{"id":15687,"date":"2024-03-07T17:10:09","date_gmt":"2024-03-07T17:10:09","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/nao-categorizado\/cibele-viera\/"},"modified":"2024-04-18T01:51:05","modified_gmt":"2024-04-18T01:51:05","slug":"cibele-viera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/entrevistas-br\/cibele-viera\/","title":{"rendered":"Petrobras em transi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Read this interview in <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/interviews\/cibele-viera\/\">English<\/a> \/ Lea esta entrevista en <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/es\/entrevistas\/cibele-viera\/\">espa\u00f1ol<\/a>. <\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A campanha que levou Luiz In\u00e1cio Lula da Silva ao terceiro mandato de presidente do Brasil foi marcada pela ideia de reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, o que reacendeu o debate sobre o papel da Petrobras no desenvolvimento. As discuss\u00f5es giram em torno, sobretudo, da rela\u00e7\u00e3o entre a companhia estatal e a reindustrializa\u00e7\u00e3o, e da explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo numa conjuntura de demanda global por transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cria\u00e7\u00e3o da Petrobras em 1953 foi o ato principal da Pol\u00edtica Nacional de Petr\u00f3leo implementada, ap\u00f3s ampla mobiliza\u00e7\u00e3o popular favor\u00e1vel, pelo projeto desenvolvimentista de Get\u00falio Vargas. Os desdobramentos legislativos da pol\u00edtica garantiram tamb\u00e9m o monop\u00f3lio estatal da explora\u00e7\u00e3o, refino e transporte de petr\u00f3leo. O monop\u00f3lio durou at\u00e9 1997, quando foi derrubado pela gest\u00e3o de Fernando Henrique Cardoso (FHC). A d\u00e9cada de 1990 tamb\u00e9m marcou a massiva abertura de capital da Petrobras para negocia\u00e7\u00e3o no mercado internacional, parte do Plano Nacional de Desestatiza\u00e7\u00e3o do governo FHC. Atualmente, o Estado brasileiro figura como acionista majorit\u00e1rio da empresa: det\u00e9m 50,3% das a\u00e7\u00f5es com direito a voto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo dos setenta anos de trajet\u00f3ria, a fun\u00e7\u00e3o da Petrobras na economia brasileira sempre esteve em disputa, e no governo Lula III, volta a ocupar o centro do debate pol\u00edtico brasileiro, no contexto da crise clim\u00e1tica e das discuss\u00f5es em torno dos significados, responsabilidades e rumos da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa entrevista, Cibele Vieira, coordenadora geral do Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de S\u00e3o Paulo (Sindipetro Unificado) e diretora da Federa\u00e7\u00e3o \u00danica dos Petroleiros (FUP), que congrega trabalhadores da Petrobras em todo pa\u00eds, discute o papel atual da empresa sob a perspectiva da classe trabalhadora do setor de energia, defendendo que a Petrobras deve contribuir para uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa e popular. A conversa aborda temas como a abertura de novas fronteiras de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, a gest\u00e3o da empresa no novo governo Lula, os caminhos e possibilidades da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica no Brasil, e o ingresso do pa\u00eds na OPEP+.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uma entrevista com Cibele Vieira<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">hugo fanton<\/span>: A explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo no Brasil foi um dos temas centrais no primeiro ano de novo governo Lula, tanto pela \u00f3tica da quest\u00e3o clim\u00e1tica quanto das agendas de crescimento inclusivo e da nova pol\u00edtica industrial. Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre a gest\u00e3o da Petrobras e o desenvolvimento nacional na hist\u00f3ria pol\u00edtico-econ\u00f4mica do pa\u00eds?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">cibele Vieira<\/span>: A discuss\u00e3o sobre a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo no Brasil nasceu no p\u00f3s-guerra, contexto em que o petr\u00f3leo j\u00e1 era tratado como um bem estrat\u00e9gico, necess\u00e1rio para garantir a soberania nacional, por ser fundamental \u00e0s ind\u00fastrias militar, automobil\u00edstica e de bens de consumo. N\u00e3o \u00e0 toa, a Petrobras foi fundada em 1953, sete anos ap\u00f3s o in\u00edcio do movimento \u201cO petr\u00f3leo \u00e9 nosso\u201d. Seu estabelecimento como empresa estatal detentora do monop\u00f3lio da explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo no pa\u00eds foi uma conquista do movimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde ent\u00e3o, nunca deixou de haver disputa. O petr\u00f3leo esteve no centro de grandes disputas internacionais, e no Brasil n\u00e3o foi diferente. Desde o in\u00edcio, investimos em explora\u00e7\u00e3o e refino, e a Petrobras se tornou refer\u00eancia internacional na explora\u00e7\u00e3o em \u00e1guas profundas. Com a descoberta do pr\u00e9-sal, o Brasil se revelou como um dos maiores detentores de reservas mundiais de petr\u00f3leo. Entendemos que isso foi um fator central nas disputas que levaram ao golpe contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016 e \u00e0 pris\u00e3o de Lula em 2018. H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre a profunda crise na pol\u00edtica dom\u00e9stica e o posicionamento geopol\u00edtico do Brasil entre os grandes produtores de petr\u00f3leo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os movimentos sociais e os partidos de esquerda brasileiros sempre entenderam que o petr\u00f3leo e as demais riquezas naturais \u2013 min\u00e9rios, outras fontes energ\u00e9ticas, \u00e1gua, florestas, etc. \u2013 devem ser explorados em favor do desenvolvimento nacional, de maneira sustent\u00e1vel e de acordo com as necessidades da popula\u00e7\u00e3o. No caso do petr\u00f3leo, n\u00e3o adianta explorar se n\u00e3o for para investir na promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento industrial, na gera\u00e7\u00e3o de empregos, no crescimento econ\u00f4mico. Mas, tradicionalmente, essa perspectiva se contrap\u00f5e \u00e0 de quem enxerga a extra\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o do recurso como fonte de obten\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de lucros. Nos anos 1990, essa era a vis\u00e3o. Os governos liberais de Fernando Collor de Melo (1990-92) e Fernando Henrique Cardoso (FHC) (1994-2002) cogitaram publicamente a privatiza\u00e7\u00e3o da Petrobras, o que levou a um desmonte sistem\u00e1tico da empresa e culminou em uma ampla greve dos petroleiros em 1995. Felizmente, esses governos n\u00e3o conseguiram privatizar a Petrobr\u00e1s inteiramente e o Lula assumiu a presid\u00eancia em 2003 com uma vis\u00e3o completamente diferente de Estado e do papel que a empresa deveria ter.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">hF<\/span>: Que avalia\u00e7\u00e3o o movimento sindical faz da gest\u00e3o da Petrobras na nova administra\u00e7\u00e3o de Lula, desde a elei\u00e7\u00e3o em outubro de 2022?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">cV<\/span>: A FUP participou dos grupos de trabalho da equipe de transi\u00e7\u00e3o de governo. Conseguimos influenciar bastante as propostas para o setor petrol\u00edfero como um todo, desde a campanha eleitoral at\u00e9 a posse. Mas o sistema pol\u00edtico de coaliz\u00e3o e o resultado apertado das elei\u00e7\u00f5es criam um contexto no qual o governo precisa fazer mais concess\u00f5es para manter a base aliada, o que afeta diretamente a discuss\u00e3o acerca das empresas estatais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das disputas no cen\u00e1rio pol\u00edtico federal, a luta do movimento sindical enfrenta tamb\u00e9m o corporativismo. Na campanha salarial deste ano estamos discutindo com a categoria dos petroleiros a quest\u00e3o do micropoder. Dentro da Petrobr\u00e1s, apesar das mudan\u00e7as na presid\u00eancia e na diretoria, existem muitas vis\u00f5es diferentes e em conflito. Ainda h\u00e1 bolsonaristas na empresa. E h\u00e1 gente que n\u00e3o \u00e9 bolsonarista, n\u00e3o \u00e9 privatista, que tem uma vis\u00e3o desenvolvimentista em rela\u00e7\u00e3o ao papel da Petrobras para o Brasil, mas n\u00e3o enxerga o movimento sindical dos petroleiros com bons olhos, porque acha que o trabalhador deve se conformar e seguir ordens. Ent\u00e3o, h\u00e1 disputa pol\u00edtica dos rumos da empresa tanto em \u00e2mbito federal quanto nas rela\u00e7\u00f5es internas de poder.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os conflitos internos no Conselho de Administra\u00e7\u00e3o (CA) da Petrobras refletem a disputa por alian\u00e7as do governo no Congresso Nacional. H\u00e1 discord\u00e2ncias entre os pr\u00f3prios conselheiros indicados pelo governo. Na pr\u00e1tica, em raz\u00e3o das indica\u00e7\u00f5es que reverberam as alian\u00e7as do governo com o Congresso, o presidente da Petrobras n\u00e3o tem maioria no CA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a elei\u00e7\u00e3o, houve uma \u00eanfase tanto do presidente Lula quanto do presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, sobre o papel da empresa na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, na