{"id":23662,"date":"2025-05-15T18:30:42","date_gmt":"2025-05-15T18:30:42","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=23662"},"modified":"2025-05-16T14:37:59","modified_gmt":"2025-05-16T14:37:59","slug":"ditadura-sindicalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ditadura-sindicalismo\/","title":{"rendered":"\u00c9 preciso dar um jeito, meu amigo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia 1\u00ba de setembro de 2013, em um editorial que se tornaria famoso, o jornal carioca O Globo reconheceu que seu apoio ao golpe militar de 1964 havia sido um erro. O texto foi escrito no contexto das grandes e confusas manifesta\u00e7\u00f5es que tomavam as ruas do pa\u00eds naquele momento (conhecidas como \u201cJornadas de junho de 2013\u201d), nas quais uma das palavras de ordem mais ouvidas era \u201ca verdade \u00e9 dura, a Globo apoiou a ditadura\u201d. Al\u00e9m disso, era o per\u00edodo de atua\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, institu\u00edda em 2011 pela presidenta Dilma Rousseff para investigar as graves viola\u00e7\u00f5es contra direitos humanos ocorridas durante a ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reconhecendo como verdadeiro o grito das ruas, o jornal justificava de forma reveladora que seu entusiasmo com a queda do governo de Jo\u00e3o Goulart era devido ao temor da instala\u00e7\u00e3o de uma suposta \u201crep\u00fablica sindical\u201d no pa\u00eds. A ret\u00f3rica anticomunista e a histeria conservadora que contagiava vastos setores das classes m\u00e9dias e altas tinham um alvo claro: o crescimento da organiza\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios e de vastos setores populares nas cidades, bem como a impressionante mobiliza\u00e7\u00e3o de camponeses nas zonas rurais. O in\u00e9dito espa\u00e7o pol\u00edtico conquistado por lideran\u00e7as sindicais incomodava e amedrontava. O golpe de 1964 foi, antes de tudo e sobretudo, um golpe contra os trabalhadores e suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presen\u00e7a p\u00fablica e as lutas por direitos dos trabalhadores brasileiros, intensas desde o final da Segunda Guerra Mundial, atingiriam seu \u00e1pice no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960. Os sindicatos foram os principais vetores da organiza\u00e7\u00e3o popular naqueles anos. Mas tal mobiliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ocorria atrav\u00e9s de associa\u00e7\u00f5es de moradores e espa\u00e7os informais, como clubes de bairros e institui\u00e7\u00f5es culturais. No campo, a emerg\u00eancia das Ligas Camponesas, e suas demandas por uma Reforma Agr\u00e1ria transformadora, surpreendeu o pa\u00eds e colocou os trabalhadores rurais no centro do cen\u00e1rio pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trabalhistas, cat\u00f3licos, comunistas, entre diversas outras for\u00e7as pol\u00edticas, disputavam e formavam alian\u00e7as no interior deste movimento. Greves, protestos e uma linguagem marcadamente nacionalista e reformista embalavam reivindica\u00e7\u00f5es por transforma\u00e7\u00f5es estruturais e pela conquista de direitos desde sempre negados, como a lei do 13<sup>o<\/sup> sal\u00e1rio e a sindicaliza\u00e7\u00e3o no campo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Opera\u00e7\u00e3o limpeza<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um contexto marcado pela Guerra Fria, pela descoloniza\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses africanos e asi\u00e1ticos e pelos impactos da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana na Am\u00e9rica Latina, a\u00a0 presen\u00e7a p\u00fablica dos trabalhadores na d\u00e9cada de 1960 significava, para muitos, a antessala do comunismo. N\u00e3o por acaso, o golpe e seus preparativos contaram com o vital apoio do governo dos Estados Unidos. A desenvoltura com que lideran\u00e7as camponesas e dirigentes sindicais do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) se aproximavam do governo e do presidente Jo\u00e3o Goulart (nunca perdoado por cultivar essas \u201crela\u00e7\u00f5es perigosas\u201d) era particularmente execrada. A visibilidade desta alian\u00e7a no famoso com\u00edcio da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, no dia 13 de mar\u00e7o, foi a gota d\u2019\u00e1gua para os grupos conservadores e golpistas. Apesar da intensa campanha contra o