9 de abril de 2026
Entre Bolívar e Monroe
Maria Fernanda Sikorski entrevista o deputado da Assembleia Nacional da Venezuela
Sete anos após a suspensão unilateral pelos Estados Unidos das relações diplomáticas com a Venezuela e três meses após o sequestro de Nicolás Maduro, a bandeira venezuelana foi novamente hasteada na embaixada do país em Washington. A agressão militar de Trump contra a Venezuela no dia 3 de janeiro anunciou a mais nova rodada de radicalização da política externa estadunidense. Mas o rescaldo da captura do chefe de Estado de um país soberano foi bastante contraditório em relação à ofensiva inicial: os Estados Unidos jamais reconheceram a legitimidade do atual mandato de Maduro, mas a intervenção imperialista não impediu que a vice-presidenta Delcy Rodríguez, escolhida por Maduro, assumisse o comando. Desde então, a Venezuela negocia, ainda que de uma posição evidentemente assimétrica, uma nova etapa de sua relação com os Estados Unidos.
Esta entrevista foi conduzida em um contexto de renovação do conflito geopolítico na América Latina, no qual tensões entre soberania nacional e ingerência externa voltam a ocupar um lugar central na política doméstica e internacional. O que aconteceu na Venezuela revela não só a persistência de uma lógica histórica de dominação hemisférica, mas sua renovação: foi a primeira ação militar direta dos Estados Unidos ao sul do Panamá. O episódio foi o ponto culminante da dominação militar do Grande Caribe, que se iniciou meses antes com um processo intensivo de militarização marcado por centenas de bombardeios contra embarcações ao longo do Caribe e do Pacífico colombiano. O resultado foi a ruptura da frágil, mas relevante, esfera de influência bolivariana na região. Na Venezuela, o fato do chavismo seguir no poder pode ser visto tanto como demonstração de solidez do aparato estatal construído desde a Revolução Bolivariana ou da eficácia do pragmatismo promovido pelo emergente “rodriguismo” quanto como o elemento “Donroe” da fase atual da doutrina norte-americana em relação ao continente.
As dinâmicas internas da Venezuela não podem ser analisadas à margem das pressões econômicas, financeiras e militares vindas do Norte. As sanções, o bloqueio e as operações de desestabilização asfaltaram o caminho para o desenvolvimento da política doméstica do país. Hoje, o caso venezuelano é um laboratório de novas formas de intervenção imperial. Nesse sentido, a voz de atores políticos vinculados ao processo bolivariano tem particular relevância. Para além da adesão ou crítica que suas posições possam suscitar, seus testemunhos permitem acessar uma interpretação do conflito que costuma ser marginalizada nos grandes circuitos midiáticos internacionais. Para contribuir com um contraponto, Maria Fernanda Sikorski, editora da Phenomenal World, conversou com Roy Daza, deputado da Assembleia Nacional da República Bolivariana da Venezuela, sobre a conjuntura atual e as transformações estruturais que atravessam o país. Roy Daza é vice-presidente da Comissão de Política Exterior da Assembleia Nacional, presidente do Grupo de Amizade Parlamentar com o Brasil e integrante da Comissão Especial de Acompanhamento da Lei de Anistia.
Entrevista com Roy Daza
Maria sikorski: Podemos começar falando sobre a estratégia diplomática adotada na Venezuela após o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores da posse de Delcy Rodríguez como presidenta interina? Quais têm sido os principais eixos da política internacional desde então? Qual tem sido o papel de países aliados e organismos multilaterais?
roy daza: Em 200 anos de vida republicana, a Venezuela nunca havia sido bombardeada. O país também jamais travou guerra alguma com outra nação do mundo, e até mesmo os conflitos internos mais graves foram resolvidos pela via política. Nesse contexto, a adoção da Diplomacia Bolivariana de Paz pela presidenta interina Delcy Rodríguez não é uma coincidência, mas sim a expressão de uma constante histórica e um reflexo do pensamento humanista do comandante Hugo Chávez e do presidente Nicolás Maduro.
Essa política, como explicou a presidenta em seu discurso perante a Assembleia Nacional em 15 de janeiro, parte do reconhecimento do confronto histórico entre a Doutrina Monroe e a doutrina de Simón Bolívar. Com base nisso, definem-se três grandes objetivos para a República nesta etapa: exigir a libertação imediata do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama e deputada, Cilia Flores; manter a paz e a estabilidade da nação; e dar continuidade ao desenvolvimento do programa de governo conhecido como Plano das Sete Transformações.
Ciente da intensidade e persistência da campanha midiática dirigida contra a Venezuela há anos, o Governo Bolivariano emprega toda a sua capacidade diplomática para expor sua verdade. Da mesma forma, reivindica a necessidade de uma ação coordenada das instituições internacionais para pôr fim ao bloqueio. Nós, bolivarianos, em consonância com a orientação política do presidente Nicolás Maduro, aspiramos que tais instituições cumpram os princípios da Carta das Nações Unidas e das convenções de Viena. Nesse sentido, enfatiza-se que a maioria das nações do mundo condena o ataque armado e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e exige sua libertação imediata. No entanto, também se reconhece que o povo venezuelano deve, em última instância, apoiar-se em suas próprias forças. Daí a relevância de um ensinamento do próprio Maduro: “Diante das adversidades, calma e sensatez, nervos de aço e intensa mobilização popular”.
