{"id":23650,"date":"2025-04-24T14:07:00","date_gmt":"2025-04-24T14:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/nao-categorizado\/jeff-hermanson\/"},"modified":"2025-05-16T16:33:39","modified_gmt":"2025-05-16T16:33:39","slug":"jeff-hermanson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/entrevistas-br\/jeff-hermanson\/","title":{"rendered":"Fronteiras do trabalho"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhuma parte da Am\u00e9rica do Norte simboliza t\u00e3o bem as transforma\u00e7\u00f5es provocadas pela era neoliberal sobre o que se entendia por desenvolvimento econ\u00f4mico quanto a fronteira dos Estados Unidos com o M\u00e9xico. \u00c0 medida que a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica internacional desafiava a hegemonia do nacional-desenvolvimentismo do p\u00f3s-guerra, o M\u00e9xico foi trilhando um caminho semelhante ao de muitas economias de renda m\u00e9dia: apostou cada vez mais no mercado externo\u2014e n\u00e3o no consumo dom\u00e9stico\u2014como motor do crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A limita\u00e7\u00e3o da demanda global a um n\u00famero cada vez menor de pa\u00edses de consumo elevado transformou a manufatura em uma atividade hipercompetitiva. Governos que antes apoiavam instrumentos de barganha favor\u00e1veis \u00e0 classe trabalhadora e promoviam pol\u00edticas redistributivas passaram a reprimir sal\u00e1rios e diminuir impostos para garantir parcelas cada vez mais t\u00edmicas do valor final dos produtos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As maquiladoras mexicanas viraram um arqu\u00e9tipo dessa transforma\u00e7\u00e3o. Mas, paralelamente \u00e0s mudan\u00e7as no modelo produtivo e no com\u00e9rcio internacional, o crescimento da ind\u00fastria manufatureira no M\u00e9xico forjou um dos movimentos sindicais mais combativos da regi\u00e3o. Desde 2019, quando o governo mexicano fortaleceu os mecanismos legais de negocia\u00e7\u00e3o coletiva, o esp\u00edrito de organiza\u00e7\u00e3o de classe se espalhou pelas f\u00e1bricas de todo o continente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jeffrey Hermanson, dirigente sindical que iniciou sua trajet\u00f3ria no fim dos anos 1970 no International Ladies Garment Workers Union (ILGWU), testemunhou esses eventos em primeira m\u00e3o. Ap\u00f3s a realoca\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria t\u00eaxtil estadunidense para o M\u00e9xico na esteira da aprova\u00e7\u00e3o do NAFTA, Hermanson trabalhou no pa\u00eds entre 2000 e 2003 como representante do Centro de Solidariedade da AFL-CIO.<a data-contents=\"A sigla se refere \u00e0 maior central sindical dos EUA e do Canad\u00e1, a (<)em(>)American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations(<)\/em(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">A sigla se refere \u00e0 maior central sindical dos EUA e do Canad\u00e1, a (<)em(>)American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations(<)\/em(>).<\/span> Posteriormente, atuou como diretor de estrat\u00e9gias globais da Workers United-SEIU. Em 2019, voltou para o M\u00e9xico como diretor de organiza\u00e7\u00e3o do Centro de Solidariedade. Aposentou-se do cargo em 2022,<a data-contents=\"Hermanson trabalhou para a ILGWU entre 1977 e 1997. De 1990 at\u00e9 a fus\u00e3o com o ACTWU, em 1995, atuou como diretor de organiza\u00e7\u00e3o. Entre 1997 e 2000, trabalhou com a United Brotherhood of Carpenters e, em 2006, tornou-se diretor de organiza\u00e7\u00e3o e diretor executivo adjunto do Writers Guild of America, West, onde coordenou a greve dos roteiristas de 2007-2008. Em 2003, fundou e dirigiu o departamento de Fortalecimento Sindical Global do Solidarity Center, trabalhando com sindicatos em todo o mundo.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Hermanson trabalhou para a ILGWU entre 1977 e 1997. De 1990 at\u00e9 a fus\u00e3o com o ACTWU, em 1995, atuou como diretor de organiza\u00e7\u00e3o. Entre 1997 e 2000, trabalhou com a United Brotherhood of Carpenters e, em 2006, tornou-se diretor de organiza\u00e7\u00e3o e diretor executivo adjunto do Writers Guild of America, West, onde coordenou a greve dos roteiristas de 2007-2008. Em 2003, fundou e dirigiu o departamento de Fortalecimento Sindical Global do Solidarity Center, trabalhando com sindicatos em todo o mundo.<\/span> mas radicou-se no pa\u00eds. A Phenomenal World conversou com Hermanson sobre a hist\u00f3ria recente da manufatura norte-americana e a nova classe trabalhadora criada pelas ind\u00fastrias de exporta\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uma entrevista com Jeff Hermanson<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Andrew elrod<\/span>: O que \u00e9 uma maquiladora hoje, depois do NAFTA?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Jeff hermanson<\/span>: A palavra <em>maquila<\/em> significa moinho\u2014faz refer\u00eancia a um processo de terceiriza\u00e7\u00e3o de atividades intensivas em m\u00e3o de obra. Nos anos 1980, produtos n\u00e3o acabados passaram a cruzar a fronteira dos EUA para serem montados no M\u00e9xico e, em seguida, exportados de volta para o pa\u00eds de origem. Naquele primeiro momento, esses produtos n\u00e3o podiam ser vendidos no pr\u00f3prio M\u00e9xico. Hoje, manter uma maquiladora basicamente significa operar sob um regime tribut\u00e1rio alternativo. Apesar de o M\u00e9xico ter diversos parques industriais, n\u00e3o \u00e9 preciso estar em nenhum deles para ser uma maquiladora. A maquiladora atrai investimento estrangeiro direto por meio de benef\u00edcios tribut\u00e1rios e porque abre a possibilidade de negocia\u00e7\u00e3o com autoridades locais por acesso a terra e outras utilidades, sendo a \u00e1gua uma das mais cruciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos primeiros anos do NAFTA, in\u00fameras maquiladoras foram instaladas em grandes f\u00e1bricas na fronteira do M\u00e9xico com os EUA. Essas f\u00e1bricas eram altamente capitalizadas e atra\u00edam trabalhadores de todas as partes do pa\u00eds\u2014que acabavam morando em bairros perif\u00e9ricos que eles pr\u00f3prios constru\u00edam. Poucos anos depois da aprova\u00e7\u00e3o do NAFTA, visitei uma zona de livre com\u00e9rcio (ou um parque industrial) no M\u00e9xico e vi que as condi\u00e7\u00f5es de trabalho eram realmente prec\u00e1rias e que os sal\u00e1rios n\u00e3o eram suficientes nem para cobrir custos m\u00ednimos de sobreviv\u00eancia. As casas eram feitas de paletes de madeira. Havia at\u00e9 uma can\u00e7\u00e3o, \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=_FRSqM2uiM8\">Casas de cart\u00f3n<\/a>\u201d, sobre pessoas que viviam em barracos de papel\u00e3o no M\u00e9xico. A energia el\u00e9trica chegava por meio de liga\u00e7\u00f5es improvisadas aos postes e havia fios que se conectavam a diferentes casas espalhados por todo o ch\u00e3o. As ruas eram sujas e, quando chovia, viravam um lama\u00e7al. Assim eram os <em>barrios obreros<\/em> no final da d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 2018, antes do governo do Morena, todo mundo sabia que essas empresas ganhavam os terrenos gratuitamente e ainda tinham benef\u00edcios fiscais\u2014eram isentas de qualquer imposto predial ou territorial pelo prazo de dez anos. Al\u00e9m disso, obtinham condi\u00e7\u00f5es especiais para o uso de \u00e1gua e energia. Com o Morena, as concess\u00f5es \u00e0s maquiladoras foram revistas: ao inv\u00e9s de o governo financiar uma vantagem tribut\u00e1ria injusta para companhias sustentadas por investimento estrangeiro, a taxa\u00e7\u00e3o foi equiparada \u00e0quela paga por empresas. As maquiladoras t\u00eam sido progressivamente instadas a cumprir as mesmas exig\u00eancias regulat\u00f3rias das demais firmas operando em territ\u00f3rio nacional. Mas, mesmo assim, grandes investimentos seguem recebendo tratamento especial. A Nestl\u00e9, por exemplo, acabou de anunciar um investimento de US$400 milh\u00f5es em Chiapas e obter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es privilegiadas para o uso de \u00e1gua nas instala\u00e7\u00f5es. Eu moro em uma comunidade na qual a \u00e1gua \u00e9 um bem escasso. Aqui existe uma maquiladora que faz moletons para a Fanatics e para a Columbia Sportswear e \u00e9 beneficiada por um contrato especial que garante um pre\u00e7o menor para o enorme volume de \u00e1gua que ela usa para tingir e lavar as roupas que produz.