26 de março de 2026

O limbo argentino

A vitória eleitoral retumbante de Javier Milei em outubro de 2025 transformou a conjuntura argentina. O que parecia ser um governo vacilante, consumido por escândalos e tensões cambiais, transformou-se em ampliação do poder do mandatário argentino, contra todas as previsões. Seu partido, La Libertad Avanza, duplicou a representação parlamentar e ganhou projeção nacional, impondo-se em quinze províncias. Esse apoio inesperado das urnas–concedido mais pelo esgotamento social e pelo medo do caos do que por um entusiasmo genuíno–permitiu ao governo libertário avançar com uma contrarreforma trabalhista de brutalidade sem precedentes, desmantelando proteções históricas e flexibilizando o mercado de trabalho com a aquiescência de uma oposição fragmentada e de um sindicalismo majoritariamente passivo, que em muitos casos parece conceber-se como mero administrador de benefícios para um núcleo cada vez mais reduzido de trabalhadores formais.

Tudo isso ocorre em um cenário de profunda crise econômica, em que o desemprego começa a ser um problema estrutural, o poder de compra dos salários e das aposentadorias despenca e a precariedade no trabalho tornou-se a norma para milhões de pessoas. Em um contexto em que qualquer poder é frágil e a legitimidade se constrói sobre areias movediças, a análise a seguir reconstitui o caminho que levou a esse ponto crítico. Mais do que a consolidação de um poder absoluto, a vitória de Milei é sentida como uma “segunda chance” concedida por uma sociedade que, embora atingida por uma crise econômica que parece não ter fim, não encontrou uma alternativa clara na oposição.

Hoje, a liderança de Milei se apoia em um equilíbrio de forças muito particular: a aliança pragmática com os governadores, o respaldo do poder econômico local e um apoio estratégico dos Estados Unidos, que olham para a região pela velha perspectiva da Doutrina Monroe. O resultado eleitoral confirma que a velha forma de fazer política na Argentina mudou. Já não se busca o consenso por meio de grandes partidos e alianças extensas, mas a construção provisória por meio de uma polarização constante e negociações diretas com setores fragmentados. No entanto, por trás dessa imagem de vitória, permanece a dúvida se esse resultado é uma solução definitiva ou apenas conseguiu disfarçar, por um tempo, as profundas fissuras que atravessam o país.

Menos votos, mais poder

No pleito de outubro de 2025, o partido La Libertad Avanza (LLA) alcançou 40,2% dos votos em nível nacional, consolidando-se como a primeira força ante um peronismo que, apesar de concorrer com chapas fragmentadas, manteve uma base eleitoral próxima a 32%. Os resultados confirmam a inviabilidade de terceiras vias, reduzindo o cenário político a um confronto binário que define os termos da disputa rumo às eleições presidenciais de 2027. Ao aglutinar o voto antiperonista—uma identidade reativa e transversal a uma parte da sociedade argentina—, Milei conseguiu manter sua base e deslocar as outras forças de direita, incluindo o PRO, partido liberal-conservador do ex-presidente Macri (2015-2019), cujo apoio foi fundamental para o segundo turno de 2023. Enquanto isso, o peronismo se confirma como a única força com poder real para se colocar como alternativa, apesar de seus próprios tropeços estratégicos.

No entanto, essa vitória encerra um paradoxo. Entre o segundo turno de 2023 e as eleições legislativas de 2025, o governo perdeu mais de cinco milhões de votos, passando de 14,5 para 9,3 milhões. Ou seja, 60% do eleitorado não se identifica com o mileísmo: 32% votaram na oposição e cerca de 34% se manifestaram por meio de uma abstenção recorde, a mais alta desde o retorno da democracia em 1983. Isso permite inferir que não houve o fortalecimento ideológico de um projeto com mais retórica do que resultados, mas uma “segunda chance” que revela uma crise de legitimidade estrutural. 

