{"id":16347,"date":"2024-04-03T15:12:00","date_gmt":"2024-04-03T15:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=16347"},"modified":"2024-04-11T13:23:19","modified_gmt":"2024-04-11T13:23:19","slug":"pobres-por-divida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/pobres-por-divida\/","title":{"rendered":"Pobres por d\u00edvida"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crise financeira de 2008 foi uma demonstra\u00e7\u00e3o sem precedentes dos efeitos da financeiriza\u00e7\u00e3o no capitalismo contempor\u00e2neo. Em particular, o rompimento da bolha imobili\u00e1ria estadunidense evidenciou a penetra\u00e7\u00e3o do endividamento nas fam\u00edlias de baixa renda, antes exclu\u00eddas dos mecanismos formais de cr\u00e9dito. Se o caso dos Estados Unidos explicitou a centralidade dos mecanismos financeiros para o acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, a tend\u00eancia da intermedia\u00e7\u00e3o financeira ao acesso a bens e servi\u00e7os inerentes \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o social e a consequente amplia\u00e7\u00e3o do endividamento familiar s\u00e3o fen\u00f4menos globais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A financeiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 sintoma de uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural na sociedade e no pr\u00f3prio sistema capitalista. Essa transforma\u00e7\u00e3o enseja a necessidade de adapta\u00e7\u00e3o dos \u00edndices econ\u00f4micos e sociais, para que sejam capazes de retratar apropriadamente as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o, sob pena de inviabilizar o desenho de pol\u00edticas p\u00fablicas adequadas a essas condi\u00e7\u00f5es.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso brasileiro \u00e9 exemplificativo dos efeitos sociais da financeiriza\u00e7\u00e3o. A composi\u00e7\u00e3o do gasto social do Estado Brasileiro revela a preponder\u00e2ncia das transfer\u00eancias monet\u00e1rias em rela\u00e7\u00e3o ao gasto com a oferta de servi\u00e7os em esp\u00e9cie. Essa monetariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica social tem como efeito o deslocamento, \u00e0s fam\u00edlias, da responsabilidade pelo gasto em bens e servi\u00e7os essenciais \u00e0 garantia de bem-estar. Nesse cen\u00e1rio, a \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o financeira\u201d, ou seja, a expans\u00e3o do acesso ao cr\u00e9dito a camadas da popula\u00e7\u00e3o socialmente vulner\u00e1veis, tanto afeta o acesso a bens e servi\u00e7os inerentes ao bem-estar, quanto representa um importante vetor de aumento da pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise dos \u00edndices de pobreza no Brasil, quando inclui o endividamento familiar como crit\u00e9rio, revela os efeitos da financeiriza\u00e7\u00e3o sobre o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o. A contra\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito tem como contrapartida, no or\u00e7amento das fam\u00edlias, a inclus\u00e3o de um gasto recorrente com o servi\u00e7o das d\u00edvidas. Esse gasto efetivamente diminui os recursos dispon\u00edveis para a compra de bens e servi\u00e7os, o que traz duas consequ\u00eancias. A primeira \u00e9 o ingresso de pessoas na pobreza em raz\u00e3o das d\u00edvidas \u2013 isto \u00e9, fam\u00edlias cuja renda total ou dispon\u00edvel n\u00e3o as qualifica como pobres, mas cuja renda dispon\u00edvel l\u00edquida do servi\u00e7o das d\u00edvidas cai abaixo do patamar m\u00ednimo de pobreza. Esses s\u00e3o os pobres por d\u00edvida, ou <em>debt poor<\/em>, na nomenclatura de Pressman e Scott.<a data-contents=\"Pressman, Steven, and Robert Scott. 2007. \u201cThree million americans are debt poor.\u201d (<)em(>)Dollars &amp; Sense(<)\/em(>) 271: 10-11, 13; Pressman, Steven, and Robert Scott. 2009a. \u201cConsumer Debt and the Measurement of Poverty and Inequality in the US.\u201d (<)em(>)Review of Social Economy(<)\/em(>) 67 (2): 127\u201348. https:\/\/doi.org\/10.1080\/00346760802578890; \u200cPressman, Steven, and Robert H. Scott. 2009b. \u201cWho Are the Debt Poor?\u201d(<)em(>) Journal of Economic Issues(<)\/em(>) 43 (2): 423\u201332. https:\/\/doi.org\/10.2753\/jei0021-3624430215.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Pressman, Steven, and Robert Scott. 