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Muito antes de se falar em desindustrializa\u00e7\u00e3o, nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960, o deslocamento de f\u00e1bricas para fugir de leis trabalhistas e demandas sindicais j\u00e1 era um fen\u00f4meno corrente. Como isso evoluiu a partir do surgimento das maquiladoras, do NAFTA e disso que chamamos de neoliberalismo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: Nos anos 1950 e 1960, empres\u00e1rios dos EUA fugiam do nordeste e do centro-oeste para o sul do pa\u00eds e para Porto Rico, onde o movimento sindical era muito menos organizado e os sal\u00e1rios eram bem mais baixos. Eu comecei minha milit\u00e2ncia no <em>International Ladies\u2019 Garment Workers Union <\/em>(ILGWU ou ILG),<em> <\/em>ou seja, na ind\u00fastria de vestu\u00e1rio. Na \u00e9poca, Nova York, Filad\u00e9lfia e Chicago\u2014al\u00e9m de uma ou outra instala\u00e7\u00e3o no Canad\u00e1\u2014eram o n\u00facleo duro da ind\u00fastria estadunidense. Mas, na d\u00e9cada de 1950, toda a produ\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a se deslocar rumo ao sul.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1965, o Congresso aprovou o Item 807, que faz parte da Tabela Tarif\u00e1ria dos EUA.<a data-contents=\"Em 1989, o Congresso aprovou uma legisla\u00e7\u00e3o substituindo a Tabela Tarif\u00e1ria dos EUA pela Tabela Tarif\u00e1ria Harmonizada da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial das Alf\u00e2ndegas\u2014OMA.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Em 1989, o Congresso aprovou uma legisla\u00e7\u00e3o substituindo a Tabela Tarif\u00e1ria dos EUA pela Tabela Tarif\u00e1ria Harmonizada da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial das Alf\u00e2ndegas\u2014OMA.<\/span> Isso permitiu que os fabricantes de vestu\u00e1rio cortassem os tecidos nos EUA, costurassem as pe\u00e7as na Rep\u00fablica Dominicana ou outros lugares do Caribe e trouxessem os produtos finais de volta para os EUA, tudo isso sem pagar impostos. No final dos anos 1980, as zonas de livre com\u00e9rcio da Rep\u00fablica Dominicana empregavam centenas de milhares de trabalhadores na costura de roupas para o mercado estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m como parte do processo de fuga da regi\u00e3o nordeste, meias e roupas \u00edntimas passaram a ser fabricadas no sul dos EUA. Ao longo dos anos 1970 e 1980, a produ\u00e7\u00e3o foi deslocada para Porto Rico. Dali para a Am\u00e9rica Central foi um pulo\u2014a ind\u00fastria de roupas \u00edntimas foi a pioneira dessa nova fase. Maidenform, Fruit of the Loom e Hanes foram as pioneiras, e Honduras e El Salvador viraram o destino da vez. Esse \u00e9 um setor muito intensivo em capital\u2014os processos de tecelagem, corte e costura eram todos agrupados em enormes f\u00e1bricas. As empresas moveram instala\u00e7\u00f5es inteiras e transformaram Honduras em n\u00facleo geogr\u00e1fico da sua produ\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outros segmentos da ind\u00fastria de vestu\u00e1rio impulsionaram um processo semelhante na fronteira sul dos EUA com o M\u00e9xico. Antes do NAFTA, havia um sistema de \u201cplantas g\u00eameas\u201d: de um lado da fronteira ficava uma f\u00e1brica de corte e do outro uma de costura. Os jeans da Calvin Klein, por exemplo, eram cortados por trabalhadores sindicalizados em El Paso, no Texas, costurados em Durango e Coahuila, no M\u00e9xico, e reimportados pelos EUA sob o Item 807. O que o NAFTA fez foi eliminar a necessidade de cortar as pe\u00e7as nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Quando voc\u00ea come\u00e7ou a se organizar com o ILG?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: Comecei em 1977, no in\u00edcio desse movimento de offshoring. Em 1979, organizamos uma greve contra uma empresa de roupas esportivas em Nova York. Um dominicano que trabalhava l\u00e1 me contou, em choque, que as pe\u00e7as cortadas estavam sendo transportadas para a Rep\u00fablica Dominicana para costura. Isso era novidade para ele, mas era s\u00f3 o come\u00e7o de um processo de offshoring que, ao longo dos anos 1980, cresceu aos saltos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O slogan do sindicato era \u201csiga o trabalho\u201d. E n\u00f3s seguimos mesmo: de Nova York at\u00e9 a Pensilv\u00e2nia e al\u00e9m. Mas, quando chegamos no sul, as coisas ficaram mais dif\u00edceis. A divis\u00e3o racial da for\u00e7a de trabalho era um problema em si, e os empregadores instrumentalizavam a segrega\u00e7\u00e3o para obliterar esfor\u00e7os de sindicaliza\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, no Mississ\u00edpi, sindicalizamos a Kelwood, uma grande empresa de propriedade da Sears que empregava milhares de trabalhadores. Em El Paso, no Texas, sindicalizamos a f\u00e1brica da Calvin Klein. Tivemos v\u00e1rias vit\u00f3rias no sul, mas foi muito mais dif\u00edcil do que no nordeste.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1990, a Rep\u00fablica Dominicana aprovou um novo c\u00f3digo trabalhista sob press\u00e3o da <em>American Federation of Labor<\/em> e do <em>Congress of Industrial Organizations<\/em> (AFL-CIO). Os sindicatos dominicanos vieram aos EUA pedir ajuda para organizar os trabalhadores nas zonas de livre com\u00e9rcio. Na \u00e9poca, mais de 100 mil dominicanos eram empregados nessas zonas de livre com\u00e9rcio para produzir vestu\u00e1rio para o mercado dos EUA. Fomos \u00e0 Rep\u00fablica Dominicana, treinamos cerca de vinte dirigentes, ajudamos o sindicato dominicano a organizar trabalhadores em dez ou onze f\u00e1bricas\u2014mais de 10 mil pessoas\u2014e erguemos um sindicato de trabalhadores da ind\u00fastria de vestu\u00e1rio t\u00e3o forte que existe at\u00e9 hoje. Todas essas f\u00e1bricas produziam para marcas dos EUA. A partir do NAFTA, no entanto, praticamente perdemos o controle da ind\u00fastria. Em vez de somente costurar, agora a maquiladora tomava conta de todo o processo produtivo e, naquele momento, ainda n\u00e3o t\u00ednhamos como <em>seguir o trabalho<\/em> at\u00e9 o M\u00e9xico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Voc\u00ea mencionou uma altera\u00e7\u00e3o na tabela tarif\u00e1ria dos EUA que permitiu esse tipo de neg\u00f3cio. Quais foram as mudan\u00e7as legislativas nos outros pa\u00edses?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: Da d\u00e9cada de 1940 \u00e0 d\u00e9cada de 1970, o M\u00e9xico seguiu um modelo de industrializa\u00e7\u00e3o por substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, que priorizava a produ\u00e7\u00e3o local e os produtores nacionais. Muitos deles eram estatais, at\u00e9 mesmo na ind\u00fastria automobil\u00edstica: caminh\u00f5es, \u00f4nibus e equipamentos agr\u00edcolas eram produzidos por empresas p\u00fablicas. Esse modelo come\u00e7ou a se exaurir entre o final da d\u00e9cada de 1970 e o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980. Houve uma crise da d\u00edvida externa e o neoliberalismo se tornou a ideologia dominante no com\u00e9rcio e investimento internacionais\u2014Consenso de Washington, Thatcher e Reagan. Isso exigiu mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o em Honduras, na Am\u00e9rica Central\u2014para onde a ind\u00fastria de roupas \u00edntimas j\u00e1 havia realocado a produ\u00e7\u00e3o\u2014e nos EUA. A <a href=\"https:\/\/ustr-gov.translate.goog\/issue-areas\/trade-development\/preference-programs\/caribbean-basin-initiative-cbi?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt&amp;_x_tr_pto=sge#:~:text=A%20CBI%20visa%20facilitar%20o,para%20a%20maioria%20dos%20produtos.