{"id":23185,"date":"2025-04-24T14:08:20","date_gmt":"2025-04-24T14:08:20","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=23185"},"modified":"2025-07-03T22:11:47","modified_gmt":"2025-07-03T22:11:47","slug":"alfredo-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/entrevistas-br\/alfredo-santos\/","title":{"rendered":"Salvar o planeta para quem?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Polo Industrial de Cama\u00e7ari, na Bahia, atraiu a aten\u00e7\u00e3o do mundo todo ap\u00f3s o an\u00fancio da BYD em 2023 de que instalaria ali sua maior f\u00e1brica fora da China. Inaugurado em 1978, o Polo foi o primeiro complexo petroqu\u00edmico planejado do Brasil, pe\u00e7a central do projeto de desenvolvimento da ind\u00fastria nacional que vigorou at\u00e9 o fim dos anos 1980. Contribuiu historicamente para o desenvolvimento econ\u00f4mico, do mercado de trabalho e para a qualifica\u00e7\u00e3o dos profissionais formados na Bahia. A partir da d\u00e9cada de 1990, no entanto, com a abertura comercial do Brasil e as adversidades do cen\u00e1rio externo, o Polo passou por crises de competitividade e mudan\u00e7as estruturais significativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Polo de Cama\u00e7ari sempre contou com ind\u00fastrias complementares \u00e0 cadeia petroqu\u00edmica, mas a amplia\u00e7\u00e3o das atividades teve como marco a chegada da ind\u00fastria automobil\u00edstica\u2014ocorrida com a instala\u00e7\u00e3o da americana Ford nos anos 2000. Ap\u00f3s duas d\u00e9cadas de opera\u00e7\u00e3o, em 2021, a Ford fechou as portas, declarando passar por dificuldades econ\u00f4micas agravadas pela pandemia, e o Polo hoje passa por mais um processo de expans\u00e3o setorial das atividades: atrai investimentos de montadoras de ve\u00edculos el\u00e9tricos e empresas da \u00e1rea de energias renov\u00e1veis, em sua maioria, de origem chinesa. De forma emblem\u00e1tica, a nova f\u00e1brica da BYD est\u00e1 sendo constru\u00edda no antigo terreno da Ford.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo dos anos, o polo petroqu\u00edmico se transformou em um polo industrial em sentido amplo e, agora, vem sendo projetado como polo industrial verde. Para tratar do papel de Cama\u00e7ari no projeto de reindustrializa\u00e7\u00e3o verde do Brasil sob a perspectiva da classe trabalhadora, Maria Sikorski, editora da Phenomenal World, conversou com Alfredo Santos, Secret\u00e1rio-Geral da CUT-Bahia e coordenador do setor de imprensa do Sindiqu\u00edmica-Bahia, sindicato que representa vinte mil trabalhadores das ind\u00fastrias qu\u00edmicas, petroqu\u00edmicas, de pl\u00e1sticos, fertilizantes, g\u00e1s natural e de terminais qu\u00edmicos do estado.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uma entrevista com Alfredo Santos<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Maria Sikorski<\/span>: Voc\u00ea pode come\u00e7ar contando um pouco da hist\u00f3ria do Polo de Cama\u00e7ari e da rela\u00e7\u00e3o dele com as distintas fases da pol\u00edtica industrial brasileira?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Alfredo santos<\/span>: O Polo de Cama\u00e7ari foi constru\u00eddo entre meados da d\u00e9cada de 1970 e in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980. Ele surge com uma estrutura de propriedade tripartite: a composi\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria contava com capital privado nacional, multinacional e capital estatal brasileiro. Havia uma central de mat\u00e9rias-primas controlada por uma empresa p\u00fablica, a Copene (posteriormente privatizada), que fomentava as ind\u00fastrias de segunda gera\u00e7\u00e3o. Essa central petroqu\u00edmica fornecia a base da cadeia produtiva da nafta, do eteno, do propeno etc. \u00c9 importante destacar esse modelo tripartite porque ele \u00e9 um exemplo de como a industrializa\u00e7\u00e3o no Brasil s\u00f3 aconteceu com uma forte participa\u00e7\u00e3o do Estado, seja direta, como foi o caso do Polo Petroqu\u00edmico de Cama\u00e7ari, seja por meio do financiamento do BNDES\u2014mesmo as empresas privadas, tanto no surgimento do Polo quanto atualmente, a exemplo das chinesas que se instalaram recentemente, contaram com financiamento do Banco. \u00c9 o Estado brasileiro que financia a industrializa\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Polo de Cama\u00e7ari seguiu crescendo ao longo dos anos 1980 e 1990. Mas, a partir da abertura comercial do governo Collor (1990-1992) e, de forma mais acentuada, durante o governo FHC (1995-2002), ele enfrentou uma crise de produtividade e competitividade internacional e sofreu com redu\u00e7\u00f5es de investimento e fechamento de f\u00e1bricas. No in\u00edcio dos anos 1990, esse complexo industrial respondia por mais de 30 mil empregos diretos. No final da d\u00e9cada, o n\u00famero havia ca\u00eddo para pouco mais de 10 mil.