{"id":19525,"date":"2024-09-12T15:31:56","date_gmt":"2024-09-12T15:31:56","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=19525"},"modified":"2024-09-13T13:40:42","modified_gmt":"2024-09-13T13:40:42","slug":"junho-de-2013-e-os-industriaisbrasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/junho-de-2013-e-os-industriaisbrasileiros\/","title":{"rendered":"Junho de 2013 e os industriais brasileiros"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A elite econ\u00f4mica de um pa\u00eds possui significativo poder pol\u00edtico, ainda que n\u00e3o decida diretamente pelo voto uma elei\u00e7\u00e3o. Por concentrar o poder de decis\u00e3o de investimentos, criar crises de confian\u00e7a e desacelerar a economia, a elite tem papel relevante na estabilidade de governos e, no limite, na normalidade das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<a data-contents=\"Carles Boix (2003). (<)em(>)Democracy and Redistribution(<)\/em(>), New York: Cambridge University Press; Daron Acemoglu and James A. Robinson (2006). (<)em(>)Economic Origins of Dictatorship and Democracy(<)\/em(>). Cambridge: Cambridge University Press; Dan Slater, Benjamin Smith, and Gautam Nair (2014), Economic Origins of Democratic Breakdown? The Redistributive Model and the Postcolonial State, (<)em(>)Perspectives on Politics(<)\/em(>) 12(2): 353\u201374; Daniela Campello (2015). (<)em(>)The Politics of Market Discipline in Latin America: Globalization and Democracy(<)\/em(>), United Kingdom: Cambridge University Press; Stephan Haggard and Robert R. Kaufman (2016).(<)em(>) Dictators and Democrats(<)\/em(>): (<)em(>)Masses, Elites and Regime Change(<)\/em(>). New Jersey: Princeton University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Carles Boix (2003). (<)em(>)Democracy and Redistribution(<)\/em(>), New York: Cambridge University Press; Daron Acemoglu and James A. Robinson (2006). (<)em(>)Economic Origins of Dictatorship and Democracy(<)\/em(>). Cambridge: Cambridge University Press; Dan Slater, Benjamin Smith, and Gautam Nair (2014), Economic Origins of Democratic Breakdown? The Redistributive Model and the Postcolonial State, (<)em(>)Perspectives on Politics(<)\/em(>) 12(2): 353\u201374; Daniela Campello (2015). (<)em(>)The Politics of Market Discipline in Latin America: Globalization and Democracy(<)\/em(>), United Kingdom: Cambridge University Press; Stephan Haggard and Robert R. Kaufman (2016).(<)em(>) Dictators and Democrats(<)\/em(>): (<)em(>)Masses, Elites and Regime Change(<)\/em(>). New Jersey: Princeton University Press.<\/span> Assim, embora sejam <em>core constituency<\/em> de partidos conservadores,<a data-contents=\"Gibson, E. L. (1996). (<)em(>)Class and Conservative Parties: Argentina in Comparative Perspective(<)\/em(>). Johns Hopkins University Press, Ziblatt D. (2017). (<)em(>)Conservative Parties and the Birth of Democracy.(<)\/em(>) Cambridge Studies in Comparative Politics. Cambridge University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Gibson, E. L. (1996). (<)em(>)Class and Conservative Parties: Argentina in Comparative Perspective(<)\/em(>). Johns Hopkins University Press, Ziblatt D. (2017). (<)em(>)Conservative Parties and the Birth of Democracy.(<)\/em(>) Cambridge Studies in Comparative Politics. Cambridge University Press.<\/span> os partidos progressistas que chegam ao poder n\u00e3o podem se dar ao luxo de ignor\u00e1-la\u2014nem as demandas, muito menos as rea\u00e7\u00f5es a pol\u00edticas redistributivas e econ\u00f4micas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um caso ilustrativo dessa din\u00e2mica \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre o empres\u00e1rio industrial brasileiro e os governos do Partido dos Trabalhadores (PT). O PT chegou \u00e0 presid\u00eancia brasileira pela primeira vez em 2003, contando com o&nbsp; apoio p\u00fablico de parte da elite industrial nacional \u00e0 candidatura de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<a data-contents=\"Armando Boito Jr. (2018), (<)em(>)Reforma e Crise Pol\u00edtica No Brasil: Os Conflitos de Classe Nos Governos Do PT(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Editora UNESP.; Andr\u00e9 Singer (2012). (<)em(>)Os Sentidos Do Lulismo: Reforma Gradual e Pacto Conservador(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Armando Boito Jr. (2018), (<)em(>)Reforma e Crise Pol\u00edtica No Brasil: Os Conflitos de Classe Nos Governos Do PT(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Editora UNESP.; Andr\u00e9 Singer (2012). (<)em(>)Os Sentidos Do Lulismo: Reforma Gradual e Pacto Conservador(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/span> A articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre governo petista, empresariado e trabalhadores organizados foi definida como uma \u201ccoaliz\u00e3o produtivista\u201d,<a data-contents=\"Andr\u00e9 Singer (2018). (<)em(>)O Lulismo Em Crise: Um Quebra-Cabe\u00e7a Do Per\u00edodo Dilma (2011-2016)(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Andr\u00e9 Singer (2018). (<)em(>)O Lulismo Em Crise: Um Quebra-Cabe\u00e7a Do Per\u00edodo Dilma (2011-2016)(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/span> \u201cfrente neodesenvolvimentista\u201d<a data-contents=\"Armando Boito Jr. (2018). (<)em(>)Reforma e Crise Pol\u00edtica No Brasil: Os Conflitos de Classe Nos Governos Do PT(<)\/em(>). Campinas: Editora Unicamp.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Armando Boito Jr. (2018). (<)em(>)Reforma e Crise Pol\u00edtica No Brasil: Os Conflitos de Classe Nos Governos Do PT(<)\/em(>). Campinas: Editora Unicamp.<\/span> ou at\u00e9 \u201calian\u00e7a dos perdedores do neoliberalismo\u201d.<a data-contents=\"Alfredo Saad-Filho and Lecio Morais (2018). (<)em(>)Brasil: Neoliberalismo versus Democracia(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Boitempo.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Alfredo Saad-Filho and Lecio Morais (2018). (<)em(>)Brasil: Neoliberalismo versus Democracia(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Boitempo.