governo, pesquisas de opini\u00e3o realizadas \u00e0 \u00e9poca e ocultadas durante muito tempo mostravam que a maioria da popula\u00e7\u00e3o apoiava Jango e suas reformas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O golpe acabou com tudo aquilo. E surpreendeu muitos dirigentes sindicais, radicalizados e demasiadamente confiantes na sua influ\u00eancia pol\u00edtica e poder de mobiliza\u00e7\u00e3o. Para os vitoriosos, era primordial destruir a \u201chidra comunista e trabalhista\u201d. A chamada \u201cOpera\u00e7\u00e3o limpeza\u201d desencadeada pelo novo regime invadiu e dilapidou o patrim\u00f4nio dos sindicatos. Nos primeiros anos ap\u00f3s o golpe, mais de mil entidades sindicais tiveram suas dire\u00e7\u00f5es removidas pelo governo. O movimento oper\u00e1rio foi um alvo priorit\u00e1rio da primeira onda repressiva no imediato p\u00f3s-golpe e dirigentes sindicais e trabalhadores ativistas de todo o pa\u00eds foram particularmente atingidos. Diversas lideran\u00e7as foram presas, cassadas e algumas, assassinadas. A ditadura foi dura desde seu primeiro dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os mundos do trabalho eram preocupa\u00e7\u00e3o central da jovem ditadura. Embora tenham enfraquecido bastante o Minist\u00e9rio do Trabalho, os militares e seus aliados n\u00e3o pretendiam acabar com os sindicatos, mas sim afast\u00e1-los de qualquer influ\u00eancia considerada pol\u00edtica e torn\u00e1-los parceiros na constru\u00e7\u00e3o de um modelo de desenvolvimento econ\u00f4mico autorit\u00e1rio. A ideia era capacitar as entidades sindicais nas cidades e no campo para atuar no treinamento da m\u00e3o de obra trabalhadora e como institui\u00e7\u00f5es assistenciais nas \u00e1reas de sa\u00fade, lazer e previd\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um primeiro momento, tiveram grande apoio de setores conservadores cat\u00f3licos. Tamb\u00e9m o sindicalismo norte-americano viu no golpe uma oportunidade \u00fanica de influenciar os sindicatos no Brasil. Por meio de entidades como o Instituto Cultural do Trabalho (ICT) e o Instituto Americano de Desenvolvimento do Sindicalismo Livre (Iadesil), promoveu cursos e diversas atividades de interc\u00e2mbio no pa\u00eds. Logo, no entanto, tens\u00f5es com o governo militar e com muitos sindicalistas brasileiros esvaziaram as expectativas dos estadunidenses. De qualquer forma, v\u00e1rios dos interventores colocados \u00e0 for\u00e7a pelo golpe militar conseguiram ganhar alguma legitimidade e formar grupos pol\u00edticos que controlariam os sindicatos por anos a fio. No jarg\u00e3o sindical, eram comumente chamados de \u201cpelegos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entidades empresariais, como a poderosa Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo (FIESP), celebraram a nova era. Exasperados com a presen\u00e7a dos trabalhadores na esfera p\u00fablica e suas crescentes demandas por direitos no per\u00edodo imediatamente anterior a 1964, bem como incomodados com o incremento da organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria nos locais de trabalho, empres\u00e1rios, gerentes e supervisores viram no golpe a chance da \u201crevanche patronal\u201d. Al\u00e9m da repress\u00e3o direta a dirigentes sindicais e l\u00edderes conhecidos, milhares de trabalhadores ativistas, delegados de base ou mesmo mero simpatizantes dos sindicatos e de organiza\u00e7\u00f5es de esquerda foram demitidos e, gra\u00e7as \u00e0s infames \u201clistas negras\u201d, tiveram imensas dificuldades para conseguir novos empregos. A alian\u00e7a entre empres\u00e1rios e a pol\u00edcia pol\u00edtica (o famigerado Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social, conhecido pela sigla DOPS) vinha de longe, mas se tornou ainda mais s\u00f3lida e disseminada. Um clima de medo e persegui\u00e7\u00e3o passaria a dominar o interior das empresas. No campo, um n\u00famero ainda n\u00e3o calculado de trabalhadores rurais foi expulso de suas comunidades e muitos foram mortos por mil\u00edcias privadas e capangas a servi\u00e7o de latifundi\u00e1rios.