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de 2003, com o primeiro governo Lula (2003-2010), o Estado brasileiro volta a investir na industrializa\u00e7\u00e3o, mas agora de forma indireta: a Petrobras passa a figurar como investidora importante dos chamados \u201cgrandes players\u201d do Brasil. Um fruto desse processo \u00e9 a Braskem\u2014a Petrobras det\u00e9m, hoje, 47% das a\u00e7\u00f5es da empresa. Recuperou-se um tanto de competitividade internacional, mas, por outro lado, observou-se em todo o pa\u00eds um processo de monopoliza\u00e7\u00e3o da central de mat\u00e9rias-primas e da cadeia de resinas termopl\u00e1sticas que implicou o fechamento de v\u00e1rias empresas que n\u00e3o conseguiram concorrer com os grandes players\u2014que acabavam atuando como fornecedores dos pr\u00f3prios concorrentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, o setor petroqu\u00edmico brasileiro enfrenta uma crise gigantesca. Hoje, o Polo de Cama\u00e7ari n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o de competir internacionalmente. O setor de fertilizantes \u00e9 um exemplo: 85% dos fertilizantes usados pelo agroneg\u00f3cio brasileiro s\u00e3o importados. A cadeia termopl\u00e1stica importa cerca de metade dos insumos que utiliza. Esse ingresso de produtos importados nas cadeias petroqu\u00edmicas acontece por dois motivos. O custo dom\u00e9stico das cadeias ficou muito alto se comparado ao de cadeias mais modernas que t\u00eam base g\u00e1s ao inv\u00e9s de base nafta. As ind\u00fastrias estadunidense, \u00e1rabe e indiana exportam um produto de pre\u00e7o mais baixo do que o nosso custo de produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stico, tanto por falta de atualiza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica das nossas plantas quanto por fatores ambientais: os EUA, por exemplo, utilizam g\u00e1s de <em>fracking<\/em>, que tem um custo de produ\u00e7\u00e3o muito inferior, mas \u00e9 extremamente danoso ao meio ambiente. O Brasil n\u00e3o produz g\u00e1s de <em>fracking<\/em> e tem, inclusive, restri\u00e7\u00f5es ambientais ao seu uso. Al\u00e9m disso, o pr\u00f3prio pre\u00e7o do g\u00e1s brasileiro \u00e9 bastante alto: chega a ser cinco vezes maior do que o estadunidense. Isso mina a competitividade internacional da nossa ind\u00fastria petroqu\u00edmica. Se o pa\u00eds n\u00e3o tiver uma pol\u00edtica industrial voltada a preservar o mercado nacional, a tend\u00eancia \u00e9 que essas ind\u00fastrias todas quebrem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: A Bahia tem sido apontada nacional e internacionalmente como pe\u00e7a essencial do projeto de reindustrializa\u00e7\u00e3o verde do Brasil e da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica em n\u00edvel global. \u00c9 o estado da federa\u00e7\u00e3o que mais produz energia renov\u00e1vel de fontes solares e e\u00f3licas do pa\u00eds e vem atraindo muito investimento estrangeiro, especialmente chin\u00eas, nessas cadeias produtivas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a promessa de fabrica\u00e7\u00e3o de carros el\u00e9tricos pela BYD e a instala\u00e7\u00e3o de outras empresas chinesas do setor de energias renov\u00e1veis, h\u00e1 quem diga que Cama\u00e7ari pode se tornar uma refer\u00eancia da reindustrializa\u00e7\u00e3o verde no Brasil. Quando anunciou a instala\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica no antigo terreno da Ford, por exemplo, a BYD prometeu trazer para o Polo etapas de alto valor agregado da cadeia produtiva de ve\u00edculos el\u00e9tricos, inclusive aquelas relacionadas a pesquisa e desenvolvimento, al\u00e9m de gerar milhares de empregos. A CEO da BYD para as Am\u00e9ricas, Stella Li, declarou que o objetivo era transformar Cama\u00e7ari em um \u201c<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/economia\/2023\/08\/5117345-salvador-sera-vale-do-silicio-do-brasil-diz-ceo-da-byd.html\">Vale do Sil\u00edcio brasileiro<\/a>\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante da crise no setor petroqu\u00edmico, \u00e9 poss\u00edvel que o ingresso de outras cadeias represente uma retomada do papel de Cama\u00e7ari no desenvolvimento nacional?