{"id":21665,"date":"2024-12-13T10:28:00","date_gmt":"2024-12-13T10:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/nao-categorizado\/elham-fakhro\/"},"modified":"2025-02-06T18:44:42","modified_gmt":"2025-02-06T18:44:42","slug":"elham-fakhro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/entrevistas-br\/elham-fakhro\/","title":{"rendered":"A quest\u00e3o da normaliza\u00e7\u00e3o e o futuro do Oriente M\u00e9dio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 7 de outubro de 2023, a normaliza\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica e econ\u00f4mica entre Israel e os Estados \u00e1rabes parecia ser a principal tend\u00eancia pol\u00edtica do Oriente M\u00e9dio. Sepultadas as perspectivas de um acordo com o Ir\u00e3, esse caminho representava a realiza\u00e7\u00e3o dos planos estadunidenses para a regi\u00e3o, resultantes de um consenso bipartid\u00e1rio costurado por Donald Trump com os Acordos de Abra\u00e3o e <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/middle-east\/biden-netanyahu-discuss-saudi-normalization-iran-2023-09-20\/\">levado adiante<\/a> pelo governo Biden. Isso estava na ordem do dia tamb\u00e9m para a Ar\u00e1bia Saudita, que atuava para <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/middle-east\/biden-netanyahu-discuss-saudi-normalization-iran-2023-09-20\/\">diminuir as tens\u00f5es<\/a> com o Ir\u00e3 e, ao mesmo tempo, normalizar as rela\u00e7\u00f5es com Israel. Todos os sinais pareciam autorizar a bem-humorada declara\u00e7\u00e3o do Conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional Jake Sullivan na semana anterior \u00e0 incurs\u00e3o do Hamas no sul de Israel: \u201cnas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, o Oriente M\u00e9dio nunca esteve t\u00e3o tranquilo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 de se estranhar, portanto, que o 7 de outubro tenha imediatamente suscitado especula\u00e7\u00f5es de que o real objetivo do Hamas seria impedir que a Ar\u00e1bia Saudita se juntasse aos seus vizinhos do Golfo, os Emirados \u00c1rabes Unidos e o Bar\u00e9m, na restrita lista de Estados \u00e1rabes que normalizaram suas rela\u00e7\u00f5es com Israel. Nisso, o Hamas certamente foi bem-sucedido: embora o governo Biden tenha trabalhado para aproximar sauditas e israelenses durante todo o genoc\u00eddio em Gaza, nos \u00faltimos meses, o pr\u00edncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/middle-east\/saudi-crown-prince-condemns-israels-crimes-against-palestinians-2024-09-18\/\">declarou ao Conselho Shura<\/a> e o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores Faisal Bin Farhan <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/06a1f31d-7cf9-4559-a7d4-8f0f19f2aced\">disse ao Financial Times<\/a> que a condi\u00e7\u00e3o para a normaliza\u00e7\u00e3o seria o estabelecimento de um Estado palestino independente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais recentemente, entretanto, um ataque militar generalizado \u00e0 esfera de influ\u00eancia do Ir\u00e3, encabe\u00e7ado pelos Estados Unidos e por Israel, parece ter sabotado os caminhos para a normaliza\u00e7\u00e3o. Com a queda do regime de Assad, o caminho diplom\u00e1tico do novo governo\u2014um alinhamento \u00e0s pot\u00eancias do Golfo ou uma escalada do confronto com Israel, que invade o territ\u00f3rio s\u00edrio\u2014indicar\u00e1 a for\u00e7a do programa de normaliza\u00e7\u00e3o. Muito depender\u00e1 da abordagem do segundo governo Trump em rela\u00e7\u00e3o a Israel e \u00e0 regi\u00e3o, que pode incluir um retorno dos arquitetos dos Acordos de Abra\u00e3o aos c\u00edrculos de poder estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para entender o papel espec\u00edfico dos pa\u00edses do Golfo no Oriente M\u00e9dio, sua rela\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o palestina e o hist\u00f3rico da quest\u00e3o da normaliza\u00e7\u00e3o, conversamos com Elham Fakhro, pesquisador da Middle East Initiative da Harvard Kennedy School e autor do livro <a href=\"https:\/\/cup.columbia.edu\/book\/the-abraham-accords\/9780231212380\"><em>The Abraham Accords<\/em><\/a><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Entrevista com Elham Fakhro<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">Jack gross<\/span><\/strong>: Vamos come\u00e7ar com os Acordos de Abra\u00e3o, assinados em setembro de 2020. Quais foram os atores envolvidos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0<strong><span class=\"sans blue\">Elham fakhro<\/span><\/strong>: O c\u00edrculo pr\u00f3ximo de Trump \u00e9 muito pr\u00f3-Israel. David Friedman, por exemplo, que se tornou embaixador em Israel, j\u00e1 era advogado de Trump antes de ele se candidatar \u00e0 presid\u00eancia. Depois do an\u00fancio da candidatura, Friedman pressionou para se tornar conselheiro de Trump e acabou conseguindo a posi\u00e7\u00e3o. Desde o in\u00edcio, foi ele quem moldou a plataforma da campanha do republicano sobre Israel e Palestina, e foi ele tamb\u00e9m o respons\u00e1vel pela retirada do apoio do Partido Republicano a uma solu\u00e7\u00e3o de dois Estados, insistindo que a Ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas de Assist\u00eancia aos Refugiados da Palestina no Pr\u00f3ximo Oriente (UNRWA, na sigla em ingl\u00eas) estava corrompida pelo antissemitismo. Vale notar que, na \u00e9poca, ele dirigia uma organiza\u00e7\u00e3o que arrecadava fundos para os assentamentos israelenses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tamb\u00e9m, \u00e9 claro, Jared Kushner, cuja fam\u00edlia \u00e9 amiga do primeiro-ministro Netanyahu (h\u00e1 