{"id":20078,"date":"2024-08-01T14:05:22","date_gmt":"2024-08-01T14:05:22","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/nao-categorizado\/haiti-long-struggle\/"},"modified":"2024-10-11T17:01:40","modified_gmt":"2024-10-11T17:01:40","slug":"haiti-long-struggle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/entrevistas-br\/haiti-long-struggle\/","title":{"rendered":"A longa luta do Haiti"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outubro de 2023, o Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas <a href=\"https:\/\/press.un.org\/en\/2023\/sc15432.doc.htm#:~:text=2%20October%202023-,Security%20Council%20Authorizes%20Multinational%20Security%20Support%20Mission%20for%20Haiti%20for,in%20Favour%20with%202%20Abstentions\">votou<\/a> por \u201cautorizar a implementa\u00e7\u00e3o de uma Miss\u00e3o Multinacional de Apoio \u00e0 Seguran\u00e7a no Haiti, liderada pelo Qu\u00eania\u201d. Apesar de terem se abstido de votar, tamb\u00e9m a R\u00fassia e a China condenaram \u201ca viol\u00eancia crescente, as atividades criminosas, bem como os abusos e as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos que solapam a paz, a estabilidade e a seguran\u00e7a do Haiti e da regi\u00e3o\u201d. Poucos meses antes, a <a href=\"https:\/\/caricom.org\/statement-on-multi-national-force-to-support-haiti\/\">Comunidade Caribenha (Caricom)<\/a> tinha articulado seu \u201capoio \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o da lei e da ordem\u201d no pa\u00eds. Os Estados Unidos prometeram 200 milh\u00f5es de d\u00f3lares de aux\u00edlio para tropas militares. Al\u00e9m dos mil policiais quenianos, Bahamas, Jamaica, Belize, Suriname, Ant\u00edgua e Barbuda, Guatemala, Peru, Senegal, Ruanda, It\u00e1lia, Espanha e Mong\u00f3lia tamb\u00e9m prometeram enviar contingentes armados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes disso, o ex-primeiro ministro Ariel Henry\u2014que atuava como presidente <em>de facto<\/em>, portanto, n\u00e3o eleito\u2014j\u00e1 havia apresentado na reuni\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas a sua segunda solicita\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/media.un.org\/en\/asset\/k13\/k13xxt7k6f\">instando<\/a> a comunidade internacional a agir \u201cem nome das mulheres e meninas estupradas todos os dias, em nome de todo o povo que \u00e9 v\u00edtima da barb\u00e1rie das gangues\u201d. Poucos meses antes, o Ministro da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, que tamb\u00e9m atuava como Ministro da Cultura e Comunica\u00e7\u00e3o do Haiti, Emmelie Proph\u00e8te, havia declarado que bairros invadidos pelas \u201cguerrilhas urbanas\u201d eram <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=84fnnrz9Pmw&amp;t=4157s\">\u201cterrit\u00f3rios perdidos\u201d<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crise do Haiti \u00e9 retratada pela m\u00eddia internacional tradicional como um problema de viol\u00eancia de gangues que escapou ao controle do Estado. Mas ainda antes das solicita\u00e7\u00f5es de Henry \u00e0 ONU em 2022 e 2023, o sil\u00eancio constrangedor a respeito das centenas de pessoas massacradas e sequestradas durante a sua gest\u00e3o havia sido registrado por movimentos sociais e organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, bem como por ativistas de m\u00eddias sociais. Al\u00e9m disso, uma s\u00e9rie de relat\u00f3rios independentes descreveu o mecanismo pelo qual o caos foi \u201cfabricado\u201d por agentes nacionais, internacionais e transnacionais, incluindo o Estado e o corpo diplom\u00e1tico.<a data-contents=\"Relat\u00f3rios da RNDDH [(<)em(>)R\u00e9seau National de D\u00e9fense des Droits Humains(<)\/em(>) &#8211; Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos], da (<)em(>)Fondasyon Je Kale (<)\/em(>)(Funda\u00e7\u00e3o Olho Vivo), da Cl\u00ednica Internacional de Direitos Humanos da Escola de Direito de Harvard e de um Painel de Especialistas do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Mais informa\u00e7\u00f5es em: (<)a href='https:\/\/hrp.law.harvard.edu\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Killing_With_Impunity-1.pdf'(>)https:\/\/hrp.law.harvard.edu\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Killing_With_Impunity-1.pdf(<)\/a(>) e (<)a href='https:\/\/insightcrime.org\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Report-Panel-of-Experts-Haiti_gangs.pdf'(>)https:\/\/insightcrime.org\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Report-Panel-of-Experts-Haiti_gangs.pdf(<)\/a(>)\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Relat\u00f3rios da RNDDH [(<)em(>)R\u00e9seau National de D\u00e9fense des Droits Humains(<)\/em(>) &#8211; Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos], da (<)em(>)Fondasyon Je Kale (<)\/em(>)(Funda\u00e7\u00e3o Olho Vivo), da Cl\u00ednica Internacional de Direitos Humanos da Escola de Direito de Harvard e de um Painel de Especialistas do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Mais informa\u00e7\u00f5es em: (<)a href='https:\/\/hrp.law.harvard.edu\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Killing_With_Impunity-1.pdf'(>)https:\/\/hrp.law.harvard.edu\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Killing_With_Impunity-1.pdf(<)\/a(>) e (<)a href='https:\/\/insightcrime.org\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Report-Panel-of-Experts-Haiti_gangs.pdf'(>)https:\/\/insightcrime.org\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Report-Panel-of-Experts-Haiti_gangs.pdf(<)\/a(>)<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com a <a href=\"https:\/\/web.rnddh.org\/?lang=en\">Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (<em>R\u00e9seau National de D\u00e9fense des Droits Humains<\/em>, RNDDH)<\/a>, entre novembro de 2018 e mar\u00e7o de 2024, \u201cgangues\u201d lideraram mais de 25 massacres e outros ataques armados, implicando assassinatos de mais de 1.500 pessoas, estupros coletivos de mais de 160 meninas e mulheres, o desaparecimento de d\u00fazias de pessoas, a mutila\u00e7\u00e3o de centenas e a destrui\u00e7\u00e3o de mais de 450 lares, o que resultou em mais de 500 mil refugiados internos. No in\u00edcio do per\u00edodo, os grupos armados atuavam isoladamente e rivalizavam entre si. A partir de agosto de 2020, no entanto, nove deles se aliaram sob a lideran\u00e7a do ex-policial Jimmy Ch\u00e9rizier, fen\u00f4meno visto com bons ollhos pela <a href=\"https:\/\/lenouvelliste.com\/article\/220527\/les-gangs-se-sont-federes-sur-proposition-de-la-commission-nationale-de-desarmement-demantelement-et-reinsertion\">Comiss\u00e3o Nacional de Desarmamento, Desmantelamento e Reinser\u00e7\u00e3o<\/a> do Haiti.