2007. \u201cThree million americans are debt poor.\u201d (<)em(>)Dollars &amp; Sense(<)\/em(>) 271: 10-11, 13; Pressman, Steven, and Robert Scott. 2009a. \u201cConsumer Debt and the Measurement of Poverty and Inequality in the US.\u201d (<)em(>)Review of Social Economy(<)\/em(>) 67 (2): 127\u201348. https:\/\/doi.org\/10.1080\/00346760802578890; \u200cPressman, Steven, and Robert H. Scott. 2009b. \u201cWho Are the Debt Poor?\u201d(<)em(>) Journal of Economic Issues(<)\/em(>) 43 (2): 423\u201332. https:\/\/doi.org\/10.2753\/jei0021-3624430215.<\/span> A segunda consequ\u00eancia \u00e9 o aprofundamento da pobreza das fam\u00edlias j\u00e1 inclu\u00eddas nesses \u00edndices, que sofrem uma redu\u00e7\u00e3o da sua renda. Isso indica que a pobreza real seria maior do que as medidas convencionais sugerem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise temporal do caso brasileiro revela que, entre 2009 e 2018, per\u00edodo de consider\u00e1vel expans\u00e3o do endividamento, os \u00edndices de pobreza congregam dois movimentos distintos. Por um lado, a pobreza caiu para virtualmente todas as linhas e defini\u00e7\u00f5es de renda consideradas. Por outro, os efeitos do endividamento sobre a pobreza aumentaram consideravelmente. O endividamento, nesse cen\u00e1rio, pode ser encarado como um importante vetor de aumento da pobreza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O cr\u00e9dito como elemento estrutural da economia brasileira contempor\u00e2nea<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A import\u00e2ncia das d\u00edvidas no capitalismo contempor\u00e2neo se d\u00e1 n\u00e3o apenas por seu crescimento quantitativo, mas tamb\u00e9m por um conjunto de transforma\u00e7\u00f5es qualitativas caracter\u00edsticas da financeiriza\u00e7\u00e3o. A primeira dessas transforma\u00e7\u00f5es \u00e9 sua extens\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de renda m\u00e9dia e baixa, a chamada \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o financeira.\u201d No Brasil, esse processo foi impulsionado por condi\u00e7\u00f5es macroecon\u00f4micas favor\u00e1veis no in\u00edcio dos anos 2000 e por inova\u00e7\u00f5es financeiras, das quais a cria\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito consignado foi a de maior destaque.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cr\u00e9dito consignado condiciona o pagamento do servi\u00e7o da d\u00edvida ao desconto direto na folha de pagamentos, reduzindo os riscos de atraso e inadimpl\u00eancia e permitindo taxas de juros mais baixas. No entanto, sua verdadeira face se revela a partir do fato de que, de acordo com os dados dispon\u00edveis no Banco Central, a principal clientela desta modalidade est\u00e1 nos servidores p\u00fablicos e aposentados e pensionistas no sistema p\u00fablico, cuja renda mensal \u00e9 de responsabilidade do Estado. Uma vez que os benef\u00edcios previdenci\u00e1rios do sistema p\u00fablico s\u00e3o concentrados no piso de um sal\u00e1rio-m\u00ednimo, essa garantia estatal de um fluxo financeiro regular elimina uma importante barreira para a expans\u00e3o de cr\u00e9dito para a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda: a falta de colateral. O Estado passa a ser o avalista do endividamento, especialmente para aposentados e pensionistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa conex\u00e3o entre Estado, por meio de benef\u00edcios previdenci\u00e1rios, e o endividamento, \u00e9 parte de um processo que Lena Lavinas denomina \u201ccolateraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica social.\u201d<a data-contents=\"\u200cLavinas, Lena. 2018. \u201cThe Collateralization of Social Policy under Financialized Capitalism.\u201d (<)em(>)Development and Change(<)\/em(>) 49 (2): 502\u201317. https:\/\/doi.org\/10.1111\/dech.12370.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">\u200cLavinas, Lena. 2018. \u201cThe Collateralization of Social Policy under Financialized Capitalism.\u201d (<)em(>)Development and Change(<)\/em(>) 49 (2): 502\u201317. https:\/\/doi.org\/10.1111\/dech.12370.