retomada do crescimento econ\u00f4mico, na garantia de pre\u00e7o de combust\u00edvel acess\u00edvel para a popula\u00e7\u00e3o, na constru\u00e7\u00e3o da frota naval. H\u00e1 uma defesa p\u00fablica da Petrobras. Mas, na pr\u00e1tica, o n\u00famero de vagas anunciadas para o novo concurso \u00e9 irris\u00f3rio, n\u00e3o rep\u00f5e nem a redu\u00e7\u00e3o de trabalhadores que a empresa ter\u00e1 neste ano em aposentadorias. J\u00e1 fomos uma empresa com 86 mil trabalhadores, hoje temos 40 mil. O plano de neg\u00f3cios divulgado prev\u00ea pouqu\u00edssimo investimento, muito aqu\u00e9m do necess\u00e1rio. O conte\u00fado do plano \u00e9 contradit\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s falas p\u00fablicas do governo e da presid\u00eancia da empresa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">hF<\/span>: Hoje ainda prevalece a vis\u00e3o da Petrobr\u00e1s como exploradora de recursos f\u00f3sseis e n\u00e3o como empresa de gest\u00e3o de energia?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">cV<\/span>: Isso ainda est\u00e1 em disputa. A empresa consegue aprovar investimentos voltados \u00e0 transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, mas n\u00e3o no volume necess\u00e1rio. Houve uma mudan\u00e7a na vis\u00e3o do papel da empresa, isso \u00e9 claro. A Petrobras voltou a se posicionar publicamente como agente do desenvolvimento nacional, retomou o plano de atuar no refino em todos os estados do Brasil \u2013 e n\u00e3o apenas no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo \u2013, de se reinserir na ind\u00fastria de fertilizantes, de atingir autossufici\u00eancia no refino do petr\u00f3leo. E voltou tamb\u00e9m a falar de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Mas, concretamente, apesar da inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e do realinhamento discursivo, os n\u00fameros est\u00e3o muito aqu\u00e9m do necess\u00e1rio para efetivar o que \u00e9 anunciado.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">hF<\/span>: Qual \u00e9 a vis\u00e3o da FUP sobre o papel da Petrobr\u00e1s na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">cV<\/span>: A FUP compreende a necessidade humanit\u00e1ria de supera\u00e7\u00e3o das fontes de energia f\u00f3ssil e entende que esse \u00e9 um processo em andamento. Mas isso n\u00e3o significa que o petr\u00f3leo deixar\u00e1 de ter valor amanh\u00e3. Mesmo que outras fontes energ\u00e9ticas sejam fortalecidas, a tend\u00eancia \u00e9 de que a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo siga no horizonte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso significa que algumas pol\u00edticas devem andar em paralelo: a riqueza gerada pelo petr\u00f3leo deve ser investida em pesquisa e desenvolvimento de novas fontes de energia. Temos as biomassas e as usinas de biocombust\u00edvel em Minas Gerais e na Bahia. Al\u00e9m disso, para al\u00e9m da fonte, \u00e9 preciso discutir sobre o sistema de produ\u00e7\u00e3o, sua divis\u00e3o entre grandes e pequenos produtores, a estrat\u00e9gia de produ\u00e7\u00e3o com desenvolvimento regionalizado. \u00c9 um absurdo ter grandes usinas de energia circundadas por pobreza. Na produ\u00e7\u00e3o de biomassa, por exemplo, a mat\u00e9ria prima deveria ser oriunda de pequenos agricultores, n\u00e3o do agroneg\u00f3cio. Essa pol\u00edtica j\u00e1 existiu e foi interrompida pelo governo Temer. \u00c9 um exemplo concreto de uma estrat\u00e9gia de transi\u00e7\u00e3o justa e popular, que \u00e9 o que defendemos. \u00c9 preciso pensar num sistema produtivo de forma a gerar desenvolvimento na cadeia como um todo, porque a popula\u00e7\u00e3o mais pobre \u00e9 a mais atingida pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Temos que pensar no desenvolvimento das novas energias de maneira que se traduza em desenvolvimento para as camadas populares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para al\u00e9m do investimento em novas fontes, tamb\u00e9m \u00e9 preciso tornar a energia f\u00f3ssil menos poluente, por exemplo, com a redu\u00e7\u00e3o do enxofre na gasolina e no diesel. No caso da Petrobras, j\u00e1 est\u00e1 presente no plano estrat\u00e9gico investir na autossufici\u00eancia do refino de petr\u00f3leo a partir de uma estrat\u00e9gia que torne o processo menos poluente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso continuar a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. A Petrobras deve explorar novas fronteiras. Somos a favor da explora\u00e7\u00e3o na Margem Equatorial. \u00c9 um erro chamar de foz do Amazonas, a regi\u00e3o fica a mais de 150 quil\u00f4metros da foz. A Petrobras tradicionalmente zela pela seguran\u00e7a industrial na explora\u00e7\u00e3o. E a expans\u00e3o disso ainda possibilita o investimento em novas fontes de energia. Essa \u00e9 a nossa ideia de uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa e popular.