\">Iniciativa da Bacia do Caribe<\/a>, por exemplo, permitiu que essas ind\u00fastrias investissem internacionalmente em resposta \u00e0s press\u00f5es competitivas existentes nos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No M\u00e9xico, isso implicou a venda das empresas estatais, a privatiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o em geral e o fim de todas as barreiras comerciais poss\u00edveis. A maquiladora foi o primeiro passo nesse processo. Inicialmente, um regime comercial muito rigoroso impedia as maquiladoras de competir com a ind\u00fastria local. Mas quando essas restri\u00e7\u00f5es foram retiradas, muitas empresas nacionais foram obrigadas a fechar as portas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria muda de um setor industrial para outro. A ind\u00fastria automobil\u00edstica, por exemplo, tem uma longa trajet\u00f3ria no M\u00e9xico. A Ford opera no pa\u00eds h\u00e1 cem anos e desenvolveu um mercado interno para seus produtos. Nos setores t\u00eaxtil e de vestu\u00e1rio ainda existem empresas nacionais que produzem exclusivamente para o mercado mexicano. At\u00e9 na siderurgia e na ind\u00fastria pesada h\u00e1 uma parte do mercado que produz para o consumo dom\u00e9stico. Devido ao hist\u00f3rico modelo econ\u00f4mico nacionalista do M\u00e9xico, esse afrouxamento das regras de importa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o foi bastante criticado. Ainda assim, os cr\u00edticos constitu\u00edam uma minoria e o balan\u00e7o de for\u00e7as era tal que as regulamenta\u00e7\u00f5es se tornaram cada vez mais brandas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Quando voc\u00ea foi ao M\u00e9xico pela primeira vez?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: Fui ao M\u00e9xico primeira vez em 1994, quando o NAFTA foi aprovado. Antes do NAFTA, as ind\u00fastrias t\u00eaxtil e de vestu\u00e1rio nacional eram muito fortes no pa\u00eds. Os tecidos eram produzidos em f\u00e1bricas modernas de grande porte e havia um acordo trabalhista vigente para essas ind\u00fastrias em todo o territ\u00f3rio nacional. Era um setor sindicalizado e pr\u00f3spero, e os acordos de negocia\u00e7\u00e3o coletiva eram razoavelmente bons.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isso foi solapado pela concorr\u00eancia com as roupas feitas em maquiladoras. E hoje, mais ainda, a ind\u00fastria mexicana de vestu\u00e1rio est\u00e1 sendo solapada pela concorr\u00eancia com importa\u00e7\u00f5es da China. A ind\u00fastria nacional foi dizimada e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho est\u00e3o cada vez piores.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"807\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf1-807x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-23652\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf1-807x1024.png 807w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf1-236x300.png 236w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf1-768x975.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf1.png 1041w\" sizes=\"auto, (max-width: 807px) 100vw, 807px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Como \u00e9 a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista no M\u00e9xico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o trabalhista? Nos Estados Unidos, por exemplo, os sindicatos do setor privado precisam ser certificados pelo <em>National Labor Relations Board<\/em> (NLRB), uma ag\u00eancia federal, para ter prote\u00e7\u00e3o legal. Os trabalhadores t\u00eam direito a organiza\u00e7\u00e3o sem um sindicato certificado, mas o exerc\u00edcio desse direito tamb\u00e9m \u00e9 tutelado pelo NLRB. No Brasil, havia uma longa tradi\u00e7\u00e3o de jurisdi\u00e7\u00f5es sindicais legalmente previstas e de representantes financiados por meio de um imposto trabalhista especial, uma esp\u00e9cie de \u201cdesconto sindical\u201d feito pelo Estado. Como \u00e9 o regime trabalhista mexicano?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: De meados da d\u00e9cada de 1930 at\u00e9 a d\u00e9cada de 1990, o M\u00e9xico tinha um regime\u00a0 \u201ccorporativista\u201d de rela\u00e7\u00f5es trabalhistas: o governo apoiava a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores em grandes sindicatos industriais nacionais e havia uma confedera\u00e7\u00e3o desses sindicatos\u2014que se tornou um pilar de apoio pol\u00edtico ao <em>Partido Revolucionario Institucional <\/em>(PRI). A <em>Confederaci\u00f3n de Trabajadores de M\u00e9xico <\/em>(CTM) foi constitu\u00edda durante esse per\u00edodo, no final da d\u00e9cada de 1930\u2014de forma semelhante ao que aconteceu nos Estados Unidos na \u00e9poca da Lei Wagner e do crescimento do <em>Congress of Industrial Organizations<\/em> (o CIO, metade da AFL-CIO, antes da fus\u00e3o das duas federa\u00e7\u00f5es)\u2014, quando milh\u00f5es de trabalhadores se organizaram sob uma legisla\u00e7\u00e3o trabalhista bastante favor\u00e1vel.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os sindicatos da CTM abrangiam principalmente trabalhadores de setores formados por empresas estatais ou semiestatais, como as ind\u00fastrias de energia el\u00e9trica, petrol\u00edfera (estatizada em 1935), de telefonia, siderurgia e minera\u00e7\u00e3o\u2014em resumo, todas as grandes ind\u00fastrias nacionais. Esses sindicatos, por sua vez, apoiavam o partido pol\u00edtico, obtendo privil\u00e9gios para o segmento organizado da for\u00e7a de trabalho industrial. Essa abordagem que incorpora os sindicatos \u00e0 estrutura pol\u00edtica do Estado, produzindo \u201csindicatos oficiais\u201d, \u00e9 chamada de corporativismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Parece bastante com o caso dos EUA e de partidos pol\u00edticos de outros pa\u00edses alinhados ao trabalhismo em meados do s\u00e9culo XX\u2014uma esp\u00e9cie de acordo pol\u00edtico impl\u00edcito ou expl\u00edcito de que o governo apoia os grandes sindicatos industriais e, em troca, os trabalhadores sindicalizados apoiam o governo. Essa \u00e9, em grande medida, a hist\u00f3ria de Franklin Roosevelt com o CIO. Por qual motivo \u00e9 importante distinguir o \u201ccorporativismo\u201d do regime estadunidense?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: A grande diferen\u00e7a \u00e9 que, nos EUA, o CIO organizava empresas privadas, ind\u00fastrias de propriedade privada. No M\u00e9xico, muitas ind\u00fastrias eram controladas pelo Estado, de propriedade do Estado ou operadas por ele\u2014petr\u00f3leo, eletricidade e telefonia\u2014, e seus trabalhadores eram quadros do setor p\u00fablico\u2014a exemplo dos professores, que at\u00e9 hoje representam o maior sindicato do M\u00e9xico. Nos EUA, a rela\u00e7\u00e3o com a estrutura pol\u00edtica e o Estado n\u00e3o era a mesma; os sindicatos n\u00e3o eram incorporados, n\u00e3o se tornavam \u201csindicatos oficiais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro ponto importante \u00e9 que os ativistas que lideraram a forma\u00e7\u00e3o desses sindicatos eram comunistas, anarquistas e socialistas. Mas o governo n\u00e3o era um governo socialista, embora tenha nacionalizado ind\u00fastrias. Consequentemente, havia um controle pol\u00edtico muito r\u00edgido sobre a organiza\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias e dos sindicatos. Era exigida uma certifica\u00e7\u00e3o legal para que os sindicatos operassem e as disputas eram resolvidas por Juntas de Arbitragem e Concilia\u00e7\u00e3o Trabalhistas de estrutura tripartite: compostas por representantes do governo, do empregador e dos sindicatos. A condi\u00e7\u00e3o para ser membro do sindicato era ser membro do PRI. Em tempos de elei\u00e7\u00f5es, o sindicato organizava \u00f4nibus para levar os trabalhadores \u00e0s urnas ou a manifesta\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis aos candidatos do partido. Era um movimento trabalhista corporativista muito controlado, realmente incorporado \u00e0 estrutura pol\u00edtica. N\u00e3o houve nada parecido com isso nos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Exceto durante a d\u00e9cada de 1930, n\u00e3o? O bord\u00e3o \u201cFranklin Roosevelt quer que voc\u00ea se sindicalize\u201d foi um fator importante na elei\u00e7\u00e3o de 1936. E essa rela\u00e7\u00e3o se intensificou durante a Segunda Guerra Mundial, nas elei\u00e7\u00f5es de 1940 e 1944.