<\/span> Esse processo tamb\u00e9m caracteriza outra transforma\u00e7\u00e3o qualitativa: a expans\u00e3o do endividamento para novas esferas socioecon\u00f4micas (ou em que estava apenas marginalmente). Em linhas gerais, isso se verifica em espa\u00e7os antes delegados \u00e0 pol\u00edtica social e a formas de provis\u00e3o desmercantilizadas, de modo que o endividamento torna-se um fator determinante para o acesso a esses bens e servi\u00e7os: o desenho da pol\u00edtica social passa a promover a d\u00edvida, na medida em que o pagamento se torna necess\u00e1rio para a reprodu\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, h\u00e1 a integra\u00e7\u00e3o do endividamento das fam\u00edlias nos mercados financeiros globais. Isso ocorre por meio de inova\u00e7\u00f5es financeiras como as <em>securities<\/em> e t\u00edtulos sint\u00e9ticos, que transformam fluxos regulares de pagamento em ativos financeiros transacionados nos mercados secund\u00e1rios. Essas d\u00edvidas, portanto, tornam-se alvo de especula\u00e7\u00e3o financeira e fonte de lucro de alta magnitude.<a data-contents=\"Mader, Philip. 2015. (<)em(>)The Political Economy of Microfinance(<)\/em(>). Palgrave Macmillan.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mader, Philip. 2015. (<)em(>)The Political Economy of Microfinance(<)\/em(>). Palgrave Macmillan.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A expans\u00e3o do endividamento das fam\u00edlias no Brasil (Gr\u00e1fico 1) teve in\u00edcio em um momento de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), do emprego e da renda (e, consequentemente, de queda na pobreza), e o cr\u00e9dito foi instrumental na manuten\u00e7\u00e3o desse crescimento. O per\u00edodo entre 2003-2014 apresentou crescimento superior ao das d\u00e9cadas anteriores. Do lado da demanda, o consumo foi o principal fator na expans\u00e3o do PIB. O aumento do consumo se deveu \u00e0 alta na renda, mas tamb\u00e9m ao cr\u00e9dito.<a data-contents=\"Lavinas, Lena. 2017. (<)em(>)The Takeover of Social Policy by Financialization: The Brazilian Paradox(<)\/em(>). New York, NY: Palgrave Macmillan.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Lavinas, Lena. 2017. (<)em(>)The Takeover of Social Policy by Financialization: The Brazilian Paradox(<)\/em(>). New York, NY: Palgrave Macmillan.<\/span> Bor\u00e7a Jr e Guimar\u00e3es indicam que o cr\u00e9dito livre Pessoa F\u00edsica foi respons\u00e1vel por 45 por cento do crescimento do consumo e 1\/3 do crescimento da economia entre 2004 e 2013.<a data-contents=\"Bor\u00e7a Jr., Gilberto, and Danilo Guimar\u00e3es. 2015. \u201cImpacto do ciclo expansionista de cr\u00e9dito \u00e0 pessoa f\u00edsica no desempenho da economia brasileira 2004-2013\u201d. (<)em(>)Revista do BNDES(<)\/em(>) 43: 119-159\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Bor\u00e7a Jr., Gilberto, and Danilo Guimar\u00e3es. 2015. \u201cImpacto do ciclo expansionista de cr\u00e9dito \u00e0 pessoa f\u00edsica no desempenho da economia brasileira 2004-2013\u201d. (<)em(>)Revista do BNDES(<)\/em(>) 43: 119-159<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de 2014, no entanto, a situa\u00e7\u00e3o se inverte, com o Brasil entrando em recess\u00e3o em 2015\u20132016, tend\u00eancia seguida de uma lenta e virtualmente estagnada recupera\u00e7\u00e3o, o que afetou negativamente a renda, o emprego e a pobreza. Nesse quadro, o endividamento apresentou queda moment\u00e2nea, retomando crescimento a partir de 2017\u20132018. Assim, mesmo em um contexto econ\u00f4mico extremamente desfavor\u00e1vel, o cr\u00e9dito mant\u00e9m seu vigor, demonstrando ter se tornado um elemento estrutural na economia brasileira. Desta vez, no entanto, sem o mesmo impacto no PIB.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gr\u00e1fico 1 \u2013 Endividamento (% da renda acumulada em 12 meses) e Comprometimento de renda com servi\u00e7o das d\u00edvidas (% da m\u00e9dia m\u00f3vel trimestral da renda)<\/strong><a data-contents=\"Como pode ser observado, o crescimento do endividamento n\u00e3o levou a uma alta correspondente do comprometimento de renda. Uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o para essa coexist\u00eancia est\u00e1 na mudan\u00e7a da composi\u00e7\u00e3o do endividamento. Ao longo da s\u00e9rie hist\u00f3rica, h\u00e1 um descolamento entre o endividamento habitacional e o n\u00e3o habitacional, com o primeiro passando de, em m\u00e9dia, 13,7 por cento entre 2005 e 2008 para pouco menos de 40 por cento da renda acumulada. O mesmo processo n\u00e3o se verifica no comprometimento de renda, que continua a ser predominantemente determinado pela parcela n\u00e3o habitacional. Como o cr\u00e9dito habitacional tem prazos tipicamente maiores, essa modalidade produz um efeito menor sobre a capacidade financeira recorrente das fam\u00edlias \u2013 aqui, materializada no conceito de comprometimento de renda.