00e7\u00e3o dessas economias mistas como pol\u00edticas democr\u00e1ticas lhes permitiu alcan\u00e7ar suas mais resilientes configura\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em economias mistas, portanto, o \u00fanico caminho l\u00facido para escapar do impasse vigente na pol\u00edtica clim\u00e1tica global \u00e9 o compromisso irredut\u00edvel do Estado com o planejamento econ\u00f4mico. Definimos \u201cplanejamento econ\u00f4mico verde\u201d como um sistema de coordena\u00e7\u00e3o que abrange arquiteturas macrofinanceiras, pol\u00edticas industriais e capacidades de planejamento previamente existentes do setor privado. Trata-se de uma forma de gest\u00e3o pol\u00edtica: se adaptadas para a\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas ousadas, nossas economias mistas de hoje podem estar tecnicamente equipadas para promover, em um curto espa\u00e7o de tempo, o hipercrescimento de setores verdes e a elimina\u00e7\u00e3o gradual de setores intensivos em carbono.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Historicamente, na Dinamarca, na Fran\u00e7a, na Holanda e no Jap\u00e3o, a forte coordena\u00e7\u00e3o entre Estados e elites empresariais levou a uma s\u00e9rie de arranjos de planejamento econ\u00f4mico bem-sucedidos. A China, economia de crescimento mais r\u00e1pido do mundo (ainda que n\u00e3o democr\u00e1tica), \u00e9 outro exemplo de planejamento estatal associado a um setor privado altamente empreendedor\u2014e muitas estrat\u00e9gias chinesas n\u00e3o precisam da exist\u00eancia de Estado-partido para serem implementadas. A persist\u00eancia de determinados modelos de planejamento at\u00e9 o presente sugere quais estrat\u00e9gias podem ser mais facilmente adotadas pelas democracias capitalistas de hoje.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Li\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas: um manual para o presente<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o s\u00e9culo XX, o planejamento n\u00e3o foi uma exclusividade sovi\u00e9tica, tampouco uma medida estritamente ligada a economias de guerra. No per\u00edodo p\u00f3s-guerra, diversos governos capitalistas definiram objetivos econ\u00f4micos transformacionais, facilitaram a negocia\u00e7\u00e3o entre atores econ\u00f4micos e influenciaram ativamente as proje\u00e7\u00f5es de mercado por meio de instrumentos como cr\u00e9dito estatal, pol\u00edticas monet\u00e1rias, subs\u00eddios, compras p\u00fablicas e regulamenta\u00e7\u00e3o. Ao projetar metas desejadas de investimento e produ\u00e7\u00e3o para a economia como um todo, esses Estados \u201cindicavam\u201d como o capital privado poderia obter lucros em sincronia com os objetivos nacionais. O emprego desses instrumentos por diferentes pa\u00edses teve variados graus de incentivo e coer\u00e7\u00e3o: holandeses e japoneses adotaram modelos de planejamento indicativo menos coercitivos e direcionados do que os franceses, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos Pa\u00edses Baixos, o planejamento indicativo se traduziu em planos geogr\u00e1ficos flex\u00edveis para padr\u00f5es de investimento ideais, com a participa\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es corporativistas no processo decis\u00f3rio.<a data-contents=\"Mastop, Hans e Rienk Postuma. 1991. \u201cKey Notions Underlying Dutch Strategic Planning\u201d. (<)em(>)Built Environment(<)\/em(>) 17.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mastop, Hans e Rienk Postuma. 1991. \u201cKey Notions Underlying Dutch Strategic Planning\u201d. (<)em(>)Built Environment(<)\/em(>) 17.<\/span> Os planos eram coordenados por institui\u00e7\u00f5es governamentais nos n\u00edveis municipal, provincial e nacional, sendo que cada uma dessas inst\u00e2ncias desenvolvia sua pr\u00f3pria compet\u00eancia de planejamento. Ainda que fosse receptivo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de grupos organizados, esse modelo acabou criando uma camada de planejadores de elite especializados e amplamente isolados do escrut\u00ednio p\u00fablico ou da interfer\u00eancia pol\u00edtica. Embora se distancie da l\u00f3gica mercadol\u00f3gica das abordagens contempor\u00e2neas de descarboniza\u00e7\u00e3o, por focar no desenvolvimento territorial em vez do intersetorial, essa forma de planejamento seria fraca demais para os prop\u00f3sitos de hoje. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O planejamento indicativo franc\u00eas, em contrapartida, era mais abrangente e politizado, tendo como objetivo n\u00e3o s\u00f3 o alinhamento das decis\u00f5es de investimento territorial aos interesses de atores organizados, mas tamb\u00e9m a transforma\u00e7\u00e3o estrutural da economia nacional.<a data-contents=\"Kindleberger, Charles P. 1967. (<)em(>)Europe\u2019s Postwar Growth: The Role of Labor Supply(<)\/em(>). Cambridge, MA: Harvard University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Kindleberger, Charles P. 1967. (<)em(>)Europe\u2019s Postwar Growth: The Role of Labor Supply(<)\/em(>). Cambridge, MA: Harvard University Press.<\/span> Os planos eram divididos em tr\u00eas partes: concep\u00e7\u00e3o tecnocr\u00e1tica, controle democr\u00e1tico e implementa\u00e7\u00e3o tecnocr\u00e1tica. Metas de crescimento nacional eram definidas pelo Minist\u00e9rio das Finan\u00e7as e pelo Comissariado de Planejamento (composto por divis\u00f5es econ\u00f4micas e setoriais). O Comissariado reunia comit\u00eas tem\u00e1ticos espec\u00edficos, respons\u00e1veis por tra\u00e7ar estrat\u00e9gias para alcan\u00e7ar as metas do plano. Os resultados desse processo inicial eram, ent\u00e3o, submetidos \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o corporativista formado por duzentos representantes de v\u00e1rios grupos de interesse, bem como ao Conselho Superior de Planejamento, que inclu\u00eda ministros do governo, federa\u00e7\u00f5es patronais e centrais sindicais. A implementa\u00e7\u00e3o do plano envolvia a participa\u00e7\u00e3o de empresas privadas e estatais dos setores de finan\u00e7as, ferrovias, avia\u00e7\u00e3o e eletricidade. Coordenadas sob regras de autonomia, essas empresas precisavam ser convencidas pelo aparato burocr\u00e1tico de que aderir ao plano era realmente vantajoso. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grandes ativos estatais foram um elemento-chave desse esquema. Como demonstrou o economista Eric Monnet, dois quintos da renda nacional e metade do investimento bruto durante o per\u00edodo do p\u00f3s-guerra vinham do Estado.<a data-contents=\"Monnet, \u00c9ric. 2012. \u201cMonetary Policy without Interest Rates: Evidence from France\u2019s Golden Age (1948\u20131973) Using a Narrative Approach\u201d. (<)em(>)EHES Working Papers(<)\/em(>) n\u00ba 32. European Historical Economics Society.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Monnet, \u00c9ric. 2012. \u201cMonetary Policy without Interest Rates: Evidence from France\u2019s Golden Age (1948\u20131973) Using a Narrative Approach\u201d. (<)em(>)EHES Working Papers(<)\/em(>) n\u00ba 32. European Historical Economics Society.<\/span> Aproveitando que controlava o cr\u00e9dito, o Estado usou o aparato de planejamento para selecionar os setores que se beneficiariam de financiamento barato e de longo prazo. O Comissariado de Planejamento, o Conselho de Cr\u00e9dito, o Banco Central e os bancos estatais atuavam em sincronia, envolvendo agentes privados no processo. O Banco Central Franc\u00eas, por exemplo, mediante instrumentos como aloca\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas seletivas de cr\u00e9dito, desempenhou um papel crucial na orienta\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico, na moderniza\u00e7\u00e3o industrial e na transforma\u00e7\u00e3o estrutural, levando a Fran\u00e7a aos mais altos postos do prest\u00edgio industrial global na d\u00e9cada de 1970.<a data-contents=\"Monnet, \u00c9ric. 2018. (<)em(>)Controlling Credit: Central Banking and the Planned Economy in Postwar France, 1948\u20131973(<)\/em(>). Cambridge: Cambridge University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Monnet, \u00c9ric. 2018. (<)em(>)Controlling Credit: Central Banking and the Planned Economy in Postwar France, 1948\u20131973(<)\/em(>). Cambridge: Cambridge University Press.<\/span> Ap\u00f3s a crise do petr\u00f3leo de 1973, a&nbsp;transforma\u00e7\u00e3o sist\u00eamica do setor energ\u00e9tico franc\u00eas foi absolutamente espetacular, alcan\u00e7ando a ampla substitui\u00e7\u00e3o das fontes f\u00f3sseis pela energia nuclear em pouco mais de quinze anos, mesmo com um aparato de planejamento j\u00e1 bastante afetado pela liberaliza\u00e7\u00e3o.<a data-contents=\"Hecht, Gabrielle. 2009. (<)em(>)The Radiance of France: Nuclear Power and National Identity after World War II(<)\/em(>). Cambridge, MA: MIT Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Hecht, Gabrielle. 2009. (<)em(>)The Radiance of France: Nuclear Power and National Identity after World War II(<)\/em(>). Cambridge, MA: MIT Press.<\/span> Foi um modelo de Estado desenvolvimentista no qual o governo, atuando como banqueiro, planejador e propriet\u00e1rio de ativos industriais essenciais, dirigiu, da manufatura \u00e0 infraestrutura, transforma\u00e7\u00f5es estruturais. O Estado liderava esse processo, mas o capital privado tinha ganhos t\u00e3o substanciais que efetivamente convenciam seus representantes a participar do planejamento: entre 1954 a 1974, retornos marginais sobre o capital em cada setor apresentaram correla\u00e7\u00e3o positiva em <em>em todos os anos<\/em> da amostra.<a data-contents=\"Monnet, \u00c9ric. 2012. \u201cMonetary Policy without Interest Rates\u201d.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Monnet, \u00c9ric. 2012. \u201cMonetary Policy without Interest Rates\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sucesso da economia japonesa do p\u00f3s-guerra, por sua vez, resultou de uma estrat\u00e9gia no meio do caminho entre Holanda e Fran\u00e7a. Como a Fran\u00e7a, o Jap\u00e3o utilizou o planejamento indicativo durante a fase de ind\u00fastria nascente; mas, ao contr\u00e1rio do Estado franc\u00eas, audaciosamente dirigista, o aparato de planejamento do japon\u00eas tinha ambi\u00e7\u00f5es indicativas mais modestas, limitando sua interven\u00e7\u00e3o \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o de restri\u00e7\u00f5es aos cart\u00e9is, \u00e0 garantia de financiamento p\u00fablico de longo prazo para a pol\u00edtica industrial e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o em equipes de pesquisa de diversas empresas.<a data-contents=\"Sato, Kazuo. 1990. \u201cIndicative Planning in Japan\u201d. (<)em(>)Journal of Comparative Economics 14(<)\/em(>) (4): 625\u2013647.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-8\" href=\"#footnote-list-8\">8<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Sato, Kazuo. 1990. \u201cIndicative Planning in Japan\u201d. (<)em(>)Journal of Comparative Economics 14(<)\/em(>) (4): 625\u2013647.