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Fabricando o milagre<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A nova pol\u00edtica trabalhista do governo do primeiro ditador instalado pelo golpe, o General Castelo Branco (1964-1967), consolidou-se com um plano arquitetado pela coaliz\u00e3o de civis tecnocratas e militares, formulado especificamente pelos ministros Roberto Campos, do Planejamento, e Oct\u00e1vio Bulh\u00f5es, da Fazenda: o Programa de A\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica do Governo (PAEG). O programa tinha como objetivo principal conter o processo inflacion\u00e1rio e acelerar o ritmo de desenvolvimento econ\u00f4mico por meio da livre iniciativa de mercado. O controle dos sal\u00e1rios era um aspecto essencial do plano. N\u00e3o por acaso, estima-se que entre 1964 e1968 tenha ocorrido uma queda real de cerca de 30% no valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo. Aos trabalhadores eram pedidos \u201csacrif\u00edcios\u201d em nome da almejada estabilidade econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Novas leis visando o controle salarial, a conten\u00e7\u00e3o de greves e protestos e o fim da estabilidade por tempo de servi\u00e7o deram um arcabou\u00e7o institucional para as medidas anti-trabalhistas do regime. Tamb\u00e9m criaram um ambiente econ\u00f4mico que facilitava enormemente as demiss\u00f5es e a rotatividade da m\u00e3o de obra. Essa pol\u00edtica econ\u00f4mica era pouco popular. A express\u00e3o \u201carrocho salarial\u201d se tornou lugar comum entre os trabalhadores e mesmo os sindicalistas que apoiavam o novo regime tinham dificuldades em defender v\u00e1rias dessas medidas. Muitos passaram a criticar o governo. Castello Branco se via reiteradamente obrigado a repetir, em v\u00e3o, que \u201ca Revolu\u00e7\u00e3o\u201d\u2014termo pelo qual os militares e seus apoiadores denominavam o golpe\u2014\u201cn\u00e3o era contra os trabalhadores\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A insatisfa\u00e7\u00e3o crescente, a radicaliza\u00e7\u00e3o de setores da esquerda e os movimentos de massa desencadeados por estudantes em 1968 criaram um ambiente prop\u00edcio para o crescimento do protesto dos trabalhadores. Greves come\u00e7aram a pipocar no campo e na cidade. As paraliza\u00e7\u00f5es dos metal\u00fargicos em Contagem, Minas Gerais, e dos canavieiros na cidade de Cabo, Pernambuco, surpreenderam e assustaram o governo, que acabou aceitando parte das reivindica\u00e7\u00f5es. J\u00e1 a famosa greve dos metal\u00fargicos de Osasco, em S\u00e3o Paulo, foi exemplarmente reprimida. Com a decreta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n. 5 e fechamento do regime, o medo e o controle social passaram a definitivamente dominar a sociedade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ano de 1968 n\u00e3o marcou apenas o aprofundamento da ditadura e o in\u00edcio de sua fase mais repressiva. Foi tamb\u00e9m o momento em que a economia brasileira superou a crise dos anos anteriores e adentrou um per\u00edodo de forte crescimento, o que deu popularidade ao regime. Beneficiando-se de uma conjuntura global bastante favor\u00e1vel ao fluxo de investimentos e empr\u00e9stimos internacionais, a pol\u00edtica econ\u00f4mica\u2014propagandeada como \u201cmilagre econ\u00f4mico brasileiro\u201d\u2014levou o pa\u00eds a taxas de crescimento anuais superiores a 10% por anos consecutivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pa\u00eds atraiu o investimento direto de empresas multinacionais, em particular, no setor industrial de bens de consumo dur\u00e1veis. De fato, para al\u00e9m dos incentivos fiscais e da amplia\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito para as empresas, o pr\u00f3prio clima repressivo de arrocho salarial e de conten\u00e7\u00e3o das demandas sociais era um fator decisivo para os industriais nacionais e estrangeiros, favorecidos pela intensa explora\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3o-de-obra abundante e barata cujo protesto era fortemente cerceado.