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Como pode ser observado, o crescimento do endividamento n\u00e3o levou a uma alta correspondente do comprometimento de renda. Uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o para essa coexist\u00eancia est\u00e1 na mudan\u00e7a da composi\u00e7\u00e3o do endividamento. Ao longo da s\u00e9rie hist\u00f3rica, h\u00e1 um descolamento entre o endividamento habitacional e o n\u00e3o habitacional, com o primeiro passando de, em m\u00e9dia, 13,7 por cento entre 2005 e 2008 para pouco menos de 40 por cento da renda acumulada. O mesmo processo n\u00e3o se verifica no comprometimento de renda, que continua a ser predominantemente determinado pela parcela n\u00e3o habitacional. Como o cr\u00e9dito habitacional tem prazos tipicamente maiores, essa modalidade produz um efeito menor sobre a capacidade financeira recorrente das fam\u00edlias \u2013 aqui, materializada no conceito de comprometimento de renda.<\/span><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"806\" height=\"450\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-duvida-brasil.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16414\" style=\"width:622px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-duvida-brasil.png 806w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-duvida-brasil-300x167.png 300w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-duvida-brasil-768x429.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 806px) 100vw, 806px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: Banco Central do Brasil<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A rela\u00e7\u00e3o entre endividamento e pobreza no Brasil<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma vez que a expans\u00e3o do endividamento \u00e9 uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural da economia e da sociedade, torna-se essencial a discuss\u00e3o sobre a adapta\u00e7\u00e3o de \u00edndices econ\u00f4micos e sociais, para que sejam capazes de retratar adequadamente as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o. No caso da pobreza monet\u00e1ria, tanto consumo quanto renda est\u00e3o profundamente afetadas pelo endividamento. Por um lado, o consumo realizado pode variar significativamente, a depender das condi\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito. \u00c9 verdade que isso sempre esteve em quest\u00e3o, por conta de renda incerta, possibilidade de desemprego etc., mas as varia\u00e7\u00f5es nas condi\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito podem ser mais vol\u00e1teis, influenciando significativamente as an\u00e1lises. Por outro, a utiliza\u00e7\u00e3o da renda n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o que uma parcela cada vez mais significativa n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel para gastos que aumentem o bem-estar corrente, pois \u00e9 destinada ao pagamento do servi\u00e7o de d\u00edvidas passadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pressman e Scott defendem uma defini\u00e7\u00e3o alternativa de renda para a formula\u00e7\u00e3o dos \u00edndices de pobreza: a renda dispon\u00edvel n\u00e3o comprometida. Essa medida \u00e9 definida pela renda dispon\u00edvel (isto \u00e9, l\u00edquida de impostos), deduzida dos gastos de servi\u00e7o das d\u00edvidas.<a data-contents=\"Por quest\u00f5es associadas \u00e0 forma de divulga\u00e7\u00e3o dos dados, os autores utilizam apenas a dedu\u00e7\u00e3o causada pelos juros. No entanto, afirmam que o que deve ser de fato deduzido \u00e9 o servi\u00e7o, o que foi realizado nesta an\u00e1lise \u201c(<)em(>)we hold that this debt makes income inequality worse because any debt incurred to meet immediate needs leads to large interest payments in the future as well as the necessity of repaying the principal that was borrowed. It is these inequalities, and not the inequalities in disposable income, that are likely to generate economic and social problems(<)\/em(>)\u201d (Pressman e