<\/span> O fato de ter o Estado organizando a elimina\u00e7\u00e3o gradual das ind\u00fastrias em decl\u00ednio, como a do carv\u00e3o, j\u00e1 na d\u00e9cada de 1960, foi essencial para o planejamento verde no Jap\u00e3o. Assim como na Fran\u00e7a, o planejamento japon\u00eas come\u00e7ou a se desenvolver em um contexto de militarismo e cat\u00e1strofe, com a cria\u00e7\u00e3o de uma ag\u00eancia de planejamento em 1937, quando j\u00e1 se antecipava a imin\u00eancia da guerra. Como consequ\u00eancia da guerra, a imensa escassez de bens e a destrui\u00e7\u00e3o industrial generalizada garantiram a continuidade do planejamento econ\u00f4mico durante a ocupa\u00e7\u00e3o estadunidense e, de maneira mais sutil, depois que o Jap\u00e3o recuperou sua independ\u00eancia, em 1952. Assim como a Fran\u00e7a, at\u00e9 os \u00faltimos momentos que precederam a era neoliberal, o Jap\u00e3o elaborou planos indicativos de cinco anos e adotou instrumentos baseados em gastos, impostos, cr\u00e9dito p\u00fablico e orienta\u00e7\u00e3o administrativa para coloc\u00e1-los em pr\u00e1tica. Esses planos contribu\u00edram para a diversificada e complexa expans\u00e3o industrial japonesa em setores novos e de alto valor agregado ao mesmo tempo em que estabilizaram o crescimento e equilibraram o ciclo econ\u00f4mico. Mas, ao contr\u00e1rio da Fran\u00e7a, o grau de dirigismo institucional centralizado na fase de implementa\u00e7\u00e3o era mais limitado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da Europa Ocidental ao Jap\u00e3o, o planejamento indicativo lan\u00e7ou as bases para a recupera\u00e7\u00e3o no p\u00f3s-guerra e para a subsequente moderniza\u00e7\u00e3o industrial, com a coordena\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas macrofinanceiras e industriais liderada por burocracias centrais operando entre os imperativos da responsabiliza\u00e7\u00e3o e da autonomia tecnocr\u00e1tica. O que levou esse sistema de planejamento \u00e0 crise no final da d\u00e9cada de 1970 foram os processos combinados de estagfla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o previstos pelos dispositivos de progn\u00f3stico dos planejadores, al\u00e9m da financeiriza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica e da ascens\u00e3o ideol\u00f3gica do neoliberalismo. Hoje, pa\u00edses que levam a descarboniza\u00e7\u00e3o a s\u00e9rio t\u00eam muito a ganhar com a reconstru\u00e7\u00e3o  dessas capacidades de planejamento sobre os pilares das experi\u00eancias seletivas de planejamento setorial que sobreviveram nos interst\u00edcios do neoliberalismo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Estado de desenvolvimento verde<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modelo franc\u00eas de coordena\u00e7\u00e3o intersetorial encontra nas pol\u00edticas chinesas a sua express\u00e3o contempor\u00e2nea. Como a China \u00e9 respons\u00e1vel por 90% do crescimento das emiss\u00f5es globais desde 2015, o redirecionamento dos recursos monet\u00e1rios e financeiros do pa\u00eds para a economia verde tem import\u00e2ncia planet\u00e1ria.<a data-contents=\"Helveston, John e Jonas Nahm. 2019. \u201cChina\u2019s Key Role in Scaling Low-Carbon Energy Technologies\u201d. (<)em(>)Science(<)\/em(>) 366: 794\u2013796. (<)a href='https:\/\/www.jstor.org\/stable\/26845194'(>)https:\/\/www.jstor.org\/stable\/26845194(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-9\" href=\"#footnote-list-9\">9<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Helveston, John e Jonas Nahm. 2019. \u201cChina\u2019s Key Role in Scaling Low-Carbon Energy Technologies\u201d. (<)em(>)Science(<)\/em(>) 366: 794\u2013796. (<)a href='https:\/\/www.jstor.org\/stable\/26845194'(>)https:\/\/www.jstor.org\/stable\/26845194(<)\/a(>).<\/span> Felizmente, o governo chin\u00eas se lan\u00e7ou em uma hist\u00f3rica transforma\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica de seu aparato de planejamento, produzindo resultados not\u00e1veis, entre eles a maior descarboniza\u00e7\u00e3o do mundo no setor de transportes e a <a href=\"https:\/\/www.iea.org\/reports\/renewables-2023\/executive-summary\">maior expans\u00e3o<\/a> de infraestrutura de energia limpa registrada at\u00e9 o momento. Mesmo com Trump encerrando a participa\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos na transi\u00e7\u00e3o verde\u2014e provavelmente carregando alguns aliados consigo\u2014, a poderosa m\u00e1quina de investimentos da China permanece predominantemente voltada para a descarboniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vers\u00e3o chinesa do \u201cambientalismo desenvolvimentista\u201d \u00e9 estruturada por planos de cinco anos e cumprida por canais macroecon\u00f4micos, administrativos e financeiros atuando sob uma combina\u00e7\u00e3o de controle administrativo e incentivos corporativos, fazendo com que o modelo se beneficie tanto da centraliza\u00e7\u00e3o quanto da descentraliza\u00e7\u00e3o.<a data-contents=\"Thurbon, Elizabeth, Sung-Young Kim, Hao Tan e John A. Mathews. 2023. (<)em(>)Developmental Environmentalism: State Ambition and Creative Destruction in East Asia\u2019s Green Energy Transition(<)\/em(>). Oxford: Oxford University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-10\" href=\"#footnote-list-10\">10<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Thurbon, Elizabeth, Sung-Young Kim, Hao Tan e John A. Mathews. 2023. (<)em(>)Developmental Environmentalism: State Ambition and Creative Destruction in East Asia\u2019s Green Energy Transition(<)\/em(>). Oxford: Oxford University Press.<\/span> Nesse sentido, as institui\u00e7\u00f5es chinesas de planejamento dependem da mobiliza\u00e7\u00e3o das partes interessadas de baixo para cima, nos n\u00edveis provincial e municipal, com poucos mandatos centralizados no que diz respeito \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas.<a data-contents=\"Zhang, Marina, Mark Dodgson e David Gann. 2022. (<)em(>)Demystifying China\u2019s Innovation Machine: Chaotic Order(<)\/em(>). Oxford: Oxford University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-11\" href=\"#footnote-list-11\">11<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Zhang, Marina, Mark Dodgson e David Gann. 2022. (<)em(>)Demystifying China\u2019s Innovation Machine: Chaotic Order(<)\/em(>). Oxford: Oxford University Press.