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AS<\/span>: A planta da Ford, inaugurada em 2001, representou ingresso da cadeia automobil\u00edstica no Polo de Cama\u00e7ari. Ap\u00f3s 20 anos, a Ford encerrou as opera\u00e7\u00f5es e, recentemente, empresas chinesas, como a BYD, passaram a investir nessa cadeia. Outras empresas chinesas da \u00e1rea de energias renov\u00e1veis, como a Sinoma e a Goldwind, tamb\u00e9m se instalaram no Polo. Mas, ainda que haja uma promessa de que a planta da BYD funcione, de fato, como uma f\u00e1brica, por ora, essas empresas operam apenas como montadoras, praticamente maquiladoras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O processo de atra\u00e7\u00e3o da BYD para a Bahia envolveu muito subs\u00eddio estatal. O governo da Bahia tornou os carros el\u00e9tricos isentos de IPVA a partir de 2024, por exemplo. Houve incentivos p\u00fablicos na transfer\u00eancia do terreno que era da Ford para a empresa chinesa, h\u00e1 tamb\u00e9m financiamento do BNDES. Por enquanto, a BYD est\u00e1 apenas montando os carros aqui. H\u00e1 uma promessa de mudar isso no futuro, mas, por ora, as etapas de maior valor agregado da cadeia n\u00e3o est\u00e3o na Bahia. O polo petroqu\u00edmico tem grande potencial para a produ\u00e7\u00e3o de baterias, mas as baterias desses ve\u00edculos n\u00e3o t\u00eam sido produzidas aqui. H\u00e1 potencial de beneficiamento de l\u00edtio, h\u00e1 potencial da ind\u00fastria pl\u00e1stica para a produ\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as. \u00c9 poss\u00edvel produzir os carros aqui, mas por enquanto a promessa da BYD n\u00e3o se concretizou.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o \u00e9: quais contrapartidas ao subs\u00eddio estatal n\u00f3s poder\u00edamos exigir dessas empresas? Esse \u00e9 o papel do Estado brasileiro na reindustrializa\u00e7\u00e3o. Se as plantas funcionarem como meras montadoras, o que a gente ganha com isso? Agora, se o Estado exigisse que, dentro de determinado prazo, a BYD beneficiasse l\u00edtio em territ\u00f3rio nacional e fabricasse as baterias aqui, que utilizasse as ind\u00fastrias locais para a fabrica\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as, enfim, que efetivamente tivesse partes da cadeia produtiva operando aqui, a coisa mudaria de figura.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No passado, houve um debate semelhante na ind\u00fastria petroqu\u00edmica. A pol\u00edtica de conte\u00fado nacional para a cadeia de petr\u00f3leo\u2014abandonada ap\u00f3s o golpe de 2016\u2014exigia que toda ind\u00fastria que prestasse servi\u00e7o para a Petrobras tivesse um percentual de maquin\u00e1rio produzido em territ\u00f3rio brasileiro. A ind\u00fastria naval do pa\u00eds renasceu naquele per\u00edodo e, quando o conte\u00fado local deixou de ser exigido, quebrou novamente.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ind\u00fastria brasileira n\u00e3o consegue competir sem alguma forma de incentivo. N\u00e3o existe industrializa\u00e7\u00e3o sem participa\u00e7\u00e3o do Estado. Se o projeto de industrializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o exigir contrapartidas ao investimento estrangeiro, seja estadunidense, chin\u00eas ou de qualquer outro lugar, o Brasil vai simplesmente cumprir um papel na pol\u00edtica industrial de outro pa\u00eds. Nenhuma empresa decide expandir as opera\u00e7\u00f5es para outro pa\u00eds de forma altru\u00edsta. Se investe \u00e9 porque isso atende aos seus pr\u00f3prios interesses. E investimento, seja qual for a origem, \u00e9 sempre bom. A quest\u00e3o \u00e9 o que a gente exige dos investidores para satisfazer os interesses nacionais tamb\u00e9m.