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: O capitalismo de guerra nos EUA se aproximou, de fato, da estrutura corporativista. Havia o Conselho de Trabalho de Guerra e \u00f3rg\u00e3os setoriais respons\u00e1veis pela fixa\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios. H\u00e1 semelhan\u00e7as entre a abordagem do governo C\u00e1rdenas no M\u00e9xico e a do governo Roosevelt nos Estados Unidos. O Partido Democrata quis controlar o movimento trabalhista. De in\u00edcio, n\u00e3o foi capaz. Eles conseguiram que David Dubinsky e John L. Lewis fossem \u00e0 Casa Branca, mas n\u00e3o lograram controlar John L. Lewis, por exemplo: \u201cn\u00e3o se pode minerar carv\u00e3o com baionetas\u201d, dizia ele. Mas, com o in\u00edcio da Guerra Fria, o governo e os empregadores dos EUA recorreram ao anticomunismo para aprovar a Lei Taft-Hartley, que enfraqueceu o movimento trabalhista. Em vez de controlar a m\u00e3o de obra por meio da incorpora\u00e7\u00e3o \u00e0 estrutura pol\u00edtica, os EUA optaram por faz\u00ea-lo enfraquecendo os trabalhadores e burocratizando a organiza\u00e7\u00e3o trabalhista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No per\u00edodo do \u201cMilagre Mexicano\u201d (1940-1970), o M\u00e9xico assistiu ao crescimento de um setor organizado, restrito e privilegiado de trabalhadores organizados nos sindicatos corporativistas: eles estavam se tornando trabalhadores de classe m\u00e9dia. Mas eles nunca chegaram a representar mais do que uma pequena porcentagem da for\u00e7a de trabalho total, que inclu\u00eda milh\u00f5es de pobres na zona rural. Essa posi\u00e7\u00e3o privilegiada dos trabalhadores sindicalizados come\u00e7ou a se desintegrar por algumas raz\u00f5es. Na d\u00e9cada de 1960, houve v\u00e1rias rebeli\u00f5es de trabalhadores contra o controle r\u00edgido dos sindicatos, a maioria das quais foi reprimida pelos pr\u00f3prios l\u00edderes sindicais com a ajuda do governo do PRI. Em outubro de 1968, agindo sob a dire\u00e7\u00e3o do presidente Gustavo D\u00edaz Ordaz, militares massacraram centenas de estudantes que protestavam na Cidade do M\u00e9xico. Houve revoltas camponesas no sul e em \u00e1reas urbanas no norte, onde as pessoas come\u00e7aram a formar grupos guerrilheiros. Uma revolta de trabalhadores dissidentes na f\u00e1brica da Ford em Cuautitl\u00e1n, no cintur\u00e3o industrial ao redor da Cidade do M\u00e9xico, foi violentamente reprimida por 300 capangas enviados pelo CTM em conluio com a ger\u00eancia da empresa. A conjuntura internacional\u2014a Fran\u00e7a de 1968, os movimentos por direitos civis e antiguerra nos EUA\u2014contribuiu para a paranoia do governo. Havia uma sensa\u00e7\u00e3o de que uma revolu\u00e7\u00e3o estava no horizonte, e o governo mexicano tratou isso como uma amea\u00e7a real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro fator foi o aumento da corrup\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis do governo, do partido e da lideran\u00e7a sindical. Carlos Hank Gonz\u00e1lez, um dos homens p\u00fablicos mais famosos do M\u00e9xico, costumava dizer que \u201cum pol\u00edtico pobre \u00e9 um pobre pol\u00edtico\u201d. A corrup\u00e7\u00e3o era franca. \u201cQuem respira, aspira\u201d era outro ditado corrente. A coisa de fato se tornou descarada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa combina\u00e7\u00e3o de corrup\u00e7\u00e3o aberta e crescente com repress\u00e3o coincidiu com o decl\u00ednio do milagre mexicano no final dos anos de 1960. A lideran\u00e7a sindical n\u00e3o tomou medidas contra isso, mas aderiu \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Passou a viver de suas rela\u00e7\u00f5es com o empregador e o governo, e n\u00e3o de suas rela\u00e7\u00f5es com os trabalhadores. Mas havia tamb\u00e9m, claro, alguns sindicatos de esquerda independentes, formados na d\u00e9cada de 1970, que se organizavam no cintur\u00e3o industrial em torno da Cidade do M\u00e9xico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: O NAFTA foi assinado em 1993. Qual foi a motiva\u00e7\u00e3o para isso, dado o n\u00edvel de integra\u00e7\u00e3o que j\u00e1 existia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha sensa\u00e7\u00e3o sempre foi a de que, nos EUA, o apoio dos empregadores ao NAFTA foi uma estrat\u00e9gia para evitar os sindicatos. Depois que a greve da PATCO foi esmagada por Reagan em 1980, o movimento trabalhista seguiu sob ataque dos empregadores que, em meados da d\u00e9cada de 1990, decidiram usar o M\u00e9xico como reserva de baixos sal\u00e1rios. No ver\u00e3o de 1996, meu sindicato, o UNITE,<a data-contents=\"Em 1995, as conven\u00e7\u00f5es de delegados do(<)em(>) International Ladies Garment Workers Union(<)\/em(>) (ILGWU) e do (<)em(>)Amalgamated Clothing and Textile Workers Union(<)\/em(>) (ACTWU) votaram pela fus\u00e3o de ambos, formando o (<)em(>)Union of Needletrades, Industrial, and Textile Employees(<)\/em(>) (UNITE). Por ocasi\u00e3o da fus\u00e3o, o novo sindicato passou a contar com 250 mil membros.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Em 1995, as conven\u00e7\u00f5es de delegados do(<)em(>) International Ladies Garment Workers Union(<)\/em(>) (ILGWU) e do (<)em(>)Amalgamated Clothing and Textile Workers Union(<)\/em(>) (ACTWU) votaram pela fus\u00e3o de ambos, formando o (<)em(>)Union of Needletrades, Industrial, and Textile Employees(<)\/em(>) (UNITE). Por ocasi\u00e3o da fus\u00e3o, o novo sindicato passou a contar com 250 mil membros.<\/span> lan\u00e7ou uma grande greve contra a Guess Jeans em Los Angeles, que empregava 3 mil trabalhadores em dezenas de pequenas f\u00e1bricas clandestinas.\u00a0 A greve interrompeu a produ\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o de Los Angeles, fazendo com que a Guess decidisse transferir sua produ\u00e7\u00e3o para o M\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apresentamos reclama\u00e7\u00f5es de pr\u00e1ticas trabalhistas desleais ao NLRB, que inicialmente concordou com o nosso pleito, reconheceu a ilegalidade dos fatos denunciados e indicou que prestaria queixa.<a data-contents=\"Em janeiro de 1997, Maurice Marciano, presidente e diretor executivo da Guess, declarou ao (<)a href='https:\/\/www.wsj.com\/articles\/SB85320163935160000'(>)(<)em(>)Wall Street Journal(<)\/em(>)(<)\/a(>) que as investiga\u00e7\u00f5es do sindicato e do NLRB, em resposta \u00e0s suas acusa\u00e7\u00f5es, foram \u201cum fator\u201d na decis\u00e3o da empresa de transferir seus servi\u00e7os de costura dos EUA para o M\u00e9xico. Em abril de 1997, o Gabinete do Conselheiro Geral do NLRB emitiu um memorando de recomenda\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0 Regi\u00e3o 21, que inclui Los Angeles. Cf. Justin McBride, Guess Again: Revisiting the Last Major US Apparel Union Campaign at 25. (<)em(>)Journal of Labor and Society(<)\/em(>), maio de 2021.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Em janeiro de 1997, Maurice Marciano, presidente e diretor executivo da Guess, declarou ao (<)a href='https:\/\/www.wsj.com\/articles\/SB85320163935160000'(>)(<)em(>)Wall Street Journal(<)\/em(>)(<)\/a(>) que as investiga\u00e7\u00f5es do sindicato e do NLRB, em resposta \u00e0s suas acusa\u00e7\u00f5es, foram \u201cum fator\u201d na decis\u00e3o da empresa de transferir seus servi\u00e7os de costura dos EUA para o M\u00e9xico. Em abril de 1997, o Gabinete do Conselheiro Geral do NLRB emitiu um memorando de recomenda\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0 Regi\u00e3o 21, que inclui Los Angeles. Cf. Justin McBride, Guess Again: Revisiting the Last Major US Apparel Union Campaign at 25. (<)em(>)Journal of Labor and Society(<)\/em(>), maio de 2021.<\/span><sup> <\/sup>Mas a queixa n\u00e3o foi apresentada e o NLRB e acabou descobrindo que a Guess vinha planejando deslocar as opera\u00e7\u00f5es para o M\u00e9xico h\u00e1 tempos, n\u00e3o sendo, portanto, uma resposta \u00e0 greve.<a data-contents=\"Em novembro de 1998, o Gabinete do Conselheiro Geral do NLRB indeferiu definitivamente a acusa\u00e7\u00e3o do UNITE, alegando que a decis\u00e3o de 1996 de transferir a costura para o M\u00e9xico se baseou em raz\u00f5es econ\u00f4micas e n\u00e3o tinha rela\u00e7\u00e3o com a organiza\u00e7\u00e3o sindical. A decis\u00e3o foi uma surpresa para o setor: o (<)em(>)Women&#8217;s Wear Daily(<)\/em(>) intitulou erroneamente sua mat\u00e9ria \u201cGuess: NLRB decide que mudan\u00e7a para o M\u00e9xico \u00e9 ilegal\u201d, sendo for\u00e7ado a publicar uma corre\u00e7\u00e3o tr\u00eas dias depois. O advogado da Guess, Dan Petrocelli, que alegara que as f\u00e1bricas clandestinas de Los Angeles eram organizadas pelo sindicato, disse ao (<)em(>)Women&#8217;s Wear Daily(<)\/em(>) que a decis\u00e3o \u201cconfirma que as empresas t\u00eam o direito de tirar o m\u00e1ximo proveito das pol\u00edticas e leis implementadas no NAFTA. S\u00f3 porque os sindicatos n\u00e3o gostam de algo n\u00e3o significa que seja ilegal\u201d.