<\/span> Governos provinciais e municipais dotados de institui\u00e7\u00f5es financeiras pr\u00f3prias, que incluem empresas de capital de risco voltadas \u00e0 inova\u00e7\u00e3o, trabalham com empresas p\u00fablicas e privadas numa grande teia de experimentos econ\u00f4micos<a data-contents=\"Li, Xuan e Cornel Ban. 2025. \u201cFinancing Technological Innovation in China: Neo-Developmental Financial Statecraft through Government Guidance Funds\u201d. Trabalho apresentado no Global Development Policy Center. Boston, MA. No prelo.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-12\" href=\"#footnote-list-12\">12<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Li, Xuan e Cornel Ban. 2025. \u201cFinancing Technological Innovation in China: Neo-Developmental Financial Statecraft through Government Guidance Funds\u201d. Trabalho apresentado no Global Development Policy Center. Boston, MA. No prelo.<\/span> que, apesar de todas as inefici\u00eancias, colocou a China em uma posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a em termos de inova\u00e7\u00e3o, implementa\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica e supremacia global no setor de tecnologia limpa.<a data-contents=\"Helveston, John e Jonas Nahm. 2019.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-13\" href=\"#footnote-list-13\">13<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Helveston, John e Jonas Nahm. 2019.<\/span> Na busca por pr\u00e1ticas de planejamento mais efetivas, mecanismos de coordena\u00e7\u00e3o como os da China, respons\u00e1veis por um sistema nacional de inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que chegam rapidamente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o em massa e ao varejo\u2014frequentemente abalando as bolsas de valores ocidentais\u2014merecem uma an\u00e1lise atenta. Em vez de ser tratado como anomalia ex\u00f3tica, o sistema chin\u00eas deveria ser estudado em profundidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez a caracter\u00edstica mais surpreendente seja a depend\u00eancia do sistema de planejamento chin\u00eas de uma arquitetura macrofinanceira semelhante \u00e0 francesa: aloca\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito em condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para setores estrat\u00e9gicos definidos pelos planos peri\u00f3dicos e controle p\u00fablico das institui\u00e7\u00f5es financeiras sistemicamente importantes. Atuando no interior desse arranjo, o Banco Popular da China foi pioneiro na pol\u00edtica monet\u00e1ria verde, reduzindo o custo de capital para atividades e atores econ\u00f4micos verdes.<a data-contents=\"Macaire, Camille e Allain Naef. 2023. \u201cGreening Monetary Policy: Evidence from the People\u2019s Bank of China\u201d. (<)em(>)Climate Policy(<)\/em(>) 23 (1): 138\u2013149. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1080\/14693062.2021.2013153'(>)&nbsp;https:\/\/doi.org\/10.1080\/14693062.2021.2013153(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-14\" href=\"#footnote-list-14\">14<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Macaire, Camille e Allain Naef. 2023. \u201cGreening Monetary Policy: Evidence from the People\u2019s Bank of China\u201d. (<)em(>)Climate Policy(<)\/em(>) 23 (1): 138\u2013149. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1080\/14693062.2021.2013153'(>)&nbsp;https:\/\/doi.org\/10.1080\/14693062.2021.2013153(<)\/a(>).<\/span> Desde 2015, a forma como o planejamento indicativo intersetorial do governo\u2014apoiado por recursos e incentivos (\u201ccenouras\u201d) de bancos e empresas estatais\u2014tem sido direcionado para recalibrar a economia e transferir investimentos para ind\u00fastrias de ponta no setor de tecnologia limpa revela uma in\u00e9dita combina\u00e7\u00e3o das ideias de Marx e Schumpeter.<a data-contents=\"Li, Xuan e Cornel Ban. 2025.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-15\" href=\"#footnote-list-15\">15<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Li, Xuan e Cornel Ban. 2025.<\/span> Nesse processo, apesar da forte instrumentaliza\u00e7\u00e3o das redes financeiras globais pelos Estados Unidos com o objetivo de restringir a ascens\u00e3o da China,<a data-contents=\"Petry, Johannes. 2024. \u201cChina\u2019s Rise, Weaponized Interdependence, and the Increasingly Contested Geographies of Global Finance\u201d. (<)em(>)Finance and Space(<)\/em(>) 1 (1): 49\u201357. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1080\/2833115X.2023.2296439'(>)&nbsp;https:\/\/doi.org\/10.1080\/2833115X.2023.2296439(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-16\" href=\"#footnote-list-16\">16<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Petry, Johannes. 2024. \u201cChina\u2019s Rise, Weaponized Interdependence, and the Increasingly Contested Geographies of Global Finance\u201d. (<)em(>)Finance and Space(<)\/em(>) 1 (1): 49\u201357. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1080\/2833115X.2023.2296439'(>)&nbsp;https:\/\/doi.org\/10.1080\/2833115X.2023.2296439(<)\/a(>).<\/span> a financeiriza\u00e7\u00e3o passou a ser conduzida pelo Estado como um instrumento para acelerar a descarboniza\u00e7\u00e3o.<a data-contents=\"Beck, Kasper Ingeman e Mathias Larsen. 2025. \u201cFinancialization and an Emerging \u2018Green Investor State\u2019: Examining China\u2019s Use of State-Backed Funds for Green Transition\u201d. (<)em(>)Regulation &amp; Governance(<)\/em(>) 19 (2). (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1111\/rego.12625'(>)https:\/\/doi.org\/10.1111\/rego.12625(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-17\" href=\"#footnote-list-17\">17<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Beck, Kasper Ingeman e Mathias Larsen. 