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em janeiro de 2024, com o intuito de impedir o retorno ao pa\u00eds de Ariel Henry, que vinha do Qu\u00eania, Ch\u00e9rizier incorporou o restante das gangues da capital para dar in\u00edcio a uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d e assumiu o controle das cercanias do aeroporto em que pousaria o presidente em exerc\u00edcio. Nos meses seguintes, integrantes do grupo demoliram postos policiais e pris\u00f5es, incendiaram hospitais p\u00fablicos, universidades e bibliotecas e assassinaram v\u00e1rias centenas de pessoas. Tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/haiti.loopnews.com\/content\/les-locaux-de-la-cscca-prises-pour-cible-par-des-groupes-armes\">destru\u00edram<\/a> o Tribunal Superior de Contas e Contenciosos Administrativos, que abrigava os arquivos com registros de despesas do governo, inclusive os dossi\u00eas relativos ao acordo PetroCaribe com a Venezuela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em resposta, para substituir a gest\u00e3o de Henry, a Caricom articulou a forma\u00e7\u00e3o de um Conselho Presidencial de Transi\u00e7\u00e3o, composto por sete presidentes, todos homens,<a data-contents=\"O Conselho tamb\u00e9m inclui dois observadores sem poder de voto, incluindo uma mulher.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">O Conselho tamb\u00e9m inclui dois observadores sem poder de voto, incluindo uma mulher.<\/span> e, em sua maioria, representantes do <em>Parti Haitien T\u00e8t Kale<\/em> (PHTK) [Partido Haitiano Cabe\u00e7a Calva], que ocupava o poder desde 2011.<a data-contents=\"Os representantes do PHTK tinham mais peso do que os progressistas, o (<)em(>)Fanmi Lavalas(<)\/em(>) e o (<)em(>)Accord Montana(<)\/em(>), que buscaram uma transi\u00e7\u00e3o de governo ap\u00f3s o assassinato do presidente (<)em(>)de facto(<)\/em(>) Jovenel Moise, em 2021.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Os representantes do PHTK tinham mais peso do que os progressistas, o (<)em(>)Fanmi Lavalas(<)\/em(>) e o (<)em(>)Accord Montana(<)\/em(>), que buscaram uma transi\u00e7\u00e3o de governo ap\u00f3s o assassinato do presidente (<)em(>)de facto(<)\/em(>) Jovenel Moise, em 2021.<\/span> Em maio de 2024, o <a href=\"https:\/\/vantbefinfo.com\/le-deploiement-de-la-force-multinationale-en-haiti-leslie-voltaire-precise\/#google_vignette\">primeiro ato do Conselho<\/a> foi confirmar o compromisso da comunidade internacional com a continuidade da Miss\u00e3o Multinacional de Apoio \u00e0 Seguran\u00e7a, apesar das den\u00fancias populares em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Miss\u00e3o de Estabiliza\u00e7\u00e3o da ONU vigente entre 2004 e 2017 que, ao longo dos treze anos de exist\u00eancia, possibilitou o armamento das gangues. O Conselho tamb\u00e9m escanteou as demandas populares elementares de \u201c<em>chavire chody\u00e8 a<\/em>\u201d [<em>romper com o sistema<\/em>], estruturadas pela quest\u00e3o: \u201c<em>Kot K\u00f2b PetroKaribe A<\/em>?\u201d [<em>Onde est\u00e1 o dinheiro do PetroCaribe?<\/em>]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conversa a seguir, entre Sabine Lamour, Georges Eddy Lucien e Ernst Jean-Pierre, esclarece que a crise haitiana atual n\u00e3o se resume a um problema pass\u00edvel de resolu\u00e7\u00e3o por meio de ocupa\u00e7\u00e3o militar, novas elei\u00e7\u00f5es ou medidas de \u201cboa governan\u00e7a\u201d. Em vez disso, trata-se de uma luta de propor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, travada entre o povo do Haiti e o Estado neocolonial. O di\u00e1logo n\u00e3o se limita a questionar quem s\u00e3o as gangues, mas tamb\u00e9m por que as gangues, e por que agora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabine Lamour \u00e9 professora de sociologia na <em>Universit\u00e9 d\u2019\u00c9tat d\u2019Haiti<\/em> e atuou durante cinco anos como coordenadora nacional de Mulheres Haitianas em Solidariedade (SOFA). Georges Eddy Lucien \u00e9 professor de hist\u00f3ria e geografia na <em>Universit\u00e9 d\u2019\u00c9tat d\u2019Haiti<\/em>. Ernst Jean-Pierre \u00e9 coordenador geral do Grupo de Pesquisa sobre Iniciativas para um Desenvolvimento Alternativo e Participativo. O texto a seguir \u00e9 baseado na discuss\u00e3o de um painel realizado em outubro de 2022 na 9\u00aa Confer\u00eancia Anual de Filosofia da Religi\u00e3o em Tradi\u00e7\u00f5es Africanas, e foi editado para refletir os desenvolvimentos pol\u00edticos ocorridos desde ent\u00e3o, esbo\u00e7ados acima.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Baseado num painel realizado em outubro de 2022 na 9\u00aa Confer\u00eancia Anual de Filosofia da Religi\u00e3o em Tradi\u00e7\u00f5es Africanas, este texto foi editado para refletir sobre os recentes desenvolvimentos pol\u00edticos esbo\u00e7ados acima.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>&nbsp;\u2013 Mamyrah Doug\u00e9-Prosper<\/em><\/h4>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Um di\u00e1logo entre Mamyrah Doug\u00e9-Prosper, Sabine Lamour, Georges Eddy Lucien e Ernst Jean-Pierre<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Mamyrah Doug\u00e9-prosper<\/span>: As gangues\u2014tamb\u00e9m chamadas de bases\u2014controlam territ\u00f3rios abandonados pelo Estado. S\u00e3o bairros populares que t\u00eam pouco ou nenhum acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel, eletricidade, escolas, hospitais e empregos. Muitos desses territ\u00f3rios constam no mapa do Estado, outros s\u00e3o assentamentos informais ou favelas que abrigam mais de um milh\u00e3o de pessoas. A maior parte das gangues est\u00e1 concentrada na \u00e1rea metropolitana de Porto Pr\u00edncipe, nas proximidades de parques industriais, portos internacionais, centros de distribui\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, armaz\u00e9ns de bens de luxo e alimentos importados e ao longo de rotas comerciais nacionais e internacionais. S\u00e3o majoritariamente compostas por meninos e homens jovens (apesar da presen\u00e7a de algumas poucas mulheres) que, confrontados pelas altas taxas de dexemprego e pela aus\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o educacional b\u00e1sica, decidem aderir aos grupos por raz\u00f5es ligadas \u00e0 prote\u00e7\u00e3o individual, ao exerc\u00edcio da respeitabilidade masculina entre suas comunidades e a ganhar dinheiro. Os l\u00edderes das gangues, por sua vez, s\u00e3o policiais reformados e agentes de seguran\u00e7a privada.<a data-contents=\"Mais informa\u00e7\u00f5es em Djems Olivier (2021), \u201cThe Political Anatomy of Haiti\u2019s Armed Gangs [A anatomia pol\u00edtica das gangues armadas do Haiti]\u201d, em NACLA: (<)a href='https:\/\/nacla.org\/news\/2021\/political-anatomy-haiti-armed-gangs'(>)https:\/\/nacla.org\/news\/2021\/political-anatomy-haiti-armed-gangs(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mais informa\u00e7\u00f5es em Djems Olivier (2021), \u201cThe Political Anatomy of Haiti\u2019s Armed Gangs [A anatomia pol\u00edtica das gangues armadas do Haiti]\u201d, em NACLA: (<)a href='https:\/\/nacla.org\/news\/2021\/political-anatomy-haiti-armed-gangs'(>)https:\/\/nacla.org\/news\/2021\/political-anatomy-haiti-armed-gangs(<)\/a(>).