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Em novembro de 1998, o Gabinete do Conselheiro Geral do NLRB indeferiu definitivamente a acusa\u00e7\u00e3o do UNITE, alegando que a decis\u00e3o de 1996 de transferir a costura para o M\u00e9xico se baseou em raz\u00f5es econ\u00f4micas e n\u00e3o tinha rela\u00e7\u00e3o com a organiza\u00e7\u00e3o sindical. A decis\u00e3o foi uma surpresa para o setor: o (<)em(>)Women&#8217;s Wear Daily(<)\/em(>) intitulou erroneamente sua mat\u00e9ria \u201cGuess: NLRB decide que mudan\u00e7a para o M\u00e9xico \u00e9 ilegal\u201d, sendo for\u00e7ado a publicar uma corre\u00e7\u00e3o tr\u00eas dias depois. O advogado da Guess, Dan Petrocelli, que alegara que as f\u00e1bricas clandestinas de Los Angeles eram organizadas pelo sindicato, disse ao (<)em(>)Women&#8217;s Wear Daily(<)\/em(>) que a decis\u00e3o \u201cconfirma que as empresas t\u00eam o direito de tirar o m\u00e1ximo proveito das pol\u00edticas e leis implementadas no NAFTA. S\u00f3 porque os sindicatos n\u00e3o gostam de algo n\u00e3o significa que seja ilegal\u201d.<\/span> Embora possa ter sido verdade que a Guess tenha considerado esse movimento desde sempre, eu realmente acredito que a descoberta desses planos pelo NLRB foi uma decis\u00e3o pol\u00edtica do governo Clinton. O NAFTA tinha apenas tr\u00eas anos: penalizar uma empresa por se mudar para o M\u00e9xico para escapar do sindicato poderia restringir a implementa\u00e7\u00e3o plena do acordo. A Guess Jeans foi uma grande doadora da campanha de Clinton. Perdemos a greve: os empregos foram para f\u00e1bricas clandestinas mexicanas e a Guess Jeans seguiu prosperando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A complexidade da cadeia de suprimentos pr\u00e9-NAFTA, pelo menos na ind\u00fastria de vestu\u00e1rio, tamb\u00e9m foi um fator motivador para as empresas apoiarem o acordo comercial. A natureza da ind\u00fastria estava mudando. Os \u201cprodutores de pacotes completos\u201d estavam come\u00e7ando a assumir o controle de todo o processo de produ\u00e7\u00e3o. At\u00e9 mesmo partes do processo de design estavam sendo realizadas por grandes empresas contratadas na \u00c1sia e na Am\u00e9rica Latina. Isso ocorreu no M\u00e9xico principalmente na d\u00e9cada de 1990. Corpora\u00e7\u00f5es como a Calvin Klein viraram empresas de design e marketing que n\u00e3o empregavam nenhum funcion\u00e1rio na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse processo continua at\u00e9 hoje, facilitado pelo NAFTA. Calvin Klein e Tommy Hilfiger s\u00e3o apenas nomes, n\u00e3o t\u00eam funcion\u00e1rios na produ\u00e7\u00e3o. Os selos s\u00e3o de propriedade da PVH, um conglomerado que det\u00e9m as marcas e terceiriza a produ\u00e7\u00e3o por todo o mundo, aproveitando a m\u00e3o de obra mais barata dispon\u00edvel e evitando qualquer amea\u00e7a de sindicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"817\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf2-817x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-23655\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf2-817x1024.png 817w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf2-239x300.png 239w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf2-768x962.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf2.png 1056w\" sizes=\"auto, (max-width: 817px) 100vw, 817px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Como essa integra\u00e7\u00e3o regional moldou a organiza\u00e7\u00e3o trabalhista no M\u00e9xico antes e depois do NAFTA?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: No oeste, em Tijuana e Mexicali, havia muitos pelegos, sindicatos corruptos, controlados pela m\u00e1fia, que firmavam acordos com empres\u00e1rios antes mesmo de eles abrirem seus neg\u00f3cios. Em Juarez, do outro lado de El Paso, n\u00e3o havia nem sindicato nem qualquer tipo de prote\u00e7\u00e3o institucional: a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores podia lhes custar a vida. Durante o boom das maquiladoras nos anos 1990 e 2000, centenas de jovens trabalhadoras desapareceram e foram assassinadas por gangues criminosas\u2014o clima de viol\u00eancia e inseguran\u00e7a era t\u00e3o grande que garantia o sucesso da estrat\u00e9gia de evas\u00e3o sindical dos empregadores das maquiladoras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No extremo leste da fronteira, em Matamoros, no estado de Tamaulipas, houve o caso de um sindicato que nasceu da organiza\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria f\u00e1brica. Era um membro tradicional da CTM, o <em>Sindicato de Jornaleros y Obreros Industriales y de La Industria Maquiladora<\/em> (SJOIIM), que representava cerca de 150 a 200 f\u00e1bricas na cidade. Mas o corporativismo da CTM n\u00e3o arrefeceu a determina\u00e7\u00e3o de sua principal lideran\u00e7a, um homem chamado Agapito Gonz\u00e1lez, de conseguir um bom acordo com os empregadores. Ao longo dos anos 1980, os contratos negociados por ele renderam sal\u00e1rios significativamente mais altos do que os registrados em outros polos de maquiladoras. Esses contratos tamb\u00e9m vinculavam o valor dos sal\u00e1rios ao sal\u00e1rio m\u00ednimo, garantindo que qualquer eleva\u00e7\u00e3o no m\u00ednimo incidisse tamb\u00e9m sobre a remunera\u00e7\u00e3o dos membros do SJOIIM. Esse foi um fen\u00f4meno absolutamente excepcional no setor das maquiladoras.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Gonz\u00e1lez faleceu, seu sucessor, Juan Villafuerte, enfrentou a rebeldia de trabalhadores que o consideravam menos comprometido com a luta por seus interesses. Em janeiro de 2019, o novo governo do Morena duplicou o valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo federal. Segundo o texto dos contratos negociados por Gonz\u00e1lez, isso implicaria dobrar os sal\u00e1rios dos trabalhadores de Matamoros (que j\u00e1 ganhavam acima do m\u00ednimo). Mas a nova lideran\u00e7a se recusou a exigir o cumprimento dessa cl\u00e1usula. Isso levou a uma greve clandestina de 45 mil trabalhadores em 48 maquiladoras da cidade\u2014foi um grande evento que aconteceu logo ap\u00f3s o Morena ter assumido o poder.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como era de se esperar, os empregadores imediatamente lograram que o governador solicitasse interven\u00e7\u00e3o federal para suspender a greve. Mas o Secret\u00e1rio Adjunto do Trabalho, Alfredo Dominguez Maruffo, disse aos empregadores que o governo n\u00e3o interviria e os aconselhou a negociar. Autodenominando-se \u201cMovimento 20\/32\u201d, os\u00a0 trabalhadores apresentaram reivindica\u00e7\u00f5es por um aumento salarial imediato de 20%, al\u00e9m de um b\u00f4nus \u00fanico de US$1.600 (MXN$32.000), e pressionaram o SJOIIM a negociar nesses termos. Ap\u00f3s semanas de negocia\u00e7\u00f5es individuais nas f\u00e1bricas, as reivindica\u00e7\u00f5es foram atendidas. Essa luta ensejou a forma\u00e7\u00e3o de um novo sindicato independente, o <em>Sindicato Independiente de Trabajadores de Industrias y Servicios, Movimiento 20\/32<\/em> (SNITIS), que passou a organizar v\u00e1rias grandes f\u00e1bricas, incluindo a Panasonic Automotive em Reynosa e a Tridonex em Matamoros.