2025. \u201cFinancialization and an Emerging \u2018Green Investor State\u2019: Examining China\u2019s Use of State-Backed Funds for Green Transition\u201d. (<)em(>)Regulation &amp; Governance(<)\/em(>) 19 (2). (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1111\/rego.12625'(>)https:\/\/doi.org\/10.1111\/rego.12625(<)\/a(>).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale destacar que o regime de financiamento de inova\u00e7\u00e3o da China \u00e9 dominado por empresas de capital de risco estatais, e n\u00e3o privadas, desafiando relatos c\u00e9ticos que questionam a capacidade do Estado autorit\u00e1rio chin\u00eas de promover a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica verde de baixo para cima. Para alcan\u00e7ar isso, a China depende fortemente da convers\u00e3o em larga escala e de cima para baixo de ativos estatais em capital de risco de maneira integrada aos processos de planejamento central e provincial. Al\u00e9m disso, depende da execu\u00e7\u00e3o de investimentos geogr\u00e1fica e setorialmente direcionados, viabilizada pelas v\u00e1rias inst\u00e2ncias administrativas existentes no interior do Estado.<a data-contents=\"Li, Xuan e Cornel Ban. 2025.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-18\" href=\"#footnote-list-18\">18<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Li, Xuan e Cornel Ban. 2025.<\/span><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Vias democr\u00e1ticas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando se \u00e9 c\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade de coordena\u00e7\u00e3o, pode-se pensar que as democracias s\u00e3o muito fragmentadas, muito lentas, muito&#8230; <em>democr\u00e1ticas <\/em>para sustantar formas robustas de planejamento. Sob essa \u00f3tica, o Estado-partido chin\u00eas \u00e9 considerado um guia inadequado para os governos ocidentais. No entanto, como argumenta Thea Riofrancos, as democracias s\u00e3o bem adequadas ao planejamento porque, por serem sistemas mais transparentes e respons\u00e1veis, permitem fluxos de informa\u00e7\u00f5es precisos e reduzem os incentivos \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o imprecisa de resultados da a\u00e7\u00e3o estatal.<a data-contents=\"Riofrancos, Thea. 2025. \u201cThe Perils of Climate Alarmism\u201d. (<)em(>)Journal of Democracy(<)\/em(>) 36 (1): 169\u2013174. (<)a href='https:\/\/dx.doi.org\/10.1353\/jod.2025.a947892'(>)https:\/\/dx.doi.org\/10.1353\/jod.2025.a947892(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-19\" href=\"#footnote-list-19\">19<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Riofrancos, Thea. 2025. \u201cThe Perils of Climate Alarmism\u201d. (<)em(>)Journal of Democracy(<)\/em(>) 36 (1): 169\u2013174. (<)a href='https:\/\/dx.doi.org\/10.1353\/jod.2025.a947892'(>)https:\/\/dx.doi.org\/10.1353\/jod.2025.a947892(<)\/a(>).<\/span> A elogiada transforma\u00e7\u00e3o do sistema energ\u00e9tico da Dinamarca \u00e9 prova disso.<a data-contents=\"Sperling, Karl, Frede Hvelplund e Brian Vad Mathiesen. 2011. \u201cCentralisation and Decentralisation in Strategic Municipal Energy Planning in Denmark\u201d. (<)em(>)Energy Policy(<)\/em(>) 39 (3): 1338\u20131351. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.enpol.2010.12.006'(>)&nbsp;https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.enpol.2010.12.006(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-20\" href=\"#footnote-list-20\">20<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Sperling, Karl, Frede Hvelplund e Brian Vad Mathiesen. 2011. \u201cCentralisation and Decentralisation in Strategic Municipal Energy Planning in Denmark\u201d. (<)em(>)Energy Policy(<)\/em(>) 39 (3): 1338\u20131351. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.enpol.2010.12.006'(>)&nbsp;https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.enpol.2010.12.006(<)\/a(>).<\/span> Ao unir centraliza\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o popular, o pa\u00eds conseguiu aliar efici\u00eancia e legitimidade. A Dinamarca tem o sistema energ\u00e9tico mais sustent\u00e1vel e seguro da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), resultado de um processo de planejamento energ\u00e9tico desenvolvido desde a d\u00e9cada de 1970. A Ag\u00eancia Dinamarquesa de Energia (DEA) est\u00e1 no centro administrativo do aparato de planejamento. Ela implementa planos plurianuais para todos os setores relevantes de produ\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o de energia no pa\u00eds. A elabora\u00e7\u00e3o fica por conta do Minist\u00e9rio da Energia, que fornece \u00e0 DEA Planos Nacionais de Energia e Clima j\u00e1 discutidos com atores democr\u00e1ticos (partidos pol\u00edticos representados no legislativo dinamarqu\u00eas) e tecnocr\u00e1ticos (ag\u00eancias de regula\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos, \u00f3rg\u00e3os oficiais de estat\u00edstica e institutos de meteorologia, por exemplo). Com os planos em m\u00e3os, a DEA usa modelos matem\u00e1ticos para criar diferentes cen\u00e1rios de implementa\u00e7\u00e3o e os submete \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o de munic\u00edpios, empresas e fornecedores independentes que atuam como produtores de energia. No final, ap\u00f3s uma \u00faltima rodada de consultas regionais com os pa\u00edses n\u00f3rdicos e a Uni\u00e3o Europeia, o Parlamento Dinamarqu\u00eas debate e aprova cada plano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modelo de administra\u00e7\u00e3o adotado pela DEA permite que os planos plurianuais sirvam de base para decis\u00f5es relacionadas a subs\u00eddios, empr\u00e9stimos, subven\u00e7\u00f5es e isen\u00e7\u00f5es fiscais (e, respectivamente, aumentos de impostos sobre combust\u00edveis f\u00f3sseis), bem como para regulamenta\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis a investimentos em energia renov\u00e1vel e desfavor\u00e1veis a setores poluentes.