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A origem das primeiras gangues foram as brigadas de autodefesa institu\u00eddas ap\u00f3s a derrubada da ditadura de 29 anos da fam\u00edlia Duvalier (1957 a 1986). Em 1991, as brigadas foram refor\u00e7adas para proteger os bairros populares em Porto Pr\u00edncipe dos esquadr\u00f5es da morte formados durante durante o golpe de estado contra o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido democraticamente eleito. Em 1994, quando o chefe de Estado deposto volta ao poder, a distribui\u00e7\u00e3o de armas a seus apoiadores despolitiza a forma\u00e7\u00e3o das brigadas e os grupos se voltam para atividades criminosas, inclusive sequenstros. Durante o segundo mandato de Aristide (2001-2004), essas gangues \u201cde bairro\u201d foram refor\u00e7adas para enfrentar ex-oficiais militares, desmobilizados em 1995, que se organizavam para derrubar o governo. Em 2004, ap\u00f3s a remo\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de Aristide, seus <a href=\"https:\/\/www.democracynow.org\/2005\/7\/11\/eyewitnesses_describe_massacre_by_un_troops\">milicianos foram silenciados<\/a> pelas as tropas da Miss\u00e3o de Estabiliza\u00e7\u00e3o da ONU.<a data-contents=\"Mais informa\u00e7\u00f5es em: (<)a href='https:\/\/ayibopost.com\/dou-viennent-reellement-les-gangs-qui-terrorisent-haiti\/'(>)https:\/\/ayibopost.com\/dou-viennent-reellement-les-gangs-qui-terrorisent-haiti\/(<)\/a(>)\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mais informa\u00e7\u00f5es em: (<)a href='https:\/\/ayibopost.com\/dou-viennent-reellement-les-gangs-qui-terrorisent-haiti\/'(>)https:\/\/ayibopost.com\/dou-viennent-reellement-les-gangs-qui-terrorisent-haiti\/(<)\/a(>)<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As gangues n\u00e3o s\u00e3o monol\u00edticas. Mesmo assim, ao longo dos \u00faltimos seis anos, pesquisadores militantes identificaram os 23 principais grupos que operam na \u00e1rea metropolitana de Porto Pr\u00edncipe como <a href=\"https:\/\/www.alterpresse.org\/spip.php?article30216\">for\u00e7as paramilitares ou for\u00e7as armadas extralegais do Estado<\/a>. Como explicar isso?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Georges Eddy Lucien<\/span>: Desde 2016, a pol\u00edcia tem sido incapaz de conter as revoltas populares, de fazer o povo recuar. As gangues vieram para exercer duas fun\u00e7\u00f5es. Em primeiro lugar, atuam como agentes de repress\u00e3o em bairros com alta concentra\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora \u2013 sabemos que de 67% a 69% da popula\u00e7\u00e3o de Porto Pr\u00edncipe vive em bairros prec\u00e1rios. Um exemplo disso \u00e9 o massacre de residentes de Lasalin pelas gangues, ocorrido tr\u00eas semanas ap\u00f3s terem participado do protesto de 17 de outubro de 2018. Isso enviou uma mensagem clara aos moradores desses bairros: eles n\u00e3o t\u00eam direitos civis e pol\u00edticos e n\u00e3o podem se envolver em manifesta\u00e7\u00f5es dessa natureza. H\u00e1 outros exemplos, como o massacre em Belair durante o primeiro <em>peyi l\u00f2k<\/em>\u2014traduzido por alguns como \u201cgreve geral\u201d\u2014e o massacre em Kafou Marasa (Cit\u00e9 Soleil). As gangues cumprem a fun\u00e7\u00e3o de reprimir os moradores, e reprimem tamb\u00e9m organiza\u00e7\u00f5es progressistas. Entre 1987 e 1988, ap\u00f3s a derrubada da ditadura de Duvalier, in\u00fameras organiza\u00e7\u00f5es populares passaram a atuar dentro dos bairros, inclusive grupos estudantis e sindicatos. Hoje, no entanto, organizar uma reuni\u00e3o nos bairros onde seria poss\u00edvel aglutinar uma base popular local \u00e9 muito mais dif\u00edcil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda miss\u00e3o das gangues \u00e9 banalizar o sentido mobilizador de conceitos como os \u201cfilhos dos pobres\u201d ou a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d e contribuir para a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais. Durante o governo de Jovenel Moise (2017-2021), a participa\u00e7\u00e3o das gangues nos protestos trivializou as demandas populares. Essas s\u00e3o todas estrat\u00e9gias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Ex\u00e9rcito\u2014aqueles agentes tradicionais tipicamente acionados pelo Estado haitiano ou pela oligarquia local e internacional, especialmente pelos Estados Unidos, para resolver a crise\u2014n\u00e3o est\u00e1 mais presente. Se olharmos para 1946, 1956 e 1986, era sempre a mesma coisa: \u00edamos dormir e, quando acord\u00e1vamos, fic\u00e1vamos sabendo que o ex\u00e9rcito havia tomado o poder. Por\u00e9m, o Ex\u00e9rcito foi dissolvido em 1995 quando Jean-Bertrand Aristide, anteriormente deposto, voltou \u00e0 Presid\u00eancia. Hoje, o aparato repressor, seja a pol\u00edcia, sejam as gangues, assumiram um papel enorme. Durante a ditadura de Duvalier, certamente, sempre houve uma liga\u00e7\u00e3o entre o Ex\u00e9rcito e a mil\u00edcia. O Ex\u00e9rcito, no entanto, tinha mais recursos log\u00edsticos e mais armas do que grupos informais. Mas a informalidade era importante porque, sempre que o Ex\u00e9rcito precisava deixar uma a\u00e7\u00e3o de fora dos registros oficiais, usava a mil\u00edcia. Foi o caso do golpe de 1991, quando eles instrumentalizavam a Frente para o Avan\u00e7o e o Progresso do Haiti (FRAPH), que \u00e9 notoriamente um produto da CIA.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MdP<\/span>: O poder de fogo das gangues aumentou a ponto de incluir armamentos de guerra, como AK-47 russas, AR-15s fabricadas nos EUA e rifles de assalto Galil israelenses. Algumas <a href=\"https:\/\/www.miamiherald.com\/news\/nation-world\/world\/americas\/haiti\/article288416015.html\">armas traficadas no Haiti<\/a> s\u00e3o compradas em lojas na Fl\u00f3rida, nos Estados Unidos, onde a regulamenta\u00e7\u00e3o da venda \u00e9 branda. Em seguida, s\u00e3o transportadas de navio do porto de Miami, em cont\u00eaineres com identifica\u00e7\u00e3o de carga que requerem monitoramento intensivo. Armas ilegais entram no pa\u00eds por meio de portos que est\u00e3o sob o controle privado de oligarquias, como o Porto Lafito de Gilbert Bigio, ou atrav\u00e9s de pistas de pouso clandestinas e, ainda, da fronteira terrestre com a Rep\u00fablica Dominicana. Enquanto esse processo se consolidava, nos \u00faltimos trinta anos, o regime do PHTK sistematicamente subfinanciou e desequipou as pr\u00f3prias for\u00e7as armadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As gangues de hoje\u2014financiadas ou fortalecidas por governantes do PHTK, por outros pol\u00edticos e por oligarcas importantes\u2014viraram os novos esquadr\u00f5es da morte. Traficam pessoas, \u00f3rg\u00e3os, drogas e armas. Fazem sequestros a servi\u00e7o de terceiros ou para levantar fundos para a compra de muni\u00e7\u00e3o. Matam para conquistar novos territ\u00f3rios ou para retaliar grupos rivais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elas traficam \u00f3rg\u00e3os e pessoas, drogas e armas. Sequestram a cargo de terceiros ou para levantar fundos para comprar muni\u00e7\u00e3o. Matam para conquistar novos territ\u00f3rios ou para retaliar grupos rivais. As gangues tamb\u00e9m oferecem prote\u00e7\u00e3o para neg\u00f3cios privados, a exemplo daqueles do capitalismo mercantil de Reynold Deeb. Reprimem pequenos assaltantes e assaltam competidores. Dissolvem greves. Quando contratadas por pol\u00edticos como o ex-presidente Michel Joseph Martelly (2011-2016), amea\u00e7am cidad\u00e3os votantes para inviabilizar elei\u00e7\u00f5es justas e desencorajar a participa\u00e7\u00e3o em protestos. Assassinam oponentes pol\u00edticos.