Scott 2009a, pp. 142)\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Por quest\u00f5es associadas \u00e0 forma de divulga\u00e7\u00e3o dos dados, os autores utilizam apenas a dedu\u00e7\u00e3o causada pelos juros. No entanto, afirmam que o que deve ser de fato deduzido \u00e9 o servi\u00e7o, o que foi realizado nesta an\u00e1lise \u201c(<)em(>)we hold that this debt makes income inequality worse because any debt incurred to meet immediate needs leads to large interest payments in the future as well as the necessity of repaying the principal that was borrowed. It is these inequalities, and not the inequalities in disposable income, that are likely to generate economic and social problems(<)\/em(>)\u201d (Pressman e Scott 2009a, pp. 142)<\/span> A justificativa \u00e9 que os gastos com endividamento n\u00e3o s\u00e3o, necessariamente, convertidos em bem-estar corrente, mas costumam refletir bens e servi\u00e7os usufru\u00eddos no passado, e podem reduzir a capacidade de usufruto de novos bens e servi\u00e7os no presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma vez que o estabelecimento da linha de pobreza guarda rela\u00e7\u00e3o com um patamar m\u00ednimo socialmente aceit\u00e1vel de n\u00edvel de vida, essa nova defini\u00e7\u00e3o da renda deve implicar no estabelecimento de um novo valor monet\u00e1rio como crit\u00e9rio para pobreza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, a an\u00e1lise da pobreza por meio da renda dispon\u00edvel n\u00e3o comprometida \u00e9 mais abrangente, pois adiciona o endividamento como uma causa de entrada ou agravamento da situa\u00e7\u00e3o de pobreza. Adicionalmente, permite discernir um grupo social espec\u00edfico: aqueles que est\u00e3o na pobreza unicamente por conta das d\u00edvidas, os pobres por d\u00edvida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Analisamos, ent\u00e3o, a pobreza do Brasil de acordo com o crit\u00e9rio da renda dispon\u00edvel n\u00e3o comprometida. A POF (Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares), realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica) permite a constru\u00e7\u00e3o da renda dispon\u00edvel e da renda dispon\u00edvel n\u00e3o comprometida, possibilitando o estudo da evolu\u00e7\u00e3o da pobreza monet\u00e1ria e do efeito do endividamento sobre a pobreza. Por simplifica\u00e7\u00e3o, foram considerados apenas os rendimentos monet\u00e1rios reportados pelas fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fim de evitar arbitrariedade na escolha da linha de pobreza, a an\u00e1lise realizada considerou 1.001 linhas, variando de R$0,00 a R$1.000,00 em incrementos de R$1,00. A compara\u00e7\u00e3o intertemporal foi realizada a partir de dois pontos distintos, que representam as duas \u00faltimas realiza\u00e7\u00f5es da POF: 2008\u20132009 e 2017\u20132018.<a data-contents=\"Os resultados completos est\u00e3o dispon\u00edveis em Pedro Rubin. 2023. Pobres por d\u00edvida: o endividamento familiar e as estat\u00edsticas de pobreza entre 2008 e 2018 \u2013 uma an\u00e1lise a partir da Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares. Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Dispon\u00edvel em: (<)a href='https:\/\/www.ie.ufrj.br\/images\/IE\/PPGE\/disserta%C3%A7%C3%B5es\/2023\/PedroRubinCosta_final.pdf'(>)https:\/\/www.ie.ufrj.br\/images\/IE\/PPGE\/disserta%C3%A7%C3%B5es\/2023\/PedroRubinCosta_final.pdf(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-8\" href=\"#footnote-list-8\">8<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Os resultados completos est\u00e3o dispon\u00edveis em Pedro Rubin. 2023. Pobres por d\u00edvida: o endividamento familiar e as estat\u00edsticas de pobreza entre 2008 e 2018 \u2013 uma an\u00e1lise a partir da Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares. Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Dispon\u00edvel em: (<)a href='https:\/\/www.ie.ufrj.br\/images\/IE\/PPGE\/disserta%C3%A7%C3%B5es\/2023\/PedroRubinCosta_final.pdf'(>)https:\/\/www.ie.ufrj.br\/images\/IE\/PPGE\/disserta%C3%A7%C3%B5es\/2023\/PedroRubinCosta_final.pdf(<)\/a(>).