<a data-contents=\"Krog, Louise, and Kyle Sperling. 2019. \u201cA Comprehensive Framework for Strategic Energy Planning Based on Danish and International Insights\u201d. (<)em(>)Energy Strategy Reviews(<)\/em(>) 24: 83\u201393. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.esr.2019.02.005'(>)&nbsp;https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.esr.2019.02.005(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-21\" href=\"#footnote-list-21\">21<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Krog, Louise, and Kyle Sperling. 2019. \u201cA Comprehensive Framework for Strategic Energy Planning Based on Danish and International Insights\u201d. (<)em(>)Energy Strategy Reviews(<)\/em(>) 24: 83\u201393. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.esr.2019.02.005'(>)&nbsp;https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.esr.2019.02.005(<)\/a(>).<\/span> O planejamento verde dinamarqu\u00eas maximiza a contribui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica n\u00e3o apenas em n\u00edvel nacional, mas tamb\u00e9m em n\u00edvel municipal, no qual grande parte da pol\u00edtica industrial verde se desenrola. Usando garantias de empr\u00e9stimos da estatal Energinet.dk, a gricultores e moradores de munic\u00edpios produtores de energia foram organizados em cooperativas, o que deu \u00e0 pol\u00edtica uma faceta democr\u00e1tica ainda mais forte.<a data-contents=\"Sovacool, Benjamin K. 2013. \u201cEnergy Policymaking in Denmark: Implications for Global Energy Security and Sustainability\u201d. (<)em(>)Energy Policy(<)\/em(>) 61: 829\u2013839. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.enpol.2013.06.106'(>)https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.enpol.2013.06.106(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-22\" href=\"#footnote-list-22\">22<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Sovacool, Benjamin K. 2013. \u201cEnergy Policymaking in Denmark: Implications for Global Energy Security and Sustainability\u201d. (<)em(>)Energy Policy(<)\/em(>) 61: 829\u2013839. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.enpol.2013.06.106'(>)https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.enpol.2013.06.106(<)\/a(>).<\/span> \u00c0 medida que a evolu\u00e7\u00e3o dessa transforma\u00e7\u00e3o passou a exigir investimentos financeiros maiores, a base econ\u00f4mica que sustentava esse modelo\u2014mais comunit\u00e1rio e democr\u00e1tico\u2014foi corro\u00edda. Um Estado redutor de riscos passou a existir paralelamente ao Estado planejador, ainda que a eros\u00e3o do planejamento democr\u00e1tico tenha sido mais uma escolha do que uma fatalidade.<a data-contents=\"Kirkegaard, Kirch, Tom Cronin, Sophia Nyborg e Peter Karn\u00f8e. 2023. \u201cParadigm Shift in Danish Wind Power: The (Un)Sustainable Transformation of a Sector\u201d. (<)em(>)Journal of Environmental Policy &amp; Planning(<)\/em(>) 23 (1): 97\u2013113. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1080\/1523908X.2020.1799769'(>)https:\/\/doi.org\/10.1080\/1523908X.2020.1799769(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-23\" href=\"#footnote-list-23\">23<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Kirkegaard, Kirch, Tom Cronin, Sophia Nyborg e Peter Karn\u00f8e. 2023. \u201cParadigm Shift in Danish Wind Power: The (Un)Sustainable Transformation of a Sector\u201d. (<)em(>)Journal of Environmental Policy &amp; Planning(<)\/em(>) 23 (1): 97\u2013113. (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1080\/1523908X.2020.1799769'(>)https:\/\/doi.org\/10.1080\/1523908X.2020.1799769(<)\/a(>).<\/span> O caso de descarboniza\u00e7\u00e3o do setor energ\u00e9tico da Dinamarca \u00e9 um exemplo de como a centraliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa levar a impulsos autorit\u00e1rios. Ao contr\u00e1rio, a li\u00e7\u00e3o dinamarquesa \u00e9 justamente que um processo acelerado de centraliza\u00e7\u00e3o pode ser acompanhado de uma amplia\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, tanto em rela\u00e7\u00e3o ao processo de planejamento em si quanto em termos de coletiviza\u00e7\u00e3o dos resultados. <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>E agora, para onde vamos?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O planejamento verde n\u00e3o \u00e9 apenas um compromisso te\u00f3rico. Ao contr\u00e1rio, tem exemplos pr\u00e1ticos de sucesso em meio a adversidades hist\u00f3ricas bastante espec\u00edficas: guerra, recupera\u00e7\u00f5es p\u00f3s-guerra,  crises energ\u00e9ticas e at\u00e9 mesmo o colapso do socialismo de Estado. No entanto, esses casos tamb\u00e9m ilustram como, sob um sistema capitalista, a legitimidade do planejamento intersetorial frequentemente depende de crises existenciais. H\u00e1 um risco de que a urg\u00eancia da cat\u00e1strofe acabe capturando as elites e dando voz a tend\u00eancias autorit\u00e1rias. Exatamente por isso, \u00e9 essencial que haja uma agenda de pesquisa do planejamento econ\u00f4mico verde voltada a investigar os caminhos poss\u00edveis para equilibrar desafios geopol\u00edticos e legitimidade democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa agenda pode se desdobrar em tr\u00eas dimens\u00f5es. Primeiro, precisamos de um trabalho mais detalhado sobre as <em>institui\u00e7\u00f5es de coordena\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica<\/em> que historicamente caracterizaram o planejamento indicativo, a fim de oferecer mais do que meros esquemas