<sup> <\/sup>Como o movimento social de hoje lida com toda essa viol\u00eancia?<a data-contents=\"Ver Ilinor Louis (2024), \u201c(<)em(>)Comprendre la Dynamique des Gangs \u00e0 Port-au-Prince (<)\/em(>)[Compreenda a din\u00e2mica das gangues em Porto Pr\u00edncipe]\u201d; mais informa\u00e7\u00f5es em: (<)a href='https:\/\/blogs.mediapart.fr\/ilionorlouis\/blog\/180324\/comprendre-la-dynamique-des-gangs-port-au-prince#_ednref7?userid=63d4c37e-41d3-4f31-ae0c-de16ea6ffc29'(>)https:\/\/blogs.mediapart.fr\/ilionorlouis\/blog\/180324\/comprendre-la-dynamique-des-gangs-port-au-prince#_ednref7?userid=63d4c37e-41d3-4f31-ae0c-de16ea6ffc29(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ver Ilinor Louis (2024), \u201c(<)em(>)Comprendre la Dynamique des Gangs \u00e0 Port-au-Prince (<)\/em(>)[Compreenda a din\u00e2mica das gangues em Porto Pr\u00edncipe]\u201d; mais informa\u00e7\u00f5es em: (<)a href='https:\/\/blogs.mediapart.fr\/ilionorlouis\/blog\/180324\/comprendre-la-dynamique-des-gangs-port-au-prince#_ednref7?userid=63d4c37e-41d3-4f31-ae0c-de16ea6ffc29'(>)https:\/\/blogs.mediapart.fr\/ilionorlouis\/blog\/180324\/comprendre-la-dynamique-des-gangs-port-au-prince#_ednref7?userid=63d4c37e-41d3-4f31-ae0c-de16ea6ffc29(<)\/a(>).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">GEL<\/span>: Apesar da presen\u00e7a das gangues, o \u00faltimo <em>peyi l\u00f2k<\/em> (greve geral), em julho de 2018, mostrou que essas estrat\u00e9gias n\u00e3o conseguem for\u00e7ar o povo a recuar. Isso tornou indispens\u00e1vel uma interven\u00e7\u00e3o militar que atendesse aos interesses das oligarquias locais e internacionais. \u00c9 similar ao que ocorreu em 1802, quando a expedi\u00e7\u00e3o de Leclerc foi lan\u00e7ada em Santo Domingo (Haiti): a metr\u00f3pole colonial percebeu que os aparatos repressivos locais eram incapazes de conter as massas de escravos. A inabilidade da metr\u00f3pole francesa de conter as massas de escravos ao longo de quase dez anos, de 1791 a 1801, ensejou o refor\u00e7o dos aparatos repressivos. A mesma coisa aconteceu, tamb\u00e9m, na crise de 1902-1915. A interven\u00e7\u00e3o militar estrangeira \u00e9 reflexo da incapacidade das oligarquias locais e internacionais de sufocar as revoltas populares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O movimento social que debatemos hoje surgiu em 2015-2016 e seus seis anos de dura\u00e7\u00e3o foram marcados por uma s\u00e9rie de insurrei\u00e7\u00f5es. Desde os grandes protestos de 1929 contra a ocupa\u00e7\u00e3o estadunidense (1915-1934), n\u00e3o hav\u00edamos experimentado um per\u00edodo t\u00e3o longo de revoltas continuadas. Uma vez retiradas as tropas estadunidenses, a continuidade daquele sistema e o controle foram mantidos pelos oligarcas locais e internacionais. Em 1946, por\u00e9m houve novos protestos massivos. Dez anos depois, em 1956-1957, a oligarquia local logrou assumir o controle pelos 30 anos seguintes por meio dos Duvaliers, at\u00e9 cerca de 1985-1986. Em 2015, as pessoas se revoltaram novamente. Esse \u00e9 um&nbsp; per\u00edodo que nos lembra dos treze anos de resist\u00eancia de Rosalvo Bobo, entre 1902 e 1915, contra o estreitamento das rela\u00e7\u00f5es entre as oligarquias locais e estadunidenses.<a data-contents=\"Mais informa\u00e7\u00f5es em: Roger Gaillard, (<)em(>)Les Cent Jours de Rosalvo Bobo ou une Mise \u00e0 Mort Politique(<)\/em(>) [Os cem dias de Rosalvo Bobo ou um assassinato pol\u00edtico](<)em(>) (<)\/em(>)(Porto Pr\u00edncipe: Haiti, Presses Nationales, 1973).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mais informa\u00e7\u00f5es em: Roger Gaillard, (<)em(>)Les Cent Jours de Rosalvo Bobo ou une Mise \u00e0 Mort Politique(<)\/em(>) [Os cem dias de Rosalvo Bobo ou um assassinato pol\u00edtico](<)em(>) (<)\/em(>)(Porto Pr\u00edncipe: Haiti, Presses Nationales, 1973).<\/span>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MdP<\/span>: A crise atual, portanto, reflete as persistentes divis\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es que caracterizaram o processo pol\u00edtico do Haiti mesmo antes da Revolu\u00e7\u00e3o de 1804. Quais s\u00e3o as dimens\u00f5es hist\u00f3ricas que permearam o movimento social que surgiu em 2015-2016?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Ernst jean-pierre<\/span>: \u00c9 importante lembrar nossa hist\u00f3ria como povo e a forma espec\u00edfica que o colonialismo assumiu no Haiti. A chegada de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo em 1492 criou uma nova realidade colonial. Os invasores se apropriaram das riquezas da terra, devastaram o meio ambiente (a flora e a fauna) e os povos ind\u00edgenas que viviam aqui e introduziram o com\u00e9rcio transatl\u00e2ntico de escravos africanos. O <em>Code Noir <\/em>(C\u00f3digo Negro) que regulamentou o sistema escravista no Haiti classificava africanos escravizados como subumanos, e isso tem repercuss\u00f5es at\u00e9 o presente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1791, a cerim\u00f4nia de <em>Bwa Kayiman<\/em> foi o terreno em que a primeira grande insurrei\u00e7\u00e3o de escravos da Revolu\u00e7\u00e3o foi planejada, o que culminou na liberta\u00e7\u00e3o geral de todos os escravos e na reivindica\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia em 1804. Depois da independ\u00eancia, no entanto, os filhos de brancos, mulatos e <em>Creoles<\/em><a data-contents=\"Ou \u201ccrioulo\u201d, identifica\u00e7\u00e3o de l\u00edngua e etnia haitiana.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-8\" href=\"#footnote-list-8\">8<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ou \u201ccrioulo\u201d, identifica\u00e7\u00e3o de l\u00edngua e etnia haitiana.<\/span> reivindicaram terras, exigindo compensa\u00e7\u00e3o pelas propriedades perdidas e danificadas. Jean-Jacques Dessalines, um dos principais l\u00edderes da Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana e o primeiro governante do Haiti independente, combateu essas exig\u00eancias. Sua ideia de idendepend\u00eancia era mais abrangente que a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, ele aspirava a um sistema de igualdade baseado nos valores dos <em>Bosals<\/em>\u2014africanos nascidos no continente e que n\u00e3o se encontravam sob regime de escravid\u00e3o\u2014, que sustentavam princ\u00edpios comunais acerca do trabalho e da liberdade. Dessalines, representando uma ruptura com o sistema colonialista herdado, prop\u00f4s redistribuir a riqueza da terra entre todos os haitianos e promulgou uma s\u00e9rie de medidas destinadas \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o disso.