<\/span> Como os resultados se mant\u00eam para todas as linhas de pobreza (exceto para valores extremamente baixos \u2013 e por esse motivo pouco significativos), optou-se, para fins de exposi\u00e7\u00e3o, apresentar os resultados para duas linhas que contam com respaldo social. A primeira \u00e9 a linha de elegibilidade do Bolsa Fam\u00edlia em valores de 2021, aproximadamente R$ 200,00; a segunda \u00e9 a linha internacional do Banco Mundial, US$ 6,85 por dia em PPP 2017, que representa cerca de R$ 596,00 em valores de 2021. Ambos os valores est\u00e3o em termos reais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inicialmente, \u00e9 necess\u00e1rio ressaltar que a mudan\u00e7a na defini\u00e7\u00e3o da renda n\u00e3o altera a tend\u00eancia de queda nos indicadores de pobreza no per\u00edodo considerado. Assim, o endividamento, apesar de crescente, n\u00e3o foi capaz de reverter a tend\u00eancia de mitiga\u00e7\u00e3o da pobreza no Brasil. O Gr\u00e1fico 2 mostra a evolu\u00e7\u00e3o da taxa de pobreza nas duas linhas consideradas e nas duas defini\u00e7\u00f5es de renda (dispon\u00edvel e dispon\u00edvel n\u00e3o comprometida).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gr\u00e1fico 2 \u2013 Taxa de pobreza monet\u00e1ria a partir da renda dispon\u00edvel e da renda dispon\u00edvel n\u00e3o comprometida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"291\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-duvida-brasil-taxa-de-pobreza-1024x291.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16418\" style=\"width:764px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-duvida-brasil-taxa-de-pobreza-1024x291.png 1024w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-duvida-brasil-taxa-de-pobreza-300x85.png 300w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-duvida-brasil-taxa-de-pobreza-768x218.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-duvida-brasil-taxa-de-pobreza-1536x436.png 1536w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-duvida-brasil-taxa-de-pobreza.png 1598w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria baseado em POF \u2013 IBGE<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, h\u00e1 um n\u00edtido aumento do impacto do endividamento na pobreza. Isso pode ser observado por dois resultados distintos, por\u00e9m interligados: o impacto no n\u00famero de pessoas pobres e nos recursos monet\u00e1rios adicionais que seriam necess\u00e1rios para erradicar a pobreza. Primeiro, h\u00e1 um aumento no n\u00famero de pobres por d\u00edvida entre 2008\u20132009 e 2017\u20132018 para ambos os crit\u00e9rios de pobreza (Gr\u00e1fico 3). Em outras palavras, aumenta o n\u00famero de pessoas que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de pobreza por conta dos vazamentos de renda diretamente causados pelo servi\u00e7o das d\u00edvidas. O crescimento populacional explica apenas uma pequena parcela desse aumento: a amplia\u00e7\u00e3o do estresse financeiro ocasionado pelo endividamento figura como a principal explica\u00e7\u00e3o. Em termos absolutos, s\u00e3o 475 mil pobres por d\u00edvida a mais na linha de pobreza de R$200,00 e 1,5 milh\u00e3o pobres por d\u00edvida a mais na linha de pobreza de R$596,00.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gr\u00e1fico 3 \u2013 Diferen\u00e7a entre as taxas de pobreza a partir da renda dispon\u00edvel e renda dispon\u00edvel n\u00e3o comprometida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"291\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-brasil--1024x291.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16421\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-brasil--1024x291.png 1024w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-brasil--300x85.png 300w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-brasil--768x218.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-brasil--1536x436.png 1536w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-brasil-.png 1612w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria baseado em POF \u2013 IBGE<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo, podemos analisar qual o impacto do endividamento em termos dos recursos monet\u00e1rios adicionais que seriam necess\u00e1rios para erradicar a pobreza. Isto \u00e9, para al\u00e9m das transfer\u00eancias monet\u00e1rias em vigor (notadamente, Bolsa Fam\u00edlia, benef\u00edcios previdenci\u00e1rios e assistenciais, seguro-desemprego etc.). Essa medida inclui tanto os pobres por d\u00edvida quanto aqueles que j\u00e1 estariam em situa\u00e7\u00e3o de pobreza mesmo sem o endividamento, mas que t\u00eam sua renda diminu\u00edda pelo pagamento dos servi\u00e7os da d\u00edvida. Como pode ser visto no Gr\u00e1fico 4, novamente, o impacto aumenta com a passagem do tempo. Olhando inicialmente para a linha de pobreza de R$200,00, em 2008-2009, a inclus\u00e3o do endividamento representa uma necessidade adicional de R$10,5 bilh\u00f5es; em 2017-2018, de R$18,2 bilh\u00f5es (73 por cento a mais). J\u00e1 na linha de pobreza de R$596,00 os valores eram: em 2008-2009, R$67,7 bilh\u00f5es e, em 2017-2018, R$115,6 bilh\u00f5es (71 por cento a mais).