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: O que significa ser um sindicato independente no M\u00e9xico? Nos Estados Unidos, mesmo os sindicatos n\u00e3o filiados \u00e0 AFL-CIO t\u00eam direito de nomear sua diretoria e representar seus interesses na justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: No M\u00e9xico, um sindicato independente \u00e9 um sindicato organizado fora da rela\u00e7\u00e3o corporativista dos \u201csindicatos oficiais\u201d (CTM, CROC, CROM, SNTE e outros<a data-contents=\"A (<)em(>)Confederaci\u00f3n Regional Obrera Mexicana (<)\/em(>) (CROM) \u00e9 a confedera\u00e7\u00e3o mais antiga, mas ainda existente, da qual se separou a (<)em(>)Confederaci\u00f3n de Trabajadores de M\u00e9xico (<)\/em(>)(CTM) durante a d\u00e9cada de 1930. A (<)em(>)Confederaci\u00f3n Revolucionaria de Obreros y Campesinos(<)\/em(>) (CROC) foi fundada na d\u00e9cada de 1950. O (<)em(>)Sindicato Nacional de Trabajadores de la Educaci\u00f3n (<)\/em(>) (SNTE), constitu\u00eddo em 1949, representa os professores e era aliado ao PRI at\u00e9 2005, quando criou um partido pol\u00edtico pr\u00f3prio, o (<)em(>)Partido Nueva Alianza(<)\/em(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">A (<)em(>)Confederaci\u00f3n Regional Obrera Mexicana (<)\/em(>) (CROM) \u00e9 a confedera\u00e7\u00e3o mais antiga, mas ainda existente, da qual se separou a (<)em(>)Confederaci\u00f3n de Trabajadores de M\u00e9xico (<)\/em(>)(CTM) durante a d\u00e9cada de 1930. A (<)em(>)Confederaci\u00f3n Revolucionaria de Obreros y Campesinos(<)\/em(>) (CROC) foi fundada na d\u00e9cada de 1950. O (<)em(>)Sindicato Nacional de Trabajadores de la Educaci\u00f3n (<)\/em(>) (SNTE), constitu\u00eddo em 1949, representa os professores e era aliado ao PRI at\u00e9 2005, quando criou um partido pol\u00edtico pr\u00f3prio, o (<)em(>)Partido Nueva Alianza(<)\/em(>).<\/span>) com a estrutura pol\u00edtica do PRI. Como diz\u00edamos, nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, agentes com um pensamento pol\u00edtico radical come\u00e7aram a formar sindicatos independentes por meio de a\u00e7\u00e3o direta, sendo minimamente bem-sucedidos. Mas os sindicatos filiados \u00e0s confedera\u00e7\u00f5es e aos partidos pol\u00edticos existentes, primeiro ao PRI e depois ao <em>Partido Acci\u00f3n Nacional<\/em> (PAN), usaram sua posi\u00e7\u00e3o nas juntas trabalhistas para recusar o registro de sindicatos n\u00e3o filiados \u00e0 CTM ou a outras centrais corporativistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maioria dos sindicatos independentes bem-sucedidos est\u00e1 no setor privado. Dois dos mais antigos s\u00e3o o Sindicato da Volkswagen em Puebla e o Sindicato da Nissan em Morelos. Em ambos os casos, seus representantes negociam no n\u00edvel da empresa. Para obter reconhecimento, tiveram que expulsar um sindicato de trabalhadores da ind\u00fastria automobil\u00edstica filiado \u00e0 CTM. Como obtiveram sucesso? Por meio da a\u00e7\u00e3o direta e das greves clandestinas\u2014atividades ilegais que o Estado at\u00e9 tentou reprimir, mas n\u00e3o conseguiu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Eles fizeram negocia\u00e7\u00f5es coletivas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: Sim. Quando percebeu que n\u00e3o poderia operar sem reconhecer o sindicato independente, a Volkswagen concordou em fazer um acordo. Isso aconteceu em v\u00e1rios setores, inclusive em algumas empresas estatais. Os trabalhadores da Dina, uma fabricante de caminh\u00f5es de Hidalgo, tamb\u00e9m constitu\u00edram um sindicato independente por meio de a\u00e7\u00e3o direta. Era a \u00fanica maneira, tanto porque n\u00e3o era poss\u00edvel obter reconhecimento por meio do processo legal quanto porque era necess\u00e1rio que o empregador ficasse desesperado o suficiente para pedir ao governo que autorizasse esse reconhecimento.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa situa\u00e7\u00e3o continuou durante a d\u00e9cada de 1990. Cheguei no M\u00e9xico em 2000 como representante do Centro de Solidariedade da AFL-CIO. Logo come\u00e7amos a apoiar\u00a0 um grupo de cerca de mil trabalhadores em uma f\u00e1brica terceirizada da Nike aqui em Puebla. Antes mesmo da inaugura\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica, a corpora\u00e7\u00e3o coreana que det\u00e9m a empresa havia reconhecido a legitimidade de um desses sindicatos corporativistas. Os trabalhadores estavam indignados por serem for\u00e7ados a pagar taxas para a filial estadual da CROC, um sindicato que nunca fez nada por eles e com o qual sequer tinham contato. Ent\u00e3o, formaram um sindicato independente e fizeram uma greve de nove meses nessa maquiladora. Como era uma f\u00e1brica da Nike que produzia sob licen\u00e7a da Universidade de Wisconsin e outras institui\u00e7\u00f5es de ensino, houve press\u00e3o dos EUA e de grupos do movimento estudantil (como o <em>United Students Against Sweatshops<\/em>) para que as universidades cancelassem a licen\u00e7a da Nike. A Nike me ligou pedindo ajuda para resolver o conflito.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Quantos meses depois do in\u00edcio da greve isso aconteceu?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: Quase no in\u00edcio da greve. A filial estadual da CROC conseguiu que o governo estadual enviasse a pol\u00edcia de choque para espancar os trabalhadores que estavam acampados no p\u00e1tio da f\u00e1brica, o que fez com que todos eles fossem para casa ao inv\u00e9s de voltar a trabalhar. As pessoas ficaram em casa: foi assim que a greve se desenrolou. Tanto a Nike quanto a maquiladora estavam desesperadas e ambas me viam como algu\u00e9m que poderia ajud\u00e1-las a sobreviver ali. De fato, eu ajudei a encontrar uma solu\u00e7\u00e3o. Mas a Nike teve que pagar US$50.000 de multa para o sindicato oficial e, em seguida, a maquiladora teve que pagar uma multa ao governo. E, claro, o sindicato e o governo estavam associados: quando a empresa coreana quis investir em Puebla, quem a apresentou ao CROC foi o pr\u00f3prio governador do estado.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00f3pez Obrador estava certo quando chamou isso de \u201cm\u00e1fia do poder\u201d. Entre o fim da d\u00e9cada de 1960 at\u00e9 Pe\u00f1a Neto, \u00faltimo presidente antes de L\u00f3pez Obrador e alvo de ampla desaprova\u00e7\u00e3o popular, a rela\u00e7\u00e3o corrupta entre governo e sindicatos oficiais s\u00f3 piorou. Pe\u00f1a Neto era descaradamente corrupto e, mesmo assim, a grande m\u00eddia dispensava a ele um tratamento de grande estadista. De 2012 at\u00e9 2018, as pessoas ficaram t\u00e3o indignadas que elegeram um radical, um rebelde: L\u00f3pez Obrador, cuja principal plataforma pol\u00edtica era acabar com a corrup\u00e7\u00e3o e usar os fundos liberados para ajudar os pobres. Seu slogan era \u201cpara o bem de todos, primeiro dos pobres\u201d: o exato oposto da ideologia que o precedeu. E seu projeto tem sido extraordinariamente bem-sucedido, tanto \u00e9 que sua sucessora, Claudia Sheinbaum, agora tem <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/analysis\/the-fourth-transformation\/\">85%<\/a> de aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Houve esfor\u00e7os no sentido de federar ou formar uma federa\u00e7\u00e3o rival para levar as parcelas militantes do movimento trabalhista a um n\u00edvel mais amplo de organiza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: Houve tentativas, mas o movimento sindical independente do M\u00e9xico est\u00e1 ideologicamente comprometido com os sindicatos de empresa, com o modelo de negocia\u00e7\u00e3o no n\u00edvel da empresa. L\u00edderes e membros de sindicatos independentes nutrem uma desconfian\u00e7a profunda de organiza\u00e7\u00f5es maiores devido \u00e0 experi\u00eancia com federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es corporativistas. H\u00e1 uma federa\u00e7\u00e3o de trabalhadores da ind\u00fastria de pe\u00e7as automotivas, aeroespaciais e pneus \u00e0 qual se filiaram dez sindicatos, a <em>Federaci\u00f3n de Sindicatos Independientes de las Industrias Automotriz, Autopartes, Aeroespacial y del Neum\u00e1tico<\/em> (FESIIAAAN). Mas ela n\u00e3o est\u00e1 legalmente registrada como federa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem funcion\u00e1rios, n\u00e3o recolhe contribui\u00e7\u00f5es ou taxas de filia\u00e7\u00e3o e alterna anualmente o presidente entre os l\u00edderes dos sindicatos independentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Os sindicatos independentes j\u00e1 sofreram reveses por causa dessa desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s federa\u00e7\u00f5es? Historicamente, o que motiva uma organiza\u00e7\u00e3o mais ampla \u00e9 a possibilidade de jogar as empresas umas contra as outras. Um sindicato militante pode ser prejudicado se ficar isolado.