<a data-contents=\"Trata-se do decreto de 2 de janeiro de 1804, rescindindo arrendamentos agr\u00edcolas de propriet\u00e1rios coloniais; do decreto de 7 de fevereiro de 1804, anulando todas as posses legadas pelos franceses aos seus descendentes, quer fossem animais, propriedade m\u00f3vel ou im\u00f3vel; do decreto de 24 de julho de 1805, fixando os sal\u00e1rios de oficiais e pessoal do governo; e do decreto de 6 de setembro de 1805, regulamentando os t\u00edtulos de propriedade previamente de posse de franceses ou estrangeiros.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-9\" href=\"#footnote-list-9\">9<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Trata-se do decreto de 2 de janeiro de 1804, rescindindo arrendamentos agr\u00edcolas de propriet\u00e1rios coloniais; do decreto de 7 de fevereiro de 1804, anulando todas as posses legadas pelos franceses aos seus descendentes, quer fossem animais, propriedade m\u00f3vel ou im\u00f3vel; do decreto de 24 de julho de 1805, fixando os sal\u00e1rios de oficiais e pessoal do governo; e do decreto de 6 de setembro de 1805, regulamentando os t\u00edtulos de propriedade previamente de posse de franceses ou estrangeiros.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os decretos de Dessalines representaram esfor\u00e7os radicais para lidar com o sistema de riqueza colonialista, mas causaram tens\u00e3o no interior da nova na\u00e7\u00e3o. Em outubro de 1806, Dessalines foi assassinado, demarcando um momento crucial que cindiu a na\u00e7\u00e3o em duas. O governo subsequente deslocou os <em>Bosals<\/em> para as montanhas e para a \u00e1rea rural e imp\u00f4s um C\u00f3digo Rural similar ao C\u00f3digo Negro colonialista.<a data-contents=\"O C\u00f3digo Rural legalizou dois \u201cpa\u00edses\u201d, um para as popula\u00e7\u00f5es rurais \u2013 descendentes dos (<)em(>)bosals(<)\/em(>) que lutaram na Revolu\u00e7\u00e3o \u2013 e outro para as elites urbanas. O C\u00f3digo regulamentou o uso e a posse da terra, bem como as pr\u00e1ticas de trabalho.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-10\" href=\"#footnote-list-10\">10<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">O C\u00f3digo Rural legalizou dois \u201cpa\u00edses\u201d, um para as popula\u00e7\u00f5es rurais \u2013 descendentes dos (<)em(>)bosals(<)\/em(>) que lutaram na Revolu\u00e7\u00e3o \u2013 e outro para as elites urbanas. O C\u00f3digo regulamentou o uso e a posse da terra, bem como as pr\u00e1ticas de trabalho.<\/span> Ao perpetuar a exist\u00eancia de uma classe de camponeses com a fun\u00e7\u00e3o de fornecer produtos agr\u00edcolas para uma classe de propriet\u00e1rios de terra <em>Creoles, <\/em>isso reinstituiu um modelo de racismo, ou at\u00e9 de <em>apartheid<\/em>, na sociedade. Essa cis\u00e3o fundamental se desdobrou na crise de 1843, que dividiu o pa\u00eds em quatro partes. A partir de 1915, quando o Haiti caiu nas m\u00e3os da ocupa\u00e7\u00e3o estadunidense, muitas institui\u00e7\u00f5es e companhias norte-americanas, como a <em>Haitian American Sugar Company<\/em> (HASCO), atuaram na exporta\u00e7\u00e3o de sisal, borracha e cana-de-a\u00e7\u00facar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os haitianos acabaram com um Estado que n\u00e3o corresponde \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es das massas, um reles prot\u00f3tipo do Estado-na\u00e7\u00e3o ocidental. A lei haitiana \u00e9 uma c\u00f3pia da lei francesa, sem nenhum senso para direitos ambientais e comunais. As classes cultas, da elite, tomaram as r\u00e9deas do governo, concedendo a si pr\u00f3prias privil\u00e9gios sociais e econ\u00f4micos e exigindo que a maioria esperasse. Essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o atual. Foi isso que nos levou \u00e0s crises de 1943 e 1946, e \u00e0s crises que se seguiram aos mandatos dos presidentes Dumarsais Estime e Duvalier. As crises s\u00e3o recorrentes porque o problema hist\u00f3rico nunca foi resolvido: a luta entre os <em>Bosals<\/em>, o povo campon\u00eas, e as elites. As elites se valeram de duas armas poderosas: educa\u00e7\u00e3o e Estado. \u00c9 uma combina\u00e7\u00e3o desses dois fatores que combate as massas populares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa luta desigual, testemunhamos o esfor\u00e7o de desgaste das massas populares para colapsar o Estado, criar um Estado-cad\u00e1ver. H\u00e1 uma can\u00e7\u00e3o carnavalesca que narra exatamente isso, diz que o Estado \u00e9 um cad\u00e1ver ou um defunto. Sobre este Estado, n\u00e3o h\u00e1 o que se possa construir. O povo demanda uma mudan\u00e7a no sistema, no sistema de escravid\u00e3o que n\u00f3s combatemos. As pot\u00eancias mundiais nos fizeram pagar caro por essa luta. As sementes da alternativa residem na luta dos <em>Bosals<\/em>: sustentada sobre <em>lakou <\/em>(terras comunais), constru\u00edda nas <em>bitasyon<\/em> (planta\u00e7\u00f5es) e baseada em consenso, democracia, solidariedade e <em>konbit <\/em>(ajuda m\u00fatua).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MdP<\/span>: O movimento social que surgiu em 2015-2016, ent\u00e3o, buscou colapsar o Estado para resolver esse problema hist\u00f3rico entre as massas e as elites. Logo ap\u00f3s o primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2015, a oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u2014incluindo organiza\u00e7\u00f5es de massas e outras da sociedade civil\u2014fechou a capital para denunciar a manipula\u00e7\u00e3o dos resultados pelo PHTK. Antes desse momento crucial, a resist\u00eancia aos projetos de desenvolvimento do PHTK era localizada: defesa contra apropria\u00e7\u00e3o de terras em Caracol em 2011, na ilha de Ile-\u00e0-Vache em 2013 e na ilha de La G\u00f4nave na Ba\u00eda de Porto Pr\u00edncipe em 2014, para mencionar alguns exemplos. O movimento social que surgiu em 2015-2016, por\u00e9m, mirou diretamente no regime do PHTK, levando \u00e0 anula\u00e7\u00e3o dos resultados da elei\u00e7\u00e3o. No entanto, as novas elei\u00e7\u00f5es de 2016 mais uma vez al\u00e7aram o indicado pelo PHTK ao poder: Jovenel Moise.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O movimento social tentou impedir a continuidade dessa hist\u00f3rica \u201cdisputa pelo Haiti\u201d por parte do PHTK. Trouxe \u00e0 mem\u00f3ria as elei\u00e7\u00f5es fraudulentas que levaram o partido ao poder em 2011, explicitando a estrat\u00e9gia do PHTK de postergar as elei\u00e7\u00f5es parlamentares e, em vez disso, governar por decreto, a fim de entregar, de presente, terras agr\u00edcolas administradas comunalmente a elites multinacionais na forma de zonas de livre-com\u00e9rcio. Muitos tamb\u00e9m apontaram o mau uso do dinheiro p\u00fablico\u2014dos fundos de reconstru\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o terremoto de 2010 e da gest\u00e3o da PetroCaribe\u2014pelo PHTK, para subsidiar projetos extrativistas como a constru\u00e7\u00e3o do maior parque industrial do Caribe em 2011, o <em>Parque Industrial do Caracol<\/em>; o estabelecimento da Agritans, fazenda destinada \u00e0 planta\u00e7\u00e3o de bananas pertencente a Moise, em 2014, antes da divulga\u00e7\u00e3o de seu nome como candidato presidencial do PHTK; e a constru\u00e7\u00e3o do primeiro porto multi\u00faso de \u00e1guas profundas do pa\u00eds com capacidade para grandes navios cargueiros, o Porto Lafito. Todos esses projetos s\u00e3o parcerias p\u00fablico-privadas que gozam de isen\u00e7\u00e3o fiscal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Haiti de hoje, quem controla essas zonas de livre-com\u00e9rcio?