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por muitos anos, a industrializa\u00e7\u00e3o brasileira foi muito dependente dos Estados Unidos. Se a gente simplesmente trocar o imperialismo norte-americano por um imperialismo chin\u00eas, no final, teremos o mesmo resultado. N\u00e3o podemos simplesmente atender aos interesses de quem quer investir. O investidor externo quer lucrar. O que o pa\u00eds ganha quando subsidia a obten\u00e7\u00e3o de lucro dele?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: Como o movimento sindical da Bahia encara o papel do programa Nova Ind\u00fastria Brasil (NIB) de promover o interesse nacional no projeto de reindustrializa\u00e7\u00e3o verde do pa\u00eds?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AS<\/span>: O Novo Ind\u00fastria Brasil, at\u00e9 o momento, \u00e9 um plano no papel. \u00c9 dif\u00edcil analisar sem observar o impacto real por meio de dados, e o programa ainda n\u00e3o mostrou a que veio. Mas uma coisa que \u00e9 importante ter em mente quando se fala em industrializa\u00e7\u00e3o verde \u00e9: quem paga o pre\u00e7o?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No movimento sindical, n\u00f3s dizemos brincando que \u201cbeleza, \u00e1lcool \u00e9 um combust\u00edvel mais limpo do que gasolina, mas eu prefiro trabalhar na Petrobras a trabalhar numa ind\u00fastria de \u00e1lcool\u201d. A ind\u00fastria verde n\u00e3o pode ser viabilizada economicamente pela redu\u00e7\u00e3o do custo da for\u00e7a de trabalho. E o que n\u00f3s temos observado \u00e9, justamente, que os setores supostamente mais sustent\u00e1veis da ind\u00fastria hoje s\u00e3o os que t\u00eam os empregos mais prec\u00e1rios. Se o biodiesel tem um custo de produ\u00e7\u00e3o maior que o diesel, como se faz para que a alternativa verde chegue na bomba com o mesmo pre\u00e7o? Precarizando a for\u00e7a de trabalho da cadeia produtiva do biodiesel. A\u00ed, n\u00e3o d\u00e1!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe s\u00f3 no Brasil, mas no mundo todo: as ind\u00fastrias sujas, as mais antigas, s\u00e3o as que oferecem melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, inclusive do ponto de vista da sa\u00fade do trabalhador. \u00c9 s\u00f3 voc\u00ea observar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho de uma usina de cana-de-a\u00e7\u00facar ou da ind\u00fastria de reciclagem de alum\u00ednio com catadores de latinha. Algu\u00e9m pode dizer que o catador n\u00e3o faz parte da ind\u00fastria de reciclagem, mas fato \u00e9 que ela s\u00f3 existe no Brasil por causa dos catadores. O Brasil \u00e9 recordista em reciclagem de alum\u00ednio n\u00e3o porque tem um grande projeto log\u00edstico de retorno, mas porque tem um monte de gente miser\u00e1vel que precisa catar latinha para sobreviver e que, com isso, fomenta uma cadeia produtiva que \u00e9 extremamente lucrativa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os carros el\u00e9tricos s\u00e3o outro exemplo: pela pr\u00f3pria tecnologia empregada, o setor gera muito menos emprego do que a ind\u00fastria de carro a combust\u00e3o. \u00c9 uma engenharia muito mais simples: o ve\u00edculo el\u00e9trico tem carroceria, bateria e motor, enquanto o carro a combust\u00e3o tem \u00f3leo, correia, filtro, cabe\u00e7ote, pist\u00e3o, biela, enfim: v\u00e1rias outras f\u00e1bricas s\u00e3o necess\u00e1rias para fornecer produtos e pe\u00e7as para essa ind\u00fastria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cr\u00edtica do movimento sindical \u00e0s cadeias de energia renov\u00e1vel segue a mesma linha. Hoje, a Bahia \u00e9 o estado que mais produz energia limpa no Brasil e, basicamente, \u201cexporta vento\u201d para as regi\u00f5es Sul e Sudeste sem nenhuma contrapartida para as comunidades onde as usinas e\u00f3licas\u2014que t\u00eam um impacto social e ambiental enorme\u2014ou os pain\u00e9is solares est\u00e3o montados. Ao mesmo tempo, as partes da cadeia produtiva que geram mais empregos, como fabrica\u00e7\u00e3o de turbinas, placas fotovoltaicas e pe\u00e7as de manuten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o est\u00e3o aqui. N\u00f3s ficamos com a pior parte de toda a cadeia: a de maior impacto e menor retorno. \u00c9 uma reprodu\u00e7\u00e3o, entre as regi\u00f5es do Brasil, da mesma din\u00e2mica global que se observa entre pa\u00edses do centro e da periferia do capitalismo. O papel do Nordeste da industrializa\u00e7\u00e3o brasileira ser\u00e1 reduzido a gerar energia e cr\u00e9dito de carbono para ser