{"id":18608,"date":"2024-01-04T06:22:52","date_gmt":"2024-01-04T06:22:52","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/nao-categorizado\/austerity-logic\/"},"modified":"2024-08-28T17:29:49","modified_gmt":"2024-08-28T17:29:49","slug":"austerity-logic","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/resenhas\/austerity-logic\/","title":{"rendered":"A l\u00f3gica da austeridade"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-right\"><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/a-ordem-do-capital-152969\">A ordem do capital: como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo<\/a><br>Autoria de Clara Mattei<br>Boitempo, 2023<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No rescaldo de 2008, a velocidade na qual os Estados capitalistas passaram das pol\u00edticas de resgate e est\u00edmulo \u00e0 economia ao arrocho fiscal foi surpreendente. N\u00e3o menos impressionante foi o remodelamento do ambiente intelectual utilizado para dar sentido a essa passagem. Se nos dias inebriantes de 2008 as vendas de <em>O Capital<\/em> explodiram e manchetes como \u201cO que diria Marx?\u201d figuraram nas p\u00e1ginas da <em><a href=\"https:\/\/www.economist.com\/certain-ideas-of-europe\/2008\/10\/15\/what-would-marx-say\">The Economist<\/a><\/em>,  a restaura\u00e7\u00e3o do <em>status quo ex ante<\/em> sob a reg\u00eancia da austeridade p\u00f3s-crise viu renascer uma figura hist\u00f3rica diferente. Para explicar a s\u00fabita transi\u00e7\u00e3o dos planos de resgate financeiro para os de consolida\u00e7\u00e3o fiscal, acad\u00eamicos e intelectuais de centro-esquerda recorreram a Keynes. De fato, grande parte da bibliografia sobre as crises do capitalismo e a pol\u00edtica de austeridade retomou a m\u00e1xima de Keynes segundo a qual a influ\u00eancia intelectual de economistas obsoletos e de escrevinhadores acad\u00eamicos, a \u201cintromiss\u00e3o gradual de ideias\u201d, e n\u00e3o os grupos de interesses, explicavam o giro dram\u00e1tico do incentivo para a austeridade.<a data-contents=\"Keynes, John Maynard. 1997 [1936]. The General Theory of Employment, Interest and Money. London: Macmillan, p. 383.(<)\/p(>)\n\n\n\n(<)p class='wp-block-paragraph'(>)Edi\u00e7\u00e3o brasileira: 2012. Teoria geral do emprego, do juro e da moeda. Trad. Manuel Resende. Barueri, SP: Saraiva Uni.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Keynes, John Maynard. 1997 [1936]. The General Theory of Employment, Interest and Money. London: Macmillan, p. 383.(<)\/p(>)\n\n\n\n(<)p class='wp-block-paragraph'(>)Edi\u00e7\u00e3o brasileira: 2012. Teoria geral do emprego, do juro e da moeda. Trad. Manuel Resende. Barueri, SP: Saraiva Uni.<\/span> Mas, da comiss\u00e3o Simpson-Bowles do governo Obama \u00e0 crise de \u201cd\u00edvida soberana\u201d da Uni\u00e3o Europeia, o retorno da pol\u00edtica de austeridade depois de 2008 \u00e9 melhor entendido como um caso de venda casada.<a data-contents=\"Blyth, Mark. 2013. (<)em(>)Austerity: The History of a Dangerous Idea(<)\/em(>). Oxford: Oxford University Press, UK.(<)\/p(>)\n\n\n\n(<)p class='wp-block-paragraph'(>)Edi\u00e7\u00e3o brasileira: 2017. Austeridade: a hist\u00f3ria de uma ideia perigosa. Trad. Freitas e Silva. S\u00e3o Paulo: Autonomia Liter\u00e1ria.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Blyth, Mark. 2013. (<)em(>)Austerity: The History of a Dangerous Idea(<)\/em(>). Oxford: Oxford University Press, UK.(<)\/p(>)\n\n\n\n(<)p class='wp-block-paragraph'(>)Edi\u00e7\u00e3o brasileira: 2017. Austeridade: a hist\u00f3ria de uma ideia perigosa. Trad. Freitas e Silva. S\u00e3o Paulo: Autonomia Liter\u00e1ria.<\/span> Armados com as prescri\u00e7\u00f5es da teoria neocl\u00e1ssica, pol\u00edticos e formuladores conseguiram ocultar as verdadeiras causas da crise e transferir a responsabilidade para o incha\u00e7o das reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e a depend\u00eancia dos benefici\u00e1rios de aux\u00edlios sociais. Em seguida, mobilizando o paradoxo da parcim\u00f4nia de Keynes, cr\u00edticos expuseram os efeitos contraproducentes das medidas de austeridade implementadas em meio a uma recess\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante dos not\u00f3rios fracassos em gerar crescimento, como \u00e9 poss\u00edvel explicar a longevidade pol\u00edtica da austeridade ao longo da d\u00e9cada de 2010? Alguns analistas atribu\u00edram a persist\u00eancia do poder da austeridade \u00e0s \u201cideias zumbis\u201d<a data-contents=\"N.T.: \u201cIdeias zumbis\u201d \u00e9 o termo utilizado por Paul Krugman para designar conceitos pol\u00edtico-econ\u00f4micos cuja falsidade pode ser demonstrada por evid\u00eancias cient\u00edficas.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">N.T.: \u201cIdeias zumbis\u201d \u00e9 o termo utilizado por Paul Krugman para designar conceitos pol\u00edtico-econ\u00f4micos cuja falsidade pode ser demonstrada por evid\u00eancias cient\u00edficas.<\/span> propagadas pelo c\u00e2none neocl\u00e1ssico<a data-contents=\"Krugman, Paul. 2020.(<)em(>) Arguing with Zombies: Economics, Politics, and the Fight for a Better Future(<)\/em(>). New York: W. W. Norton &amp; Company.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Krugman, Paul. 2020.(<)em(>) Arguing with Zombies: Economics, Politics, and the Fight for a Better Future(<)\/em(>). New York: W. W. Norton &amp; Company.<\/span> e \u00e0s falsas equival\u00eancias entre or\u00e7amento dom\u00e9stico e or\u00e7amento do Estado que se tornaram lugar-comum depois de 2010. Faltava nessas explica\u00e7\u00f5es, no entanto, uma reflex\u00e3o adequada sobre a din\u00e2mica de classes e o equil\u00edbrio de for\u00e7as pol\u00edticas ap\u00f3s 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o panorama explicativo da austeridade que prevaleceu depois de 2008 apoiou-se excessivamente em Keynes, a meticulosa pesquisa do livro de Clara Mattei, <em>A ordem do capital<\/em>,<a data-contents=\"Mattei, Clara E. 2023. A ordem do capital: como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo. Trad. Heci Regina Candiani. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mattei, Clara E. 2023. A ordem do capital: como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo. Trad. Heci Regina Candiani. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial.<\/span> procurou levar o p\u00eandulo de volta a Marx. Al\u00e9m da demonstra\u00e7\u00e3o das origens h\u00edbridas da austeridade a partir da tecnocracia liberal do entreguerras e da repress\u00e3o fascista, uma das principais contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas da recente obra de Mattei \u00e9 o argumento de que a \u201cperpetua\u00e7\u00e3o da austeridade (&#8230;) n\u00e3o deve ser reduzida a uma quest\u00e3o de irracionalidade nem a uma de teoria econ\u00f4mica\u201d, mas entendida como uma \u201cferramenta para manter as rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas de produ\u00e7\u00e3o\u201d.<a data-contents=\"Mattei, 2023, p. 395\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mattei, 2023, p. 395<\/span> A austeridade, imposta por um triunvirato de pol\u00edticas fiscais, monet\u00e1rias e industriais, tem tanto finalidades distributivas imediatistas quanto metas pol\u00edticas de longo prazo. Ao reduzir gastos sociais, aumentar impostos indiretos regressivos e orquestrar recess\u00f5es por meio de pol\u00edticas monet\u00e1rias deflacion\u00e1rias\u2014levando, assim, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios\u2014, a austeridade canaliza a riqueza e os recursos das classes trabalhadoras para as classes credoras. Ao promover o desemprego e a disciplina de mercado, a austeridade neutraliza o poder coletivo da classe trabalhadora e fortalece o controle econ\u00f4mico de diretores de Bancos Centrais e tecnocratas de Tesouro, isolados da contesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Com a ajuda de economistas formados pelo dogma neocl\u00e1ssico, essa economia capitalista despolitizada adquire uma aura de verdade objetiva e de gest\u00e3o tecnocr\u00e1tica imparcial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora os objetivos autodeclarados da austeridade sejam o equil\u00edbrio fiscal e a estabilidade dos pre\u00e7os, Mattei mostra que seus reais prop\u00f3sitos s\u00e3o um tanto mais pol\u00edticos. Ela sugere que a austeridade opera para repelir amea\u00e7as pol\u00edticas e restaurar condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u200b\u200b\u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de capital. A racionalidade interna da austeridade como doutrina econ\u00f4mica, portanto, \u00e9 de menor import\u00e2ncia. Para compreender sua influ\u00eancia centen\u00e1ria na sustenta\u00e7\u00e3o das economias capitalistas\u2014uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o tecnocr\u00e1tica que come\u00e7ou no per\u00edodo entreguerras e cujo sucesso indiscutivelmente n\u00e3o encontra paralelo na \u00e9poca moderna\u2014, Mattei leva os leitores de volta ao local de origem da austeridade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Guardi\u00f5es da austeridade<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde o per\u00edodo p\u00f3s-napole\u00f4nico, pelo menos, o compromisso com a prud\u00eancia or\u00e7ament\u00e1ria e a moeda est\u00e1vel teve um papel fundamental na hist\u00f3ria do desenvolvimento do Estado brit\u00e2nico. A dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 disciplina fiscal foi popularizada por William Gladstone, primeiro como chanceler do Tesouro e, a partir de 1868, como primeiro-ministro. As reformas or\u00e7ament\u00e1rias de Gladstone e a ades\u00e3o rigorosa \u00e0 ortodoxia econ\u00f4mica acabaram consolidando o dom\u00ednio do Tesouro na estrutura do Estado brit\u00e2nico. As r\u00edgidas conven\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias de Gladstone tamb\u00e9m faziam parte de um sistema pol\u00edtico-econ\u00f4mico maior: eram um baluarte contra a ascens\u00e3o da pol\u00edtica das massas associada \u00e0 expans\u00e3o do direito das classes trabalhadoras masculinas ao voto.<a data-contents=\"Como observa o historiador de economia Martin Daunton (2001), \u201ctanto Gladstone como os funcion\u00e1rios do Tesouro (&#8230;) estavam bastante conscientes de que surgiam novos perigos decorrentes da busca de votos por parte de pol\u00edticos advers\u00e1riose das ambi\u00e7\u00f5es dos departamentos de gastos p\u00fablicos. O resultado, eles temiam, seria a substitui\u00e7\u00e3o do controle pelas despesas, a menos que houvesse conven\u00e7\u00f5es r\u00edgidas e claramente estabelecidas\u201d (p. 66). In Daunton, Martin. 2001. (<)em(>)Trusting Leviathan: The Politics of Taxation in Britain, 1799-1914(<)\/em(>). Cambridge, UK: Cambridge University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Como observa o historiador de economia Martin Daunton (2001), \u201ctanto Gladstone como os funcion\u00e1rios do Tesouro (&#8230;) estavam bastante conscientes de que surgiam novos perigos decorrentes da busca de votos por parte de pol\u00edticos advers\u00e1riose das ambi\u00e7\u00f5es dos departamentos de gastos p\u00fablicos. O resultado, eles temiam, seria a substitui\u00e7\u00e3o do controle pelas despesas, a menos que houvesse conven\u00e7\u00f5es r\u00edgidas e claramente estabelecidas\u201d (p. 66). In Daunton, Martin. 2001. (<)em(>)Trusting Leviathan: The Politics of Taxation in Britain, 1799-1914(<)\/em(>). Cambridge, UK: Cambridge University Press.<\/span> A consolida\u00e7\u00e3o do capitalismo brit\u00e2nico do s\u00e9culo XIX foi conduzida pelo triunvirato pol\u00edtico do livre com\u00e9rcio, do equil\u00edbrio or\u00e7ament\u00e1rio e do padr\u00e3o-ouro, este \u00faltimo acertadamente definido por Joseph Schumpeter como o \u201cemblema e a garantia da liberdade burguesa\u201d.<a data-contents=\"Schumpeter, Joseph. 1954. (<)em(>)History of Economic Analysis(<)\/em(>). Oxford: Oxford University Press, p. 382.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-8\" href=\"#footnote-list-8\">8<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Schumpeter, Joseph. 1954. (<)em(>)History of Economic Analysis(<)\/em(>). Oxford: Oxford University Press, p. 382.<\/span> O \u201cv\u00ednculo cidade-Banco Central-Tesouro\u201d, que unia os principais aparelhos dos setores estatal e financeiro em torno de um consenso ortodoxo sobre a pol\u00edtica econ\u00f4mica,<a data-contents=\"Ingham, Geoffrey. 1984. (<)em(>)Capitalism Divided? The City and Industry in British Social Development(<)\/em(>). New York: Palgrave Macmillan.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-9\" href=\"#footnote-list-9\">9<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ingham, Geoffrey. 1984. (<)em(>)Capitalism Divided? The City and Industry in British Social Development(<)\/em(>). New York: Palgrave Macmillan.