uma hist\u00f3ria bastante contada de que, certa vez, quando era adolescente, Kushner foi expulso de seu quarto porque Netanyahu ficaria hospedado em sua casa). Durante o governo Trump, Mike Pompeo tornou-se o primeiro Secret\u00e1rio de Estado em exerc\u00edcio a visitar um assentamento israelense. Tanto ele quanto Friedman falam sobre o conflito em termos religiosos. Friedman declarou abertamente que cr\u00ea que Trump foi enviado por Deus para salvar o Estado de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inicialmente, Trump foi aconselhado de que era in\u00fatil trazer os palestinos para a mesa de negocia\u00e7\u00f5es de paz. Em seguida, foi pressinado a adotar uma s\u00e9rie de pol\u00edticas fortemente pr\u00f3-Israel: transferir a embaixada para Jerusal\u00e9m e revogar o memorando Hansell, de 1978 que declara a posi\u00e7\u00e3o governo dos Estados Unidos de que os assentamentos israelenses s\u00e3o ilegais. Se lermos a biografia de Friedman, fica evidente que foi ele quem trabalhou com Netanyahu para influenciar a pol\u00edtica estadunidense, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Ele ainda convenceu o presidente a cortar a ajuda \u00e0 UNRWA, outro item da lista de desejos do primeiro-ministro de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isso levou a um boicote por parte dos l\u00edderes palestinos e \u00e0 declara\u00e7\u00e3o do primeiro-ministro da Autoridade Palestina, Mohammad Shtayyeh, de que \u201cos direitos do povo palestino n\u00e3o est\u00e3o \u00e0 venda\u201d. Depois disso, Kushner ainda tentou elaborar um plano para resolver a situa\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o, mas isso foi adiado por conta da candidatura de Netanyahu \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o. Durante o ver\u00e3o de 2019, Trump lan\u00e7ou o componente econ\u00f4mico de um novo plano de paz e prosperidade em Manama sem a presen\u00e7a de palestinos. Por fim, o governo estadunidense decidiu excluir tamb\u00e9m os israelenses e, em vez deles, atraiu, pela primeira vez, os Estados do Golfo para atuarem como intermedi\u00e1rios nessa iniciativa diplom\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A jogada representou uma nova estrat\u00e9gia de alinhamento geopol\u00edtico. Por exemplo, durante o evento de lan\u00e7amento das medidas econ\u00f4micas do plano de paz em Manana, falou-se muito sobre como o extremismo iraniano constitu\u00eda uma verdadeira amea\u00e7a na regi\u00e3o. Foi uma grande oportunidade para os l\u00edderes do Bar\u00e9m expressarem sua forte concord\u00e2ncia com a vis\u00e3o do governo Trump. A Casa Branca tentou tamb\u00e9m fazer com que os pa\u00edses do Golfo participassem do financiamento do plano proposto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">jg<\/span><\/strong>: Quais foram as etapas que levaram \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 assinatura desse plano final em Washington? O que o plano diz sobre a quest\u00e3o do Estado palestino?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: Logo depois da reuni\u00e3o em Manana, Netanyahu e Benny Gantz foram a Washington para o lan\u00e7amento da parte pol\u00edtica do plano: troca de terras com os palestinos e, em contrapartida, permiss\u00e3o para Israel anexar efetivamente um ter\u00e7o da Cisjord\u00e2nia. Como compensa\u00e7\u00e3o, foram oferecidas terras no Sinai, que seriam ligadas a outros territ\u00f3rios palestinos por uma ferrovia de alta velocidade, presumivelmente financiada por capital do Golfo. Mas n\u00e3o havia garantia de um Estado palestino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de um Estado, os palestinos receberam uma oferta de congelamento da constru\u00e7\u00e3o de assentamentos durante alguns anos, per\u00edodo durante o qual poderiam decidir se queriam ou n\u00e3o prosseguir com as negocia\u00e7\u00f5es. N\u00e3o havia men\u00e7\u00e3o ao direito de regresso. O plano foi evidentemente rejeitado pelos dirigentes palestinos. No dia desse an\u00fancio, Netanyahu declarou abertamente suas inten\u00e7\u00f5es de anexar a Cisjord\u00e2nia. Isso causou surpresa e frustra\u00e7\u00e3o nos funcion\u00e1rios da administra\u00e7\u00e3o Trump que n\u00e3o apoiavam a anexa\u00e7\u00e3o unilateral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pessoal de Trump estava dividido entre os partid\u00e1rios de Friedman, que concordavam com a posi\u00e7\u00e3o de Netanyahu, e figuras como Kushner, que queriam uma vers\u00e3o menos extrema de anexa\u00e7\u00e3o. Trump tamb\u00e9m ficou insatisfeito\u2014a equipe presidencial queria que Netanyahu aderisse ao programa estabelecido por ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi a\u00ed que os Emirados \u00c1rabes Unidos entraram em cena. Em junho de 2020, o embaixador Yusuf al Otaiba reuniu-se com Kushner em Washington e escreveu um <a href=\"https:\/\/www.uae-embassy.org\/news\/ambassador-al-otaiba-op-ed-annexation-will-be-serious-setback-better-relations-arab-world-0\">editorial<\/a> publicado originalmente em hebraico num dos principais jornais de Israel.