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">sabine lamour<\/span>: Os oligarcas haitianos tampouco s\u00e3o um grupo monol\u00edtico. Eles n\u00e3o compartilham as mesmas vis\u00f5es ou convic\u00e7\u00f5es. Entre eles, h\u00e1 o segmento que existe desde o per\u00edodo revolucion\u00e1rio, os antigos libertos\u201d, que at\u00e9 hoje se consideram os herdeiros de seus pais colonialistas brancos. Esse grupo formou uma burguesia nacional que foi bem-sucedida de 1804 at\u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o estadunidense em 1918. Essa burguesia tambem abrangia membros oriundos da Fran\u00e7a, Inglaterra e Alemanha. As filhas da burguesia nacional j\u00e1 instalada no pa\u00eds se casavam com filhos de estrangeiros em decorr\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es comerciais. A burguesia nacional se renovou atrav\u00e9s da manuten\u00e7\u00e3o de uma hegemonia baseada na cor da pele sobre a popula\u00e7\u00e3o em geral. Mas, ao longo da ocupa\u00e7\u00e3o estadunidense do Caribe, novos grupos chegaram ao poder. Capitalistas emergentes do Levante tamb\u00e9m se disseminaram pela regi\u00e3o. E, no Haiti, \u201cbeneficiando-se\u201d de sua pele mais clara, acabaram substituindo a burguesia nacional inicial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A classe burguesa \u00e9 plural. Houve uma explos\u00e3o da classe burguesa que n\u00e3o \u00e9 necessariamente unificadora. Mas, se h\u00e1 uma tend\u00eancia comum aos grupos que podem ser considerados como elites ou oligarquias \u00e9: nada que \u00e9 \u201cnacional\u201d lhes interessa. Eles investem em com\u00e9rcio. Portanto, ainda que o Haiti seja capaz de produzir <a href=\"https:\/\/www.counterpunch.org\/2008\/04\/21\/the-u-s-role-in-haiti-s-food-riots\/\">arroz<\/a>, Reynold Deeb, o diretor executivo do Grupo Deka, prefere compr\u00e1-lo e empacot\u00e1-lo nos EUA, em vez de apoiar a produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica. Podemos, ent\u00e3o, realmente chamar esses oligarcas de burguesia <em>nacional<\/em>?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles vivem em espa\u00e7os apartados, isolados da maioria da popula\u00e7\u00e3o. Seus filhos n\u00e3o frequentam as mesmas escolas. Quando ficam doentes, buscam tratamento em Miami. T\u00eam m\u00faltiplas nacionalidades. \u00c9 uma esp\u00e9cie de burguesia sem Estado que n\u00e3o estabelece nenhuma rela\u00e7\u00e3o com as massas. Toda vez que seus interesses s\u00e3o amea\u00e7ados, sempre que as contradi\u00e7\u00f5es se tornam capazes de engendrar a mudan\u00e7a ou a transforma\u00e7\u00e3o social necess\u00e1ria para que os recursos sejam realmente distribu\u00eddos por toda a popula\u00e7\u00e3o, cada vez que o capital entra em apuros, essa burguesia plural se alia \u00e0 comunidade internacional ou \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas e, para assegurar sua posi\u00e7\u00e3o e continuar a extrair riqueza, oferece aos estrangeiros todos os recursos que o Haiti possui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 interessante que uma das novidades da atual crise seja o engajamento ativo da burguesia transnacional na pol\u00edtica. Tradicionalmente, ela praticou uma \u201c<em>politique de doublure<\/em>\/pol\u00edtica de dubl\u00eas\u201d, pela qual financiava pol\u00edticos que, uma vez eleitos, respondiam exclusivamente aos interesses dela. Agora ela decidiu ingressar na pol\u00edtica nacional mostrando a pr\u00f3pria cara. Gregory Mevs\u2014cuja fam\u00edlia \u00e9 dona do Terminal de Petr\u00f3leo Varreux e do parque industrial SHODECOSA\u2014atuou como copresidente do ex-presidente Martelly no Conselho Consultivo Presidencial sobre Crescimento Econ\u00f4mico e Investimento. Reginald Boulos, fundador do Sogebank e dono de uma rede de supermercados e de concession\u00e1rias de autom\u00f3veis, estabeleceu seu movimento pol\u00edtico durante o mandato do falecido ex-presidente Moise. N\u00e3o foi por estar preocupada com a transforma\u00e7\u00e3o social que a burguesia mostrou sua cara, mas porque quer controlar diretamente o que chamo de \u201clocais de preda\u00e7\u00e3o\u201d na sociedade. A alf\u00e2ndega \u00e9 um desses locais, que permite a importa\u00e7\u00e3o de armas, alimentos cancer\u00edgenos estragados e outros produtos letais fora do prazo de validade. Mas a burguesia monopoliza todas as ind\u00fastrias. O Grupo Gilbert Bigio, por exemplo, controla tamb\u00e9m a constru\u00e7\u00e3o (importa\u00e7\u00e3o de ferro e madeira).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a burguesia se d\u00e1 conta de que, pouco a pouco, a maioria se torna mais poderosa e que, a qualquer minuto, pode haver uma explos\u00e3o social no Haiti, procura controlar os espa\u00e7os de poder. Por\u00e9m ela n\u00e3o decide controlar esses espa\u00e7os para si mesma, mas, em vez disso, compartilha o controle com os interesses internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MdP<\/span>: Como observado por Sabine Lamour, o Estado do PHTK se acomodou abertamente a essas elites transnacionais e, inclusive, facilitou a ascens\u00e3o de um pequeno grupo de aspirantes a capitalistas. No primeiro ano do seu mandato, o governo de Moise apresentou um projeto or\u00e7ament\u00e1rio que aumentou seu pr\u00f3prio sal\u00e1rio e os de seu gabinete, enquanto elevou a carga tribut\u00e1ria incidente sobre o pobre trabalhador e a classe m\u00e9dia. Retirou o Haiti do acordo do PetroCaribe com a Venezuela e lan\u00e7ou o pa\u00eds de volta ao mercado de compra de petr\u00f3leo e produtos derivados do petr\u00f3leo. Em julho de 2018, por ordem do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), Moise anunciou a retirada dos subs\u00eddios para o combust\u00edvel. O aumento do pre\u00e7o do combust\u00edvel inevitavelmente levaria \u00e0 majora\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os de transporte e alimentos. Em resposta, dissidentes levantaram barricadas, bloqueando todas as rotas comerciais nacionais e interrompendo toda a atividade comercial do pa\u00eds por dois dias: foi o primeiro <em>peyi l\u00f2k<\/em>. Moise revogou o an\u00fancio. Um m\u00eas depois, foi lan\u00e7ado o movimento PetroChallenge. Protestos irromperam em todas as dez maiores cidades do Haiti em torno do <em>slogan<\/em> \u201c<em>Kot K\u00f2b PetroKaribe?