<\/span> supervisionava esse paradigma de desenvolvimento. Apesar de os compromissos com a austeridade terem assumido um status quase constitucional na Gr\u00e3-Bretanha do final do s\u00e9culo XIX, foi s\u00f3 no entreguerras que ela se consolidou integralmente como doutrina econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi em resposta ao fervor revolucion\u00e1rio que varreu a Europa ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, argumenta Mattei, principalmente na It\u00e1lia do bi\u00eanio vermelho e, em menor grau, durante a onda de milit\u00e2ncia industrial de 1919-1920 na Gr\u00e3-Bretanha, que a austeridade foi concebida como um projeto tecnocr\u00e1tico global para restaurar a sacralidade das rela\u00e7\u00f5es de propriedade capitalistas. Ap\u00f3s a Primeira Guerra, assombrados pela crescente radicaliza\u00e7\u00e3o do coletivismo de Estado durante o conflito e da milit\u00e2ncia da classe trabalhadora depois de 1917, economistas, pol\u00edticos e classes dirigentes se reuniram em confer\u00eancias financeiras internacionais em Bruxelas, em 1920, e em G\u00eanova, em 1922, para discutir os princ\u00edpios fundamentais da austeridade. Embora os objetivos formais fossem a reconstru\u00e7\u00e3o da economia europeia e a estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, Mattei convincentemente argumenta que os participantes foram claros ao articular a austeridade como mecanismo para \u201cdefender o capitalismo de seus \u2018inimigos\u2019\u201d.<a data-contents=\"Mattei, 2023, p. 196\" class=\"footnote\" id=\"footnote-10\" href=\"#footnote-list-10\">10<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mattei, 2023, p. 196<\/span> A partir dessas confer\u00eancias, a doutrina moderna do sacrif\u00edcio pessoal e da parcim\u00f4nia, alcan\u00e7ada por meio de trabalho \u00e1rduo e do consumo limitado, se concretizou como principal justificativa ideol\u00f3gica para a austeridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar disso, os patronos da austeridade se depararam com um enigma: como implementar pol\u00edticas t\u00e3o impopulares em um momento marcado pela milit\u00e2ncia sem precedentes da classe trabalhadora e pelo descontentamento pol\u00edtico generalizado? A resposta, sugere Mattei, foi uma estrat\u00e9gia dupla, coercitiva e consensual, material e ideol\u00f3gica. Uma recess\u00e3o orquestrada, arrochos salariais e cortes or\u00e7ament\u00e1rios significativos poderiam enfraquecer os amortecedores da seguridade social e do baixo desemprego, comumente vistos como subs\u00eddios \u00e0 milit\u00e2ncia trabalhista. A restaura\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o-ouro, formalmente suspenso durante a guerra, foi central para a implementa\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica disciplinar. A retomada do padr\u00e3o-ouro ap\u00f3s a guerra foi vista n\u00e3o apenas como instrumento para a estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, mas, o que \u00e9 mais importante, como um eixo civilizat\u00f3rio para o reestabelecimento da ordem capitalista liberal de livre com\u00e9rcio, equil\u00edbrio fiscal e disciplina de classe.<a data-contents=\"Como descreveu Karl Polanyi, o padr\u00e3o-ouro constitu\u00eda \u201co \u00fanico preceito comum aos homens de todas as na\u00e7\u00f5es e classes, denomina\u00e7\u00f5es religiosas e filosofias sociais\u201d que era a \u201crealidade invis\u00edvel \u00e0 qual o desejo de viver podia se aferrar\u201d. Polanyi, Karl. 2001 [1957]. (<)em(>)The Great Transformation: The Political and Economic Origins of Our Time(<)\/em(>). Boston: Beacon Press, p. 26-27. (<)\/p(>)\n\n\n\n(<)p class='wp-block-paragraph'(>)N.E.: A cita\u00e7\u00e3o de Polanyi foi traduzida, aqui, a partir da edi\u00e7\u00e3o utilizada pelo autor desta resenha. Na edi\u00e7\u00e3o brasileira do mesmo livro (2000. (<)em(>)A Grande Transforma\u00e7\u00e3o(<)\/em(>). Trad. Fanny Wrobel. 2\u00aa ed. Rio de Janeiro: Editora Campus, p. 42.), o trecho citado aparece como: \u201co dogma primeiro e \u00fanico comum aos homens de todas as na\u00e7\u00f5es, de todas as classes, de todas as religi\u00f5es e filosofias sociais (&#8230;) \u201ca \u00fanica realidade invis\u00edvel \u00e0 qual podia se apegar a vontade de viver\u201d.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-11\" href=\"#footnote-list-11\">11<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Como descreveu Karl Polanyi, o padr\u00e3o-ouro constitu\u00eda \u201co \u00fanico preceito comum aos homens de todas as na\u00e7\u00f5es e classes, denomina\u00e7\u00f5es religiosas e filosofias sociais\u201d que era a \u201crealidade invis\u00edvel \u00e0 qual o desejo de viver podia se aferrar\u201d. Polanyi, Karl. 2001 [1957]. (<)em(>)The Great Transformation: The Political and Economic Origins of Our Time(<)\/em(>). Boston: Beacon Press, p. 26-27. (<)\/p(>)\n\n\n\n(<)p class='wp-block-paragraph'(>)N.E.: A cita\u00e7\u00e3o de Polanyi foi traduzida, aqui, a partir da edi\u00e7\u00e3o utilizada pelo autor desta resenha. Na edi\u00e7\u00e3o brasileira do mesmo livro (2000. (<)em(>)A Grande Transforma\u00e7\u00e3o(<)\/em(>). Trad. Fanny Wrobel. 2\u00aa ed. Rio de Janeiro: Editora Campus, p. 42.), o trecho citado aparece como: \u201co dogma primeiro e \u00fanico comum aos homens de todas as na\u00e7\u00f5es, de todas as classes, de todas as religi\u00f5es e filosofias sociais (&#8230;) \u201ca \u00fanica realidade invis\u00edvel \u00e0 qual podia se apegar a vontade de viver\u201d.<\/span> Ao impor os imperativos da austeridade fiscal e monet\u00e1ria, embora muitas vezes menos por meio do automatismo mec\u00e2nico dos fluxos de ouro imaginados por seus contempor\u00e2neos e mais pelas fortalezas deflacion\u00e1rias dos Bancos Centrais \u201cindependentes\u201d, o padr\u00e3o-ouro era, nas palavras de Mattei, \u201c\u00e0 prova de fraudes\u201d.<a data-contents=\"Mattei, 2023, p. 370.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-12\" href=\"#footnote-list-12\">12<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mattei, 2023, p. 370.<\/span> Era tanto uma barreira contra as incurs\u00f5es da pol\u00edtica de massas nas rela\u00e7\u00f5es de propriedade capitalistas como de um avalista da disciplina de classe. Atrav\u00e9s dos rigores do padr\u00e3o-ouro, as reformas austeras deixaram de ser uma \u201cquest\u00e3o de disputa pol\u00edtica, e sim de necessidade econ\u00f4mica\u201d.<a data-contents=\"Mattei, 2023, p. 217.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-13\" href=\"#footnote-list-13\">13<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mattei, 2023, p. 217.<\/span> <a id=\"_msocom_1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Alquimistas da austeridade<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora o padr\u00e3o-ouro e os decretos fiscais e monet\u00e1rios que o acompanhavam fossem, como disse Polanyi, a \u201ccren\u00e7a da \u00e9poca\u201d<a data-contents=\"Na edi\u00e7\u00e3o brasileira (p. 41), \u201creligi\u00e3o daquele tempo\u201d.