\u00a0 Argumentou, em nome dos Emirados \u00c1rabes Unidos, que a anexa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era aceit\u00e1vel e contradizia todo o discurso sobre a normaliza\u00e7\u00e3o. Apresentou aos leitores israelenses a possibilidade da paz e enfatizou mais os pontos em comum do que as diferen\u00e7as. Essa foi a semente do que viriam a ser os Acordos de Abra\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a pandemia, Kushner e seu assessor Avi Berkowitz viajaram a Israel para convencer Netanyahu a n\u00e3o anexar a Cisjord\u00e2nia. Era plaus\u00edvel que as amea\u00e7as de Netanyahu fossem uma manobra eleitoral dirigida a assentados extremistas e \u00e0s fac\u00e7\u00f5es mais \u00e0 direita de Israel, que defendiam a anexa\u00e7\u00e3o. Os Emirados \u00c1rabes Unidos j\u00e1 haviam indicado a Kushner que estavam dispostos a seguir o caminho da normaliza\u00e7\u00e3o, e isso poderia ser oferecido a Netanyahu em troca da suspens\u00e3o da anexa\u00e7\u00e3o. Essa foi a base dos Acordos de Abra\u00e3o anunciados por Trump via Twitter em agosto de 2020. Um m\u00eas depois, o ministro das Finan\u00e7as do Bar\u00e9m ligou para o pessoal de Trump e informou que o pa\u00eds tamb\u00e9m queria participar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">jg<\/span><\/strong>: Qual foi o impacto imediato do an\u00fancio dos Acordos de Abra\u00e3o em 2020?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: Inicialmente, os an\u00fancios provocaram uma enxurrada de manifesta\u00e7\u00f5es nos pa\u00edses do Golfo, de variados grupos da sociedade civil, criticando os Emirados \u00c1rabes Unidos e o Bar\u00e9m pela decis\u00e3o. Por conta da pandemia, a resposta foi dada on-line. Especialistas religiosos condenaram essa rea\u00e7\u00e3o e grupos da sociedade civil lideraram a rea\u00e7\u00e3o oposicionista\u2014se n\u00e3o fosse pela pandemia, imagino que teriam ocorrido mais protestos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De toda forma, a nova rela\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a se firmar e se desenvolver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos dois primeiros anos ap\u00f3s o an\u00fancio, o com\u00e9rcio bilateral entre Emirados \u00c1rabes Unidos e Israel, as duas economias mais importantes envolvidas no acordo, atingiu US$ 2 bilh\u00f5es. Agora, h\u00e1 a proje\u00e7\u00e3o de que a cifra chegue a US$ 4 bilh\u00f5es, impulsionada por substantivos investimentos dos fundos soberanos dos Emirados \u00c1rabes Unidos em <em>startups<\/em> e empresas de tecnologia israelenses, bem como por turistas israelenses que v\u00e3o a Dubai. O turismo n\u00e3o \u00e9 bilateral: em dezembro de 2020, cerca de 70 mil turistas israelenses visitaram Dubai, enquanto cerca de 3 mil emiradenses estiveram em Israel. O Estado dos Emirados e a m\u00eddia popular est\u00e3o muito empenhados na narrativa de que a normaliza\u00e7\u00e3o tem a ver com toler\u00e2ncia e aceita\u00e7\u00e3o cultural, que tamb\u00e9m permite aos emiradenses rezar na mesquita Al Aqsa agora. A popula\u00e7\u00e3o, contudo, reluta em apoiar a normaliza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de seguir comprometida com os direitos dos palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No aspecto militar, os Estados Unidos transferiram Israel da zona de comando Europeia (EUCOM) para o Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM), que abrange o Golfo e os Estados \u00c1rabes. O objetivo era estreitar rela\u00e7\u00f5es entre Israel e os Estados que participaram da normaliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m com a comunidade mais ampla de pa\u00edses \u00e1rabes que ficaram de fora do processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Houve tamb\u00e9m uma importante coordena\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. O setor de diamantes, um grande fator de converg\u00eancia entre Dubai e Israel, tornou-se uma das principais \u00e1reas de com\u00e9rcio. H\u00e1 acordos de coopera\u00e7\u00e3o entre universidades, <em>think tanks<\/em> e assim por diante. No primeiro ano ap\u00f3s a assinatura do acordo, houve, tanto nos Emirados \u00c1rabes Unidos quanto no Bar\u00e9m, um grande esfor\u00e7o estatal para envolver Israel em todo tipo de iniciativa.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Israel e os pa\u00edses do Golfo no s\u00e9culo XX<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">jg<\/span><\/strong>: Queria entender se \u00e9 poss\u00edvel situar os Acordos de Abra\u00e3o numa hist\u00f3ria mais longa: como os pa\u00edses do Golfo viram a quest\u00e3o da Palestina no \u00faltimo s\u00e9culo? Desde a Revolta \u00c1rabe de 1936 e o Plano de Partilha de 1947 at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de Israel e a Nakba, a Guerra dos Seis Dias e a Guerra do Yom Kippur\u2014o que esses movimentos indicam sobre as transforma\u00e7\u00f5es do poder pol\u00edtico no Golfo P\u00e9rsico?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: Essas conjunturas decisivas suscitaram um apoio popular inequ\u00edvoco aos palestinos em todo o mundo \u00e1rabe. Em 1936, quando as not\u00edcias sobre as greves de trabalhadores e a revolta armada contra os assentados sionistas chegaram ao Golfo pelo r\u00e1dio e pelos jornais, houve esfor\u00e7os de arrecada\u00e7\u00e3o de fundos em v\u00e1rios locais, inclusive no Bar\u00e9m. O emir de Sharjah, um dos sete emirados que hoje comp\u00f5em os Emirados \u00c1rabes Unidos, chegou a fazer, pessoalmente, uma doa\u00e7\u00e3o para a causa. Isso resultou principalmente do crescente senso da popula\u00e7\u00e3o de um nacionalismo \u00e1rabe e de solidariedade contra os brit\u00e2nicos, um inimigo colonial que pretendia dividir o mundo \u00e1rabe. A solidariedade com os palestinos, nesse contexto, tinha esse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O an\u00fancio do Plano de Partilha em 1947 provocou alguns dist\u00farbios nos nascentes Estados do Golfo. No Bar\u00e9m, trabalhadores e estudantes secundaristas fizeram tr\u00eas dias de greve. Em 1967, houve atos de solidariedade semelhantes, e os governantes come\u00e7aram a se envolver. Na \u00e9poca, o xeique Zayed, de Abu Dhabi, enviou ajuda \u00e0s tropas da linha de frente do conflito e houve participa\u00e7\u00e3o direta de um contingente do Kuwait sob comando eg\u00edpcio\u2014uma mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo anterior \u00e0 Segunda Guerra Mundial, quando o governo recomendou aos cidad\u00e3os que n\u00e3o enviassem dinheiro (presumivelmente porque os brit\u00e2nicos, que controlavam o Kuwait, queriam evitar que a solidariedade anti-imperialista no mundo \u00e1rabe aumentasse).