<\/span> Enquanto Lula (2003-2010) equilibrou os interesses industriais e financeiros &#8211; com relativa prioridade aos \u00faltimos -, sua sucessora, Dilma Rousseff (2011-2016) priorizou os primeiros. O governo Dilma I (2011-2014) tentou redobrar a aposta desenvolvimentista, lan\u00e7ando a Nova Matriz Econ\u00f4mica, um pacote de medidas de incentivo \u00e0 ind\u00fastria, o Plano Brasil Maior (PBM) e linhas de cr\u00e9dito pelo BNDES, al\u00e9m de reduzir a taxa de juros e desvalorizar o real, dentre outras medidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar do aparente maior alinhamento entre Dilma e industriais, o empresariado do setor se mobilizou enfaticamente pelo impeachment em 2016. A causa dessa inflex\u00e3o no comportamento pol\u00edtico empresarial \u00e9 um tema ainda em aberto entre os analistas da pol\u00edtica brasileira. Enquanto alguns enfatizam a crise econ\u00f4mica, outras d\u00e3o maior destaque \u00e0s tens\u00f5es de classe agudizadas. Ademais, n\u00e3o est\u00e1 claro se os industriais lideraram a onda anti-petista ou apenas a seguiram, nem qual a extens\u00e3o de sua unidade em torno do impeachment.<a data-contents=\"Laura Carvalho (2018).(<)em(>)Valsa Brasileira: Do Boom Ao Caos Econ\u00f4mico(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Todavia.; Guilherme Klein Martins and Fernando Rugitsky (2019). The Commodities Boom and the Profit Squeeze: Output and Profit Cycles in Brazil (1996-2016). Department of Economics, (<)em(>)FEA\/USP WORKING PAPER SERIES (<)\/em(>)No 2018-09.; Andr\u00e9 Singer (2016). (<)em(>)O Lulismo Em Crise: Um Quebra-Cabe\u00e7a Do Per\u00edodo Dilma(<)\/em(>) (2011-2016). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras; Armando Boito Jr. (2018). (<)em(>)Reforma e Crise Pol\u00edtica No Brasil: Os Conflitos de Classe Nos Governos Do PT(<)\/em(>). Campinas: Editora Unicamp.; Pedro Paulo Zahluth Bastos (2017). Ascens\u00e3o E Crise Do Governo Dilma Rousseff E O Golpe De 2016: Poder Estrutural, Contradi\u00e7\u00e3o E Ideologia, (<)em(>)Revista de Economia Contempor\u00e2nea(<)\/em(>), 21; Alfredo Saad-Filho and Lecio Morais (2018). (<)em(>)Brasil: Neoliberalismo versus Democracia(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Boitempo.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Laura Carvalho (2018).(<)em(>)Valsa Brasileira: Do Boom Ao Caos Econ\u00f4mico(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Todavia.; Guilherme Klein Martins and Fernando Rugitsky (2019). The Commodities Boom and the Profit Squeeze: Output and Profit Cycles in Brazil (1996-2016). Department of Economics, (<)em(>)FEA\/USP WORKING PAPER SERIES (<)\/em(>)No 2018-09.; Andr\u00e9 Singer (2016). (<)em(>)O Lulismo Em Crise: Um Quebra-Cabe\u00e7a Do Per\u00edodo Dilma(<)\/em(>) (2011-2016). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras; Armando Boito Jr. (2018). (<)em(>)Reforma e Crise Pol\u00edtica No Brasil: Os Conflitos de Classe Nos Governos Do PT(<)\/em(>). Campinas: Editora Unicamp.; Pedro Paulo Zahluth Bastos (2017). Ascens\u00e3o E Crise Do Governo Dilma Rousseff E O Golpe De 2016: Poder Estrutural, Contradi\u00e7\u00e3o E Ideologia, (<)em(>)Revista de Economia Contempor\u00e2nea(<)\/em(>), 21; Alfredo Saad-Filho and Lecio Morais (2018). (<)em(>)Brasil: Neoliberalismo versus Democracia(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Boitempo.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este texto visa contribuir com essa discuss\u00e3o ainda em curso. Argumento que a coaliz\u00e3o entre empres\u00e1rios e PT era uma alian\u00e7a conveniente para os interesses de curto prazo dos industriais com os <em>governos petistas<\/em>, mas n\u00e3o ideol\u00f3gica com o <em>partido<\/em>. Assim, n\u00e3o era politicamente est\u00e1vel e s\u00f3 foi poss\u00edvel em contextos de altas taxas de crescimento econ\u00f4mico e alta aprova\u00e7\u00e3o popular dos presidentes petistas. A desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a crise de popularidade gerada pelos protestos de junho de 2013 permitiram que os industriais se reorganizassem enquanto oposi\u00e7\u00e3o, demonstrando a fragilidade dessa alian\u00e7a e jogando luz sobre as contradi\u00e7\u00f5es entre os interesses de longo-prazo dos industriais e o projeto petista. Embora n\u00e3o tratemos em detalhes, o apoio industrial ao impeachment \u00e9 outro momento de explicita\u00e7\u00e3o dessa din\u00e2mica, hoje ainda de fundamental import\u00e2ncia por estarmos diante de tentativas renovadas de constru\u00e7\u00e3o das bases pol\u00edticas e sociais do terceiro governo Lula entre setores das elites empresariais e trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Apoio contextual e tens\u00f5es latentes sob os governos Lula<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A alian\u00e7a que deu base ao lulismo no in\u00edcio dos anos 2000 \u00e9 melhor entendida como uma resposta \u00e0s condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas especialmente hostis da d\u00e9cada de 1990. Historicamente dependente do Estado, a ind\u00fastria brasileira gozava at\u00e9 ent\u00e3o de certo monop\u00f3lio sobre o mercado interno. A abertura econ\u00f4mica, a pol\u00edtica de estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e as reformas neoliberais resultaram em desindustrializa\u00e7\u00e3o abrupta. Os governos neoliberais, voltados majoritariamente aos interesses do setor financeiro, ignoravam os pedidos de socorro da ind\u00fastria nacional.<a data-contents=\"Eli Diniz (2004). (<)em(>)Globaliza\u00e7\u00e3o, Reformas Econ\u00f4micas e Elites Empresariais(<)\/em(>), S\u00e3o Paulo: Editora FGV.; Eli Diniz and Renato R. Boschi (2003). Empresariado e estrat\u00e9gias de desenvolvimento, (<)em(>)Revista Brasileira de Ci\u00eancias Sociais(<)\/em(>) 18 : 15\u201334. Armando Boito Jr. (2007), Estado e burguesia no capitalismo neoliberal, (<)em(>)Revista de Sociologia e Pol\u00edtica(<)\/em(>), 57\u201373.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-8\" href=\"#footnote-list-8\">8<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Eli Diniz (2004). (<)em(>)Globaliza\u00e7\u00e3o, Reformas Econ\u00f4micas e Elites Empresariais(<)\/em(>), S\u00e3o Paulo: Editora FGV.; Eli Diniz and Renato R. Boschi (2003). Empresariado e estrat\u00e9gias de desenvolvimento, (<)em(>)Revista Brasileira de Ci\u00eancias Sociais(<)\/em(>) 18 : 15\u201334. Armando Boito Jr. (2007), Estado e burguesia no capitalismo neoliberal, (<)em(>)Revista de Sociologia e Pol\u00edtica(<)\/em(>), 57\u201373.