te\u00f3ricos de institui\u00e7\u00f5es de planejamento verde. Estudos de caso permitiram, por exemplo, sugerir caminhos para que essas institui\u00e7\u00f5es de coordena\u00e7\u00e3o empreguem instrumentos relacionados a condi\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito, garantias de liquidez p\u00fablico-privada (liquidez emitida por institui\u00e7\u00f5es financeiras e lastreada por bancos centrais), capacidade de socializar fun\u00e7\u00f5es de inova\u00e7\u00e3o, maior propriedade estatal em finan\u00e7as e energia, ou capacidade de atrair e coagir o financiamento privado para alinhar as metas estatais de descarboniza\u00e7\u00e3o aos incentivos comerciais. Sob essa \u00f3tica, a descarboniza\u00e7\u00e3o pode ser encarada como parte de um sistema hier\u00e1rquico funcional que tem as institui\u00e7\u00f5es de coordena\u00e7\u00e3o do planejamento estatal no topo, o regime macrofinanceiro no meio e a pol\u00edtica industrial ou as pol\u00edticas econ\u00f4micas destinadas ao setor privado na base. As incertezas geopol\u00edticas de hoje fizeram com que esse tipo de capacidade estatal, que vinha de uma trajet\u00f3ria de queda desde seus dias \u00e1ureos no p\u00f3s-guerra, voltasse a ser reivindicada. A quest\u00e3o \u00e9 que a compreens\u00e3o de seu atual significado \u00e9 bastante incipiente. Nesse cen\u00e1rio, \u00e9 essencial reconciliar a natureza hier\u00e1rquica das institui\u00e7\u00f5es  de coordena\u00e7\u00e3o com os imperativos da competi\u00e7\u00e3o geoecon\u00f4mica <em>e <\/em>da legitimidade democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em segundo lugar, o planejamento econ\u00f4mico verde indica que as grandes corpora\u00e7\u00f5es que lideram emaranhados de opera\u00e7\u00f5es multinacionais talvez sejam os laborat\u00f3rios experimentais perfeitos para a revis\u00e3o da antiga obje\u00e7\u00e3o neocl\u00e1ssica de que as intera\u00e7\u00f5es de mercado s\u00e3o simplesmente complexas demais para que o Estado as planeje. Na verdade, nas economias capitalistas, uma abordagem de planejamento microfundamentada, munida dos instrumentos de c\u00e1lculo atuais, poderia contornar elegantemente as obje\u00e7\u00f5es liberais ao c\u00e1lculo socialista.<a data-contents=\"Morozov, E., 2019. Digital socialism? The calculation debate in the age of big data. New left review, 116, 33\u201367.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-24\" href=\"#footnote-list-24\">24<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Morozov, E., 2019. Digital socialism? The calculation debate in the age of big data. New left review, 116, 33\u201367.<\/span> Sem d\u00favida, extrapolar o planejamento do n\u00edvel empresarial para a coordena\u00e7\u00e3o intersetorial como defendemos \u00e9 um desafio herc\u00faleo. Tecnocracias, frequentemente limitadas por sua pr\u00f3pria in\u00e9rcia institucional, podem instintivamente recuar diante da gigantesca escala dessa tarefa. No entanto, numa era de revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, obje\u00e7\u00f5es dessa natureza n\u00e3o podem simplesmente encerrar a conversa. Ao contr\u00e1rio, devem nos conscientizar de que chegamos a um ponto de inflex\u00e3o na hist\u00f3ria, no qual as pr\u00f3prias ferramentas dessa revolu\u00e7\u00e3o, como a intelig\u00eancia artificial, podem ser recrutadas para servir aos objetivos da descarboniza\u00e7\u00e3o. Afinal, se levarmos as promessas da intelig\u00eancia artificial a s\u00e9rio, seu grande feito certamente n\u00e3o ser\u00e1 dominar apenas os <em>chatbots<\/em>, mas tamb\u00e9m as ferramentas de c\u00e1lculo empregadas pelos planejadores. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro fator crucial \u00e9 que a dimens\u00e3o hier\u00e1rquica do planejamento deve se restringir \u00e0 fase de implementa\u00e7\u00e3o. Na Fran\u00e7a, a faceta democr\u00e1tica do planejamento poderia ter sido dificuldada pelo pr\u00f3prio ambiente democr\u00e1tico do pa\u00eds, marcado por um amplo pluralismo pol\u00edtico e por ferrenhas disputas entre grupos de interesse diversos. Ainda que tenha nascido \u00e0 sombra do poder tecnocr\u00e1tico, o desenvolvimento do sistema de planejamento ao longo dos anos mostrou que estava \u00e0 altura desses desafios, particularmente durante os \u201cTrinta Anos Gloriosos\u201d (1940-1970). Notavelmente, tecnocratas, comunistas, liberais, capitalistas, sindicalistas e acad\u00eamicos sentavam \u00e0 mesa juntos. Antes que a l\u00f3gica hier\u00e1rquica da implementa\u00e7\u00e3o assumisse o controle, a fase de delibera\u00e7\u00e3o p\u00fablica era repleta de debates vigorosos e, muitas vezes, francamente desagrad\u00e1veis. No entanto, foi precisamente esse processo contencioso que conferiu legitimidade ao sistema de planejamento, demonstrando que um engajamento democr\u00e1tico robusto poderia n\u00e3o s\u00f3 coexistir com uma coordena\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica eficaz, mas de fato sustent\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em terceiro lugar, se nossas premissas estiverem corretas, Estados com institui\u00e7\u00f5es fr\u00e1geis e um grau de articula\u00e7\u00e3o p\u00fablico-privada insatisfat\u00f3rio fariam bem em fortalecer primeiro as institui\u00e7\u00f5es e s\u00f3 ent\u00e3o dar o pontap\u00e9 inicial do planejamento verde, porque o fracasso nesse \u00e2mbito acarretaria n\u00e3o apenas riscos de reveses operacionais, mas tamb\u00e9m de perda de legitimidade do planejamento em sentido mais amplo. Isso dito, defici\u00eancias dessa natureza n\u00e3o s\u00e3o imut\u00e1veis. A mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tem o potencial de preencher essas lacunas, e pesquisas em torno dessa agenda poderiam explorar, de forma bastante