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">dylan saba<\/span><\/strong>: \u00a0Com a Guerra do Yom Kippur, em 1973, os Estados \u00e1rabes da OPEP fizeram cortes dr\u00e1sticos na produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e impuseram restri\u00e7\u00f5es de venda que impactaram dramaticamente a economia pol\u00edtica mundial. Como esses eventos moldaram o futuro da unidade pol\u00edtica dos pa\u00edses do Golfo e o espa\u00e7o geopol\u00edtico e diplom\u00e1tico em que operaram?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: Os cortes na produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e o embargo \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o que come\u00e7aram com a guerra s\u00e3o um dos exemplos mais bem-sucedidos de a\u00e7\u00e3o coordenada entre os Estados do Golfo. O pre\u00e7o do petr\u00f3leo quadruplicou em dois meses. Esse patamar elevado de pre\u00e7os perdurou por anos ap\u00f3s o embargo e representou uma chuva de lucros para os Estados do Golfo. Isso tamb\u00e9m desencadeou v\u00e1rias mudan\u00e7as do lado estadunidense. A administra\u00e7\u00e3o Nixon iniciou o que viria a ser um projeto de d\u00e9cadas para diversificar as fontes de energia, a fim de depender menos do petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio. Tamb\u00e9m procurou com afinco uma solu\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica para o conflito \u00e1rabe-israelense. Nixon e Kissinger passaram a compreender que, na mente dos l\u00edderes \u00e1rabes, havia um v\u00ednculo efetivo entre as conversa\u00e7\u00f5es para acabar com a guerra e a pol\u00edtica dos mercados globais de energia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os primeiros acordos de desengajamento entre Egito e Israel, em 1974, abriram caminho para os Acordos de Camp David, de 1978, e para o acordo de paz entre as duas na\u00e7\u00f5es, de 1979. O embargo do petr\u00f3leo for\u00e7ou os Estados Unidos a formular uma perspectiva diplom\u00e1tica de longo prazo\u2014os dois partidos pol\u00edticos dominantes compreenderam que tinham que levar a resolu\u00e7\u00e3o do conflito \u00e1rabe-israelense mais a s\u00e9rio. Isso ensinou aos Estados do Golfo que, se fossem capazes de coordenar suas a\u00e7\u00f5es, poderiam obter sucesso. Sua unidade pol\u00edtica e econ\u00f4mica ampliou-se ainda mais com o Conselho de Coopera\u00e7\u00e3o do Golfo, formado em resposta \u00e0 irrup\u00e7\u00e3o da guerra entre Ir\u00e3 e Iraque em 1980.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">jg<\/span><\/strong>: O que fez com que o Conselho de Coopera\u00e7\u00e3o do Golfo (CCG) surgisse nesses anos decisivos? Havia diferentes vis\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o entre os seus fundadores?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: Os seis pa\u00edses que fazem parte do CCG\u2014Bar\u00e9m, Kuwait, Om\u00e3, Catar, Ar\u00e1bia Saudita e Emirados \u00c1rabes Unidos\u2014ficaram vulner\u00e1veis durante a guerra entre Ir\u00e3 e Iraque. Os Emirados \u00c1rabes Unidos n\u00e3o quiseram tomar partido na guerra, assumindo publicamente uma posi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o alinhamento. Em seguida, os l\u00edderes daqueles pa\u00edses concordaram que a cria\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as formais seria \u00fatil para sua seguran\u00e7a no longo prazo. Outro evento relevante, obviamente, foi a revolu\u00e7\u00e3o iraniana de 1979, que teve enormes repercuss\u00f5es na regi\u00e3o. Para as na\u00e7\u00f5es do Golfo, ela marcou o in\u00edcio de um v\u00ednculo de seguran\u00e7a mais profundo com os Estados Unidos. Esses tr\u00eas eventos\u2014o embargo da OPEP em 1973, a revolu\u00e7\u00e3o iraniana em 1979 e a guerra entre Ir\u00e3 e Iraque, especialmente a ofensiva iraniana de 1982\u2014foram decisivos para que os pa\u00edses do Golfo passassem a colaborar de maneira mais pr\u00f3xima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">jg<\/span><\/strong>: O per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o do CCG e da guerra entre Ir\u00e3 e Iraque \u00e9 marcado por um aumento substancial dos gastos militares dos Estados do Golfo, algo possibilitado pelas novas receitas advindas do petr\u00f3leo. Como isso os afetou?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: Nos anos imediatamente ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o iraniana houve grande expans\u00e3o da influ\u00eancia dos Estados Unidos na regi\u00e3o do Golfo, fen\u00f4meno recebido com entusiasmo pelos l\u00edderes locais. A ret\u00f3rica iraniana era de exporta\u00e7\u00e3o de sua revolu\u00e7\u00e3o. A regi\u00e3o estava em alerta m\u00e1ximo, em especial pa\u00edses como a Ar\u00e1bia Saudita e o Bar\u00e9m, com popula\u00e7\u00f5es xiitas consider\u00e1veis, mas com governos sunitas. Os membros do CCG responderam tentando atrair os estadunidenses para a regi\u00e3o, o que funcionaria como instrumento de dissuas\u00e3o. Isso fez com que seus gastos em defesa aumentassem drasticamente. No Bar\u00e9m, em 1982\u2014ou seja, dois anos ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o iraniana\u2014, chegaram a 8,5% do PIB. A Quinta Frota da Marinha dos Estados Unidos transferiu seu quartel-general para l\u00e1. Foi nesse momento que eles passaram a ver os Estados Unidos como um protetor necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">De Oslo ao acordo nuclear com o Ir\u00e3<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ds<\/span><\/strong>: Qual a perspectiva dos Estados do Golfo sobre os Acordos de Oslo? Eles viam ali uma possibilidade de solu\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o palestina\u2014e, portanto, para a quest\u00e3o da normaliza\u00e7\u00e3o\u2014ou estavam mais reticentes?