consumido no Sul e no Sudeste? O Nordeste \u00e9 a regi\u00e3o do Brasil que mais produz energia solar do Brasil, mas n\u00e3o tem uma f\u00e1brica de placa fotovoltaica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse mesmo sentido, eu entendo que a NIB precisa incluir uma discuss\u00e3o geopol\u00edtica acerca dos objetivos de industrializa\u00e7\u00e3o verde do Brasil. N\u00f3s vamos custear a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica dos pa\u00edses que historicamente mais polu\u00edram? O nosso papel ser\u00e1 gerar a energia limpa e o cr\u00e9dito de carbono para que os pa\u00edses do Norte global consumam? \u00c9, de novo, a ponta mais fraca custeando a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. At\u00e9 agora, parece que as partes de menor valor agregado, menor complexidade e menor gera\u00e7\u00e3o de emprego das cadeias produtivas verdes s\u00e3o as que ficam no Brasil ou em outros pa\u00edses perif\u00e9ricos. O papel na divis\u00e3o internacional do trabalho que sempre coube aos pa\u00edses perif\u00e9ricos se renova: os trabalhos mais prec\u00e1rios ficam aqui e os mais tecnol\u00f3gicos e bem remunerados ficam no centro do capitalismo. A NIB precisa dialogar com esse interesse chin\u00eas de entrar no Brasil, por exemplo, para exigir contrapartidas ao subs\u00eddio estatal que revertam esse papel subordinado na divis\u00e3o internacional do trabalho.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Obviamente, somos a favor do fomento \u00e0 ind\u00fastria verde, mas defendemos que ele deve vir com financiamento p\u00fablico. O Estado, e n\u00e3o o trabalhador, deve custear a transi\u00e7\u00e3o.\u00a0 Quando a viabilidade econ\u00f4mica do biodiesel vem da precariza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, o Estado est\u00e1 fazendo o trabalhador bancar a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Defendemos, ao contr\u00e1rio, uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica verdadeiramente justa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: Como voc\u00ea sintetiza, ent\u00e3o, a demanda do movimento sindical para a reindustrializa\u00e7\u00e3o verde do Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AS<\/span>: A demanda do movimento sindical para a reindustrializa\u00e7\u00e3o verde \u00e9 que ela n\u00e3o perca de vista que o trabalhador \u00e9 parte fundamental desse processo. A quantidade, a qualidade, a remunera\u00e7\u00e3o e as demais condi\u00e7\u00f5es desses empregos gerados na industrializa\u00e7\u00e3o verde precisam ser iguais ou superiores ao que se observou nos processos de industrializa\u00e7\u00e3o anteriores. N\u00e3o podemos, em hip\u00f3tese alguma, seguir utilizando a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho como mecanismo de viabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da ind\u00fastria verde. A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica precisa acontecer, o planeta n\u00e3o pode esperar, mas precisa acontecer tendo em vista que o trabalhador tamb\u00e9m \u00e9 parte do meio ambiente. Se sacrificarmos os trabalhadores, faremos a transi\u00e7\u00e3o para salvar quem?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Polo Industrial de Cama\u00e7ari foi o primeiro complexo petroqu\u00edmico planejado do Brasil, pe\u00e7a central do projeto de industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds no s\u00e9culo XX. Hoje abriga a maior planta da BYD fora da China e diversas empresas do setor de energias renov\u00e1veis. A seguinte entrevista trata do papel de Cama\u00e7ari na reindustrializa\u00e7\u00e3o verde do Brasil. <\/p>\n","protected":false},"author":223,"featured_media":23186,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[733],"tags":[763,788,776],"issue":[],"newsletter":[],"region":[],"sector":[],"theme":[1075,1084],"series":[],"class_list":["post-23185","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-br","tag-clima-pt-br","tag-shortform-pt-br","tag-trabalho-pt-br","theme-clima-energia","theme-trabalho-movimentos-sociais"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Salvar o planeta para quem? - Maria Sikorski<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Entrevista com Alfredo Santos da CUT-Bahia sobre a onda de 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