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-14\" href=\"#footnote-list-14\">14<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Na edi\u00e7\u00e3o brasileira (p. 41), \u201creligi\u00e3o daquele tempo\u201d.<\/span> eles exigiam, mesmo assim, uma justificativa ideol\u00f3gica. Mattei argumenta que os economistas foram fundamentais nesse esfor\u00e7o. Na Gr\u00e3-Bretanha do entreguerras, ningu\u00e9m foi mais influente do que Ralph Hawtrey, que lan\u00e7ou muitas das bases intelectuais da infame \u201cVis\u00e3o do Tesouro\u201d do per\u00edodo entreguerras. Desde a sua formula\u00e7\u00e3o sobre a tend\u00eancia implac\u00e1vel \u00e0 infla\u00e7\u00e3o nas eocnomias de mercados baeadas em cr\u00e9dito, at\u00e9 sua justifica\u00e7\u00e3o da necessidade de Bancos Centrais \u201cindependentes\u201d\u2014uma proposta que Keynes endossou notavelmente\u2014, a influ\u00eancia de Hawtrey na defini\u00e7\u00e3o da abordagem deflacion\u00e1ria do Estado brit\u00e2nico ao longo da d\u00e9cada de 1920 foi incompar\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As teorias econ\u00f4micas de Hawtrey estavam enraizadas em pressupostos moralistas. Ele acreditava no virtuosismo inerente \u00e0 classe investidora e criticava os h\u00e1bitos imprudentes de consumo da classe trabalhadora. O ofuscamento ideol\u00f3gico deu a essas cren\u00e7as um ar cient\u00edfico. Por meio da substitui\u00e7\u00e3o das classes pelos indiv\u00edduos (por exemplo, dos \u201ctrabalhadores\u201d pelos \u201cconsumidores\u201d), acompanhada pela ideia de que a propens\u00e3o a poupar \u00e9 determinada por tra\u00e7os de car\u00e1ter, n\u00e3o pela posi\u00e7\u00e3o de classe, Hawtrey forneceu a base ideol\u00f3gica para que o v\u00ednculo Tesouro-Banco Central orquestrasse a virada deflacion\u00e1ria. A orienta\u00e7\u00e3o de classe dessas pol\u00edticas decorria claramente da teoria: se os trabalhadores e o p\u00fablico consumidor fossem culpados pela imprud\u00eancia or\u00e7ament\u00e1ria e pelas amea\u00e7as inflacion\u00e1rias, conclu\u00eda-se que eles deveriam suportar o peso do sacrif\u00edcio pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao valorizar a riqueza dos investidores e vincular a infla\u00e7\u00e3o ao aumento dos rendimentos da classe trabalhadora, a teoria neocl\u00e1ssica ofereceu a justificativa intelectual para que tomadores de decis\u00f5es canalizassem a riqueza para cima. Embora o equil\u00edbrio fiscal fosse crucial, era importante esclarecer quem o financiava. A tributa\u00e7\u00e3o indireta tinha prefer\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a um imposto sobre o capital, por exemplo. Desse modo, Mattei apresenta uma explica\u00e7\u00e3o convincente para a dissocia\u00e7\u00e3o entre a doutrina da austeridade e o desvio de seus princ\u00edpios fundamentais por parte dos tomadores de decis\u00f5es\u2014uma caracter\u00edstica que persiste at\u00e9 o presente. Se o desemprego recessivo \u00e9 necess\u00e1rio para subjugar a milit\u00e2ncia da classe trabalhadora, o equil\u00edbrio fiscal desempenha um papel secund\u00e1rio. Se os cortes nos gastos com aux\u00edlios sociais s\u00e3o necess\u00e1rios para obrigar os trabalhadores grevistas a voltarem ao mercado de trabalho, os aumentos de impostos s\u00e3o relegados ao segundo plano. Na verdade, por tr\u00e1s de cada apelo \u00e0 estabilidade de pre\u00e7os e \u00e0 prud\u00eancia fiscal h\u00e1 um projeto de classe implac\u00e1vel com objetivos distributivos e pol\u00edticos claros. Nas economias pol\u00edticas radicalmente divergentes da Gr\u00e3-Bretanha e da It\u00e1lia do entreguerras, assim que a milit\u00e2ncia dos trabalhadores atingiu picos hist\u00f3ricos, essa doutrina foi posta em pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Austeridade como fio condutor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do Comit\u00ea de Moeda e C\u00e2mbio (<em>Cunliffe<\/em>) ao aumento hist\u00f3rico da taxa b\u00e1sica de juros em abril de 1920, foi a Gr\u00e3-Bretanha que inaugurou a virada deflacion\u00e1ria. Estabelecendo as bases para o retorno ao padr\u00e3o-ouro, essas medidas pol\u00edticas tamb\u00e9m foram um golpe para restaurar a disciplina de classe, debilitada em meio \u00e0 explos\u00e3o da filia\u00e7\u00e3o sindical durante a guerra e da extens\u00e3o do direito de voto \u00e0s classes trabalhadoras masculinas em 1918. Acima de tudo, as medidas serviram para proteger o valor dos empr\u00e9stimos pendentes junto aos credores das amea\u00e7as inflacion\u00e1rias no rescaldo da guerra. Foram pol\u00edticas desastrosas, inaugurando uma d\u00e9cada de defla\u00e7\u00e3o da d\u00edvida e desemprego em massa, que, no in\u00edcio dos anos 1920, eliminou quaisquer perspectivas de reforma social no p\u00f3s-guerra.<a data-contents=\"Edgerton, David. 2018. (<)em(>)The Rise and Fall of the British Nation: A Twentieth Century History(<)\/em(>). London: Allen Lane.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-15\" href=\"#footnote-list-15\">15<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Edgerton, David. 2018. (<)em(>)The Rise and Fall of the British Nation: A Twentieth Century History(<)\/em(>). London: Allen Lane.<\/span> O impacto do bra\u00e7o fiscal da austeridade veio do Geddes Axe, uma iniciativa da classe dominante do p\u00f3s-guerra para conten\u00e7\u00e3o fiscal e social apoiada por Lloyd George. Os cortes totalizaram cerca de \u00a357 milh\u00f5es: &nbsp;as despesas do governo foram reduzidas em um ter\u00e7o de 1923 a 1924 e, ainda em 1922, o or\u00e7amento destinado ao servi\u00e7o da d\u00edvida (em grande parte para os Estados Unidos) j\u00e1 havia ultrapassado o montante dos gastos sociais.