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: A mentalidade sindical de empresa \u00e9 uma s\u00e9ria vulnerabilidade. Fundado na d\u00e9cada de 1970, o Sindicato da Nissan \u00e9 um dos sindicatos automotivos independentes mais antigos, formado na f\u00e1brica de Cuernavaca, Morelos. Ele negociou contratos excelentes. Mas, a partir de 1982, a Nissan montou uma primeira f\u00e1brica em Aguascalientes e depois abriu mais tr\u00eas, todas representadas pela corporativista CTM. Eventualmente, justamente por n\u00e3o representar os interesses trabalhistas, a CTM perdeu legitimidade e foi substitu\u00edda. Acontece que o sindicato que contestou e assumiu o contrato, a <em>Confederaci\u00f3n Aut\u00f3noma de Trabajadores y Empleados de Mexico<\/em>, \u00e9 liderado por Pedro Haces Barba, ex-dirigente do PRI e da pr\u00f3pria CTM. A situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, portanto, n\u00e3o melhorou. No meio tempo, a Nissan foi reduzindo o tamanho da f\u00e1brica de Morelos, onde o sindicato independente est\u00e1 organizado, e aumentando a produ\u00e7\u00e3o em Aguascalientes. A mesma coisa aconteceu com o sindicato independente da VW: a VW firmou um contrato com a CTM antes mesmo de inaugurar sua nova f\u00e1brica de motores em Silao e, at\u00e9 agora, o sindicato independente da empresa n\u00e3o conseguiu reverter a medida.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: De que maneiras a substitui\u00e7\u00e3o do NAFTA pelo USMCA alterou a organiza\u00e7\u00e3o trabalhista?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: Diferentemente do NAFTA, o USMCA cont\u00e9m um cap\u00edtulo dedicado \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<a data-contents=\"O NAFTA tinha um acordo trabalhista paralelo, segundo o qual o M\u00e9xico teria que respeitar as pr\u00f3prias leis trabalhistas, e o governo dos EUA ou o do Canad\u00e1 poderiam convocar consultas. Hermanson acrescenta: \u201cTentei usar essas disposi\u00e7\u00f5es contra as empresas que violavam os direitos dos trabalhadores, o que se revelou totalmente in\u00fatil\u201d.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-8\" href=\"#footnote-list-8\">8<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">O NAFTA tinha um acordo trabalhista paralelo, segundo o qual o M\u00e9xico teria que respeitar as pr\u00f3prias leis trabalhistas, e o governo dos EUA ou o do Canad\u00e1 poderiam convocar consultas. Hermanson acrescenta: \u201cTentei usar essas disposi\u00e7\u00f5es contra as empresas que violavam os direitos dos trabalhadores, o que se revelou totalmente in\u00fatil\u201d.<\/span> Uma das suas disposi\u00e7\u00f5es exigia que o M\u00e9xico reformasse sua legisla\u00e7\u00e3o laboral e ratificasse as Conven\u00e7\u00f5es 87 e 98 da OIT\u2014que n\u00e3o foram ratificadas nem pelos EUA.<a data-contents=\"A Conven\u00e7\u00e3o 87 da OIT diz respeito \u00e0 liberdade de associa\u00e7\u00e3o e protege os direitos dos trabalhadores e empregadores de constituir ou aderir a organiza\u00e7\u00f5es de sua escolha. A Conven\u00e7\u00e3o 98 da OIT diz respeito aos direitos dos trabalhadores de se organizarem e negociarem coletivamente.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-9\" href=\"#footnote-list-9\">9<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">A Conven\u00e7\u00e3o 87 da OIT diz respeito \u00e0 liberdade de associa\u00e7\u00e3o e protege os direitos dos trabalhadores e empregadores de constituir ou aderir a organiza\u00e7\u00f5es de sua escolha. A Conven\u00e7\u00e3o 98 da OIT diz respeito aos direitos dos trabalhadores de se organizarem e negociarem coletivamente.<\/span>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2019, o M\u00e9xico reformou sua legisla\u00e7\u00e3o trabalhista para passar a exigir uma vota\u00e7\u00e3o direta, secreta e privada nas elei\u00e7\u00f5es para lideran\u00e7as sindicais e na ratifica\u00e7\u00e3o de contratos\u2014um sistema muito mais democr\u00e1tico do que o existente nos EUA. Esse tipo de reforma \u00e9 apoiada pelo movimento sindical independente e seus aliados\u2014acad\u00eamicos, advogados trabalhistas e ativistas de todos os tipos\u2014desde a d\u00e9cada de 1970. O voto secreto era a pauta principal, mas acabar com os conselhos trabalhistas tripartites tamb\u00e9m \u00e9 essencial. O judici\u00e1rio agora adota um novo modelo de processo trabalhista e, em raz\u00e3o de uma recente mudan\u00e7a constitucional, os membros do poder judici\u00e1rio passar\u00e3o a ser eleitos democraticamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cap\u00edtulo do USMCA sobre trabalho tamb\u00e9m possui um Mecanismo de Resposta R\u00e1pida que permite que trabalhadores ou sindicatos que tenham direitos violados apresentem queixas ao Departamento do Trabalho dos EUA. O governo mexicano tem se mostrado atento a isso. Sob Biden, os EUA tiveram bons secret\u00e1rios do trabalho e um Representante Comercial bastante progressista. Os EUA pressionaram fortemente pelo \u00eaxito dos termos trabalhistas do USMCA e, durante o governo Biden, 24 casos foram resolvidos favoravelmente aos trabalhadores e sindicatos independentes mexicanos. Essa \u00e9 uma mudan\u00e7a gigantesca.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"754\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf3-754x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-23658\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf3-754x1024.png 754w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf3-221x300.png 221w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf3-768x1043.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/graf3.png 973w\" sizes=\"auto, (max-width: 754px) 100vw, 754px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos primeiros casos resolvidos com o Mecanismo de Resposta R\u00e1pida do USMCA foi o da General Motors em Silao, Guanajuato, uma f\u00e1brica de montagem com 6.500 trabalhadores que produz picapes Silverado de US$40.000,00 destinadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o para os EUA. Parte da implementa\u00e7\u00e3o do USMCA no M\u00e9xico estipulava que os contratos existentes tinham que ser aprovados pelos trabalhadores por meio de vota\u00e7\u00e3o. Quando a reparti\u00e7\u00e3o da CTM em exerc\u00edcio na GM de Silao foi pega destruindo as c\u00e9dulas do pleito, o Mecanismo de Resposta R\u00e1pida garantiu uma vota\u00e7\u00e3o justa. Ap\u00f3s a rejei\u00e7\u00e3o do contrato, um novo sindicato independente, o <em>Sindicato Independiente Nacional de Trabajadores y Trabajadoras de la Industria Automotriz <\/em>(SINTTIA), ganhou o direito a representa\u00e7\u00e3o em uma elei\u00e7\u00e3o que contava com outros dois candidatos. Desde ent\u00e3o, o SINTTIA, que tem uma perspectiva de sindicaliza\u00e7\u00e3o por categoria (e n\u00e3o somente por empresa), venceu algumas campanhas em f\u00e1bricas de autope\u00e7as e acabou de organizar uma f\u00e1brica de caixas de som da Bose em Tijuana. Na pr\u00f3pria GM, vem negociando bons contratos desde que foi eleito.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Uma vez que o USMCA est\u00e1 sendo renegociado, qual \u00e9, na sua opini\u00e3o, a melhor estrat\u00e9gia para essa luta avan\u00e7ar ainda mais?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: Em primeiro lugar, o USMCA \u00e9 assim\u00e9trico. O M\u00e9xico \u00e9 regido por esses termos, mas os EUA e o Canad\u00e1 n\u00e3o. Essa \u00e9 primeira mudan\u00e7a que eu gostaria de ver. O USMCA \u00e9 um acordo comercial e as san\u00e7\u00f5es envolvem o cancelamento da isen\u00e7\u00e3o tarif\u00e1ria para os produtos dos infratores. Como voc\u00ea sancionaria uma empresa dos EUA? Teria que haver um novo regime de san\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Mas a cadeia de suprimentos automotivos dos EUA n\u00e3o implica exporta\u00e7\u00f5es de f\u00e1bricas estadunidenses para a montagem no M\u00e9xico?