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: No in\u00edcio do processo de Oslo havia muito otimismo nos pa\u00edses do Golfo. Eles pensavam que essa quest\u00e3o poderia ser finalmente resolvida. Confiantes de que as negocia\u00e7\u00f5es de paz terminariam com a cria\u00e7\u00e3o de um Estado palestino, Om\u00e3 e Catar come\u00e7aram a abrir suas portas para Israel, instalando escrit\u00f3rios comerciais em suas capitais. Uma crescente normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es com Israel parecia poss\u00edvel. Esses dois escrit\u00f3rios comerciais foram desativados quando a solu\u00e7\u00e3o de dois Estados n\u00e3o se concretizou. No caso do Catar, isso resultou, em parte, de press\u00f5es sauditas e iranianas. Em 2000, tanto a Ar\u00e1bia Saudita quanto o Ir\u00e3 amea\u00e7aram n\u00e3o comparecer a uma c\u00fapula isl\u00e2mica que estava sendo planejada em Doha. O Catar fechou seu escrit\u00f3rio comercial e, um ano depois, a Segunda Intifada irrompeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante esse per\u00edodo, os pa\u00edses do Golfo estavam amplamente comprometidos com o conceito de \u201cterra por paz\u201d\u2014 a interpreta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica internacional da <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Land_for_peace#:~:text=The%20name%20Land%20for%20Peace,of%20belligerency%20(Making%20Peace).\">Resolu\u00e7\u00e3o 242 do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU<\/a>\u2014, que regera todas as discuss\u00f5es de paz entre \u00e1rabes e israelenses desde 1967. Mesmo durante essa primeira onda de di\u00e1logo p\u00f3s-Oslo, o amplo equil\u00edbrio de poder na regi\u00e3o impunha o reconhecimento do Estado palestino como uma condi\u00e7\u00e3o para a normaliza\u00e7\u00e3o. Portanto, quando o fracasso das chamadas negocia\u00e7\u00f5es de paz durante a presid\u00eancia de George W. Bush minou essa perspectiva, os Estados do Golfo retrocederam na normaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">jg<\/span><\/strong>: O ano de 2006 \u00e9 decisivo para o crescimento da influ\u00eancia do Ir\u00e3 na regi\u00e3o, o que fez aumentar os temores dos Estados do Golfo. Tais temores cresceram ainda mais durante o mandato de Obama, com o acordo nuclear entre Estados Unidos e Ir\u00e3. Qual \u00e9 o pr\u00f3ximo passo da hist\u00f3ria que nos leva aos Acordos de Abra\u00e3o sob Trump?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: Em 2001, a Ar\u00e1bia Saudita lan\u00e7ou a Iniciativa de Paz \u00c1rabe, um roteiro para a normaliza\u00e7\u00e3o baseado na f\u00f3rmula \u201cterra por paz\u201d. Apoiada pela Liga \u00c1rabe, ela tinha como condi\u00e7\u00e3o que Israel se retirasse dos territ\u00f3rios ocupados\u2014que, na \u00e9poca, inclu\u00edam a Cisjord\u00e2nia, as Colinas de Gol\u00e3 e o L\u00edbano\u2014e reconhecesse o Estado palestino. Dois eventos em 2006 fizeram com que os pa\u00edses do Golfo iniciassem um alinhamento estrat\u00e9gico com Israel. Inicialmente, o Ir\u00e3 anunciou que havia enriquecido ur\u00e2nio pela primeira vez, inaugurando seu programa nuclear. Em seguida, o Hezbollah expulsou Israel do L\u00edbano. Isso sinalizou aos l\u00edderes do Golfo que o Ir\u00e3\u2014juntamente com seus <em>proxies<\/em> e aliados\u2014se tornara uma for\u00e7a relevante na regi\u00e3o. Assim como em 1979, eles foram confrontados com a ideia de uma for\u00e7a rival que poderia amea\u00e7ar sua posi\u00e7\u00e3o no longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse momento que come\u00e7a a ocorrer uma aproxima\u00e7\u00e3o com Israel que n\u00e3o envolve mais a quest\u00e3o palestina. A normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e o avan\u00e7o da pauta de um Estado palestino se dissociam. Em 2007, os Emirados \u00c1rabes Unidos passam a adquirir tecnologia israelense para um sistema de gerenciamento de tr\u00e1fego, al\u00e9m de dados de sat\u00e9lites de monitoramento do programa nuclear do Ir\u00e3. Longe dos holofotes, Israel, Estados Unidos e v\u00e1rios Estados do Golfo\u2014Bar\u00e9m, Ar\u00e1bia Saudita e Emirados \u00c1rabes Unidos\u2014passam a discutir sobre uma amea\u00e7a compartilhada proveniente do Ir\u00e3\u2014algo revelado posteriormente pelo WikiLeaks.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da perspectiva do Golfo, essas conversas durante a gest\u00e3o Obama tinham como objetivo convencer os Estados Unidos a adotar uma postura mais dura contra o Ir\u00e3, com mais san\u00e7\u00f5es e isolamento. Nesse sentido, Israel parecia uma ferramenta \u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ds<\/span><\/strong>: Qual a rela\u00e7\u00e3o entre o movimento dos Estados do Golfo contra o acordo nuclear com o Ir\u00e3, o Plano de A\u00e7\u00e3o Conjunto Global (JCPOA, na sigla em ingl\u00eas) e a celebra\u00e7\u00e3o dos Acordos de Abra\u00e3o sob o governo Trump? H\u00e1 tens\u00e3o ou continuidade entre eles?