Nesse contexto, a estratégia libertária consiste em atuar como uma minoria intensa que capitaliza a fragmentação alheia e a crescente desconexão da sociedade com a política profissional. Em termos concretos, a partir de dezembro de 2025, o espaço libertário não apenas duplicará a presença na Câmara dos Deputados, mas também ampliará significativamente a bancada no Senado, renovada em um terço das cadeiras em 8 dos 23 distritos eleitorais do país. Na Câmara Baixa, onde todas as jurisdições tinham cargos em disputa, o peronismo (Fuerza Patria) manteve 45 de suas 46 cadeiras. Provincias Unidas, uma aliança de governadores que buscou se constituir como terceira via, conseguiu apenas sete cadeiras, enquanto a Frente de Esquerda obteve quatro. Este resultado eleitoral fortalece, sem dúvidas, o governo, já que, sob a nova composição do Congresso, ele tem a possibilidade de blindar os vetos às iniciativas de ajuste e ampliar capacidade de marcar a agenda parlamentar, tal como demonstrou com a aprovação do orçamento geral no final do ano e a redução orçamentária nas áreas de ciência, educação e universidades.

Territorialmente, o mileísmo ultrapassou sua origem metropolitana para se nacionalizar, impondo-se em 15 das 24 jurisdições. Este avanço é particularmente significativo na Grande Buenos Aires e nos grandes centros urbanos do interior, como Córdoba, Mendoza e Rosário.

A geografia eleitoral da LLA amalgama duas realidades sociais contrastantes: por um lado, setores precários e classes médias empobrecidas, camadas em que a rejeição à “casta” canaliza a frustração daqueles que viram sua qualidade de vida se deteriorar rapidamente na última década. Isso é especialmente significativo entre os jovens que já não encontram no peronismo uma ferramenta de ascensão social.

Outro bastião do apoio eleitoral a Milei são os corredores produtivos em áreas de agro-serviços, onde prevalece uma ideologia anti-impostos e a demanda por “ordem” pró-mercado. A ruptura com o passado peronista parece ser a única saída possível para os problemas históricos de ambos os setores, e a LLA a única força capaz de levá-la adiante. Daí o acerto do slogan da campanha: “A Liberdade Avança ou a Argentina Retrocede”.

A nacionalização da marca libertária

Essa aliança de classes é precária e se sustenta fundamentalmente na incapacidade da oposição de articular uma alternativa e na desilusão generalizada com a política. Mas, apesar dessa apatia evidente, poucas eleições de meio de mandato haviam gerado tanta especulação, narrativas contraditórias e nervosismo na mídia e nos grupos políticos. Em meio à indiferença de boa parte da população, os círculos de poder, a mídia e o universo mais politizado percebiam essa eleição como um divisor de águas cujo resultado poderia tanto pôr fim ao ciclo político de Milei—e desencadear turbulências econômicas de consequências incertas—quanto relançar seu governo, como de fato aconteceu.

A inquietação tem fundamento na notória transformação do sistema partidário e do sistema político que a Argentina vem sofrendo em decorrência da irrupção libertária e cujo desfecho ainda está em aberto. O contraste com o passado foi o eixo central da campanha libertária. No entanto, para conquistar alcance nacional, Javier Milei teve de cimentar sua estrutura política em alianças pragmáticas com poderes locais. Esse processo de nacionalização foi liderado por Karina Milei, apontada como a principal estrategista e responsável por tecer acordos conjunturais em cada província. A elaboração das listas priorizou tanto figuras alheias à política tradicional quanto perfis técnicos desconhecidos, uma aposta que capitalizou com sucesso o clima antipolítico persistente e os baixos níveis de participação eleitoral.

A expansão do LLA representou uma reconfiguração do mapa partidário e dos mecanismos históricos de construção política na Argentina. Enquanto o peronismo e o radicalismo—as duas grandes estruturas partidárias do século XX—operaram durante décadas com base em redes territoriais sólidas e uma militância massiva, hoje esses modelos são vistos como vestígios ineficientes de um passado distante. O LLA, fundado apenas em 2021, rompeu com essa tradição: sem governadores, sem estrutura territorial prévia e com uma representação legislativa mínima, alcançou a vitória em 2023, erigindo Milei como o primeiro presidente autenticamente outsider da história argentina.

Apesar dessa fragilidade estrutural, Milei demonstrou notável ousadia política para forjar acordos de governabilidade e projetar sua força rumo às eleições de meio de mandato, apoiando-se no carisma e na projeção nacional de sua figura. Isso implicou uma profunda alteração no discurso público, no qual o partido no poder se posiciona como a ruptura definitiva com um passado qualificado como populista, corrupto ou “woke”, e que teria levado o país à ruína econômica.