<\/em>\u201d (Onde est\u00e1 o dinheiro do PetroCaribe?), demandando que o regime do PHTK prestasse contas do uso que fez de mais de tr\u00eas bilh\u00f5es de d\u00f3lares dos fundos do PetroCaribe destinados ao incremento de infraestrutura e programas sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O movimento social que surgiu em 2015-2016 se concentrou na capital, mas assumiu escala nacional com o primeiro <em>peyi l\u00f2k<\/em>. As diferentes defesas rurais fora de Porto Pr\u00edncipe, mencionadas anteriormente, passaram mensagens pr\u00f3prias, mas, em 2018, todas as reivindica\u00e7\u00f5es feitas nos protestos convergiram para esta quest\u00e3o: \u201c<em>Kot K\u00f2b PetroKaribe?<\/em>\u201d. O que \u00e9 t\u00e3o importante em rela\u00e7\u00e3o ao PetroCaribe?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">gel<\/span>: A revolta de julho de 2018, uma das mais significativas dos anos recentes, levantou a quest\u00e3o do Acordo PetroCaribe porque ele questiona a l\u00f3gica e solapa o funcionamento do sistema financeiro internacional introduzido no Haiti em 1825, quando os bancos franceses concederam um empr\u00e9stimo \u00e0 na\u00e7\u00e3o previamente colonizada. T\u00edpico desses arranjos \u00e9 que o banco ganha e o pa\u00eds que toma o dinheiro perde. No entanto, o PetroCaribe ofereceu a possibilidade de que tanto a Venezuela quanto o Haiti ganhassem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No \u00e2mbito do PetroCaribe, a Venezuela concordou com que o tomador do empr\u00e9stimo pagasse com bens que produzia, afastando-se do modelo neoliberal que arruinou a din\u00e2mica de produ\u00e7\u00e3o no Haiti. Havia a possibilidade de desafiar o sistema financeiro internacional. Julho de 2018 tamb\u00e9m foi uma das primeiras ocasi\u00f5es em que os movimentos sociais falaram de \u201c<em>chavire chody\u00e8<\/em>\u201d, ou seja, de romper com o sistema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MdP<\/span>: Depois de semanas de protestos em escala nacional em 2018, um relat\u00f3rio oficial de investiga\u00e7\u00e3o revelou que o pr\u00f3prio presidente Moise havia lucrado com os fundos da PetroCaribe, levando a apelos por sua ren\u00fancia. Em vez disso, Moise votou contra o reconhecimento de Nicolas Maduro na Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos em 2019. Naquele ano, houve escassez de combust\u00edvel, o que provocou outro <em>peyi l\u00f2k<\/em>, que dessa vez durou tr\u00eas meses. Qual o significado do \u201c<em>peyi l\u00f2k<\/em>\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">sl<\/span>: \u00c9 uma maneira de resistir. \u00c9 o resultado de uma sociedade com contradi\u00e7\u00f5es t\u00e3o profundas que as pessoas s\u00e3o for\u00e7adas a bloquear o sistema. Como pode o governo retirar os subs\u00eddios do combust\u00edvel quando o pre\u00e7o do gal\u00e3o excede o valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo?! Durante o primeiro <em>peyi l\u00f2k,<\/em> em julho de 2018, as mobiliza\u00e7\u00f5es ocorreram por toda a \u00e1rea metropolitana de Porto Pr\u00edncipe e se espalharam pelo pa\u00eds inteiro, paralisando toda a atividade comercial. E o governo foi obrigado a recuar na quest\u00e3o do combust\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No <em>peyi l\u00f2k<\/em>, apesar da paralisa\u00e7\u00e3o das atividades comerciais, ocorrem numerosas atividades organizadas tanto pela sociedade civil quanto pela oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. S\u00e3o organizados paineis, protestos e <em>flash mobs <\/em>e<em> <\/em>divulgados posicionamentos. As demandas em si n\u00e3o est\u00e3o paralizadas. Em consequ\u00eancia, podemos dizer que o <em>peyi l\u00f2k<\/em> mitiga a inseguran\u00e7a provocada pelas gangues e oportuniza que as organiza\u00e7\u00f5es se tornem mais ativas politicamente e se re\u00fanam com mais frequ\u00eancia para discutir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 claro que h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o no <em>peyi l\u00f2k<\/em>: pode haver danos colaterais para pessoas vulner\u00e1veis que, impedidas de cumprir o trabalho di\u00e1rio que sustenta sua reprodu\u00e7\u00e3o, precisam ter condi\u00e7\u00f5es de estocar alimentos. O governo tamb\u00e9m utiliza o per\u00edodo de <em>peyi l\u00f2k<\/em> para reprimir os militantes que ocupam as ruas todos os dias para sustentar as barricadas contra a pol\u00edcia e as gangues.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">gel<\/span>: O <em>peyi l\u00f2k<\/em> impede a acumula\u00e7\u00e3o: h\u00e1 um <em>l\u00f2k<\/em> ou um bloqueio imposto \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o dos investimentos internacionais. Ele interrompe a produ\u00e7\u00e3o em lugares como Savane Diane, uma zona de livre-com\u00e9rcio que fabrica produtos para a Coca-Cola; como o Parque Industrial Caracol, onde produzimos vestu\u00e1rio; ou \u00e1reas como CODEVI em Ouanaminthe ou SONAPI em Porto Pr\u00edncipe, onde h\u00e1 grande quantidade de f\u00e1bricas. \u00c9 quase como em 1791, quando as massas de escravos impediram a metr\u00f3pole\u2014no caso atual, os Estados Unidos\u2014de acumular.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">ejp<\/span>: O <em>peyi l\u00f2k <\/em>n\u00e3o \u00e9 algo novo; \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o de uma forma de luta camponesa chamada \u201c<em>koupe wout<\/em>\u201d (bloquear estradas). O ex\u00e9rcito ind\u00edgena de Jean-Jacques Dessalines usou essa t\u00e1tica para cortar a linha de suprimentos do comandante militar franc\u00eas Joseph de Rochambeau durante a revolu\u00e7\u00e3o de 1802. Esse m\u00e9todo foi usado ap\u00f3s a independ\u00eancia por diferentes l\u00edderes revolucion\u00e1rios camponeses que buscavam isolar e controlar sua regi\u00e3o. Os guerreiros <em>Kako <\/em>adotaram essa t\u00e1tica de <em>koupe wout<\/em> para impedir o avan\u00e7o da incurs\u00e3o dos <em>marines<\/em> estadunidenses no interior do pa\u00eds. Esses bloqueios interromperam o restabelecimento do trabalho for\u00e7ado pelos ocupantes estadunidenses, visando \u00e0 constru\u00e7\u00e3o das estradas que facilitavam o transporte de colheitas para exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Interpreto isso como uma forma de luta sendo adaptada a Porto Pr\u00edncipe e outras cidades: ela impede comunica\u00e7\u00e3o entre departamentos, circula\u00e7\u00e3o e movimento e a funcionalidade do sistema capitalista dentro das pr\u00f3prias cidades. \u00c9 um sistema hist\u00f3rico e cultural de resist\u00eancia. N\u00f3s integramos algumas palavras inglesas e francesas; dizemos \u201c<em>barikad<\/em>\u201d (barricadas); hoje dizemos \u201cl\u00f2k\u201d, mas antes isso chamava \u201c<em>gran chimen bare\u201d<\/em> (bloqueio de estradas), locais onde nada podia circular livremente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">mdp<\/span>: Em janeiro de 2020, Moise dissolveu o Parlamento para governar por decreto e, no in\u00edcio de 2021, anunciou um referendo com o intuito de adotar uma constitui\u00e7\u00e3o produzida pela Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos, que expandiria o escopo de tomada de decis\u00e3o do Poder Executivo. Ele se recusou a deixar a presid\u00eancia e n\u00e3o fez planos para organizar elei\u00e7\u00f5es em nenhum n\u00edvel. Em vez disso, deu terras agr\u00edcolas de presente a outro oligarca, Clifford Apaid, e substituiu tr\u00eas ju\u00edzes da Suprema Corte (driblando procedimentos parlamentares). Os protestos em massa continuaram at\u00e9 junho. E, poucos dias antes de ser assassinado, Moise ainda indicou Ariel Henry como seu novo (s\u00e9timo) primeiro-ministro.