\u00a0 O \u201cmilagre\u201d tamb\u00e9m era embalado pela pol\u00edtica nacionalista da ditadura que imaginava \u201cintegrar\u201d e transformar o pa\u00eds numa pot\u00eancia internacional: o \u201cBrasil Grande\u201d. Assim, amplos investimentos em infraestrutura, em particular nas \u00e1reas de transportes, telecomunica\u00e7\u00f5es e energia, marcariam aqueles anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O milagre n\u00e3o completou uma d\u00e9cada: o ano de 1973 marcaria uma inflex\u00e3o na pol\u00edtica econ\u00f4mica do regime. O aumento dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo determinado pelos pa\u00edses produtores provocou uma crise de dimens\u00f5es globais. Diante da instabilidade internacional, o governo do Ernesto Geisel, ditador que tomou posse em mar\u00e7o de 1974, decidiu colocar o \u201cp\u00e9 no acelerador\u201d da economia para garantir crescimento, popularidade e for\u00e7a pol\u00edtica. O II Plano Nacional de Desenvolvimento procurava ajustar a economia nacional ao novo momento de crise do petr\u00f3leo, redobrando a aposta na industrializa\u00e7\u00e3o, em particular nos setores de bens de capital e na infraestrutura energ\u00e9tica. O governo ditatorial dos militares procurava completar o processo de industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Para tanto, lan\u00e7ava m\u00e3o, de forma afutorit\u00e1ria, v\u00e1rios mecanismos empregados pelo Estado desde a d\u00e9cada de 1930, como o planejamento, o protecionismo e o largo uso de empresas estatais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa industrializa\u00e7\u00e3o acelerada, no entanto, era acompanhada de dois flagelos que marcariam a economia brasileira durante quase duas d\u00e9cadas: a infla\u00e7\u00e3o e o endividamento externo. Esses problemas ficaram evidentes quando duas gigantescas crises internacionais atingiram o pa\u00eds em cheio: uma nova crise do pre\u00e7o do petr\u00f3leo em 1979 e a crise da d\u00edvida externa latino-americana no in\u00edcio dos anos 1980.\u00a0 Ocorridas durante o governo do \u00faltimo ditador, Jo\u00e3o Batista Figueiredo, as crises conjugadas e o receitu\u00e1rio proposto pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) provocaram uma brutal recess\u00e3o econ\u00f4mica, ampliaram o desemprego, disseminaram a fome e azedaram de vez o humor popular em rela\u00e7\u00e3o ao regime dos militares.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Moderniza\u00e7\u00e3o conservadora<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ditadura tamb\u00e9m pretendia redimensionar a quest\u00e3o agr\u00e1ria no pa\u00eds, sem alterar a estrutura fundi\u00e1ria, tema t\u00e3o fundamental nos debates pol\u00edticos das d\u00e9cadas anteriores. O regime impulsionou uma enorme transforma\u00e7\u00e3o no mundo rural brasileiro, estimulando a transforma\u00e7\u00e3o dos latif\u00fandios em empresas, a expropria\u00e7\u00e3o de pequenos camponeses, a migra\u00e7\u00e3o de agricultores, em particular do sul do pa\u00eds (vistos como empreendedores e etnicamente superiores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s popula\u00e7\u00f5es racializadas) e a ocupa\u00e7\u00e3o de novas fronteiras agr\u00edcolas no Centro-Oeste e na regi\u00e3o amaz\u00f4nica\u2014institucionalizando a rela\u00e7\u00e3o entre elites agr\u00e1rias e for\u00e7as conservadoras que perdura at\u00e9 hoje. A express\u00e3o \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o conservadora\u201d se consagraria como uma s\u00edntese da pol\u00edtica econ\u00f4mica da ditadura como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar do ambiente repressivo, da censura e da ret\u00f3rica nacionalista do governo, a alta concentra\u00e7\u00e3o de renda, a intensifica\u00e7\u00e3o dos problemas sociais e a infla\u00e7\u00e3o eram denunciadas por sindicalistas, intelectuais e setores da sociedade civil como o \u201coutro lado\u201d do \u201cmilagre\u201d. De qualquer forma, a propaganda oficial divulgava uma imagem do Brasil do \u201cmilagre\u201d como um pa\u00eds promissor em que migrantes rurais, agora na cidade, trabalhavam na constru\u00e7\u00e3o civil, nas f\u00e1bricas, enquanto suas mulheres, como empregadas dom\u00e9sticas em lares de classe m\u00e9dia poderiam adquirir h\u00e1bitos \u201ccivilizados\u201d e \u201cmodernos\u201d. Fuscas, geladeiras e aparelhos de televis\u00e3o eram os s\u00edmbolos daquela era.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De toda forma, apesar do crescimento econ\u00f4mico e das brechas para alguma mobilidade social, as profundas desigualdades sociais do pa\u00eds eram percebidas por milh\u00f5es de trabalhadores como a marca dominante do regime militar e um denominador de identidades e demandas em comum no final dos anos 1970 e in\u00edcio dos 1980. O crescimento econ\u00f4mico aumentou a concentra\u00e7\u00e3o de renda, beneficiando empres\u00e1rios, uma alta classe m\u00e9dia gerencial, profissionais liberais e os estratos superiores da burocracia estatal. As pol\u00edticas de arrocho salarial e de controle social murcharam o peso da massa salarial no PIB nacional. A ditadura entregava um pa\u00eds em que os ricos eram ainda mais ricos e os pobres ainda mais pobres. O crescimento da infla\u00e7\u00e3o a partir de meados dos anos 1970 ampliou a sensa\u00e7\u00e3o de perda e empobrecimento.