oportuna, como essa mobiliza\u00e7\u00e3o poderia se desenrolar sob as press\u00f5es simult\u00e2neas da competi\u00e7\u00e3o geoecon\u00f4mica e da degrada\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em quarto lugar, h\u00e1 uma necessidade premente de aprofundar o escopo do planejamento nos pa\u00edses do Sul global, onde as restri\u00e7\u00f5es estruturais s\u00e3o enormes\u2014de camisas de for\u00e7a impostas pelos regimes comerciais globais e regionais ao protecionismo geopol\u00edtico das economias centrais, passando pela implac\u00e1vel financeiriza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica. O desafio \u00e9, de fato, descomunal, mas as oportunidades de descobrir estrat\u00e9gias de planejamento que libertem os pa\u00edses dessas restri\u00e7\u00f5es e abram caminhos para um desenvolvimento sustent\u00e1vel e equitativo s\u00e3o t\u00e3o grandes quanto. O contexto hist\u00f3rico atual pode fazer com que essas promessas soem vazias, mas poucas pessoas que estudaram a Coreia ou Singapura na d\u00e9cada de 1950 teriam esperado ver Estados desenvolvimentistas de alto desempenho florescerem ali a partir da d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, o planejamento econ\u00f4mico verde, apesar de todas as suas promessas, carrega consigo o espectro do exagero tecnocr\u00e1tico e da captura corporativa, um dilema conhecido por qualquer pessoa que tenha familiaridade com a hist\u00f3ria da porta girat\u00f3ria entre governos e mercados. O desafio \u00e9 responder a algumas perguntas muito claras: que instrumentos podem ser usados pelos Estados democr\u00e1ticos para impor limites r\u00edgidos \u00e0 captura corporativa sem desencadear uma greve de investimentos que acabe travando as pr\u00f3prias transforma\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis? Se o financiamento privado \u00e9 coautor da arquitetura macrofinanceira da descarboniza\u00e7\u00e3o, quais as ferramentas dispon\u00edveis para que as institui\u00e7\u00f5es de planejamento mantenham os financiadores sob controle? Ainda, quando setores de alta emiss\u00e3o enfrentarem as inevit\u00e1veis consequ\u00eancias dos projetos de transi\u00e7\u00e3o, como garantir que os trabalhadores e as comunidades que deles dependem sejam democraticamente representados e adequadamente compensados, sem que o sacrif\u00edcio do car\u00e1ter democr\u00e1tico do projeto vire um dano colateral da sua pr\u00f3pria implement\u00e7\u00e3o? E, finalmente, como as institui\u00e7\u00f5es de planejamento podem incorporar e estimular  pr\u00e1ticas verdes democraticamente desenvolvidas em prefigura\u00e7\u00f5es municipais e regionais, como sugere a emergente teoria do planejamento do decrescimento,<a data-contents=\"Durand, C\u00e9dric, Elena Hofferberth e Matthias Schmelzer. 2024.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-25\" href=\"#footnote-list-25\">25<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Durand, C\u00e9dric, Elena Hofferberth e Matthias Schmelzer. 2024.<\/span>, ao mesmo tempo em que garantem a homogeneidade territorial que a descarboniza\u00e7\u00e3o efetiva implica?<a data-contents=\"Savini, Federico. 2024. \u201cStrategic Planning for Degrowth: What,&nbsp;Who, How\u201d. (<)em(>)Planning Theory(<)\/em(>) 0 (0). (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1177\/14730952241258693'(>)https:\/\/doi.org\/10.1177\/14730952241258693(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-26\" href=\"#footnote-list-26\">26<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Savini, Federico. 2024. \u201cStrategic Planning for Degrowth: What,&nbsp;Who, How\u201d. (<)em(>)Planning Theory(<)\/em(>) 0 (0). (<)a href='https:\/\/doi.org\/10.1177\/14730952241258693'(>)https:\/\/doi.org\/10.1177\/14730952241258693(<)\/a(>).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas n\u00e3o s\u00e3o meras perguntas ret\u00f3ricas; elas tocam no cerne de como a economia pol\u00edtica deve evoluir para enfrentar a crise clim\u00e1tica. As respostas, se surgirem, exigir\u00e3o que rompamos nossos redutos de pesquisa para encarar de frente o terreno desordenado e disputado da governan\u00e7a clim\u00e1tica. A pauta de pesquisa que propomos se baseia na tradi\u00e7\u00e3o do planejamento indicativo n\u00e3o apenas para mapear as complexidades do planejamento verde, mas para alcan\u00e7ar um horizonte normativo no qual aspira\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas sejam n\u00e3o apenas preservadas, mas tamb\u00e9m amplificadas diante dos desafios ambientais existenciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Estado verde deve emergir das cinzas tanto do Estado redutor de riscos quanto do seu antagonista f\u00f3ssil, n\u00e3o como um anacronismo, mas como um instrumento de sobreviv\u00eancia. A escolha ser\u00e1 clara: planejar um futuro de resili\u00eancia ou nos resignar ao caos e aos perigos de uma adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica sob regimes autorit\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Esse ensaio \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o de um <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/13563467.2024.2434469#abstract\">artigo<\/a>  publicado na edi\u00e7\u00e3o de abril da <em>New Political Economy<\/em>.<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-right\">Tradu\u00e7\u00e3o: Heci Regina Candiani<br><\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria das economias mistas herdadas da Grande Depress\u00e3o e da Segunda Guerra mostra que o planejamento econ\u00f4mico e a coordena\u00e7\u00e3o intersetorial s\u00e3o poss\u00edveis em sociedades liberal-democr\u00e1ticas que administram economias majoritariamente capitalistas. 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