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As manchetes internacionais focaram em caos e crise, encobrindo e at\u00e9 confundindo essas revoltas populares com a viol\u00eancia das gangues. Quais s\u00e3o as demandas desse movimento social? Quais s\u00e3o as diferentes tend\u00eancias ideol\u00f3gicas em jogo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">sl<\/span>: H\u00e1 uma constante nessas demandas\u2014o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o. Seja em rela\u00e7\u00e3o ao Estado haitiano, seja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade internacional que constantemente tenta nos impor uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es, h\u00e1 sempre um momento em que fazemos essa demanda, a de que n\u00f3s tamb\u00e9m podemos propor nosso pr\u00f3prio modo de vida. Esse \u00e9 o elemento comum a todos os movimentos sociais, quer o elemento pol\u00edtico consista de mulheres, camponeses, pessoas jovens ou sindicatos de professores. A segunda demanda \u00e9 o reconhecimento da din\u00e2mica interseccional da luta, a capacidade de reconhecer pessoas como pessoas, para al\u00e9m de sexo, ra\u00e7a, classe e religi\u00e3o. A terceira demanda \u00e9 a luta contra a impunidade, a luta por acesso \u00e0 justi\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse movimento social possui uma lideran\u00e7a difusa, cada bra\u00e7o tem capacidade de atuar por meio de decis\u00f5es pr\u00f3prias. A const\u00e2ncia dessas demandas&nbsp; indicam que h\u00e1 uma fidelidade pol\u00edtica, uma tend\u00eancia an\u00e1rquica, que amedronta as oligarquias transnacionais. Um dos elementos aglutinadores das diversas demandas internamente existentes \u00e9 a revindica\u00e7\u00e3o comum da capacidade de que uma pessoa seja livre. A liberdade \u00e9 um elemento fundamental no movimento ativista que carrega em si um conjunto particular de ideais pol\u00edticos que permeiam a sociedade haitiana. Desde a Revolu\u00e7\u00e3o de 1804, percebemos que, contida na quest\u00e3o da liberdade, est\u00e1 a quest\u00e3o do bem-estar, mas n\u00e3o o bem-estar no sentido ocidental, baseado na propriedade privada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">ejp<\/span>: No momento atual da luta, os bairros da classe trabalhadora urbana est\u00e3o mais mobilizados do que os camponeses, e os l\u00edderes pol\u00edticos est\u00e3o desacreditados. A miss\u00e3o hist\u00f3rica das massas populares \u00e9 travar a batalha contra uma ordem global injusta\u2014esse \u00e9 o elemento comum \u00e0s lutas populares haitianas, pass\u00edvel de ser conectado com um discurso de esquerda anti-imperialista mais amplo. Mas se voc\u00ea observar mais de perto a emerg\u00eancia das lutas populares, trata-se de uma batalha existencial em torno da necessidade de viver. Essa luta \u00e9 permanente na natureza e \u00e9 refletida pela impossibilidade do di\u00e1logo entre as elites e as massas. As elites pol\u00edticas tradicionais carecem de uma narrativa direcionada \u00e0s demandas populares por n\u00e3o serem capazes de apaziguar a luta por mudan\u00e7a. Essa \u00e9 a raz\u00e3o de estarem sempre em crise.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2021, ap\u00f3s o assassinato de Moise, v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e partidos progressistas se reuniram para redigir o Acordo de Montana, permitindo que um governo transit\u00f3rio organizasse elei\u00e7\u00f5es livres e acompanhasse o julgamento do PetroCaribe. Por\u00e9m, isso reduziu a luta organizada \u00e0 quest\u00e3o de tomar o poder. As massas populares estavam travando uma batalha hist\u00f3rica para mudar definitivamente o sistema capitalista ocidental. H\u00e1 duas batalhas em curso no Haiti: uma batalha por mudan\u00e7a real e outra pelo poder. Esta \u00faltima n\u00e3o contempla as aspira\u00e7\u00f5es das massas populares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">sl<\/span>: Os cen\u00e1rios que se apresentam nesse momento s\u00e3o os mesmos que experimentamos desde 1806, centrados na autodetermina\u00e7\u00e3o, redistribui\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de recursos. Se voc\u00ea considerar 1806, 1843, 1865 ou at\u00e9 1915 e 1934, bem como as lutas de 1986 e 2004, ver\u00e1 esses fantasmas retornando constantemente ao Haiti.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em toda grande crise, levanta-se a mesma quest\u00e3o. Como construiremos uma comunidade nos 27.500 quil\u00f4metros quadrados de terra de que dispomos para viver juntos, se alguns n\u00e3o veem os outros como plenamente humanos? Essa \u00e9 a base da luta no Haiti: os que est\u00e3o no comando alegam que todos os recursos produzidos na sociedade pertencem a eles e jamais hesitam em buscar gente de fora para intervir no problema. Por\u00e9m, h\u00e1 a quest\u00e3o do que \u00e9 necess\u00e1rio acontecer internamente para construir uma parceria verdadeira, um projeto pol\u00edtico comum de constru\u00e7\u00e3o da sociedade. Essa batalha existe desde que a na\u00e7\u00e3o foi constitu\u00edda. Os projetos pol\u00edticos propostos at\u00e9 agora acabam fomentando alguma forma de exclus\u00e3o e aus\u00eancia de redistribui\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 coer\u00eancia pol\u00edtica no caos, e os haitianos devem lidar com isso.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>Esse di\u00e1logo foi publicado em colabora\u00e7\u00e3o com a <a href=\"https:\/\/lefteast.org\/understanding-the-struggle-in-contemporary-haiti\/\">Lefteast<\/a>. <\/em><\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-right\">Tradu\u00e7\u00e3o: N\u00e9lio Schneider<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span id=\"docs-internal-guid-064f5fa3-7fff-3d6b-ec99-2d5df4516d6b\"><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"MP:\"><br><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na crise do Haiti, n\u00e3o basta questionar quem s\u00e3o as gangues, mas tamb\u00e9m por que as gangues, e por que agora.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":279,"featured_media":18685,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[733],"tags":[904,789,765],"issue":[],"newsletter":[],"region":[1012,1221],"sector":[],"theme":[1108],"series":[],"class_list":["post-20078","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-br","tag-haiti-pt-br","tag-historia-pt-br","tag-longform-pt-br","region-america-latina-e-caribe","region-haiti-pt-br-2","theme-historia-economica"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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