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ditadura dos generais chegava ao interior das f\u00e1bricas, fazendas, canteiros de obras e locais de trabalho como a ditadura dos patr\u00f5es e feitores. A experi\u00eancia cotidiana do trabalho foi sentida com o temor do despotismo gerencial. O trabalho era vivido como um espa\u00e7o de superexplora\u00e7\u00e3o. Ritmos intensos com longas jornadas recheadas de horas extras, frequentemente com riscos \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 integridade f\u00edsica. Nos anos 1970, o pa\u00eds chegou a ser o \u201ccampe\u00e3o mundial de acidentes de trabalho\u201d, naturalizados numa l\u00f3gica de descarte humano e viol\u00eancias corriqueiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fim daquela d\u00e9cada foi marcado por uma dupla crise. De um lado, a deteriora\u00e7\u00e3o do modelo econ\u00f4mico dos militares: o esgotamento do \u201cmilagre\u201d. De outro, um crescente desgaste pol\u00edtico e perda de legitimidade. Apesar de ainda controlarem o processo pol\u00edtico, com a proposta de uma distens\u00e3o lenta e gradual, os militares, na segunda metade da d\u00e9cada de 1970, viam o crescimento da oposi\u00e7\u00e3o e a mobiliza\u00e7\u00e3o de numerosos setores sociais demandando o fim do regime e a volta da democracia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Ditadura e forma\u00e7\u00e3o de uma &#8220;nova&#8221; classe trabalhadora<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A d\u00e9cada de 1970 tamb\u00e9m era um momento de profundas metamorfoses nos mundos do trabalho. Uma classe trabalhadora mais ampla e ainda mais multifacetada e diversificada emergiu no Brasil ao longo daqueles anos. As transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais que vinham das d\u00e9cadas anteriores e as variadas tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e culturais presentes no movimento dos trabalhadores reconfiguraram os processos de forma\u00e7\u00e3o e identidade de classe. As greves no final da d\u00e9cada e sua politiza\u00e7\u00e3o em um contexto de luta contra a ditadura militar deram visibilidade e autorreconhecimento para essa \u201cnova\u201d classe trabalhadora, fen\u00f4meno que atravessou as v\u00e1rias categorias profissionais e regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era, sobretudo, uma classe trabalhadora marcada por intensos processos de urbaniza\u00e7\u00e3o e migra\u00e7\u00e3o. Se em algum momento da d\u00e9cada de 1960 a maior parte da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds passou a morar em cidades, em 1980 j\u00e1 t\u00ednhamos 68% de brasileiros vivendo no mundo urbano. As periferias das capitais e as cidades no seu entorno, as chamadas regi\u00f5es metropolitanas, tornaram-se os lugares \u201ct\u00edpicos\u201d de moradia de milh\u00f5es de trabalhadores. As favelas, fen\u00f4meno ainda mais antigo e tamb\u00e9m estigmatizado pela precariedade, racializa\u00e7\u00e3o e autoconstru\u00e7\u00e3o de moradias, tamb\u00e9m se periferizaram naqueles anos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u201cespolia\u00e7\u00e3o urbana\u201d foi central na vida de milh\u00f5es de trabalhadores, mas as periferias e favelas tamb\u00e9m foram espa\u00e7os fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o de sensibilidades e sociabilidades, trocas culturais e forma\u00e7\u00e3o de identidades nas quais as experi\u00eancias de moradia e de trabalho constitu\u00edam um universo comum de lutas por direitos e reconhecimento. N\u00e3o por acaso, foram nas periferias e favelas que se desenvolveram naqueles mesmos anos uma intensa vida associativa e experi\u00eancias organizativas que renovaram o repert\u00f3rio de a\u00e7\u00e3o coletiva da classe trabalhadora e seu impacto no espa\u00e7o p\u00fablico do pa\u00eds durante a redemocratiza\u00e7\u00e3o e nas d\u00e9cadas seguintes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A classe trabalhadora forjada naqueles anos tamb\u00e9m era marcada pelas migra\u00e7\u00f5es internas. Estima-se que, entre 1950 e 1980, quase 40 milh\u00f5es de brasileiros tenham tido algum tipo de experi\u00eancia migrat\u00f3ria, em particular deixando as regi\u00f5es rurais e dirigindo-se para as cidades. O Nordeste e Minas Gerais s\u00e3o popularmente conhecidas como as regi\u00f5es de onde sa\u00edram a maior parte desses migrantes rurais, em particular para as \u00e1reas metropolitanas das grandes cidades do Sudeste.