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: As rela\u00e7\u00f5es entre o Golfo e o Ir\u00e3 tiveram duas fases: a primeira, de 2006 a 2019, foi de confronto; a segunda, na qual, no meu entendimento, ainda estamos, \u00e9 caracterizada pela distens\u00e3o\u2014a palavra de ordem \u00e9 criar la\u00e7os positivos e evitar conflitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre 2006 e 2019, os pa\u00edses do Golfo pleiteavam san\u00e7\u00f5es e alguns chegaram at\u00e9 a apoiar discretamente uma a\u00e7\u00e3o militar direta contra o Ir\u00e3. Eles concordavam com a posi\u00e7\u00e3o de Netanyahu de que o JCPOA, ao inv\u00e9s de impedir que o Ir\u00e3 obtivesse a bomba at\u00f4mica, facilitava esse acesso. Os pa\u00edses do Golfo queriam que o JCPOA tratasse da produ\u00e7\u00e3o de m\u00edsseis iranianos\u2014segundo eles, uma amea\u00e7a equivalente \u00e0quela do programa nuclear.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dois eventos fizeram essa abordagem mudar. O primeiro foram os ataques a navios-tanque de tr\u00eas nacionalidades diferentes na costa dos Emirados \u00c1rabes Unidos no ver\u00e3o de 2019. O outro foi o ataque \u00e0 Aramco na \u00c1rabia Saudita, cuja autoria foi reivindicada pelas for\u00e7as Houthi. Isso provocou uma verdadeira mudan\u00e7a de pensamento na Ar\u00e1bia Saudita e nos Emirados \u00c1rabes Unidos, principalmente porque as agress\u00f5es ocorreram durante o governo Trump. Uma vez que os Estados Unidos se abstiveram de enviar qualquer apoio e que o Ir\u00e3 sugeria indiretamente que os ataques eram uma retalia\u00e7\u00e3o \u00e0 retirada de Trump do JCPOA, os Estados do Golfo passaram a adotar uma postura mais diplom\u00e1tica com o Ir\u00e3. Ap\u00f3s os ataques de 2019, os Emirados \u00c1rabes Unidos e o Ir\u00e3 realizaram v\u00e1rios interc\u00e2mbios diplom\u00e1ticos. E, de maneira significativa, a Ar\u00e1bia Saudita e o Ir\u00e3 restabeleceram rela\u00e7\u00f5es ap\u00f3s sete anos, em um <a href=\"https:\/\/gjia.georgetown.edu\/2023\/06\/23\/saudi-iran-deal-a-test-case-of-chinas-role-as-an-international-mediator\/\">acordo intermediado pela China<\/a>. Nos \u00faltimos meses, houve novas trocas de visitas entre ministros sauditas e iranianos em Doha, o que seria impens\u00e1vel h\u00e1 alguns anos. Portanto, os l\u00edderes do Golfo est\u00e3o trabalhando por uma distens\u00e3o com o Ir\u00e3: est\u00e3o enviando uma mensagem clara de que querem evitar conflitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">jg<\/span><\/strong>: A Primavera \u00c1rabe foi outra fonte de instabilidade para as pot\u00eancias do Golfo. Voc\u00ea poderia falar um pouco sobre como 2011 impactou esses governos e como eles encaram a oposi\u00e7\u00e3o popular \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: V\u00e1rios fatores levaram a essa reaproxima\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses do Golfo e Israel. O primeiro foram os eventos de 2006 que j\u00e1 discutimos. O segundo foi o surgimento dessa nova gera\u00e7\u00e3o de l\u00edderes no Golfo, menos interessados na quest\u00e3o Israel-Palestina e muito mais focados na suposta amea\u00e7a vinda do Ir\u00e3. A maioria desses l\u00edderes recebeu uma educa\u00e7\u00e3o mais ocidental e pr\u00f3-Estados Unidos, e n\u00e3o tem o mesmo compromisso com o nacionalismo \u00e1rabe que os seus pais tinham.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terceiro foi a Primavera \u00c1rabe, que fez as alian\u00e7as diplom\u00e1ticas dos l\u00edderes do Golfo e de Netanyahu convergirem outra vez. Na \u00e9poca, Netanyahu descreveu a Primavera \u00c1rabe como um novo 1979\u2014isto \u00e9, um risco \u00e0 seguran\u00e7a de Israel. Enquanto isso, os Estados do Golfo estavam preocupados com a possibilidade de os movimentos pr\u00f3-democracia fortalecerem os elementos isl\u00e2micos na regi\u00e3o, o que amea\u00e7aria sua sobreviv\u00eancia a longo prazo. Netanyahu e os l\u00edderes do Golfo concordavam que a Primavera \u00c1rabe constitu\u00eda um perigo para o status quo na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, a repress\u00e3o \u00e0 sociedade civil \u00e9 parte do que torna a normaliza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Por exemplo, no Bar\u00e9m houve um levante de massas semelhante aos que vimos em outros locais e as for\u00e7as do CCG se mobilizaram para acabar com ele. Os acordos com Israel s\u00e3o profundamente impopulares. Eles s\u00f3 foram poss\u00edveis porque n\u00e3o h\u00e1 representa\u00e7\u00e3o popular. Mesmo antes da normaliza\u00e7\u00e3o, pesquisas apontam que entre 85% e 95% da popula\u00e7\u00e3o do Golfo se opunha vigorosamente \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es com Israel. A normaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria ocorrido sem a via repressiva, que s\u00f3 recrudesceu ap\u00f3s o 7 de outubro.