O bombardeio à cidade de Caracas e aos estados de Miranda e La Guaira teve como trágico saldo o sequestro do presidente e da primeira-dama Cilia Flores, a morte de 106 heróis e mais de 200 feridos. Mas essa questão não pode ser abordada sem mencionar os antecedentes dos abomináveis acontecimentos de 3 de janeiro de 2026.
É preciso ressaltar que a decisão do presidente Barack Obama, em 2015, de declarar a Venezuela como “uma ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos Estados Unidos foi um despropósito. Essa declaração serviu de base para a adoção de medidas coercitivas unilaterais—as sanções econômicas—que têm o objetivo expresso de asfixiar a economia venezuelana. Isso se traduziu no bloqueio das transações financeiras internacionais, provocando uma queda abismal nas importações e afetando o mercado interno, os investimentos e a reposição de capital das empresas privadas e estatais. Em síntese, resultou em uma profunda paralisação da economia. Esse ataque direto e sustentado contra nossa economia coincidiu, além disso, com uma queda abrupta dos preços do petróleo, o que agravou seus efeitos.
Além do bloqueio econômico, no plano político, em 2017 as forças da direita continental impulsionaram um cerco diplomático contra o país. Paralelamente, grupos fascistas empreenderam uma campanha de violência nas ruas, que teve como saldo mais de cem mortos, dezenas de feridos e graves danos à infraestrutura. Tudo isso foi acompanhado por uma intensa campanha midiática. A migração em massa, um fenômeno inédito na história nacional, foi impulsionada tanto pela crise econômica decorrente das sanções quanto por uma campanha enganosa promovida por setores da extrema direita interna. Finalmente, em 2019, durante o primeiro governo de Donald Trump, foram impostas sanções diretas contra a estatal PDVSA, aprofundando ainda mais o cerco econômico.
A extrema direita concentrou-se em pedir a intervenção militar de potências estrangeiras na Venezuela, promover operações de mercenários e apoiar tentativas de invasão. Da mesma forma, em 2019, impulsionou a instauração de um espúrio “governo interino”. Esse processo provocou uma ruptura na oposição: um setor distanciou-se da ala fascista e optou por estabelecer acordos com o Governo Bolivariano. Isso possibilitou a convocação das eleições legislativas de 2020 e a recuperação da Assembleia Nacional, instituição que estava nas mãos do extremismo. Em meio à pandemia, as forças patrióticas e a oposição democrática avançaram pela via do diálogo, o que contribuiu, no fim das contas, para uma certa estabilização do cenário institucional e para uma recuperação progressiva da economia.
Ms: O Plano das Sete Transformações foi apresentado como programa de governo para o mandato presidencial de 2025 a 2031. O senhor poderia explicar suas principais diretrizes e comentar sobre o que levou o presidente Maduro a definir essas prioridades?
RD: O Plano das Sete Transformações é fruto de uma longa discussão nas estruturas do partido e do governo, bem como de uma ampla consulta popular realizada nas comunidades e junto aos movimentos sociais. Isso não é um mero detalhe, mas uma fórmula política sem a qual não se compreende o que denomino de coesão social, um fenômeno que transcende o mero acordo político. Como é possível que o governo tenha conseguido resistir a dez anos de bloqueio econômico, comercial e financeiro? A resposta remete a um fato central: a Revolução Bolivariana conta com um consenso social e cultural, porque é um processo histórico. Não se trata apenas de uma conjuntura política, mas da continuidade de um projeto de longo prazo. É, em última instância, o caminho traçado por Simón Bolívar.
As 7-T têm como base algo que convém abordar de maneira sucinta: o esgotamento histórico do capitalismo rentista. Ou seja, o momento em que a renda deixou de ser a locomotiva da economia e se tornou um entrave ao desenvolvimento do conjunto da economia. É importante, contudo, esclarecer o que se entende por capitalismo rentista. Trata-se de uma forma de desenvolvimento capitalista sustentada pela apropriação da renda internacional da terra; de um capitalismo de base nacional; e de um modelo no qual a gestão da renda petrolífera é centralizada pelo Estado. Por essa razão, os interesses imperialistas não se limitam ao controle dos jazimentos de hidrocarbonetos, mas buscam, sobretudo, o domínio da própria renda petrolífera.
A queda dos preços do petróleo, o bloqueio às transações financeiras internacionais—que nos obrigou ao default, ou seja, à suspensão do pagamento da dívida externa—, a drástica redução da entrada de divisas que gerou escassez, a campanha para provocar a migração e, em 2019, as sanções diretas à PDVSA para sabotar a produção petrolífera indicam a magnitude dos problemas que enfrentávamos quando a pandemia chegou ao nosso país. A recuperação econômica, que encerrou 2025 com um crescimento próximo a 9%, deve-se à adoção de uma política econômica correta, ao esforço de nossos trabalhadores do campo e da indústria e à participação ativa do empresariado nacional, que apostou na Venezuela.