2025, o vertiginoso ano libertário

O que torna surpreendente o resultado eleitoral de 2025 é o caminho sinuoso que o governo percorreu para chegar até lá. O próprio Milei apresentou as eleições como um plebiscito sobre sua gestão, uma aposta que, até o dia anterior, parecia suicida. Vale lembrar que 2024 havia sido um ano de ouro para Milei, já que sua grande propaganda consistia em ter colocado um freio na inflação—embora o preço fosse um ajuste brutal e uma moeda sustentada artificialmente. Em contraste, ao longo de todo o ano de 2025, o governo avançou entre erros, danos autoinfligidos e um pântano de escândalos e gafes midiáticas, preso em sua própria retórica e diante de números econômicos que acendiam vários alarmes.

Em fevereiro, surgiu o escândalo da criptomoeda Libra, promovida publicamente por Milei em suas redes sociais, o que impulsionou uma forte alta, seguida, em questão de minutos, por um colapso que deixou mais de 1.000 prejudicados e prejuízos de cerca de 280 milhões de dólares. A queda resultou em denúncias criminais e pedidos de impeachment na Argentina e nos Estados Unidos, onde se investiga se o presidente participou de uma manobra fraudulenta. Em abril, começaram a ocorrer turbulências na taxa de câmbio, e o governo recorreu a um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) no montante de US$ 20 bilhões para sustentar o valor do peso e montar um esquema para sair dos controles cambiais que havia herdado dos governos anteriores.

Esse empréstimo consolidou a Argentina como o maior devedor do FMI, concentrando impressionantes 34% do crédito total do organismo; após a aprovação, em 2025, de um novo pacote de US$ 20 bilhões, a dívida total ascendeu a US$ 65 bilhões, um valor que supera até mesmo o de nações em conflito bélico, como a Ucrânia. Ao mesmo tempo, esse empréstimo revela a existência de uma reciclagem de tecnocratas na gestão do Estado, já que, como bem observa María Haro Sly, a equipe econômica de Milei “não representa uma vanguarda nova e ousada, mas um grupo de tecnocratas já conhecidos, provenientes de experiências neoliberais anteriores, muitas das quais culminaram em crises estrondosas.”

O cenário agravou-se em julho, quando começou uma disputa de vetos e rejeições de decretos no Congresso, o que complicou a governabilidade e a iniciativa política do governo. Outro grande escândalo ocorreu em agosto, pois vieram à tona áudios nos quais se denunciava que Karina Milei, irmã do presidente e principal operadora política do LLA, recebeu subornos de prestadores de serviços e fornecedores de medicamentos do Estado. Em setembro, mais um revés: descobriu-se que o principal candidato governista na Província de Buenos Aires, José Luis Espert, estava sendo financiado por um traficante de drogas com um pedido de extradição dos Estados Unidos. Esse conjunto de escândalos atingiu o momento mais crítico dois dias antes das eleições, com a renúncia de dois ministros.

É importante considerar que o problema mais complexo surgiu justamente na frente em que o governo se considerava mais forte: a econômica. Nas semanas que antecederam as eleições, novas tensões cambiais impulsionaram a alta do dólar e provocaram micro-desvalorizações do peso, o que colocou em risco o programa anti-inflacionário. A orientação econômica, liderada pelo ministro da Economia, Luis Caputo, não se baseia na ortodoxia liberal de conter a emissão monetária, mas na estratégia de desvalorizar artificialmente a moeda, queimando as reservas em dólares do Banco Central no mercado cambial local.

“É a inflação, estúpido!”

​​Para o programa macroeconômico do governo, conter a valorização do dólar, reduzir a inflação e estabilizar a macroeconomia significam basicamente a mesma coisa; por isso, a volatilidade da taxa de câmbio é um fator político de primeira ordem. O problema é que essa política anti-inflacionária se baseia na disponibilidade de reservas em dólares do Banco Central. Quando estas começam a escassear, o nervosismo aumenta. E foi exatamente isso que aconteceu dias antes da eleição, quando os mercados e a população começaram a ficar nervosos diante da escalada do valor do dólar e do possível repasse aos preços, o que ameaçava uma aceleração inflacionária e o retorno de velhos traumas, em particular o da hiperinflação de 1989. Como aponta Mercedes D’Alessandro, a perda de poder aquisitivo com o simples passar das horas marcou a experiência vital de uma sociedade que, na década seguinte, pagou um preço muito alto pela estabilidade monetária: congelamento salarial, destruição da indústria, privatizações, endividamento externo e aumento do desemprego. No entanto, cada promessa de “ordem macroeconômica” continua sendo, até hoje, uma mensagem que combina medo e esperança futura.