<a data-contents=\"Mattei, 2023, p. 315\" class=\"footnote\" id=\"footnote-16\" href=\"#footnote-list-16\">16<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mattei, 2023, p. 315<\/span> Majoritariamente focados na redu\u00e7\u00e3o de gastos sociais, esses cortes seriam os mais abrangentes do s\u00e9culo XX, obliterando promessas de reforma da sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O retorno ao padr\u00e3o-ouro garantido em 1925 restaurou o v\u00ednculo Tesouro-Banco Central-cidade e suprimiu o breve vislumbre de radicalismo pol\u00edtico da Gr\u00e3-Bretanha. Como o livro de Mattei destaca, os esfor\u00e7os coletivos de burocratas do Tesouro e funcion\u00e1rios do Banco Central foram centrais para esse retorno conservador. A condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica fiscal ao longo da d\u00e9cada de 1920 era mais ligada \u00e0s compet\u00eancias do Tesouro do que do Parlamento. Mais importante, ainda assim, era o Banco da Inglaterra. Como revela a pesquisa de arquivo de Mattei, funcion\u00e1rios do Tesouro e do Banco Central, liderados por Montagu Norman, trabalharam em conjunto para coordenar seus objetivos, com o est\u00edmulo do Tesouro para consolida\u00e7\u00e3o fiscal no entreguerras aumentando o controle do Banco sobre os mercados monet\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desenvolvimento brit\u00e2nico durante esse per\u00edodo\u2014uma evolu\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 estabilidade, prosperidade e liberdade\u2014\u00e9 tipicamente contrastado com a instabilidade pol\u00edtica e o atraso econ\u00f4mico que, segundo se diz, atormentavam seus vizinhos continentais. Isso, argumenta-se, \u00e9 em grande parte respons\u00e1vel pelos n\u00edveis relativamente baixos de fascismo no pa\u00eds entreguerras, apesar da Uni\u00e3o Brit\u00e2nica de Oswald Mosely.<a data-contents=\"A teoria da moderniza\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica ofereceu uma explica\u00e7\u00e3o similarmente evolucionista para a aus\u00eancia do fascismo na Gr\u00e3-Bretanha. Como Seymour Martin Lipset (1959) sugeriu, foram as \u201cnormas de toler\u00e2ncia\u201d associadas \u00e0 trajet\u00f3ria de modernidade da Gr\u00e3-Bretanha e a eleva\u00e7\u00e3o de sua classe m\u00e9dia que contribu\u00edram para a aus\u00eancia de extremismo pol\u00edtico (p. 484). Lipset, Martin. 1959. \u201cDemocracy and Working-Class Authoritarianism\u201d, (<)em(>)American Sociological Review(<)\/em(>), 24(4), p. 482-501.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-17\" href=\"#footnote-list-17\">17<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">A teoria da moderniza\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica ofereceu uma explica\u00e7\u00e3o similarmente evolucionista para a aus\u00eancia do fascismo na Gr\u00e3-Bretanha. Como Seymour Martin Lipset (1959) sugeriu, foram as \u201cnormas de toler\u00e2ncia\u201d associadas \u00e0 trajet\u00f3ria de modernidade da Gr\u00e3-Bretanha e a eleva\u00e7\u00e3o de sua classe m\u00e9dia que contribu\u00edram para a aus\u00eancia de extremismo pol\u00edtico (p. 484). Lipset, Martin. 1959. \u201cDemocracy and Working-Class Authoritarianism\u201d, (<)em(>)American Sociological Review(<)\/em(>), 24(4), p. 482-501.<\/span> Mattei questiona esse contraste\u2014havia um v\u00ednculo persistente entre a Gr\u00e3-Bretanha liberal e a It\u00e1lia fascista, argumenta ela: a aceita\u00e7\u00e3o m\u00fatua da austeridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao contr\u00e1rio da respeitabilidade tecnocr\u00e1tica da Gr\u00e3-Bretanha, a austeridade na It\u00e1lia foi implementada pelo punho de ferro do Estado fascista. Apesar dessas diferentes modalidades, Mattei insiste que a austeridade \u201centreteceu o fascismo ao liberalismo em uma busca comum, coercitiva\u201d.<a data-contents=\"Mattei, 2023, p. 294\" class=\"footnote\" id=\"footnote-18\" href=\"#footnote-list-18\">18<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mattei, 2023, p. 294<\/span> Ela tra\u00e7a o papel de quatro economistas, dois liberais e dois fascistas, na forma\u00e7\u00e3o da austeridade italiana ap\u00f3s a Marcha sobre Roma de Mussolini. A It\u00e1lia enfrentou uma amea\u00e7a mais iminente de revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria do que sua contraparte angl\u00f3fona, com metade de sua for\u00e7a de trabalho em greve no auge da onda vermelha dos anos 1920, al\u00e9m das ocupa\u00e7\u00f5es frequentes de locais de trabalho em paralelo. O movimento da \u201ceconomia pura\u201d, um parente pr\u00f3ximo da teoria da utilidade marginal e da economia neocl\u00e1ssica, ofereceu um plano para esmagar a rebeli\u00e3o da classe trabalhadora. Apesar de ter sido facilitado pela pris\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o de comunistas, socialistas e l\u00edderes sindicais, notadamente Matteotti e Gramsci, o programa de austeridade da It\u00e1lia foi, ainda assim, tecnocr\u00e1tico. Economistas como De Stefani a Pantaleoni elaboraram um programa abrangente de conten\u00e7\u00e3o de gastos sociais e consolida\u00e7\u00e3o fiscal que se baseou ativamente no modelo brit\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fascismo italiano foi uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para o capital internacional. As primeiras reformas inclu\u00edram uma redu\u00e7\u00e3o substancial da carga tribut\u00e1ria para os ricos e pacotes de resgate generosos para conglomerados financeiros proeminentes. Enquanto a historiografia convencional distingue o fascismo italiano em seu caminho inicial de <em>laissez faire<\/em> e a subsequente virada para o corporativismo, Mattei v\u00ea uma continuidade das medidas de austeridade destinadas a esmagar o poder da classe trabalhadora. Ap\u00f3s significativa press\u00e3o externa sobre a lira, Mussolini estabeleceu os pr\u00e9-requisitos monet\u00e1rios e cambiais para que a It\u00e1lia\u2014uma economia perif\u00e9rica dependente\u2014aderisse ao padr\u00e3o-ouro em 1927, endurecendo as press\u00f5es deflacion\u00e1rias. O que se seguiu foi uma perda hist\u00f3rica de poder da classe trabalhadora italiana e uma forte deteriora\u00e7\u00e3o de seus padr\u00f5es de vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto o liberalismo brit\u00e2nico e o fascismo italiano permaneciam forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas distintas, a austeridade unia as classes dirigentes dos dois pa\u00edses. Como a pesquisa de Mattei ilustra, liberais importantes, inclusive na It\u00e1lia, elogiaram a experi\u00eancia de disciplina de mercado de Mussolini. Churchill, Montagu Norman e Andrew Mellon exaltaram as virtudes da ordem pol\u00edtica e da disciplina fiscal forjadas pelo fascismo italiano. Com a regulariza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida do p\u00f3s-guerra possibilitada pelos Estados Unidos e pela Gr\u00e3-Bretanha e um empr\u00e9stimo de US$ 100 milh\u00f5es do J.P. Morgan Chase, a It\u00e1lia recebeu o selo dourado de aprova\u00e7\u00e3o para entrar no cen\u00e1rio internacional. Apesar dos melhores esfor\u00e7os dos liberais em diferenciar o \u201cnecess\u00e1rio\u201d surgimento do fascismo na It\u00e1lia e a sua aus\u00eancia na Gr\u00e3-Bretanha, as agendas de pol\u00edtica econ\u00f4mica que os pa\u00edses compartilharam ao longo da d\u00e9cada de 1920, al\u00e9m do apoio material constante oferecido pelo Ocidente ao experimento fascista da It\u00e1lia, revelam as claras conex\u00f5es existentes.