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: Sim, mas atualmente as disposi\u00e7\u00f5es n\u00e3o se aplicam a empresas estadunidenses. O objetivo \u00e9 \u201cresponsabilizar o M\u00e9xico\u201d, e essa foi a posi\u00e7\u00e3o do movimento trabalhista estadunidense nas negocia\u00e7\u00f5es. No processo atual, partes privadas apresentam queixas ao Representante Comercial dos Estados Unidos e ao Escrit\u00f3rio de Assuntos Trabalhistas Internacionais do Departamento do Trabalho dos EUA. Esses \u00f3rg\u00e3os conduzem uma investiga\u00e7\u00e3o preliminar por meio de seus adidos no M\u00e9xico para verificar se h\u00e1 um caso <em>prima facie<\/em> de viola\u00e7\u00e3o de direitos. Os direitos s\u00e3o aqueles previstos na legisla\u00e7\u00e3o trabalhista mexicana e nas conven\u00e7\u00f5es da OIT\u2014garantias que os pr\u00f3prios trabalhadores estadunidenses n\u00e3o t\u00eam. Qual o motivo de os EUA n\u00e3o serem instados a reformar suas leis trabalhistas? Qual o motivo de n\u00e3o precisarem ratificar as conven\u00e7\u00f5es da OIT?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando os \u00f3rg\u00e3os trabalhistas dos EUA encontram um caso <em>prima facie<\/em>, solicitam ao governo mexicano que investigue. A partir da\u00ed, o governo mexicano tem um prazo bem curto para verificar se concorda com as conclus\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os dos EUA. Caso concorde, ambos os governos negociam um plano de remedia\u00e7\u00e3o ou de a\u00e7\u00e3o. Esse processo tem sido bem-sucedido na maioria dos casos, mas acredito que ser\u00e1 cada vez menos exitoso.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O governo mexicano vem ficando cada vez menos receptivo e est\u00e1 come\u00e7ando a buscar meios de escapar de imposi\u00e7\u00f5es agressivas das normas do acordo. Recentemente, a estrat\u00e9gia tem sido fechar acordos com a empresa acusada antes que o plano de remedia\u00e7\u00e3o seja finalizado, numa tentativa do governo de se antecipar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade de que um plano negociado com os EUA seja mais hostil.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 a estrat\u00e9gia mexicana na revis\u00e3o do USMCA. Eles querem simetria. Minha sugest\u00e3o seria um conselho composto pelos tr\u00eas governos, com participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, que ou\u00e7a as reclama\u00e7\u00f5es e aplique as mesmas conven\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas da OIT aos tr\u00eas pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No M\u00e9xico, com ou sem o USMCA, deve haver um movimento trabalhista independente que seja proativo, se organize, tome medidas diretas e use a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista do pa\u00eds\u2014que \u00e9 realmente boa\u2014para aumentar a representa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima dos trabalhadores. Mas, para que isso aconte\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio investir recursos, e os mexicanos n\u00e3o t\u00eam os recursos necess\u00e1rios. N\u00e3o h\u00e1 um CIO no M\u00e9xico. Por isso, tenho tentado convencer os sindicatos estadunidenses a apoiar o movimento trabalhista independente mexicano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: O que seria um bom investimento inicial para o crescimento do movimento trabalhista mexicano? Que sindicatos poderiam assumir isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: O Congresso dos EUA alocou US$180 milh\u00f5es para a implementa\u00e7\u00e3o do USMCA, dos quais US$150 milh\u00f5es foram destinados a empresas de diversos tipos para auxiliar o Departamento do Trabalho do M\u00e9xico a treinar seus inspetores e desenvolver seu sistema de justi\u00e7a trabalhista\u2014para promover um\u201cfortalecimento institucional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os US$30 milh\u00f5es restantes deveriam ir para o Centro de Solidariedade da AFL-CIO, onde eu trabalhava na \u00e9poca. O dinheiro foi empenhado e eu desenvolvi um programa que, esperava eu, seria bem-sucedido em construir um movimento sindical militante no M\u00e9xico. Desde a d\u00e9cada de 1980, as economias dos EUA e do M\u00e9xico t\u00eam se integrado cada vez mais. Ao longo desse per\u00edodo, governos mexicanos do PRI e do PAN adotaram uma estrat\u00e9gia de conten\u00e7\u00e3o salarial para atrair investimentos estrangeiros. A diferen\u00e7a salarial em rela\u00e7\u00e3o aos EUA cresceu muito. O incremento dos direitos trabalhistas e o aumento salarial no M\u00e9xico s\u00e3o meios de nivelar o terreno de negocia\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses e promover pr\u00e1ticas comerciais mais justas. S\u00f3 que para que os sal\u00e1rios aumentem, o pa\u00eds precisa da ascens\u00e3o de um movimento sindical independente e democr\u00e1tico. O programa desenhado no Centro de Solidariedade foi aprovado pelo Departamento do Trabalho, mas depois da suspens\u00e3o da ajuda externa pelos EUA, o dinheiro foi congelado.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo assim, o apoio dos sindicatos dos EUA \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o coletiva dos trabalhadores mexicanos n\u00e3o precisa depender do financiamento do governo e nem custar US$30 milh\u00f5es. Na d\u00e9cada de 1930, nos EUA, o CIO contratou 100 organizadores e, nos cinco anos entre 1935 e 1940, o movimento sindical ganhou 5 milh\u00f5es de membros, dobrando de tamanho. No M\u00e9xico, onde o sal\u00e1rio e as despesas de um organizador nos n\u00edveis atuais custariam cerca de US$30 mil anuais, uma campanha nacional de organiza\u00e7\u00e3o industrial poderia ser realizada com alguns milh\u00f5es de d\u00f3lares. Com leis e autoridades trabalhistas relativamente favor\u00e1veis, algum apoio financeiro aos organizadores, pesquisa industrial compartilhada e coordena\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica das campanhas, seria poss\u00edvel organizar centenas de milhares de trabalhadores e mudar o equil\u00edbrio de poder em diversas ind\u00fastrias b\u00e1sicas, a automobil\u00edstica entre elas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AE<\/span>: Voc\u00ea acredita que \u00e9 poss\u00edvel organizar tantos trabalhadores assim?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JH<\/span>: Com certeza. Em Puebla, h\u00e1 uma f\u00e1brica da Volkswagen com 7 mil trabalhadores e um sindicato independente. A apenas 32 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, h\u00e1 70 mil trabalhadores em f\u00e1bricas que fornecem componentes para os carros da VW. A General Motors tem uma f\u00e1brica em Coahuila com 7 mil trabalhadores que \u00e9 cercada por outras fabricantes de vidros, pneus, freios, embreagens e eixos. Com um pouco de investimento, uma boa pesquisa setorial e o aproveitamento das rela\u00e7\u00f5es que os sindicatos nos EUA j\u00e1 t\u00eam com essas corpora\u00e7\u00f5es, \u00e9 poss\u00edvel organizar todas essas f\u00e1bricas. Acredito que h\u00e1 clima para isso. H\u00e1 bastante descontentamento entre a classe trabalhadora mexicana, especialmente nos setores de autope\u00e7as, pneus, vidros e outros segmentos b\u00e1sicos da ind\u00fastria. Em todos esses setores, houve vit\u00f3rias sindicais independentes. Isso ilustra como, com um pouco de investimento e solidariedade sindical internacional, \u00e9 poss\u00edvel estimular campanhas semelhantes em outras f\u00e1bricas.<br><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-right\">Tradu\u00e7\u00e3o: N\u00e9lio Schneider<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se no in\u00edcio do NAFTA as maquiladoras minaram a ind\u00fastria nacional e os sindicatos do M\u00e9xico, o desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o moderna e o com\u00e9rcio transfronteiri\u00e7o retomaram o crescimento da ind\u00fastria e criaram um dos movimentos sindicais mais combativos do continente americano.<\/p>\n","protected":false},"author":61,"featured_media":23171,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[733],"tags":[765,835,766],"issue":[],"newsletter":[],"region":[1012,1243],"sector":[],"theme":[1096],"series":[],"class_list":["post-23650","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-br","tag-longform-pt-br","tag-mexico-pt-br","tag-politica-pt-br","region-america-latina-e-caribe","region-mexico-pt-br-2","theme-governanca-e-politica-partidaria"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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