Por isso, para a maioria dos argentinos, a inflação continua sendo o principal parâmetro para medir o sucesso ou o fracasso da gestão, e é aí que o governo encontrou sua maior força. Em outubro de 2025, o índice mensal de 2,3% e o anual de 31,3% contrastaram fortemente com o fantasma dos 160% deixados pelo governo peronista de Alberto Fernández (2019-2023). Essa “vitória” provisória sobre os preços também permitiu a Milei conservar uma parte vital do apoio popular—mesmo quando o bolso da população sentia o rigor do ajuste—, disciplinar a oposição e absorver completamente boa parte do espaço do centro e de toda a direita.

No entanto, essa política macroeconômica, centrada em conter a inflação por meio do controle da taxa de câmbio, tem consequências profundas na microeconomia. No último ano, as vendas no varejo caíram mais de 26%, e o consumo de massa, 7,5% em relação ao ano anterior, chegando a quase 17% em algumas áreas, o que empurrou a economia para um cenário de estagnação com inflação. Embora a inflação mensal tenha caído rapidamente nos bens de consumo, essa conquista teve um alto custo social: salários e aposentadorias ficaram estagnados e a desigualdade se aprofundou. Ao mesmo tempo, o setor industrial registrou níveis de ociosidade semelhantes aos da pandemia e o desemprego começou a se tornar um problema estrutural.

Essa obsessão com a inflação não é apenas política ou econômica, mas também social, e é aqui que se evidenciam os pontos fortes e os limites do programa de Milei. A moeda é muito mais do que um instrumento comercial; é a estrutura simbólica que sustenta a relação de confiança entre a cidadania e o Estado. Representa a possibilidade de planejar o futuro e constitui o sinal primordial da organização social. No contexto atual, o peso conseguiu recuperar suas funções como unidade de conta e meio de troca, mas ainda não se tornou, para a cidadania, uma reserva de valor confiável. As expectativas de câmbio em pesos se acalmaram, mas não as de poupança, que continuam subordinadas à cotação do dólar, o que deixa o peso como uma ferramenta para o presente, mas incapaz de sustentar uma visão de longo prazo.

Yankees come home”

Nesse contexto caótico, sufocado pela valorização quase diária do dólar, o governo recorreu à ajuda de Donald Trump e do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, em uma manobra tão inesperada quanto eficaz. O acordo estabeleceu uma linha de swap cambial de até US$ 20 bilhões entre o Banco Central da República Argentina (BCRA) e o Tesouro, que também adquiriu títulos argentinos. Esses recursos foram destinados, por um lado, ao pagamento de vencimentos ao FMI e, por outro, a intervenções cambiais para conter a escalada do dólar no mercado informal e reduzir drasticamente a volatilidade antes das eleições. Tratou-se de um dos maiores pacotes de assistência direta já concedidos pelos Estados Unidos à América Latina, bem como de uma intervenção explícita na política eleitoral de um país estrangeiro raramente vista.

Esse pacto com Washington funcionou como um salva-vidas eleitoral para o governo libertário, sem o qual dificilmente teria chegado competitivo às eleições. A aliança se baseou tanto na afinidade ideológica quanto no interesse geopolítico dos Estados Unidos de conter a expansão da China na região por meio de seu principal parceiro local. Por sua vez, o acordo resultou em um novo marco de cooperação comercial no qual a Argentina se comprometeu a facilitar a entrada de produtos norte-americanos—desde medicamentos e tecnologia até maquinário e veículos—, com contrapartidas até agora pouco claras por parte dos Estados Unidos

No entanto, a geopolítica desse pacto visa o afastamento da China da região, que se tornou o principal destino de exportação da soja e da carne argentina em 2024-2025. Por isso, a pressão de Washington para afastar Buenos Aires da influência chinesa colocou em questão também a estrutura material da balança comercial argentina. Inicialmente, as entidades rurais comemoraram a redução das retenções sobre as exportações, sob a suspeita de que um alinhamento excessivamente rígido com Trump pudesse colocar em risco a relação com seu principal comprador. Para um país que exporta para a China fundamentalmente commodities agroindustriais, existe a ameaça de deslocamento comercial da China para países que considere “mais confiáveis”, como o Uruguai ou o Brasil. No entanto, a vitória eleitoral transformou essa possível desconfiança do setor em um alinhamento incondicional com o governo libertário.