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Passado e presente da austeridade<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise de Mattei \u00e9 um trabalho exemplar de economia pol\u00edtica hist\u00f3rica que busca conduzir o debate sobre as crises do capitalismo do keynesianismo em dire\u00e7\u00e3o a Marx. Em contraste com o entendimento, registrado em an\u00e1lises recentes,<a data-contents=\"Morrison, James A. 2021. (<)em(>)England\u2019s Cross of Gold: Keynes, Churchill, and the Governance of Economic Beliefs(<)\/em(>). New York: Cornell University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-19\" href=\"#footnote-list-19\">19<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Morrison, James A. 2021. (<)em(>)England\u2019s Cross of Gold: Keynes, Churchill, and the Governance of Economic Beliefs(<)\/em(>). New York: Cornell University Press.<\/span> de que o renascimento do padr\u00e3o-ouro e da austeridade na Gr\u00e3-Bretanha do entreguerras foi produto de decis\u00f5es tomadas por estadistas ou economistas espec\u00edficos, a hist\u00f3ria \u00e9 reanimada por Mattei com o registro dos conflitos entre Estados e classes. Mattei desnuda os fundamentos ideol\u00f3gicos da economia neocl\u00e1ssica e demonstra seu estreito envolvimento com o poder estatal a servi\u00e7o da defesa das rela\u00e7\u00f5es de propriedade capitalistas. Nesse sentido, <em>A ordem do capital<\/em> representa um avan\u00e7o na literatura acad\u00eamica recente sobre austeridade, que muitas vezes permite abstrair as caracter\u00edsticas conceituais e t\u00e9cnicas da austeridade de seus fundamentos pol\u00edticos e sociais mais amplos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho de Mattei apresenta o que tem de melhor ao esclarecer as origens da austeridade, mas oferece menos no sentido de explicar a not\u00e1vel dura\u00e7\u00e3o da austeridade at\u00e9 o presente. Em seu cap\u00edtulo final sobre a austeridade hoje, Mattei rompe admiravelmente com a tend\u00eancia predominante de narrar a hist\u00f3ria econ\u00f4mica do s\u00e9culo XX como uma disputa entre o keynesianismo e o monetarismo. Ao inv\u00e9s disso, sugere que a era atual vem sendo mais caracterizada por uma continuidade radical com a era do entreguerras. Para explicar o racioc\u00ednio, Mattei enfatiza a continuidade da tecnocracia, que resiste como o melhor mecanismo pol\u00edtico para impor a austeridade e proteger as rela\u00e7\u00f5es de propriedade capitalistas da pol\u00edtica democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00eanfase de Mattei na tecnocracia \u00e9 apropriada. Como o mais recente ciclo de contra\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria a partir da pandemia demonstrou, tecnocratas n\u00e3o eleitos de bancos centrais seguem presentes na cabine de comando da imposi\u00e7\u00e3o da austeridade. De fato, eventos recentes das pol\u00edticas brit\u00e2nica e italiana apoiam a tese de Mattei. A Gr\u00e3-Bretanha viu uma restaura\u00e7\u00e3o impressionante do poder tecnocr\u00e1tico ap\u00f3s o experimento de Lizz Truss com o pseudo-thatcherismo no final de 2022, ao passo que, na It\u00e1lia, a lideran\u00e7a pol\u00edtica passou da tecnocracia de Draghi para as m\u00e3os de uma verdadeira p\u00f3s-fascista que <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/markets\/europe\/italys-meloni-unveil-budget-with-30-bln-euros-lift-economy-2022-11-21\/\">afirmou seu compromisso<\/a> com a austeridade. Como relembra Mattei no final de seu livro, \u201calguns velhos h\u00e1bitos n\u00e3o morrem\u201d.<a data-contents=\"Mattei, 2023, p. 418.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-20\" href=\"#footnote-list-20\">20<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mattei, 2023, p. 418.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, conceituar a economia pol\u00edtica da austeridade da d\u00e9cada de 1920 \u00e0 d\u00e9cada de 2020 como uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o tecnocr\u00e1tica ininterrupta n\u00e3o \u00e9 muito preciso. Os mecanismos de legitimidade e pol\u00edtica de massa por meio dos quais a austeridade foi articulada passaram por mudan\u00e7as significativas desde 1920.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entreguerras, a imposi\u00e7\u00e3o da austeridade, executada em grande parte pela edifica\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o-ouro e dos ditames de equil\u00edbrio fiscal que o acompanham, enfrentou poucos canais de supervis\u00e3o ou escrut\u00ednio popular. Embora <em>A ordem do capital<\/em> delineie a explos\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o popular militante a essa ordem de muitas maneiras; esse per\u00edodo marcou o auge de uma era pr\u00e9-democr\u00e1tica e o eclipse de uma esquerda anticapitalista, em vez de um projeto de futuro. Foi um momento no qual, com alguma frequ\u00eancia, a austeridade ensejou confrontos abertos entre capital e trabalho de maneira a tornar qualquer potencial acordo entre capitalismo e democracia altamente duvidoso. Nessas condi\u00e7\u00f5es, a austeridade foi mais visivelmente uma arma de domina\u00e7\u00e3o de classe empunhada por uma restrita classe dirigente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, ap\u00f3s o interregno fascista, a Grande Depress\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o causada pela Segunda Guerra Mundial, as democracias capitalistas na Europa e na Am\u00e9rica do Norte passaram por uma revis\u00e3o significativa. Com a implanta\u00e7\u00e3o do capitalismo fordista sob os ausp\u00edcios da hegemonia estadunidense do p\u00f3s-guerra, a pol\u00edtica econ\u00f4mica foi refratada atrav\u00e9s de institui\u00e7\u00f5es mediadoras da pol\u00edtica de massa que obscureceram o car\u00e1ter de classe da austeridade e geraram novos eixos de apoio pol\u00edtico e oposi\u00e7\u00e3o. Durante o p\u00f3s-guerra, os partidos pol\u00edticos do mundo ocidental, despojados de grande parte de seu radicalismo pol\u00edtico do entreguerras, realinharam-se em torno do crescimento, dos pactos de aux\u00edlio social e dos acordos corporativos capital-trabalho. \u00c0 medida que os pol\u00edticos gradualmente concederam reformas sociais associadas \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra, o \u201cfim da ideologia\u201d substituiu a luta de classes como arquitetura ideol\u00f3gica dominante do capitalismo democr\u00e1tico e o conflito pol\u00edtico se tornou mais difuso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse per\u00edodo oferece, sem d\u00favida, um ponto de partida mais promissor para avaliar a dura\u00e7\u00e3o da austeridade no presente. Em contraste com a era do padr\u00e3o-ouro, quando o sufr\u00e1gio popular era inexistente ou apenas recentemente estendido aos homens da classe trabalhadora, o \u201ccapitalismo democr\u00e1tico\u201d do p\u00f3s-guerra ampliou as possibilidades da pol\u00edtica popular (ainda que, sob qualquer \u00f3tica, de forma n\u00e3o igualit\u00e1ria) e a pol\u00edtica econ\u00f4mica se tornou mais alinhada \u00e0s popula\u00e7\u00f5es nacionais. Na era da pol\u00edtica de massa no Ocidente, a austeridade exigia uma base mais s\u00f3lida. Embora os res\u00edduos do liberalismo olig\u00e1rquico continuassem a moldar a pol\u00edtica econ\u00f4mica no p\u00f3s-guerra, especialmente no papel dos bancos centrais, uma teoria convincente da pol\u00edtica de austeridade hoje deve explicar como ela \u00e9 reproduzida no interior das institui\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas da democracia liberal\u2014por mais vazias e circunscritas que possam ser agora ap\u00f3s a ofensiva neoliberal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora Mattei enfatize de forma importante que a austeridade deve ser entendida como um mecanismo de domina\u00e7\u00e3o de classe em vez de uma doutrina pol\u00edtica irracional, a \u00eanfase que ela d\u00e1 ao papel da economia neocl\u00e1ssica e \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o persistente de poder tecnocr\u00e1tico sobre a pol\u00edtica macroecon\u00f4mica explica apenas parcialmente a resili\u00eancia da austeridade hoje.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Dividir para conquistar<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma maneira de evitar as armadilhas da bibliografia keynesiana \u00e9 retornar a um dos te\u00f3ricos centrais politizados no bi\u00eanio vermelho italiano de Mattei: Antonio Gramsci. Escritos substancialmente durante o per\u00edodo de encarceramento fascista ao qual o autor foi submetido na d\u00e9cada de 1930, os <em>Quaderni<\/em> de Gramsci apresentam um quadro referencial sofisticado para lidar com os fundamentos materiais da ideologia em democracias capitalistas. Um dos conceitos consagrados da obra de Gramsci, a <em>hegemonia<\/em> descreve como uma classe dirigente dominante exerce autoridade pol\u00edtica n\u00e3o apenas na base da coer\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia, mas em formas de \u201clideran\u00e7a intelectual e moral\u201d.<a data-contents=\"Gramsci, Antonio. 1971. (<)em(>)Selections from the Prison Notebooks(<)\/em(>). Trans. and ed. Q. Hoare e G. N. Smith. Nova York: International Publishers, p. 182. (<)\/p(>)\n\n\n\n(<)p class='wp-block-paragraph'(>)H\u00e1 uma edi\u00e7\u00e3o brasileira dos Cadernos completos (e n\u00e3o de trechos selecionados): (<)em(>)Cadernos do c\u00e1rcere(<)\/em(>). Trad. Luiz S\u00e9rgio Henriques, Marco Aur\u00e9lio Nogueira e Carlos Nelson Coutinho. 6 volumes. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2022 e 2023.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-21\" href=\"#footnote-list-21\">21<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Gramsci, Antonio. 1971. (<)em(>)Selections from the Prison Notebooks(<)\/em(>). Trans. and ed. Q. Hoare e G. N. Smith. Nova York: International Publishers, p. 182. (<)\/p(>)\n\n\n\n(<)p class='wp-block-paragraph'(>)H\u00e1 uma edi\u00e7\u00e3o brasileira dos Cadernos completos (e n\u00e3o de trechos selecionados): (<)em(>)Cadernos do c\u00e1rcere(<)\/em(>). Trad. Luiz S\u00e9rgio Henriques, Marco Aur\u00e9lio Nogueira e Carlos Nelson Coutinho. 6 volumes. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2022 e 2023.<\/span> \u00c9 uma forma de domina\u00e7\u00e3o que se apresenta como exerc\u00edcio um interesse geral ou <em>universal<\/em> e \u00e9 capaz, em \u00faltima an\u00e1lise, de garantir o consentimento de classes subordinadas e for\u00e7as sociais por permitir uma mir\u00edade de acordos e concess\u00f5es, ao mesmo tempo em que reproduz os interesses particulares das classes dominantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde ent\u00e3o, uma rica bibliografia aplicou conceitos centrais da obra de Gramsci para entender as sociedades capitalistas contempor\u00e2neas. Nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, acad\u00eamicos gramscianos no Reino Unido recorreram ao autor para explicar como a Nova Direita, representada por figuras como Margaret Thatcher, conseguiu que um amplo espectro de eleitores apoiasse pol\u00edticas voltadas \u00e0 classe dominante. Em um artigo de 1979 sobre a pol\u00edtica e a ideologia do thatcherismo, Stuart Hall descreveu como Thatcher popularizou a doutrina econ\u00f4mica do monetarismo por meio de clich\u00eas moralistas, express\u00f5es idiom\u00e1ticas e narrativas que se transformaram no senso comum reacion\u00e1rio de sua base.<a data-contents=\"Stuart Hall. 1979. \u201cThe Great Moving Right Show\u201d, (<)em(>)Marxism Today(<)\/em(>), 23(1), p. 14-20.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-22\" href=\"#footnote-list-22\">22<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Stuart Hall. 1979. \u201cThe Great Moving Right Show\u201d, (<)em(>)Marxism Today(<)\/em(>), 23(1), p. 14-20.<\/span> De p\u00e2nicos morais sobre o aumento da criminalidade a no\u00e7\u00f5es de sindicalistas hipermilitantes e parasitas pregui\u00e7osos \u200b\u200bde aux\u00edlios sociais, o thatcherismo popularizou uma agenda econ\u00f4mica da classe dirigente instrumentalizando divis\u00f5es intraclasse e entre classes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Intelectuais caracterizaram o thatcherismo como um projeto de \u201cDuas Na\u00e7\u00f5es\u201d, que mobilizou estrategicamente camadas da popula\u00e7\u00e3o ao armar divis\u00f5es internas que emergiram das desarticula\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas dos anos 1980.<a data-contents=\"Bonnett, Kevin; Bromley, Simon; Jessop, Bob; Ling, Tom. 1984. \u201cAuthoritarian Populism, Two Nations, and Thatcherism\u201d, (<)em(>)New Left Review(<)\/em(>), 0(147), p. 32-60.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-23\" href=\"#footnote-list-23\">23<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Bonnett, Kevin; Bromley, Simon; Jessop, Bob; Ling, Tom. 1984. \u201cAuthoritarian Populism, Two Nations, and Thatcherism\u201d, (<)em(>)New Left Review(<)\/em(>), 0(147), p. 32-60.