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gr\u00e1fico 4 \u2013 Diferen\u00e7a entre o montante de recursos monet\u00e1rios adicionais para erradicar a pobreza quando o endividamento \u00e9 considerado (em R$ milh\u00f5es de 2021)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"804\" height=\"454\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16424\" style=\"width:684px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world-.png 804w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world--300x169.png 300w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/pedro-rubin-phenomenal-world--768x434.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 804px) 100vw, 804px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria baseado em POF \u2013 IBGE. Valores deflacionados pelo IPCA.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em resumo, a evolu\u00e7\u00e3o da pobreza no Brasil entre 2008\u20132009 e 2017\u20132018 contempla dois movimentos distintos: queda na pobreza, mas aumento dos efeitos do endividamento na pobreza. Isso significa que, apesar da redu\u00e7\u00e3o ser mantida, h\u00e1 mais pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza do que as medidas convencionais sugerem, e&nbsp;as pessoas consideradas pobres est\u00e3o mais pobres do que as medidas convencionais sugerem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inobserv\u00e2ncia do endividamento como crit\u00e9rio de avalia\u00e7\u00e3o faz com que essas pessoas estejam invis\u00edveis aos olhos das pol\u00edticas de combate e mitiga\u00e7\u00e3o da pobreza, pois os crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o e defini\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios ignoram que os recursos que as fam\u00edlias possuem para o consumo de bens e servi\u00e7os s\u00e3o inferiores \u00e0 renda bruta ou \u00e0 renda dispon\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao considerar a dedu\u00e7\u00e3o da renda causada pelo servi\u00e7o das d\u00edvidas, o que est\u00e1 sendo proposto, na verdade, \u00e9 uma conex\u00e3o direta entre endividamento e pobreza, com um sentido espec\u00edfico de encadeamento l\u00f3gico: o aumento do endividamento leva ao aumento da pobreza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A forma espec\u00edfica dessa conex\u00e3o deve ser, ainda, tema de discuss\u00e3o de pesquisadores, pol\u00edticos e da sociedade como um todo. No entanto, a exist\u00eancia de um contingente significativo de pessoas cuja entrada na pobreza \u00e9 ocasionada por suas d\u00edvidas deve ser suficiente para entender que cr\u00e9dito para suprir necessidades n\u00e3o \u00e9 uma bala de prata. Ainda mais quando esse cr\u00e9dito vem a reboque da redu\u00e7\u00e3o da oferta desmercantilizada de bens e servi\u00e7os necess\u00e1rios \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o social, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e moradia. A neglig\u00eancia dos efeitos diretos do endividamento sobre a renda gera uma profecia que se autorrealiza: na inadequa\u00e7\u00e3o da cobertura e do valor dos benef\u00edcios monet\u00e1rios e da oferta p\u00fablica e universal de bens e servi\u00e7os, os empr\u00e9stimos tornam-se, de fato, a \u00faltima t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise financeira de 2008 foi uma demonstra\u00e7\u00e3o sem precedentes dos efeitos da financeiriza\u00e7\u00e3o no capitalismo contempor\u00e2neo. Em particular, o rompimento da bolha imobili\u00e1ria estadunidense evidenciou a penetra\u00e7\u00e3o do endividamento nas fam\u00edlias de baixa renda, antes exclu\u00eddas dos mecanismos formais de cr\u00e9dito. 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