A racionalidade do voto exausto

Diante dessas considerações, a pergunta permanece: como ele conseguiu, então, vencer a eleição? Em primeiro lugar, é preciso levar em conta o medo que havia do risco iminente de uma crise ainda maior, provocada pela disparada do dólar e pelo retorno de uma inflação que desorganiza a vida cotidiana dos trabalhadores. O voto em Milei pode muito bem ter sido motivado pelo pânico de uma sociedade exausta por uma crise que já dura mais de 10 anos e que reduz cada vez mais a margem de subsistência das famílias. O medo de que o peso se desvalorize, os salários percam ainda mais poder de compra e o preço da cesta básica dispare pode ter influenciado uma racionalidade de curto prazo no eleitorado.

Embora na Argentina menos de 5% da população economicamente ativa opere com moedas estrangeiras regularmente, existe uma percepção generalizada de que, quando o dólar sobe, os cidadãos empobrecem um pouco mais, pois o valor real de sua renda é corroído. Nesse sentido, a campanha de Milei concentrou-se em alimentar esse medo, mostrando que, se ele não fosse confirmado nas urnas, poderia ocorrer um caos econômico com consequências imprevisíveis. Em uma população com margens cada vez mais estreitas, essa psicologia do dia a dia não é insignificante. Em suma, o voto em Milei apresentou-se como uma garantia de que, na segunda-feira seguinte ao domingo eleitoral, não iria tudo explodir.

Ao mesmo tempo, parece ter prevalecido a vontade de dar uma segunda chance ao governo. Um sentimento que está em sintonia com a percepção de que uma mudança de rumo no meio do caminho exigiria mais energia do que uma sociedade exausta está em condições de fornecer. Se considerarmos o fracasso retumbante dos dois governos anteriores—o liberal de Mauricio Macri (2015-2019) e o peronista de Alberto Fernández (2019-2023)—e a desorientação da oposição para articular uma agenda própria, não é de se estranhar que boa parte da população tenha optado por endossar provisoriamente o governo.

O peronismo: entre a nostalgia e o labirinto

Embora a inflação tenha deixado de ser o principal motivo de preocupação, a qualidade de vida piorou durante esse período. Desde a posse do novo governo, os salários reais sofreram uma forte contração superior a 15% e, em alguns setores—como no caso de certos funcionários públicos—, chega a se aproximar de 40%. Essas perdas salariais ocorreram em um contexto de deterioração geral das fontes de renda das famílias. Em particular, as aposentadorias e pensões—que absorveram uma parte substancial do ajuste dos gastos públicos—sofreram uma redução significativa: em termos reais, o valor mínimo atual é 7,2% inferior ao de novembro de 2023 e acumula uma queda superior a 25% em relação a dezembro de 2017. Paralelamente, a economia informal estagnou devido à queda da atividade econômica e, como apontamos, o desemprego está se tornando um problema cada vez mais grave no modelo libertário.

A oposição peronista foi incapaz de capitalizar o descontentamento social gerado por esse contexto. Sua falta de propostas concretas durante a campanha revelou um receio não declarado em público: a profunda rejeição social provocada pela gestão de Alberto Fernández, marcada pela inflação, pela falta de iniciativa e por diversos escândalos. O resultado de 26 de outubro confirmou esse declínio; sob a bandeira da Fuerza Patria, o partido caiu para 31,7% em nível nacional e perdeu redutos históricos como a província de Buenos Aires. Embora mantenha as bancadas mais numerosas no Congresso, o peronismo perdeu capacidade de bloqueio parlamentar autônomo de que desfrutava até agora.

Essa derrota evidencia que a liderança de Cristina Fernández de Kirchner já não é suficiente para coesionar o movimento. Isso desencadeou a consolidação de um bloco de governadores peronistas que estão entre os principais apoiadores políticos do governo de Milei, conferindo a seus representantes parlamentares o poder de aprovar ou vetar leis em negociações individuais. Atualmente, o espaço peronista enfrenta uma reordenação entre um kirchnerismo enfraquecido, o peronismo disperso dos distritos nacionais sem projeção nacional e o peronismo da Província de Buenos Aires. Este último tenta se reorganizar sob a figura de Axel Kicillof, atual governador e representante da ala progressista.