<\/span> Em decad\u00eancia econ\u00f4mica e pol\u00edtica, parte da elite industrial foi atra\u00edda pelo projeto de desenvolvimento apresentado pelo PT.<a data-contents=\"Eli Diniz e Luiz Carlos Bresser-Pereira (2003) Depois do consenso neoliberal, o retorno dos empres\u00e1rios industriais?, (<)em(>)Revista Brasileira de Ci\u00eancias Sociais(<)\/em(>), 19; Andr\u00e9 Singer (2012). (<)em(>)Os sentidos do Lulismo: reforma gradual e pacto conservador(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2012.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-9\" href=\"#footnote-list-9\">9<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Eli Diniz e Luiz Carlos Bresser-Pereira (2003) Depois do consenso neoliberal, o retorno dos empres\u00e1rios industriais?, (<)em(>)Revista Brasileira de Ci\u00eancias Sociais(<)\/em(>), 19; Andr\u00e9 Singer (2012). (<)em(>)Os sentidos do Lulismo: reforma gradual e pacto conservador(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2012.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma vez eleito, Lula acomodou os interesses do setor industrial nas pol\u00edticas microecon\u00f4micas e, em menor grau, na prote\u00e7\u00e3o comercial. No entanto, o trip\u00e9 macroecon\u00f4mico\u2014heran\u00e7a dos governos Fernando Henrique Cardoso\u2014 foi mantido, a fim de atender ao mercado financeiro e sob o argumento de garantir a estabilidade econ\u00f4mica.<a data-contents=\"Daniela Campello (2015). (<)em(>)The Politics of Market Discipline in Latin America: Globalization and Democracy(<)\/em(>). Cambridge: Cambridge University Press\" class=\"footnote\" id=\"footnote-10\" href=\"#footnote-list-10\">10<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Daniela Campello (2015). (<)em(>)The Politics of Market Discipline in Latin America: Globalization and Democracy(<)\/em(>). Cambridge: Cambridge University Press<\/span> A condu\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica voltada ao controle da infla\u00e7\u00e3o em detrimento do desenvolvimento nacional foi alvo de cr\u00edticas pelo empresariado ainda no primeiro mandato de Lula.<a data-contents=\"Ver: Guilherme Barros, &#8220;(<)a href='https:\/\/acervo.folha.com.br\/leitor.do?numero=16540&amp;keyword=governo&amp;anchor=5249820&amp;origem=busca&amp;originURL=&amp;maxTouch=0&amp;pd=774bed239748e14f5f55f9b9993fb054'(>)Filho de Alencar diz que s\u00f3 Palocci n\u00e3o blinda economia(<)\/a(>),\u201d Acervo Digital &#8211; Folha de S.Paulo, August 21, 2005, ; \u201c(<)a href='https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/dinheiro\/fi1402200601.htm'(>)N\u00e3o Voto Na Atual Pol\u00edtica, Diz Josu\u00e9(<)\/a(>),\u201d Acervo Digital &#8211; Folha de S.Paulo, February 14, 2006; Raquel Landim and Raquel Salgado (2006). (<)a href='https:\/\/www2.senado.leg.br\/bdsf\/bitstream\/handle\/id\/468703\/noticia.htm?sequence=1'(>)Ind\u00fastria Paulista Tenta Refazer Pontes Com Lula(<)\/a(>), Valor Econ\u00f4mico, November 1, 2006.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-11\" href=\"#footnote-list-11\">11<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ver: Guilherme Barros, &#8220;(<)a href='https:\/\/acervo.folha.com.br\/leitor.do?numero=16540&amp;keyword=governo&amp;anchor=5249820&amp;origem=busca&amp;originURL=&amp;maxTouch=0&amp;pd=774bed239748e14f5f55f9b9993fb054'(>)Filho de Alencar diz que s\u00f3 Palocci n\u00e3o blinda economia(<)\/a(>),\u201d Acervo Digital &#8211; Folha de S.Paulo, August 21, 2005, ; \u201c(<)a href='https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/dinheiro\/fi1402200601.htm'(>)N\u00e3o Voto Na Atual Pol\u00edtica, Diz Josu\u00e9(<)\/a(>),\u201d Acervo Digital &#8211; Folha de S.Paulo, February 14, 2006; Raquel Landim and Raquel Salgado (2006). (<)a href='https:\/\/www2.senado.leg.br\/bdsf\/bitstream\/handle\/id\/468703\/noticia.htm?sequence=1'(>)Ind\u00fastria Paulista Tenta Refazer Pontes Com Lula(<)\/a(>), Valor Econ\u00f4mico, November 1, 2006.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora durante o segundo governo Lula o boom dos pre\u00e7os das commodities tenha permitido maior liberdade fiscal, as pol\u00edticas pr\u00f3-ind\u00fastria e o aquecimento da demanda nacional n\u00e3o foram suficientes para reverter a desindustrializa\u00e7\u00e3o em curso. N\u00e3o obstante, o alto crescimento econ\u00f4mico permitiu que a ind\u00fastria crescesse em termos absolutos, colocando panos quentes nas tens\u00f5es estruturais, que seriam expostas nos mandatos da sucessora.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A promessa n\u00e3o consumada da Nova Matriz Econ\u00f4mica<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dilma Rousseff assumiu o governo na virada de um ciclo econ\u00f4mico, com os <em>aftershocks<\/em> da crise de 2008 desaquecendo a economia global e aumentando a press\u00e3o por austeridade fiscal.<a data-contents=\"Mark Blyth (2017). (<)em(>)Austeridade: A Hist\u00f3ria de Uma Ideia Perigosa(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Autonomia Liter\u00e1ria.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-12\" href=\"#footnote-list-12\">12<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mark Blyth (2017). (<)em(>)Austeridade: A Hist\u00f3ria de Uma Ideia Perigosa(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Autonomia Liter\u00e1ria.<\/span> Em resposta a esse novo contexto, a presidenta lan\u00e7ou a Nova Matriz Econ\u00f4mica (NME), que visava brecar a desindustrializa\u00e7\u00e3o em curso e, com isso, gerar crescimento econ\u00f4mico, renda e emprego.<a data-contents=\"Andr\u00e9 Singer (2016). (<)em(>)O Lulismo Em Crise: Um Quebra-Cabe\u00e7a Do Per\u00edodo Dilma(<)\/em(>) (2011-2016). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-13\" href=\"#footnote-list-13\">13<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Andr\u00e9 Singer (2016). (<)em(>)O Lulismo Em Crise: Um Quebra-Cabe\u00e7a Do Per\u00edodo Dilma(<)\/em(>) (2011-2016). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rea\u00e7\u00e3o empresarial \u00e0 NME pode ser dividida em tr\u00eas momentos. Inicialmente, entre 2011 e meados de 2012, o empresariado mostrava-se extremamente otimista com a nova pol\u00edtica econ\u00f4mica, demandando seu <em>aprofundamento<\/em>. O segundo momento, de meados de 2012 ao in\u00edcio de 2013, \u00e9 marcado, de um lado, pelo otimismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 macroeconomia, e, por outro lado, pela impaci\u00eancia com a <em>lentid\u00e3o<\/em> na implementa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas anunciadas. A preocupa\u00e7\u00e3o era de que as medidas ficassem mais no discurso do que na pr\u00e1tica. Os l\u00edderes empresariais j\u00e1 ponderavam que as a\u00e7\u00f5es eram \u201cpaliativas\u201d e de \u201ccurto prazo\u201d e, apesar de bem-vindas, n\u00e3o seriam suficientes para corrigir a concorr\u00eancia \u201cpredat\u00f3ria\u201d dos pa\u00edses asi\u00e1ticos \u2014 em especial a China \u2014 no mercado local.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir do segundo semestre de 2013, no entanto, o empresariado passou a exigir inflex\u00f5es significativas na pol\u00edtica econ\u00f4mica, julgando a NME como uma das <em>culpadas<\/em> pela crise econ\u00f4mica. O que explica essa mudan\u00e7a?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Primeiro, o pano de fundo econ\u00f4mico e a press\u00e3o do setor financeiro. O impacto da crise no solo nacional come\u00e7ou a dar sinais mais claros j\u00e1 no in\u00edcio de 2013, com o fim do <em>boom<\/em> das commodities e o desaquecimento da demanda. Simultaneamente, a tentativa de mexer no trip\u00e9 macroecon\u00f4mico foi duramente repreendida pelo mercado financeiro, que j\u00e1 amea\u00e7ava uma crise com a volta da temida infla\u00e7\u00e3o, e pressionava por medidas contracionistas.<a data-contents=\"Alfredo Saad-Filho e Lecio Morais (2018). (<)em(>)Brasil: Neoliberalismo versus Democracia(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Boitempo; Andr\u00e9 Singer (2016). (<)em(>)O Lulismo Em Crise: Um Quebra-Cabe\u00e7a Do Per\u00edodo Dilma(<)\/em(>) (2011-2016). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras. Ainda, o governo era acusado de \u201cmaquiar\u201d as contas p\u00fablicas para garantir o super\u00e1vit prim\u00e1rio e as ag\u00eancias de rating amea\u00e7avam rebaixar a nota do Brasil. \u201c(<)a href='https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/materias\/2013\/01\/08\/psdb-quer-explicacoes-sobre-maquiagem-nas-contas-publicas-ainda-durante-recesso'(>)PSDB quer explica\u00e7\u00f5es sobre \u2018maquiagem\u2019 nas contas p\u00fablicas ainda durante recesso(<)\/a(>),\u201d Senado Federal, January 8, 2013.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-14\" href=\"#footnote-list-14\">14<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Alfredo Saad-Filho e Lecio Morais (2018). (<)em(>)Brasil: Neoliberalismo versus Democracia(<)\/em(>). S\u00e3o Paulo: Boitempo; Andr\u00e9 Singer (2016). (<)em(>)O Lulismo Em Crise: Um Quebra-Cabe\u00e7a Do Per\u00edodo Dilma(<)\/em(>) (2011-2016). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras. Ainda, o governo era acusado de \u201cmaquiar\u201d as contas p\u00fablicas para garantir o super\u00e1vit prim\u00e1rio e as ag\u00eancias de rating amea\u00e7avam rebaixar a nota do Brasil. \u201c(<)a href='https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/materias\/2013\/01\/08\/psdb-quer-explicacoes-sobre-maquiagem-nas-contas-publicas-ainda-durante-recesso'(>)PSDB quer explica\u00e7\u00f5es sobre \u2018maquiagem\u2019 nas contas p\u00fablicas ainda durante recesso(<)\/a(>),\u201d Senado Federal, January 8, 2013.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em segundo lugar, neste novo cen\u00e1rio, o pr\u00f3prio governo recuou tanto nas medidas micro quanto nas macroecon\u00f4micas. Pol\u00edticas que estavam em vias de serem implementadas foram congeladas e medidas que j\u00e1 vigoravam corriam risco de revers\u00e3o.<a data-contents=\"A t\u00edtulo de exemplo, medidas de salvaguarda que estavam em vias de serem aprovadas foram congeladas. A implementa\u00e7\u00e3o da chamada \u201cguerra dos portos\u201d, de benef\u00edcios fiscais, tamb\u00e9m sofreu atrasos a partir de 2013, assim como discuss\u00f5es sobre ajustes de regimes tribut\u00e1rios a setores espec\u00edficos. A pol\u00edtica de desonera\u00e7\u00e3o da folha de pagamento era ainda tempor\u00e1ria, com previs\u00e3o de encerramento para o ano de 2014, o que causava inseguran\u00e7a entre o empresariado. No \u00e2mbito macroecon\u00f4mico, o governo perdeu o cabo de guerra e a tend\u00eancia de queda da Taxa Selic foi revertida. Para mais, ver: Nicole Herscovici (2023). Desatando os n\u00f3s: industriais t\u00eaxteis nos governos Dilma. S\u00e3o Paulo, Universidade de S\u00e3o Paulo (disserta\u00e7\u00e3o); Rafael da Silva da Costa (2023). Quem sair por \u00faltimo, apague as luzes: a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria e o golpe parlamentar de 2016. S\u00e3o Paulo, Universidade de S\u00e3o Paulo (disserta\u00e7\u00e3o); Andr\u00e9 Singer (2016). (<)em(>)O Lulismo Em Crise: Um Quebra-Cabe\u00e7a Do Per\u00edodo Dilma(<)\/em(>) (2011-2016). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-15\" href=\"#footnote-list-15\">15<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">A t\u00edtulo de exemplo, medidas de salvaguarda que estavam em vias de serem aprovadas foram congeladas. A implementa\u00e7\u00e3o da chamada \u201cguerra dos portos\u201d, de benef\u00edcios fiscais, tamb\u00e9m sofreu atrasos a partir de 2013, assim como discuss\u00f5es sobre ajustes de regimes tribut\u00e1rios a setores espec\u00edficos. A pol\u00edtica de desonera\u00e7\u00e3o da folha de pagamento era ainda tempor\u00e1ria, com previs\u00e3o de encerramento para o ano de 2014, o que causava inseguran\u00e7a entre o empresariado. No \u00e2mbito macroecon\u00f4mico, o governo perdeu o cabo de guerra e a tend\u00eancia de queda da Taxa Selic foi revertida. Para mais, ver: Nicole Herscovici (2023). Desatando os n\u00f3s: industriais t\u00eaxteis nos governos Dilma. S\u00e3o Paulo, Universidade de S\u00e3o Paulo (disserta\u00e7\u00e3o); Rafael da Silva da Costa (2023). Quem sair por \u00faltimo, apague as luzes: a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria e o golpe parlamentar de 2016. S\u00e3o Paulo, Universidade de S\u00e3o Paulo (disserta\u00e7\u00e3o); Andr\u00e9 Singer (2016). (<)em(>)O Lulismo Em Crise: Um Quebra-Cabe\u00e7a Do Per\u00edodo Dilma(<)\/em(>) (2011-2016). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/span> Isto \u00e9, a base que sustentava a satisfa\u00e7\u00e3o industrial \u2014 a saber, o avan\u00e7o das pol\u00edticas anunciadas e mudan\u00e7as no trip\u00e9 macroecon\u00f4mico \u2014 estava sendo corro\u00edda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, a percep\u00e7\u00e3o dos industriais era de que o mesmo n\u00e3o ocorreria para as pol\u00edticas trabalhistas &#8211; da\u00ed o j\u00e1 mencionado acirramento dos conflitos de classe. O governo mantinha seu compromisso com o reajuste do sal\u00e1rio-m\u00ednimo e resistia, at\u00e9 ent\u00e3o, a cortar gastos com pol\u00edticas sociais. A avalia\u00e7\u00e3o consensual entre os l\u00edderes empresariais era de que a produtividade industrial n\u00e3o estava mais acompanhando o aumento do custo trabalhista, o que significava que a iminente crise econ\u00f4mica seria paga por eles. O l\u00edder empresarial Fernando Pimentel (Abit) analisava que, se o governo n\u00e3o controlasse a infla\u00e7\u00e3o pelo esfriamento da demanda, o empresariado o faria atrav\u00e9s do desemprego.<a data-contents=\"Nicole Herscovici (2023). Desatando os n\u00f3s: industriais t\u00eaxteis nos governos Dilma. S\u00e3o Paulo, Universidade de S\u00e3o Paulo (disserta\u00e7\u00e3o).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-16\" href=\"#footnote-list-16\">16<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Nicole Herscovici (2023). Desatando os n\u00f3s: industriais t\u00eaxteis nos governos Dilma. S\u00e3o Paulo, Universidade de S\u00e3o Paulo (disserta\u00e7\u00e3o).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Frente \u00e0 desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, o equil\u00edbrio t\u00eanue da coaliz\u00e3o produtivista entre os interesses conflitantes dos trabalhadores e empres\u00e1rios tornou-se dif\u00edcil de ser mantido. Os industriais perderam a confian\u00e7a na capacidade do governo em atender a suas demandas setoriais e em reverter a desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica nacional.<a data-contents=\"Refletindo esse momento, (<)a href='http:\/\/portaldaindustria.com.br\/estatisticas\/icei-indice-de-confianca-do-empresario-industrial\/'(>)o \u00cdndice de Confian\u00e7a do Empres\u00e1rio Industrial (ICEI) j\u00e1 mostrava queda significativa no segundo trimestre de 2013(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-17\" href=\"#footnote-list-17\">17<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Refletindo esse momento, (<)a href='http:\/\/portaldaindustria.com.br\/estatisticas\/icei-indice-de-confianca-do-empresario-industrial\/'(>)o \u00cdndice de Confian\u00e7a do Empres\u00e1rio Industrial (ICEI) j\u00e1 mostrava queda significativa no segundo trimestre de 2013(<)\/a(>).<\/span> Enquanto pressionavam pela austeridade fiscal e pelas reformas neoliberais \u2013 tribut\u00e1ria, previdenci\u00e1ria e trabalhista, al\u00e9m de uma redu\u00e7\u00e3o do tamanho e da fun\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro\u2014, o governo resistiu por ao menos mais um ano.<a data-contents=\"Dilma recuou a partir da disputa eleitoral de 2014, em que prometeu um ajuste fiscal e demitiu o ent\u00e3o ministro da Fazenda, Guido Mantega, substituindo-o posteriormente por Joaquim Levy, um nome do mercado. Mesmo assim, em 2015, a proposta de ajuste fiscal foi duramente criticada pelos empres\u00e1rios industriais. Para eles, o ajuste proposto pelo governo aumentaria a carga tribut\u00e1ria da classe empresarial, para manter os gastos p\u00fablicos. Foi este, inclusive, o (<)em(>)turning point(<)\/em(>) para que os industriais simpatizassem publicamente com a proposta de impeachment da presidenta, no segundo semestre de 2015. Ver: Nicole Herscovici (2023). Desatando os n\u00f3s: industriais t\u00eaxteis nos governos Dilma. S\u00e3o Paulo, Universidade de S\u00e3o Paulo (disserta\u00e7\u00e3o).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-18\" href=\"#footnote-list-18\">18<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Dilma recuou a partir da disputa eleitoral de 2014, em que prometeu um ajuste fiscal e demitiu o ent\u00e3o ministro da Fazenda, Guido Mantega, substituindo-o posteriormente por Joaquim Levy, um nome do mercado. Mesmo assim, em 2015, a proposta de ajuste fiscal foi duramente criticada pelos empres\u00e1rios industriais. Para eles, o ajuste proposto pelo governo aumentaria a carga tribut\u00e1ria da classe empresarial, para manter os gastos p\u00fablicos. Foi este, inclusive, o (<)em(>)turning point(<)\/em(>) para que os industriais simpatizassem publicamente com a proposta de impeachment da presidenta, no segundo semestre de 2015. Ver: Nicole Herscovici (2023). Desatando os n\u00f3s: industriais t\u00eaxteis nos governos Dilma. S\u00e3o Paulo, Universidade de S\u00e3o Paulo (disserta\u00e7\u00e3o).<\/span> Assim, os empres\u00e1rios industriais n\u00e3o se viam mais alinhados com as prioridades da agenda governamental justamente no contexto econ\u00f4mico mais desafiador.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Junho de 2013 como janela de oportunidade pol\u00edtica<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 o <em>timing<\/em> da oposi\u00e7\u00e3o industrial \u00e9 melhor explicado pelo contexto pol\u00edtico. Mesmo com sinais de insatisfa\u00e7\u00e3o no in\u00edcio de 2013, o empresariado parecia manter a fachada de apoio ao governo. Afinal, Dilma era extremamente popular, com cerca de 65% de aprova\u00e7\u00e3o at\u00e9 o primeiro semestre de 2013. Os empres\u00e1rios n\u00e3o tinham raz\u00f5es, portanto, para se indispor com um governo que tinha tudo para se reeleger no ano seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cen\u00e1rio se altera profundamente com os grandes protestos de junho daquele ano, que levaram milhares de brasileiros \u00e0s ruas. Embora tenha se originado por pautas progressistas, o saldo das manifesta\u00e7\u00f5es foi o fortalecimento da extrema-direita, das bandeiras anti-pol\u00edtica, do antipetistismo e um desejo generalizado de \u201cmudan\u00e7a\u201d na pol\u00edtica.<a data-contents=\"Camila Rocha (2019). \u2018Imposto \u00e9 Roubo!\u2019 A Forma\u00e7\u00e3o de um Contrap\u00fablico Ultraliberal e os Protestos Pr\u00f3- Impeachment de Dilma Rousseff. (<)em(>)Dados(<)\/em(>), 62(3); Angela Alonso (2017). A pol\u00edtica das ruas: protestos em S\u00e3o Paulo de Dilma a Temer. (<)em(>)Novos Estudos &#8211; CEBRAP(<)\/em(>), 37(1): 49\u201358; Luciana Tatagiba (2014). 