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O 7 de outubro e os Acordos de Abra\u00e3o hoje<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ds<\/span><\/strong>: Como o 7 de outubro influenciou na normaliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: Os Estados do Golfo n\u00e3o querem uma escalada da tens\u00e3o entre Israel e Ir\u00e3. Eles sabem que isso impactaria suas economias, no m\u00ednimo, indiretamente. O genoc\u00eddio em Gaza imp\u00f4s limites a um cronograma mais assertivo de normaliza\u00e7\u00e3o com Israel\u2014n\u00e3o necessariamente porque os regimes estejam comovidos com as mortes de palestinos, mas porque a indigna\u00e7\u00e3o popular nesses pa\u00edses deixou mais claro do que nunca que os Acordos de Abra\u00e3o e a legitima\u00e7\u00e3o que eles proporcionam a Israel s\u00e3o profundamente impopulares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A meu ver, o 7 de outubro e o ano que se seguiu foram o teste definitivo para a normaliza\u00e7\u00e3o. Mesmo depois do que Israel fez em Gaza e no L\u00edbano\u2014todos os n\u00fameros, o sofrimento extremo dos civis, a desestabiliza\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica da regi\u00e3o\u2014, o projeto de normaliza\u00e7\u00e3o sobreviveu nos pa\u00edses do Golfo. Eles n\u00e3o expulsaram embaixadores nem fizeram nada de substancial para interromper suas rela\u00e7\u00f5es com Israel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ds<\/span><\/strong>: Tecnologias militares e intelig\u00eancia s\u00e3o um atrativo para que os pa\u00edses do Golfo, especialmente os Emirados \u00c1rabes Unidos, busquem a normaliza\u00e7\u00e3o com Israel. Mas o 7 de outubro, em muitos aspectos, representou um fracasso desses dois supostos recursos. Isso influencia a avalia\u00e7\u00e3o que os pa\u00edses do Golfo fazem de sua rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos e com Israel, especialmente se considerarmos que o Ir\u00e3, de algum modo, pode v\u00ea-los como <em>proxies<\/em> dos Estados Unidos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: Um dos fatores que impulsionam a normaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 certamente a possibilidade de aquisi\u00e7\u00e3o de tecnologia de Israel. Embora o 7 de outubro tenha sido um fracasso em termos de seguran\u00e7a para Israel, isso n\u00e3o diminui a utilidade que essas tecnologias t\u00eam para os Estados do Golfo, especialmente as tecnologias antim\u00edsseis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando os Acordos de Abra\u00e3o foram assinados, ningu\u00e9m mencionou quest\u00f5es de seguran\u00e7a ou tens\u00f5es com o Ir\u00e3\u2014todo o assunto girou em torno de coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, la\u00e7os interpessoais, com\u00e9rcio e neg\u00f3cios. Essa omiss\u00e3o \u00e9 muito marcante, porque esses Estados est\u00e3o agora envolvidos em uma esp\u00e9cie de segunda fase da diplomacia com o Ir\u00e3, que n\u00e3o passa mais por um antagonismo ativo. Eles ainda querem adquirir armas e intelig\u00eancia de Israel para se protegerem de futuros ataques do Ir\u00e3, mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o querem provocar tais taques, nem do Ir\u00e3 nem de grupos pr\u00f3ximos a ele, por isso evitam essa linguagem militar de confronto. Se observarmos o primeiro ano dos Acordos, pouco se fala em tecnologia ou transfer\u00eancias militares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso aparece no segundo ano dos Acordos. Em janeiro de 2022, os Emirados \u00c1rabes Unidos foram atingidos por tr\u00eas ataques de m\u00edsseis. Em resposta, pela primeira vez solicitaram publicamente tecnologias antim\u00edsseis a antidrones de Israel. Israel lhes deu uma tecnologia muito semelhante \u00e0 que pediram\u2014o sistema Barak, implantado pouco tempo depois. Os l\u00edderes dos Emirados acham que Israel, e n\u00e3o os Estados Unidos, foi quem veio em sua prote\u00e7\u00e3o. V\u00e1rios dias depois, Israel enviou uma equipe aos Emirados \u00c1rabes Unidos para investigar como os ataques ocorreram. O Bar\u00e9m, diferentemente da Ar\u00e1bia Saudita e dos Emirados \u00c1rabes Unidos, logo de cara fez declara\u00e7\u00f5es em tons de aprova\u00e7\u00e3o de que o Mossad est\u00e1 presente em seu pa\u00eds. Isso demonstra uma abordagem ligeiramente diferente, um pouco mais conflituosa, em rela\u00e7\u00e3o ao Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na frente da governan\u00e7a dom\u00e9stica, <em>spywares<\/em> israelenses como o Pegasus ajudam os pa\u00edses do Golfo a lidar com a dissid\u00eancia interna. Antes do 7 de outubro, havia a sensa\u00e7\u00e3o de que Israel, empregando tecnologias muito avan\u00e7adas, havia sido capaz de instalar efetivamente uma ocupa\u00e7\u00e3o permanente. As transfer\u00eancias de conhecimento\u2014tanto de tecnologia quanto de organiza\u00e7\u00e3o do policiamento da popula\u00e7\u00e3o\u2014foram valiosas para os pa\u00edses do Golfo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uso documentado de <em>spywares<\/em> contra l\u00edderes dissidentes nos Emirados \u00c1rabes Unidos. Em meu livro, mencionei o caso de Ahmed Mansour, que foi alvo dessas tecnologias em diversas ocasi\u00f5es. Embora o tipo de software de vigil\u00e2ncia usado para rastre\u00e1-lo tenha origens confusas\u2014ele \u00e9 vendido por meio do Chipre e de outros lugares\u2014, \u00e9 certo que muitos desses programas eram israelenses. O Bar\u00e9m n\u00e3o demonstra tanto dom\u00ednio tecnol\u00f3gico nessa frente. L\u00e1, a dissid\u00eancia \u00e9 muito mais vis\u00edvel do que nos Emirados \u00c1rabes Unidos, abrangendo uma parcela muito maior da sociedade. Durante a Primavera \u00c1rabe, o pa\u00eds exibiu formas mais t\u00edpicas de repress\u00e3o, com pris\u00f5es e interrogat\u00f3rios. Mas eu n\u00e3o ficaria surpreso se soubesse que o Bar\u00e9m tamb\u00e9m est\u00e1 adquirindo <em>spywares<\/em> mais sofisticados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ds<\/span><\/strong>: Voc\u00ea falou de como os Estados do Golfo, ao promoverem uma narrativa espec\u00edfica sobre a normaliza\u00e7\u00e3o, abandonaram a quest\u00e3o palestina e passaram a retratar o conflito \u00e1rabe-israelense como algo antigo, que faz parte do passado, que n\u00e3o deve mais ser objeto de negocia\u00e7\u00e3o, mas de gest\u00e3o. O 7 de outubro foi tanto uma rea\u00e7\u00e3o a esse movimento quanto um desmantelamento dessa narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: Essa \u00e9 exatamente a l\u00f3gica por tr\u00e1s da normaliza\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o palestina \u00e9 insol\u00favel; portanto, n\u00e3o se deve gastar muita energia com ela. Ent\u00e3o, por que deixar que isso atrapalhe a cria\u00e7\u00e3o de la\u00e7os mais estreitos com um parceiro \u00fatil? A nova gera\u00e7\u00e3o na lideran\u00e7a do Golfo \u00e9 caracterizada por esse sentimento.