Por sua vez, forças sociais ligadas ao peronismo, como o sindicalismo, naufragam sem poder intervir nessa constelação. O debate oscila entre a resistência frontal às reformas de Milei e uma adaptação pragmática com vistas às eleições nacionais de 2027. O desafio central continua sendo resolver o enigma econômico de como estabilizar o país e recuperar o crescimento—estagnado desde 2011—sem recorrer a ajustes brutais nem ao caos inflacionário. O certo é que aqueles anos “dourados” de crescimento com inclusão e recuperação das capacidades estatais, impulsionados pelo preço internacional das commodities, vividos durante o kirchnerismo (2003-2014), há muito são uma lembrança muito distante e sua evocação nostálgica seduz muito pouco.

A motosserra ideológica

O que se pode esperar após uma vitória clara, mas ainda assim frágil? Em primeiro lugar, é certo que o governo acelerará sua agenda conservadora e antifeminista. Essa postura se concretizou em medidas simbólicas e legislativas, como a declaração de 2025 como o “Ano da Defesa da Vida, da Liberdade e da Propriedade”, ou o impulso a projetos para revogar a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG). Este marco do movimento feminista certamente enfrentará um novo cerco em 2026, apoiado na nova configuração parlamentar e no fortalecimento de alianças com setores religiosos.

Nesse contexto, é preciso considerar o surgimento na política de grupos evangélicos, que já contam com oito cadeiras afins. Embora seu peso esteja muito longe da densidade e capilaridade que possui no Brasil, o fato de mais de 15% da população professar essa fé o torna um fator social considerável. Apesar disso, não está claro como isso se traduz no plano político, já que não existe um bloco evangélico ou uma estratégia confessional unificada, nem se os fiéis dessas igrejas definem opções políticas com base em crenças religiosas.

O inegável é que o rumo político na Argentina tem se deslocado para posições cada vez mais drásticas. Um exemplo foi o discurso de Milei em Davos, considerado o lançamento de um manifesto global contra o que ele denomina a “esquerda woke”, uma batalha cultural que não fica restrita aos púlpitos. Essa ofensiva se traduziu em ações diretas: desde a extinção do Ministério das Mulheres, Gêneros e Diversidade até o corte de programas essenciais para as vítimas de violência de gênero. Neste novo mapa de poder, as universidades e os órgãos científicos também ficaram na linha de fogo. O governo os apontou como centrais de “doutrinação” comunista, transformando o que eram pilares da inclusão e da ascensão social em inimigos a serem desmantelados.

A ofensiva contra o trabalho

A vitória eleitoral impulsionou o governo a empreender as contrarreformas estruturais que almeja. Em particular, três reformas econômicas que há muito estão em discussão: a trabalhista, a tributária e a previdenciária. O avanço teve como marco mais notável a aprovação da Reforma Trabalhista no início deste ano, uma ofensiva brutal e sem precedentes contra o trabalho, os sindicatos e os mecanismos de proteção trabalhista. A nova legislação contou com o apoio de boa parte da oposição que, entre oportunismo, falta de reação e desprestígio, acompanhou uma medida que leva a outro nível o desmantelamento neoliberal das proteções sociais. O governo libertário mobilizou um argumento simples e refutado em múltiplas ocasiões: que a flexibilização trabalhista permitirá a criação de empregos formais, em uma situação de recessão e queda dos lucros.

Mais uma vez, o discurso libertário responde à demanda dos setores empresariais pró-mercado que buscam reduzir as cargas tributárias e, ao mesmo tempo, apresenta-o como solução para os segmentos da população empobrecida e precarizada. Concretamente, a chamada “Lei de Modernização Trabalhista” introduz mudanças substanciais na Lei do Contrato de Trabalho e modifica o regime de negociação coletiva. Segundo o Instituto de Estudos e Formação da CTA Autónoma, a profundidade dessa reforma deve ser avaliada em três pontos principais: 1) a transferência de valor do trabalho para o capital; 2) o enfraquecimento dos sindicatos e restrições no direito à greve; 3) as mudanças na Lei do Contrato de Trabalho que fortalecem o poder dos empregadores e a disciplina laboral.