1984, 1992 e 2013. Sobre ciclos de protestos e democracia no Brasil, (<)em(>)Pol\u00edtica &amp; Sociedade(<)\/em(>) 13 (28); Andr\u00e9 Singer (2016). (<)em(>)O Lulismo Em Crise: Um Quebra-Cabe\u00e7a Do Per\u00edodo Dilma(<)\/em(>) (2011-2016). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-19\" href=\"#footnote-list-19\">19<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Camila Rocha (2019). \u2018Imposto \u00e9 Roubo!\u2019 A Forma\u00e7\u00e3o de um Contrap\u00fablico Ultraliberal e os Protestos Pr\u00f3- Impeachment de Dilma Rousseff. (<)em(>)Dados(<)\/em(>), 62(3); Angela Alonso (2017). A pol\u00edtica das ruas: protestos em S\u00e3o Paulo de Dilma a Temer. (<)em(>)Novos Estudos &#8211; CEBRAP(<)\/em(>), 37(1): 49\u201358; Luciana Tatagiba (2014). 1984, 1992 e 2013. Sobre ciclos de protestos e democracia no Brasil, (<)em(>)Pol\u00edtica &amp; Sociedade(<)\/em(>) 13 (28); Andr\u00e9 Singer (2016). (<)em(>)O Lulismo Em Crise: Um Quebra-Cabe\u00e7a Do Per\u00edodo Dilma(<)\/em(>) (2011-2016). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/span> Os protestos empurraram o governo Dilma \u201cno fluxo da desmoraliza\u00e7\u00e3o e descr\u00e9dito a que estavam submetidos os governos em todos os pa\u00edses, sequela da crise econ\u00f4mica iniciada em 2008\u201d.<a data-contents=\"Wanderley Guilherme dos Santos (2017). (<)em(>)A Democracia Impedida: O Brasil No S\u00e9culo XXI(<)\/em(>). Rio de Janeiro: Editora FGV.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-20\" href=\"#footnote-list-20\">20<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Wanderley Guilherme dos Santos (2017). (<)em(>)A Democracia Impedida: O Brasil No S\u00e9culo XXI(<)\/em(>). Rio de Janeiro: Editora FGV.<\/span> A aprova\u00e7\u00e3o da presidenta caiu, em quest\u00e3o de semanas, para 30%. Essa altera\u00e7\u00e3o radical da cena pol\u00edtica brasileira possibilitou um alinhamento entre a prefer\u00eancia eleitoral industrial com o esperado resultado das urnas nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2014 (Fig. 1).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"988\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PT-BrazilianInd-Opp_chart-988x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19625\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PT-BrazilianInd-Opp_chart-988x1024.png 988w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PT-BrazilianInd-Opp_chart-289x300.png 289w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PT-BrazilianInd-Opp_chart-768x796.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PT-BrazilianInd-Opp_chart-1482x1536.png 1482w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PT-BrazilianInd-Opp_chart-1975x2048.png 1975w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PT-BrazilianInd-Opp_chart.png 2040w\" sizes=\"auto, (max-width: 988px) 100vw, 988px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme ilustra a figura acima, a prefer\u00eancia empresarial seguia a tend\u00eancia oposta da expectativa da escolha dos eleitores at\u00e9 o in\u00edcio de 2013. Isto \u00e9, embora Dilma n\u00e3o fosse a candidata preferida dos empres\u00e1rios, era alta a expectativa de que a presidenta seria reeleita &#8211; e \u00e9 essa expectativa que rege a aparente manuten\u00e7\u00e3o do apoio industrial at\u00e9 junho de 2013. Contudo, ap\u00f3s os protestos, os empres\u00e1rios calcularam que as expectativas se alinhariam \u00e0 sua prefer\u00eancia nas elei\u00e7\u00f5es de 2014, apostando na vit\u00f3ria do candidato de A\u00e9cio Neves (PSDB) contra Dilma. O ent\u00e3o presidente do Goldman Sachs no Brasil sintetizou a harmonia entre as ruas e o setor privado: \u201cTanto os investidores quanto a popula\u00e7\u00e3o expressaram, de maneiras diferentes [a popula\u00e7\u00e3o, com os protestos; o setor privado com a perda de confian\u00e7a], coisas parecidas, que t\u00eam a ver com a perda de conectividade entre a pol\u00edtica e os anseios do investidor e da popula\u00e7\u00e3o\u201d.<a data-contents=\"\u00c9rica Fraga and Mariana Carneiro (2013). \u2018(<)a href='https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2013\/08\/1328120-brasil-gastou-sua-poupanca-na-disney-diz-chefe-do-goldman-sachs-no-brasil.shtml'(>)Brasil Gastou Sua Poupan\u00e7a Na Disney\u2019, Diz Chefe Do Goldman Sachs No Brasil(<)\/a(>), Folha de S.Paulo, August 18, 2013.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-21\" href=\"#footnote-list-21\">21<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">\u00c9rica Fraga and Mariana Carneiro (2013). \u2018(<)a href='https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2013\/08\/1328120-brasil-gastou-sua-poupanca-na-disney-diz-chefe-do-goldman-sachs-no-brasil.shtml'(>)Brasil Gastou Sua Poupan\u00e7a Na Disney\u2019, Diz Chefe Do Goldman Sachs No Brasil(<)\/a(>), Folha de S.Paulo, August 18, 2013.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a expectativa de que Dilma n\u00e3o se reelegesse, os industriais romperam publicamente com a coaliz\u00e3o governista e se juntaram \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o ao governo. A partir de ent\u00e3o, <a href=\"http:\/\/portaldaindustria.com.br\/estatisticas\/pesquisa-cni-ibope-avaliacao-do-governo\/\">a desaprova\u00e7\u00e3o industrial ao governo<\/a> se torna crescente e o discurso empresarial se torna majoritariamente cr\u00edtico ao governo e sua pol\u00edtica econ\u00f4mica.<a data-contents=\"Gabriel Nunes De Oliveira and Nicole Herscovici (2022). Os empres\u00e1rios industriais no primeiro mandato Dilma Rousseff (2011-2014): uma an\u00e1lise a partir do jornal Valor Econ\u00f4mico. (<)em(>)Revista Brasileira de Ci\u00eancia Pol\u00edtica(<)\/em(>), 37: 1\u201331.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-22\" href=\"#footnote-list-22\">22<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Gabriel Nunes De Oliveira and Nicole Herscovici (2022). Os empres\u00e1rios industriais no primeiro mandato Dilma Rousseff (2011-2014): uma an\u00e1lise a partir do jornal Valor Econ\u00f4mico. (<)em(>)Revista Brasileira de Ci\u00eancia Pol\u00edtica(<)\/em(>), 37: 1\u201331.