<\/span> Essa vers\u00e3o da pol\u00edtica de \u201cdividir para conquistar\u201d fazia parte de um programa mais amplo, destinado a derrotar a esquerda organizada e restaurar as condi\u00e7\u00f5es de lucratividade capitalista. Desde ent\u00e3o, se tornou uma caracter\u00edstica integral da pol\u00edtica eleitoral na \u00e9poca moderna. Se empregado na an\u00e1lise contempor\u00e2nea da austeridade, esse arcabou\u00e7o explica como pol\u00edticas econ\u00f4micas que beneficiam os interesses de uma restrita classe dirigente mant\u00eam amplo apoio entre a popula\u00e7\u00e3o. Posicionando empregados contra desempregados, sindicalizados contra n\u00e3o sindicalizados, nacionais contra imigrantes, trabalhadores do setor p\u00fablico contra os do setor privado, endividados contra n\u00e3o endividados e, por fim, merecedores contra \u201cn\u00e3o merecedores\u201d, a pol\u00edtica do dividir para conquistar explorada por Thatcher ainda \u00e9 um elemento fundamental para as coaliz\u00f5es pol\u00edticas de respaldo \u00e0 austeridade de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a crise financeira global de 2008, quando quantidades hist\u00f3ricas de recursos p\u00fablicos salvaram os bancos e socializaram seus riscos, tais antagonismos foram centrais para orquestrar um retorno \u00e0 austeridade. Por tr\u00e1s de cada invoca\u00e7\u00e3o sobre a necessidade de apertar os cintos ou fazer um sacrif\u00edcio coletivo, de fato, havia um benefici\u00e1rio de aux\u00edlio social n\u00e3o merecedor, um trabalhador do setor p\u00fablico com sal\u00e1rio alto demais ou um imigrante invasor esvaziando os cofres p\u00fablicos. Mais que mera estrat\u00e9gia ret\u00f3rica, esses antagonismos sociais legitimaram a n\u00edtida assimetria de classe na distribui\u00e7\u00e3o dos \u00f4nus do ajuste macroecon\u00f4mico que esteve por tr\u00e1s do retorno \u00e0 austeridade em muitos pa\u00edses depois de 2010. O car\u00e1ter de classe da austeridade foi revelado claramente na regra pr\u00e1tica \u201c80-20\u201d do Governo de Coaliz\u00e3o do Reino Unido (2010-2015), por exemplo, que descrevia como 80% das medidas de consolida\u00e7\u00e3o fiscal seriam realizadas por meio de cortes nos gastos (desproporcionalmente orientados a servi\u00e7os sociais e subs\u00eddios de autoridades locais), dedicando apenas 20% ao aumento de impostos.<a data-contents=\"Lavery, Scott. 2019. (<)em(>)British Capitalism After the Crisis(<)\/em(>). London: Palgrave Macmillan.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-24\" href=\"#footnote-list-24\">24<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Lavery, Scott. 2019. (<)em(>)British Capitalism After the Crisis(<)\/em(>). London: Palgrave Macmillan.<\/span> Ao lado dos modelos tecnocr\u00e1ticos e despolitizados de administra\u00e7\u00e3o que inspiram o livro de Mattei, os contornos ideol\u00f3gicos dessa outra forma de pol\u00edtica s\u00e3o centrais para compreender a durabilidade da austeridade no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Paisagem contempor\u00e2nea<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2022, quando os presidentes de bancos centrais entraram em uma fase de s\u00fabita sincronia contracionista na gest\u00e3o monet\u00e1ria, a categ\u00f3rica din\u00e2mica de poder que orienta a pol\u00edtica macroecon\u00f4mica nas democracias capitalistas foi exposta novamente. Apesar da d\u00e9cada de agita\u00e7\u00e3o populista e do reconhecimento tardio dos fracassos da austeridade que sucederam 2008, o pronto realinhamento de presidentes de bancos centrais, gestores p\u00fablicos e partidos pol\u00edticos do mundo, mais uma vez, em torno da agenda da austeridade ilustrou, uma vez mais, sua durabilidade como doutrina. Enquanto tecnocratas n\u00e3o eleitos empunham o bast\u00e3o disciplinar dos juros altos e passam por cima de governos eleitos para disciplinar as supostas reivindica\u00e7\u00f5es salariais inflacion\u00e1rias dos trabalhadores, <em>A ordem do capital<\/em> \u00e9 um lembrete oportuno de que a austeridade n\u00e3o apenas \u00e9 insepar\u00e1vel de seus fundamentos de classe, mas tamb\u00e9m moldada, at\u00e9 hoje, pela concentra\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de poder das classes dominantes. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo com todos os ecos do entreguerras no presente, a conjuntura atual tamb\u00e9m \u00e9 marcada por descontinuidades inequ\u00edvocas. Apesar da renova\u00e7\u00e3o da mobiliza\u00e7\u00e3o popular e do descontentamento da for\u00e7a de trabalho ap\u00f3s a pandemia, a temperatura pol\u00edtica do presente est\u00e1 muito longe das amea\u00e7as da revolu\u00e7\u00e3o socialista. Embora presidentes n\u00e3o eleitos de bancos centrais ainda possuam um poder tecnocr\u00e1tico extraordin\u00e1rio na defini\u00e7\u00e3o da economia global, os canais da pol\u00edtica popular atravessados pela austeridade hoje s\u00e3o distintos daqueles do apogeu do padr\u00e3o-ouro. Hoje, os fundamentos ideol\u00f3gicos mais amplos da austeridade, ao lado de sua trajet\u00f3ria pelos meandros da pol\u00edtica partid\u00e1ria, imp\u00f5em quest\u00f5es que n\u00e3o podem ser integralmente respondidas pelo retorno ao entreguerras. Apesar de momentos significativos de descontentamento popular, a austeridade ganhou, desde ent\u00e3o, tra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica em um setor mais amplo da sociedade. Mas, para al\u00e9m das diferen\u00e7as hist\u00f3ricas, o argumento central do livro de Mattei segue essencial: mais que uma doutrina irracional ou de uma ideia zumbi que se recusa a morrer, a austeridade preserva uma rela\u00e7\u00e3o fundamental e duradoura com as pol\u00edticas capitalistas de gest\u00e3o de crise.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-right\">Tradu\u00e7\u00e3o: Heci Regina Candiani<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No rescaldo de 2008, a velocidade na qual os Estados capitalistas passaram das pol\u00edticas de resgate e est\u00edmulo \u00e0 economia ao arrocho fiscal foi surpreendente. N\u00e3o menos impressionante foi o remodelamento do ambiente intelectual utilizado para dar sentido a essa passagem. Enquanto as vendas de O Capital explodiram e manchetes como \u201cO que diria Marx?\u201d figuraram nas p\u00e1ginas da The Economist nos dias inebriantes de 2008, a restaura\u00e7\u00e3o do status quo ex ante sob a reg\u00eancia da austeridade p\u00f3s-crise viu renascer uma figura hist\u00f3rica diferente. Para explicar a s\u00fabita transi\u00e7\u00e3o dos planos de resgate financeiro para os de consolida\u00e7\u00e3o fiscal, acad\u00eamicos e intelectuais de centro-esquerda recorreram a Keynes. 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