Algumas precisões sobre a reforma dão uma ideia de sua radicalidade. A nova lei introduziu uma mudança de paradigma nas indenizações por demissão por meio do Fundo de Assistência Trabalhista (FAL). No novo esquema, o empregador contribui mensalmente com uma porcentagem do salário (entre 1% e 2,5%, dependendo do tamanho da empresa), mas isso é compensado por uma redução equivalente nas contribuições que hoje financiam o sistema público de previdência social. Na prática, as demissões nas empresas privadas seriam pagas com recursos retirados do sistema público de previdência social (ANSES), o que agravará o déficit das aposentadorias, pensões e abonos, além de reduzir os planos de saúde sindicais. Isso ocorre em um contexto em que aposentados e aposentadas se mobilizam todas as quartas-feiras para reivindicar um aumento em sua renda, algo que, com essa reforma, se tornará ainda mais difícil de atender.

Outro ponto crucial é a mudança nos acordos coletivos de trabalho, que agora serão firmados por empresa e não por setor, o que fragmenta as negociações salariais, aumenta o poder dos empregadores e destrói o poder dos sindicatos. A lei também elimina o princípio da “ultraatividade”, que garante a vigência dos acordos coletivos vencidos até a assinatura de um novo, para evitar que as condições de trabalho fiquem sem regulamentação durante períodos de conflito ou de negociação.

Esse princípio tem sido um importante mecanismo de defesa das condições de trabalho, ao garantir a estabilidade das proteções e regulamentações trabalhistas em situações de mudança ou em negociações estagnadas. A lei promove um corte que beira a eliminação do direito à greve. Amplia-se o número de atividades consideradas “essenciais” (sem que isso implique qualquer mecanismo de reconhecimento) e, portanto, com possibilidades limitadas de entrar em greve. Exige-se dos sindicatos que a convocação para a assembleia não afete o andamento das atividades laborais e que conte com a autorização do empregador no que diz respeito aos horários e à duração.

Outras mudanças relevantes concentram-se na modificação da Lei do Contrato de Trabalho, em particular na organização do tempo de trabalho, nas indenizações e nas licenças. O projeto libertário propõe maior flexibilidade no regime de férias, que poderão ser fracionadas em períodos mínimos de uma semana e concedidas em qualquer momento do ano. A implementação do chamado “banco de horas” e a reorganização dos horários de acordo com as necessidades produtivas constituem outra novidade a favor do capital. A ideia do “banco de horas” consiste em acumular horas de trabalho que são compensadas posteriormente com dias de descanso, o que implica a abolição do regime de horas extras. Como novidade, o projeto de lei inclui um capítulo específico para o trabalho em plataformas que, na prática, não amplia direitos, mas responde de forma regressiva a uma problemática específica de um segmento de trabalhadores.

Enquadrada nos discursos de “modernização” e “competitividade”, a iniciativa governamental ressuscita uma premissa de solidez empírica duvidosa: a ideia de que a desregulamentação do mercado de trabalho é um passo obrigatório para a futura criação de empregos de qualidade. No entanto, evidências recentes contradizem esse postulado. Desde o início do governo Milei, o emprego assalariado no setor privado não mostrou sinais de recuperação. Pelo contrário, registra-se uma redução superior a 280 mil postos de trabalho formais. Paralelamente, ganharam terreno as ocupações mais instáveis, como o trabalho autônomo e por conta própria, frequentemente mediadas por aplicativos digitais. Esse fenômeno tem acompanhado o aumento do número de assalariados que, apesar de terem um emprego registrado, encontram-se abaixo da linha da pobreza. Outro fenômeno é a expansão do pluriemprego como única via para enfrentar a crise. Longe de diminuir o desemprego estrutural, a perda de direitos e a crescente precarização exacerbaram a incerteza laboral.

A fragilidade da abordagem flexibilizadora não é apenas prática, mas também conceitual. Da perspectiva da economia ortodoxa, o desemprego é uma distorção originada por salários elevados ou por obstáculos normativos. No entanto, essa visão omite a função orgânica que o desemprego desempenha no sistema capitalista. Seguindo a noção clássica de “exército industrial de reserva” de Marx, um conjunto de trabalhadores desempregados ou subempregados atua como um mecanismo de pressão que disciplina aqueles que ainda conservam o emprego, limitando o poder de negociação. Longe de ser uma imperfeição que o mercado tende a corrigir, essa reserva de mão de obra é uma engrenagem fundamental para a acumulação. Nesse sentido, o objetivo central da reforma não é promover o emprego, mas aprofundar esse controle. Ao baratear os custos da demissão, minar a negociação coletiva e multiplicar as formas precárias de contratação, concede-se ao capital maior margem de ação. A ameaça latente de ficar desempregado ou de sofrer uma deterioração das condições de trabalho constitui, assim, uma ferramenta eficaz de disciplina social.