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tratava-se tamb\u00e9m de um pa\u00eds jovem com uma classe trabalhadora jovem. Embora as taxas de natalidade come\u00e7assem a declinar rapidamente, a idade m\u00e9dia dos brasileiros em 1980 ainda era de cerca de 20 anos. No mesmo ano, por volta de 70% da popula\u00e7\u00e3o com mais de 15 anos n\u00e3o tinha a educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria completa e a entrada no mercado de trabalho era precoce. Era tamb\u00e9m um mundo do trabalho com maior presen\u00e7a feminina no emprego formal. A participa\u00e7\u00e3o das mulheres na Popula\u00e7\u00e3o Economicamente Ativa (PEA) no Brasil saltou de 21% em 1970 para quase 28% em 1980. Premidas pelas dificuldades do or\u00e7amento familiar e por mudan\u00e7as em um mercado de trabalho aquecido, essas jovens trabalhadoras ocupavam fun\u00e7\u00f5es mal remuneradas, com pouca perspectiva de promo\u00e7\u00e3o e socialmente consideradas pouco qualificadas. Eram mais facilmente demitidas e o casamento e a maternidade dificultavam a admiss\u00e3o e a manuten\u00e7\u00e3o nos empregos. Em 1973, o sal\u00e1rio m\u00e9dio feminino era 60% inferior ao masculino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar dessa condi\u00e7\u00e3o subordinada das mulheres, sua presen\u00e7a no mercado de trabalho impactava as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e desafiava as vis\u00f5es tradicionais sobre o lugar delas na sociedade. A crescente emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica feminina teve um papel central na transforma\u00e7\u00e3o dos modelos familiares e na arena p\u00fablica. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender tanto os movimentos de mulheres e a onda feminista do final dos anos 1970 quanto a emerg\u00eancia de movimentos sociais em geral na redemocratiza\u00e7\u00e3o sem compreender o lugar e a a\u00e7\u00e3o dessas mulheres trabalhadoras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A d\u00e9cada de 1970 consolidou a estrutura\u00e7\u00e3o de um mercado de trabalho complexo e diversificado. As pol\u00edticas desenvolvimentistas do regime impulsionaram a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o, o setor de energia e a constru\u00e7\u00e3o civil como os setores que seriam o alicerce da economia naqueles anos. Ocupa\u00e7\u00f5es e profiss\u00f5es nessas \u00e1reas cresceram e passaram a ter um papel particularmente destacado no mercado de trabalho, com destaque para metal\u00fargicos, trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil, trabalhadores do setor de energia e transportes, al\u00e9m da amplia\u00e7\u00e3o do funcionalismo p\u00fablico em geral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A busca por dignidade, respeito e autonomia estava no ar em milhares de locais de trabalho Brasil afora no final dos anos 1970. Ela unia milh\u00f5es de trabalhadores que se sentiam humilhados, oprimidos e explorados. Quando as primeiras f\u00e1bricas e usinas entraram em greve, muitos perceberam que era poss\u00edvel lutar, protestar e reivindicar uma vida diferente. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na segunda metade dos anos 1970, mesmo cerceada pela repress\u00e3o ditatorial, uma onda associativa tomava conta dos bairros da classe trabalhadora no Brasil. Sociedades Amigos de Bairro, Associa\u00e7\u00f5es de Moradores, clubes de m\u00e3es, coletivos de ajuda m\u00fatua, grupos reivindicando sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e transportes p\u00fablicos, entre v\u00e1rias outras organiza\u00e7\u00f5es, compunham um mosaico de associa\u00e7\u00f5es populares que se proliferaram em todo o pa\u00eds. Fragmentadas, dispersas geograficamente e com pr\u00e1ticas de resist\u00eancia cotidianas e mi\u00fadas, essas associa\u00e7\u00f5es foram, paulatinamente, criando mecanismos de