<\/span> Conforme sintetiza aquele mesmo l\u00edder industrial, Fernando Pimentel, em entrevista \u00e0 autora, \u201cessas manifesta\u00e7\u00f5es vieram no intuito de resolver o problema, uma situa\u00e7\u00e3o que vinha se complicando. Ent\u00e3o [eu] acho que elas fizeram parte da solu\u00e7\u00e3o para que a gente superasse aquele problema\u201d.<a data-contents=\"Nicole Herscovici (2023). Desatando os n\u00f3s: industriais t\u00eaxteis nos governos Dilma. S\u00e3o Paulo, Universidade de S\u00e3o Paulo (disserta\u00e7\u00e3o).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-23\" href=\"#footnote-list-23\">23<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Nicole Herscovici (2023). Desatando os n\u00f3s: industriais t\u00eaxteis nos governos Dilma. S\u00e3o Paulo, Universidade de S\u00e3o Paulo (disserta\u00e7\u00e3o).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Qualitativamente, o diagn\u00f3stico do principal obst\u00e1culo ao crescimento industrial tamb\u00e9m se alterou. O avan\u00e7o dos produtos importados no mercado nacional e a crise internacional deixaram de ser apontados como a fonte das dificuldades industriais, e o principal problema passou a ser uma \u201ccrise nacional\u201d, causada pelo modelo Estado brasileiro, e consequentemente, pela sua for\u00e7a governante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em s\u00edntese, os empres\u00e1rios defendiam que o partido no poder era respons\u00e1vel por um Estado \u201cinchado e ineficiente\u201d. Primeiro, porque o PT adotava uma pol\u00edtica econ\u00f4mica considerada \u201catrasada\u201d e \u201cideol\u00f3gica\u201d, que afundava o pa\u00eds na crise. Segundo, porque o PT formava uma \u201celite pol\u00edtica\u201d corrupta, que criava rombos nos cofres p\u00fablicos. Assim, no discurso empresarial, a crise econ\u00f4mica se ligava diretamente \u00e0 crise pol\u00edtica e \u00e9tica. A solu\u00e7\u00e3o, seguindo a l\u00f3gica da argumenta\u00e7\u00e3o, seria a sa\u00edda do PT da presid\u00eancia e a transforma\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea do Estado e da economia. Ao inv\u00e9s de gastos sociais \u201cexcessivos\u201d, um aparato estatal \u201caparelhado\u201d e \u201cparasita\u201d, e pol\u00edticas econ\u00f4micas \u201ccurto-prazistas\u201d, o Estado deveria \u201cfechar a torneira\u201d dos gastos p\u00fablicos e limitar sua atividade para a condu\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica. Al\u00e9m disso, a prioridade deveria ser de \u201cmodernizar\u201d a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que previa direitos sociais e trabalhistas \u201cn\u00e3o condizentes\u201d com a concorr\u00eancia econ\u00f4mica atual. Isto \u00e9, defendem como solu\u00e7\u00e3o a aprova\u00e7\u00e3o das ditas reformas estruturais: \u201cflexibilizar\u201d os direitos trabalhistas, reformar o regime previdenci\u00e1rio, reduzir os impostos sobre a cadeia de valor da ind\u00fastria.<a data-contents=\"Esse mesmo diagn\u00f3stico e progn\u00f3stico da crise brasileira s\u00e3o utilizados para justificar o apoio industrial ao impeachment de Dilma. As solu\u00e7\u00f5es sugeridas s\u00e3o sintetizadas no que veio a ser o programa do governo Temer &#8211; o documento Ponte para o Futuro, lan\u00e7ado no segundo semestre de 2015. Para mais, ver: Herscovici, 2023.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-24\" href=\"#footnote-list-24\">24<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Esse mesmo diagn\u00f3stico e progn\u00f3stico da crise brasileira s\u00e3o utilizados para justificar o apoio industrial ao impeachment de Dilma. As solu\u00e7\u00f5es sugeridas s\u00e3o sintetizadas no que veio a ser o programa do governo Temer &#8211; o documento Ponte para o Futuro, lan\u00e7ado no segundo semestre de 2015. Para mais, ver: Herscovici, 2023.<\/span> N\u00e3o \u00e0 toa, tanto as cr\u00edticas quanto as solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o compat\u00edveis com a oposi\u00e7\u00e3o ao governo nas ruas \u2014 como os movimentos Brasil Livre, Vem pra Rua e Revoltados Online \u2014 e partid\u00e1ria \u2014 em especial, do candidato A\u00e9cio Neves\u2014, ambos fortalecidos pelas manifesta\u00e7\u00f5es de junho.<a data-contents=\"Tayrine dos Santos Dias (2017). &#8216;\u00c9 Uma Batalha De Narrativas\u2019: Os Enquadramentos De A\u00e7\u00e3o Coletiva Em Torno Do Impeachment De Dilma Rousseff No Facebook&#8221;. Bras\u00edlia, Universidade de Bras\u00edlia (Disserta\u00e7\u00e3o); Let\u00edcia Baron (2019). Se empurrar, ela cai: as grandes manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3-impeachment e a constru\u00e7\u00e3o discursiva dos Movimentos Brasil Livre, Vem pra Rua, Revoltados Online e Endireita Brasil, (<)em(>)Simbi\u00f3tica. Revista Eletr\u00f4nica(<)\/em(>), 191\u2013217; Luciana Tatagiba, \u201c1984, 1992 e 2013. Sobre ciclos de protestos e democracia no Brasil\u201d; Arm\u00ednio Fraga (2015). (<)a href='https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/respostas-altura-da-crise-2-17476976'(>)Respostas \u00e0 Altura Da Crise(<)\/a(>), O Globo, September 13, 2015.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-25\" href=\"#footnote-list-25\">25<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Tayrine dos Santos Dias (2017). &#8216;\u00c9 Uma Batalha De Narrativas\u2019: Os Enquadramentos De A\u00e7\u00e3o Coletiva Em Torno Do Impeachment De Dilma Rousseff No Facebook&#8221;. Bras\u00edlia, Universidade de Bras\u00edlia (Disserta\u00e7\u00e3o); Let\u00edcia Baron (2019). Se empurrar, ela cai: as grandes manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3-impeachment e a constru\u00e7\u00e3o discursiva dos Movimentos Brasil Livre, Vem pra Rua, Revoltados Online e Endireita Brasil, (<)em(>)Simbi\u00f3tica. Revista Eletr\u00f4nica(<)\/em(>), 191\u2013217; Luciana Tatagiba, \u201c1984, 1992 e 2013. Sobre ciclos de protestos e democracia no Brasil\u201d; Arm\u00ednio Fraga (2015). (<)a href='https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/respostas-altura-da-crise-2-17476976'(>)Respostas \u00e0 Altura Da Crise(<)\/a(>), O Globo, September 13, 2015.