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa vis\u00e3o era compartilhada por autoridades do governo Trump. Mas o 7 de outubro mostrou que, na verdade, a quest\u00e3o palestina n\u00e3o pode ser evitada. Mesmo que n\u00e3o haja uma preocupa\u00e7\u00e3o efetiva com a ocupa\u00e7\u00e3o, o fato de irromper como um conflito muito devastador tem implica\u00e7\u00f5es para a estabilidade regional e econ\u00f4mica. Ataques dos Houthi no Mar Vermelho ou um m\u00edssil lan\u00e7ado ocasionalmente do I\u00eamen se tornam problemas imediatos para a Ar\u00e1bia Saudita, que est\u00e1 construindo a zona econ\u00f4mica de Neom bem no Mar Vermelho. O 7 de outubro dissipou a narrativa da normaliza\u00e7\u00e3o e mostrou que n\u00e3o se pode simplesmente ignorar a quest\u00e3o do Estado palestino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra consequ\u00eancia do 7 de outubro \u00e9 a forte manifesta\u00e7\u00e3o de apoio \u00e1rabe aos palestinos. Isso derrubou o mito, que est\u00e1 na base dos Acordos de Abra\u00e3o, de que as popula\u00e7\u00f5es do Golfo n\u00e3o se importam mais com os palestinos e est\u00e3o felizes com a normaliza\u00e7\u00e3o. Para os pa\u00edses mais suscet\u00edveis \u00e0 agita\u00e7\u00e3o c\u00edvica, como a Ar\u00e1bia Saudita, isso elevou o custo da normaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ds<\/span><\/strong>: Parece que, apesar de a guerra ter dificultado muito o avan\u00e7o da normaliza\u00e7\u00e3o, o governo Biden tentou aplicar a pr\u00f3pria normaliza\u00e7\u00e3o como solu\u00e7\u00e3o para a guerra. Essa \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o desesperada? Ou existe de fato a possibilidade de um acordo no qual a normaliza\u00e7\u00e3o fa\u00e7a com que os pa\u00edses do Golfo aceitem a administra\u00e7\u00e3o externa de Gaza?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">ef<\/span><\/strong>: A abordagem defendida por Brett McGurk, Tony Blinken, Jake Sullivan e outros \u00e9 exatamente essa: uma grande barganha, na qual a Ar\u00e1bia Saudita receberia a oferta de normaliza\u00e7\u00e3o e de um Estado palestino\u2014ou pelo menos alguma perspectiva de um Estado palestino\u2014em troca de um acordo de defesa. As autoridades da Ar\u00e1bia Saudita j\u00e1 esclareceram v\u00e1rias vezes que n\u00e3o abrem m\u00e3o do reconhecimento de um Estado palestino. Elas esperam dos Estados Unidos n\u00e3o apenas um acordo de seguran\u00e7a vinculante, mas algo semelhante ao que prev\u00ea o artigo 5\u00ba da OTAN, o que garantiria que, se os sauditas forem atacados, os Estados Unidos ser\u00e3o obrigados a responder. Al\u00e9m disso, querem tecnologia avan\u00e7ada e acesso a um programa nuclear civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A normaliza\u00e7\u00e3o com a Ar\u00e1bia Saudita est\u00e1 longe de ser um neg\u00f3cio fechado, e penso que as autoridades estadunidenses t\u00eam sido excessivamente otimistas. A estrat\u00e9gia de longo prazo dos Estados Unidos \u00e9 delegar suas pol\u00edticas regionais a uma alian\u00e7a entre as monarquias sunitas do Golfo e Israel. Mas h\u00e1 v\u00e1rios desafios para que isso ocorra. O primeiro \u00e9 convencer o Congresso a atender \u00e0s exig\u00eancias da Ar\u00e1bia Saudita. O segundo \u00e9 que o atual governo de Israel\u2014o mais \u00e0 direita de sua hist\u00f3ria\u2014jamais concordaria com a condi\u00e7\u00e3o de um Estado palestino. Nenhum l\u00edder israelense apoia isso, e a elei\u00e7\u00e3o presidencial dos Estados Unidos, do ponto de vista do mundo \u00e1rabe, foi uma disputa entre o ruim e o pior\u2014Netanyahu j\u00e1 recebeu carta branca e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para esperarmos que o segundo mandato de Trump seja diferente do primeiro nesse aspecto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, a pergunta que fica \u00e9: os sauditas concordariam com a normaliza\u00e7\u00e3o sem o estabelecimento um Estado palestino? Isso n\u00e3o est\u00e1 claro. H\u00e1 quem diga que o pr\u00edncipe herdeiro n\u00e3o considera o Estado palestino uma prioridade e que ficaria satisfeito com qualquer gesto simb\u00f3lico nessa dire\u00e7\u00e3o. Outros afirmam que seria arriscado demais adotar uma posi\u00e7\u00e3o de antagonismo com sua popula\u00e7\u00e3o. Os sauditas lideraram a Iniciativa de Paz \u00c1rabe e n\u00e3o querem perder sua influ\u00eancia, muito menos alienar milh\u00f5es de mu\u00e7ulmanos fora do Golfo que s\u00e3o decididamente pr\u00f3-Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-right\">Tradu\u00e7\u00e3o: Pedro Davoglio<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 7 de outubro de 2023, a normaliza\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica e econ\u00f4mica entre Israel e os Estados \u00e1rabes parecia ser a principal tend\u00eancia pol\u00edtica do Oriente M\u00e9dio. 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