autorreconhecimento, constatando experi\u00eancias comuns e construindo uma identidade coletiva. Durante a redemocratiza\u00e7\u00e3o, esse autointitulado \u201cmovimento popular\u201d come\u00e7ou a atuar de forma mais ampla, ocupando o espa\u00e7o p\u00fablico com protestos, manifesta\u00e7\u00f5es e passeatas e articulando-se com lideran\u00e7as das oposi\u00e7\u00f5es no mundo pol\u00edtico, ao mesmo tempo que chamava a aten\u00e7\u00e3o das autoridades, particularmente no n\u00edvel local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os setores progressistas da Igreja Cat\u00f3lica tiveram papel fundamental nesse processo. Presente na vida pol\u00edtica brasileira desde antes do golpe de 1964, a esquerda cat\u00f3lica tornou-se hegem\u00f4nica em diversos setores da Igreja entre o final da d\u00e9cada de 1960 e in\u00edcio dos anos 1970 e foi um ator central tanto na oposi\u00e7\u00e3o ao regime militar quanto na reconfigura\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora na esfera p\u00fablica nos anos da redemocratiza\u00e7\u00e3o. Como um fen\u00f4meno internacional, com particular presen\u00e7a na Am\u00e9rica Latina, a chamada \u201cTeologia da Liberta\u00e7\u00e3o\u201d articulava um conjunto de pr\u00e1ticas e teorias que representariam uma guinada da Igreja \u00e0 esquerda e um compromisso com a emancipa\u00e7\u00e3o social. As comunidades eclesiais de base (CEB\u2019s), ao lado das pastorais tem\u00e1ticas (oper\u00e1ria, da terra, dos ind\u00edgenas, etc) foram os fen\u00f4menos que melhor simbolizaram a a\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica progressista naqueles anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, essa efervesc\u00eancia associativa n\u00e3o deve ser exagerada. Apesar do car\u00e1ter informal da rela\u00e7\u00e3o dos setores populares com os movimentos sociais e das aus\u00eancias de dados sobre as variadas formas de como as pessoas se associam, era uma parcela minorit\u00e1ria da popula\u00e7\u00e3o que efetivamente estava organizada. As antigas hierarquias de domina\u00e7\u00e3o social continuavam a ser muito poderosas e quest\u00f5es como a viol\u00eancia urbana despertavam rea\u00e7\u00f5es bastante conservadoras e autorit\u00e1rias, inclusive nas periferias e favelas\u2014tema que seria cada vez mais explorado pela direita pol\u00edtica nos anos vindouros. De toda forma, era evidente um salto qualitativo na participa\u00e7\u00e3o popular, na politiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e na constru\u00e7\u00e3o de um imagin\u00e1rio coletivo \u201cdo direito a ter direitos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sindicalismo e redemocratiza\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final da d\u00e9cada de 1970, era o sindicalismo o movimento social que melhor catalisava a insatisfa\u00e7\u00e3o e as demandas populares, ao mesmo tempo que articulava uma identidade coletiva e uma linguagem comum. E foram as greves massivas e disseminadas do per\u00edodo o repert\u00f3rio de a\u00e7\u00e3o coletiva que mais deu visibilidade a essa presen\u00e7a dos trabalhadores na arena p\u00fablica e nas lutas pol\u00edticas pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os metal\u00fargicos do ABC paulista foram protagonistas centrais desse movimento. ABC paulista \u00e9 o nome dado a um conjunto de munic\u00edpios industriais no entorno da cidade de S\u00e3o Paulo. Desde o final dos anos 1950, se instalou nessa regi\u00e3o um parque industrial em torno da produ\u00e7\u00e3o automobil\u00edstica que, para muitos, era o s\u00edmbolo da modernidade capitalista brasileira. Foi ali que sucessivas greves nos anos de 1978, 1979 e 1980 impactaram fortemente as lutas sociais e o processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da press\u00e3o patronal e da repress\u00e3o policial, essas paralisa\u00e7\u00f5es foram massivas e entusiasmantes. Em plena ditadura, era impressionante ver milhares e milhares de trabalhadores, simples \u201cpe\u00f5es\u201d, lutando por seus direitos e desafiando os militares e poderosas empresas multinacionais. As imagens das assembleias repletas no Est\u00e1dio de Vila Euclides, comandadas por Lula, um carism\u00e1tico e emergente l\u00edder popular, eram transmitidas para todo o pa\u00eds por jornais e canais de televis\u00e3o rec\u00e9m liberados de v\u00e1rias amarras da censura