Um capitalismo de duas velocidades

Para grande parte da classe trabalhadora, a flexibilização já é uma realidade cotidiana: a informalidade atinge 43,2% dos trabalhadores e o descumprimento dos direitos trabalhistas básicos tornou-se algo comum. Nesse contexto, o alerta de que um governo de extrema direita “ataca seus direitos” contrasta com a experiência cotidiana de milhões de pessoas para quem esses direitos deixaram de ser efetivos há muito tempo. Esse descompasso explica, em parte, por que setores que hoje não conseguem pagar as contas no fim do mês, veem seu poder de compra cair e sofrem com a precariedade estrutural, consideram plausível “experimentar algo novo” e dão seu voto à experiência “libertária”.

O modelo econômico de Milei assenta-se em um pacote anti-inflacionário que combina o controle (não declarado) da taxa de câmbio, o ajuste fiscal, a contenção dos salários, a abertura das importações e a redução de impostos para as grandes fortunas. No entanto, essa desinflação está ancorada em uma forte política ortodoxa de ajuste fiscal e monetário que provocou uma queda drástica no consumo, nos salários e nas aposentadorias, ao mesmo tempo em que encareceu o país em dólares, afetando o turismo receptivo, enquanto favorece o turismo emissivo dos setores com capacidade de poupança.

O modelo promove uma “reestruturação reacionária” do capitalismo local, voltando-se para uma economia de serviços e de exportação primária intensiva em energia, mineração e agroindústria. Por meio de incentivos, prioriza-se a atração de capital transnacional e de grandes grupos locais, oferecendo-lhes segurança jurídica e facilidades para a remessa de lucros, acompanhada de narrativas fantasiosas como a de transformar a Argentina no “quarto polo mundial de IA” por meio da produção energética. Esse modelo posiciona os investidores externos como os grandes vencedores, enquanto os empresários de pequenas e médias empresas (PMEs) e os trabalhadores e trabalhadoras enfrentam o fechamento de empresas, empobrecimento salarial e o aumento do desemprego. 

Repolitizar a precariedade

Para manter esse esquema diante do descontentamento social, o governo complementa sua política econômica com violência e repressão aos conflitos sociais, o que já foi alertado por organismos nacionais e internacionais de direitos humanos. A deterioração da qualidade de vida deu origem a múltiplas lutas, protestos e mobilizações em todo o país. O fechamento de empresas ou a redução de pessoal multiplicou as situações de conflito e gerou intensas manifestações de milhares de trabalhadores demitidos, embora, em geral, elas tenham permanecido desarticuladas entre si, em um contexto marcado pela desorientação e pela passividade da Confederação Geral do Trabalho.

A Marcha Federal do Orgulho Antifascista e Antirracista LGBTQI+, realizada em 1º de fevereiro de 2025 em repúdio ao discurso de Milei no Fórum de Davos, não produziu a ruptura esperada nem conseguiu se consolidar como um espaço de resistência de longo prazo, embora tenha demonstrado grande capacidade de mobilização em um momento específico. De qualquer forma, houve alguns protestos que lograram grande atenção e adesão popular pelo forte caráter simbólico no imaginário da classe média argentina: as mobilizações de aposentados, trabalhadores de universidades e do Hospital Garrahan (um dos hospitais pediátricos mais prestigiados da América Latina), bem como os protestos contra os cortes nos subsídios por deficiência. Isso mostra que a luta social ainda está ativa e que o governo está muito longe de gozar da capacidade hegemônica de que se vangloria.

Por isso, uma agenda de resistência diante do avanço libertário não pode se limitar a esperar passivamente pelo desgaste provocado por erros ou pela crise. A resistência existe e o clima de protesto não se acalmou, mas encontra-se desarticulado e carece de uma representação sólida no âmbito político. Qualquer freio ao projeto governista excludente requer reconectar a mobilização social com a representação política. É nessa articulação renovada entre sindicatos, partidos e movimentos que reside a chave para mudar o rumo de uma história ainda não decidida.

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