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">hF<\/span>: A explora\u00e7\u00e3o na Margem Equatorial e a abertura de novas fronteiras de explora\u00e7\u00e3o s\u00e3o um tema controverso no debate p\u00fablico, com cr\u00edticas da pr\u00f3pria Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Por que a FUP defende isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">cV<\/span>: A Petrobras explora petr\u00f3leo na Amaz\u00f4nia h\u00e1 muito tempo. Existe uma refinaria em Manaus. Atuamos na floresta h\u00e1 muito tempo. Outros pa\u00edses da regi\u00e3o amaz\u00f4nica tamb\u00e9m exploram petr\u00f3leo e t\u00eam o hist\u00f3rico de despejar os res\u00edduos da atividade na floresta, o que n\u00e3o acontece no nosso caso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 a diferen\u00e7a de a Petrobras ser uma estatal. \u00c9 uma empresa que tem responsabilidade na produ\u00e7\u00e3o. A nova fronteira de explora\u00e7\u00e3o \u00e9 a Margem Equatorial, que n\u00e3o chega a ser o pr\u00e9-sal, mas \u00e9 uma reserva muito grande de petr\u00f3leo em alto mar. N\u00e3o \u00e9 em terra e sequer perto da costa, como tem sido colocado. E a Petrobr\u00e1s \u00e9 a empresa com mais tecnologia para esse tipo de extra\u00e7\u00e3o. O campo de petr\u00f3leo n\u00e3o respeita o desenho dos nossos mapas. As Guianas j\u00e1 est\u00e3o explorando em torno da Margem Equatorial. A disputa com a Venezuela tem rela\u00e7\u00e3o com isso. No mundo de hoje, deixar de usar energia f\u00f3ssil ainda n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel. A Margem Equatorial ser\u00e1 explorada, pelo Brasil ou por outro pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nosso entendimento \u00e9 de que novas fronteiras t\u00eam que ser exploradas, nessa concep\u00e7\u00e3o de que os ganhos devem ser investidos na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Se olharmos para o mapa mundial do petr\u00f3leo, a maior parte das reservas \u00e9 antiga e passa por decl\u00ednio de produ\u00e7\u00e3o. O Brasil, ao contr\u00e1rio, descobriu novos campos com grandes reservas, possibilitando o aumento da produtividade. Temos um papel cada vez mais importante na produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, e a capacidade produtiva de fontes alternativas de energia n\u00e3o cresce na velocidade necess\u00e1ria para mitigar a import\u00e2ncia disso. Se n\u00e3o explorarmos, n\u00e3o teremos alternativa energ\u00e9tica para suprir a demanda e pagaremos mais caro para consumir petr\u00f3leo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">hF<\/span>: Qual \u00e9 o papel da Petrobras na nova pol\u00edtica industrial do Brasil frente \u00e0 concorr\u00eancia externa?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">cV<\/span>: Quando se fala em concorr\u00eancia internacional, n\u00e3o adianta querer disputar em \u00e1reas em que a China ter\u00e1 uma escala produtiva absurdamente maior, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel competir com os pre\u00e7os que eles alcan\u00e7am. Mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o conseguimos ter ind\u00fastrias mais complexas e que devamos focar no fornecimento de mat\u00e9rias-primas. H\u00e1 espa\u00e7o para diversificar o mercado e deixar de depender de poucos setores produtivos. O Brasil n\u00e3o est\u00e1 mal em compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses. Temos agricultura, servi\u00e7os e ind\u00fastria. Mas o investimento em expans\u00e3o industrial alavanca a gera\u00e7\u00e3o de empregos de qualidade, faz com que os trabalhadores sejam mais bem remunerados e produz efeitos sobre a cadeia de servi\u00e7os.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Petrobras tem import\u00e2ncia estrat\u00e9gica nisso. O custo de energia e transporte \u00e9 central para a ind\u00fastria. No plano de neg\u00f3cios da Petrobras e nas obras do novo Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC), uma das quest\u00f5es \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o das novas rotas de g\u00e1s natural. Participei de algumas reuni\u00f5es do setor da ind\u00fastria qu\u00edmica com o vice-presidente e Ministro do Desenvolvimento, Ind\u00fastria, Com\u00e9rcio e Servi\u00e7os, Geraldo Alckmin, e a principal preocupa\u00e7\u00e3o era o fornecimento de g\u00e1s. A Petrobras fornece insumos para a ind\u00fastria nacional, ent\u00e3o \u00e9 essencial para a garantia bons pre\u00e7os e de estabilidade. H\u00e1 ainda a Petrobr\u00e1s Diesel, que fornece combust\u00edvel para um pa\u00eds que t\u00e3o dependente do transporte rodovi\u00e1rio. E para al\u00e9m da cadeia produtiva do petr\u00f3leo, a Petrobras tamb\u00e9m \u00e9 importante para o agroneg\u00f3cio, com os fertilizantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Disso decorre a discuss\u00e3o do conte\u00fado local dos bens e servi\u00e7os adquiridos para a produ\u00e7\u00e3o brasileira: quando se constr\u00f3i uma plataforma, a estrat\u00e9gia \u00e9 usar projeto, tecnologia e componentes importados, ou o \u00e9 investir em conte\u00fado local? Isso tem rela\u00e7\u00e3o com a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, com quem ser\u00e3o os fornecedores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">hF<\/span>: Finalmente, como o convite para ingresso do Brasil na OPEP+ repercutiu no movimento sindical dos petroleiros?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">cV<\/span>: A FUP n\u00e3o tem posi\u00e7\u00e3o oficial. Vou compartilhar a minha vis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a isso. Ser membro da OPEP+ \u00e9 diferente de ser membro da OPEP, porque n\u00e3o implica o compromisso de obedecer \u00e0s determina\u00e7\u00f5es da OPEP. Se olharmos para a nossa capacidade produtiva, para o que temos de reserva e para o quanto produzimos de petr\u00f3leo, faz sentido estar na OPEP+. \u00c9 a organiza\u00e7\u00e3o que influencia diretamente na forma\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o internacional do petr\u00f3leo, e acompanhar o processo decis\u00f3rio em torno disso \u00e9 sempre positivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O custo produtivo do pr\u00e9-sal brasileiro \u00e9 mais alto que o da Ar\u00e1bia Saudita e de v\u00e1rios pa\u00edses da OPEP, mas \u00e9 mais baixo que de outros. Uma vez que v\u00e1rios pa\u00edses t\u00eam um custo de produ\u00e7\u00e3o maior que o nosso, a tend\u00eancia \u00e9 de que o pre\u00e7o definido pela OPEP n\u00e3o inviabilize a nossa produ\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, participar da discuss\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o n\u00e3o traz risco de nos comprometermos com um patamar menor do que seria vi\u00e1vel para n\u00f3s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acompanhar essa discuss\u00e3o traz seguran\u00e7a para o Brasil. E n\u00f3s n\u00e3o dependemos do petr\u00f3leo como principal fonte de gera\u00e7\u00e3o de energia, diferentemente do que acontece em grande parte dos pa\u00edses produtores. Isso nos d\u00e1 uma posi\u00e7\u00e3o de maior conforto para debater a precifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, como o pr\u00f3prio Lula ressaltou, h\u00e1 a quest\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. O presidente foi amplamente questionado sobre a contradi\u00e7\u00e3o de se posicionar como lideran\u00e7a internacional na discuss\u00e3o ambiental e ingressar na OPEP+. Mas pergunta a ser feita \u00e9 se \u00e9 mais vantajoso deixar essa discuss\u00e3o nas m\u00e3os de outros pa\u00edses ou participar diretamente dela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As petrol\u00edferas s\u00e3o agentes centrais na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. S\u00e3o empresas que j\u00e1 produzem energia e est\u00e3o ampliando o escopo para outras fontes. N\u00e3o h\u00e1 como fazer um plano respons\u00e1vel de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica que n\u00e3o dialogue com os produtores de petr\u00f3leo. A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica tamb\u00e9m depende, portanto, da discuss\u00e3o na OPEP. Se as petrol\u00edferas quiserem derrubar qualquer iniciativa de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, inviabilizando economicamente as fontes alternativas, basta que derrubem o pre\u00e7o do petr\u00f3leo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por ser um grande produtor cuja matriz energ\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dependente de petr\u00f3leo, o Brasil uma posi\u00e7\u00e3o ainda mais confort\u00e1vel para promover o debate sobre a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica na organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A campanha que levou Luiz In\u00e1cio Lula da Silva ao terceiro mandato de presidente do Brasil foi marcada pela ideia de reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, o que reacendeu o debate sobre o papel da Petrobras no desenvolvimento. 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