governamental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas os movimentos de protesto dos trabalhadores estiveram longe de se resumir somente aos metal\u00fargicos do ABC. A paralisa\u00e7\u00e3o do ABC e as imagens de Vila Euclides simultaneamente catalisaram e impulsionaram uma das mais impressionantes ondas grevistas da hist\u00f3ria do Brasil. Al\u00e9m de setores com antiga tradi\u00e7\u00e3o sindical, como os trabalhadores industriais, de transporte e do petr\u00f3leo, greves de trabalhadores rurais, banc\u00e1rios, servidores p\u00fablicos, professores, entre outros, tomaram conta do pa\u00eds, com a participa\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas, apesar da press\u00e3o e das tentativas de controle por parte do governo militar.\u00a0 Somente em 1979, mais de 3 milh\u00f5es de trabalhadores e trabalhadoras paralisaram suas atividades em algum momento nas 246 greves que varreram o pa\u00eds de norte a sul, nas cidades e no campo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da recess\u00e3o econ\u00f4mica e da diminui\u00e7\u00e3o das greves, o come\u00e7o da d\u00e9cada de 1980 foi um momento intenso para o sindicalismo e os movimentos sociais em geral. Foi uma \u00e9poca de reorganiza\u00e7\u00e3o e institucionaliza\u00e7\u00e3o. A emerg\u00eancia p\u00fablica das lutas sociais no final da d\u00e9cada de 1970 havia mobilizado milh\u00f5es de pessoas e milhares de novos militantes haviam surgido. A oposi\u00e7\u00e3o ao regime politizou de forma in\u00e9dita muitos daqueles movimentos sociais e a reorganiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e o ocaso da ditadura abriam espa\u00e7o para novos arranjos e alian\u00e7as pol\u00edticas, que variavam muito local e regionalmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ditadura, em seu crep\u00fasculo, era desafiada por um amplo e diversificado leque de movimentos sociais e pol\u00edticos. A oposi\u00e7\u00e3o ao regime era pluriclassista, mas seus setores mais aguerridos e combativos se identificavam como membros da classe trabalhadora e clamavam n\u00e3o apenas por um Estado de Direito formal, mas por uma \u201cverdadeira democracia\u201d que reconhecesse a dignidade do trabalho e os direitos humanos, que combatesse as desigualdades sociais e que constru\u00edsse um pa\u00eds justo e democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As diferentes estrat\u00e9gias e vozes oposicionistas conflu\u00edram para um amplo movimento entre o final de 1983 e 1984. Vinte anos depois de instalado \u00e0 for\u00e7a, o regime militar enfrentava gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em que milh\u00f5es de brasileiros em todo o pa\u00eds exigiam a volta da democracia. Os movimentos sociais populares e o sindicalismo tiveram papel ativo e fundamental na mobiliza\u00e7\u00e3o das massas durante a campanha das Diretas J\u00e1. Mas, assim como a campanha, foram derrotados. Dividiram-se em diferentes caminhos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que envolveu setores majorit\u00e1rios da oposi\u00e7\u00e3o e correntes do regime ditatorial e que acabou vencedora na transi\u00e7\u00e3o da ditadura para a democracia levando ao poder a chapa Tancredo Neves e Jos\u00e9 Sarney.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O impacto dos trabalhadores organizados e dos movimentos sociais na arena p\u00fablica, no entanto, ainda estava longe de se esgotar. Embora muitos analistas, cientistas pol\u00edticos e historiadores da redemocratiza\u00e7\u00e3o tendam a negligenciar esse papel, refor\u00e7ando uma vis\u00e3o elitista de que a transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica teria sido fundamentalmente conduzida no interior de quart\u00e9is e gabinetes, \u00e9 imposs\u00edvel compreender a hist\u00f3ria do pa\u00eds nos \u00faltimos 40 anos sem compreender o lugar da classe trabalhadora, suas organiza\u00e7\u00f5es, lideran\u00e7as e lutas naqueles anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0<br><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na d\u00e9cada de 1960, luta dos trabalhadores brasileiros por direitos havia atingido seu \u00e1pice. Mas o in\u00e9dito espa\u00e7o pol\u00edtico conquistado por lideran\u00e7as sindicais incomodava e amedrontava as elites. A ditadura militar acabou com isso. 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