<\/span><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Implica\u00e7\u00f5es no momento presente<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <em>timing<\/em> da virada \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o e o conte\u00fado das cr\u00edticas exp\u00f5em a fragilidade da alian\u00e7a entre empresariado e governos petistas. De fato, as pol\u00edticas micro atingiram positivamente a ind\u00fastria nacional durante os governos petistas, embora n\u00e3o tenham sido suficientes para reverter a desindustrializa\u00e7\u00e3o em curso. Conforme frequentemente comentado pelos industriais e confirmado pelo desempenho do setor, as medidas \u00e0 ind\u00fastria eram pontuais e compensat\u00f3rias. Com exce\u00e7\u00e3o do breve ensaio de redu\u00e7\u00e3o dos <em>spreads<\/em> banc\u00e1rios, as pol\u00edticas econ\u00f4micas n\u00e3o alteravam o modelo de acumula\u00e7\u00e3o e, portanto, n\u00e3o reposicionavam a posi\u00e7\u00e3o decadente da ind\u00fastria nacional \u2014 em especial a voltada ao mercado interno\u2014 na cadeia global de valores e na participa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica nacional. Assim, h\u00e1 um desalinhamento estrutural entre os governos petistas \u2013 seu modelo de Estado mais presente, seu maior comprometimento com os direitos trabalhistas e pol\u00edticas redistributivas, o modelo de acumula\u00e7\u00e3o do per\u00edodo\u2014e os interesses do empresariado industrial nacional, o que dificulta um alinhamento de longo prazo, ideol\u00f3gico, da chamada coaliz\u00e3o produtivista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em momento de desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, em que o governo Dilma diminui o ritmo de implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas micro e atendimento das demandas industriais, e a pol\u00edtica macro n\u00e3o estava mais alinhada com a expectativa empresarial, a motiva\u00e7\u00e3o material imediata e pontual de apoio ao governo se corr\u00f3i. Quando apresentada a oportunidade pol\u00edtica\u2014de fortalecimento da oposi\u00e7\u00e3o e queda na competitividade eleitoral do PT\u2014os industriais abandonam o barco. O \u00e1pice do conflito se materializa no protagonismo industrial no movimento pr\u00f3-impeachment, no segundo governo Dilma, mas as fundamenta\u00e7\u00f5es da oposi\u00e7\u00e3o ao PT j\u00e1 estavam presentes desde 2013 no discurso industrial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa discuss\u00e3o se torna ainda mais relevante quando observamos uma reaproxima\u00e7\u00e3o dos industriais com o PT a partir das elei\u00e7\u00f5es de 2022, explicitada pela <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/politica\/noticia\/2022\/08\/11\/leia-a-integra-da-carta-em-defesa-da-democracia.ghtml\">carta em defesa da democracia lan\u00e7ada pela Fiesp<\/a>. Embora tivessem em sua maioria apoiado Bolsonaro em 2018, o governo bolsonarista atuou de forma mais independente, marginalizando, a partir de 2020, parte significativa do empresariado. Ademais, a condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds na pandemia aprofundou a crise econ\u00f4mica. Em resposta, parte do empresariado apoiou Lula na disputa eleitoral motivado por esses fatores &#8211; embora embalado em um discurso pr\u00f3-democracia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste novo governo Lula, assistimos quase uma <em>reprise <\/em>da din\u00e2mica pr\u00e9-junho de 2013 entre governo petista e industriais, com o lan\u00e7amento da <em>Nova Ind\u00fastria Brasil, <\/em>a retomada do Minha Casa Minha Vida e do Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC). Contudo, a manuten\u00e7\u00e3o dessa alian\u00e7a parece ainda mais delicada atualmente, j\u00e1 que a margem de manobra econ\u00f4mica e pol\u00edtica de Lula III \u00e9 bastante reduzida. Primeiro, o apoio a Lula n\u00e3o foi consensual.<a data-contents=\"As Confedera\u00e7\u00f5es da Ind\u00fastria e do Com\u00e9rcio n\u00e3o assinaram a carta pr\u00f3-democracia da Fiesp, por exemplo. Dentro da pr\u00f3pria federa\u00e7\u00e3o paulista, o documento foi duramente criticado. O processo de impeachment contra o presidente da FIESP, Josu\u00e9 Gomes, \u00e9 um caso simb\u00f3lico desse conflito intra-empresarial.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-26\" href=\"#footnote-list-26\">26<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">As Confedera\u00e7\u00f5es da Ind\u00fastria e do Com\u00e9rcio n\u00e3o assinaram a carta pr\u00f3-democracia da Fiesp, por exemplo. Dentro da pr\u00f3pria federa\u00e7\u00e3o paulista, o documento foi duramente criticado. O processo de impeachment contra o presidente da FIESP, Josu\u00e9 Gomes, \u00e9 um caso simb\u00f3lico desse conflito intra-empresarial.<\/span> Segundo, a economia est\u00e1 h\u00e1 quase uma d\u00e9cada desaquecida e a autonomia or\u00e7ament\u00e1ria do governo \u00e9 ainda mais reduzida devido \u00e0 alta press\u00e3o fiscal e monet\u00e1ria &#8211; agora <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/caminhando-sobre-gelo-fino\/\">ainda mais forte sob um Banco Central independente e pelas restri\u00e7\u00f5es legais implementadas nos governos p\u00f3s-golpe.<\/a> Eleito com a promessa de retomar e fortalecer as pol\u00edticas redistributivas, Lula tem de fazer escolhas dif\u00edceis sobre os gastos p\u00fablicos, com potencial aprofundamento dos conflitos de classe. Por fim, a base parlamentar do governo \u00e9 reduzida, o Congresso est\u00e1 mais conservador, e a oposi\u00e7\u00e3o de extrema-direita prova-se mais competitiva do que a do PSDB dos anos 2010. Resta saber se o apoio de parte da elite empresarial \u00e9 novamente circunstancial e dependente da aprova\u00e7\u00e3o popular do governo, ou se a amea\u00e7a \u00e0 democracia representada pela oposi\u00e7\u00e3o bolsonarista produziu maior solidez na nova alian\u00e7a lulista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Esse artigo apresenta de forma sintetizada parte dos principais argumentos desenvolvidos no terceiro cap\u00edtulo da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado da autora, intitulada: Desatando os N\u00f3s: Industriais T\u00eaxteis no Governo Dilma (Universidade de S\u00e3o Paulo, 2023).<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A elite econ\u00f4mica de um pa\u00eds possui significativo poder pol\u00edtico, ainda que n\u00e3o decida diretamente pelo voto uma elei\u00e7\u00e3o. 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