A Primeira Transformação (1/T) visa aprofundar um novo modelo econômico produtivo da pequena, média e grande indústria, além de consolidar a soberania agrícola. A 2/T concentra-se nos serviços públicos, na infraestrutura e na construção de cidades humanas. A 3/T tem como eixos a segurança cidadã—com os quadrantes de paz—e a defesa da nação. A 4/T propõe um programa integral de proteção social, vinculado ao sistema de missões sociais e à garantia da gratuidade na educação e na saúde. A 5/T busca a transformação política, especialmente a participação protagônica dos cidadãos e cidadãs nos planos de governo nacionais, estaduais e municipais, por meio de novos métodos de gestão. A 6/T incorpora o debate impulsionado pelo presidente Nicolás Maduro sobre o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, articulado ao pensamento humanista bolivariano. Trata-se de um dos grandes desafios do país, que avança com atenção à crise climática, ao uso da inteligência artificial e à aplicação do conhecimento científico na produção, na educação e na saúde. Por fim, a 7/T refere-se à política de paz, à integração latino-americana e caribenha e à construção de um mundo multipolar e multicêntrico.
Ms: A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela apresenta características sem precedentes na história recente, desafiando as normas do direito internacional e evidenciando limites do sistema multilateral contemporâneo. Diante desse cenário, que tipo de alianças—tanto novas quanto já existentes, como a CELAC e a ALBA—são necessárias para defender a soberania da Venezuela e, de maneira geral, dos países latino-americanos? Além disso, tendo em vista as limitações do sistema das Nações Unidas diante de ações unilaterais de grandes potências, qual deve ser o papel da cooperação regional e das alianças com outros países do mundo na defesa da soberania e na construção de uma ordem internacional mais equilibrada?
RD: O panorama político latino-americano e caribenho mudou e, hoje, a correlação de forças é desfavorável ao processo de integração. Mas esse é um fenômeno que nós, bolivarianos, entendemos como temporário. A unidade latino-americana e caribenha tem bases econômicas e políticas sólidas. É uma alternativa válida para nossos povos. Nesse sentido, esperamos que a CELAC e a ALBA desempenhem um papel relevante e estamos convencidos de que a bandeira da Unasul voltará a tremular livremente.
A integração não é uma quimera, mas se sustenta em diversos fatores. Em primeiro lugar, a economia mundial continua sendo interdependente e globalizada. Os grandes problemas da humanidade—como as mudanças climáticas, as crises econômicas, as migrações e o aumento das desigualdades sociais em escala universal—não foram resolvidos durante a era unipolar; pelo contrário, agravaram-se. As questões relativas à segurança internacional só podem ser abordadas de forma eficaz se todos os atores assumirem compromissos. Por essas razões, a construção de um novo consenso mundial é tarefa para todas as forças democráticas. O dilema atual não é entre uma velha e uma nova ordem, mas entre a ordem e a barbárie.
O mundo contemporâneo muda a uma velocidade sem precedentes. A multipolaridade é um processo complexo e multifacetado, e compreender as tendências gerais da situação global exige um esforço sistemático, contínuo e coletivo. A análise dos fenômenos sociais, econômicos, culturais e políticos deve fundamentar-se nos princípios filosóficos da dialética e do materialismo histórico, sem prescindir da nobre arte da diplomacia, que implica dialogar e construir acordos firmes e duradouros. É contrário ao interesse da humanidade que as guerras determinem as relações entre os Estados. No contexto atual, impõe-se a necessidade de renovar a Carta das Nações Unidas, compromisso firmado após as duas guerras mundiais do século XX com o objetivo de erradicar os conflitos bélicos e as causas que conduziram a tais catástrofes.
Ms: Como está a situação interna na Venezuela? É possível falar de uma coalizão anti-intervencionista, com algum nível de cooperação entre o PSUV e setores da oposição democrática? A aprovação da Lei de Anistia parece ter sido um passo importante rumo à estabilização, mas o que vem a seguir? Quais são os próximos passos concretos para recuperar a estabilidade política e social no país?
RD: Na Venezuela, há consenso em torno de uma questão fundamental: vivemos um novo momento político e é hora de superar a polarização. Os setores fascistas da oposição estão enfraquecidos e desacreditados; esses setores apenas promovem a violência, enquanto esta República é democrática. Atualmente, configura-se um acordo de longo alcance entre o chavismo e a oposição democrática. A implementação da Lei de Anistia foi um passo decisivo para alcançar a convivência democrática a que todos aspiramos. Além disso, a Comissão Presidencial para a Paz e a Convivência está em pleno andamento em todo o território nacional. A isso se soma a bem-sucedida Consulta Popular Nacional de 8 de março, que expressa o aprofundamento de nossa democracia participativa e protagônica e a formação de um clima político favorável ao consenso.
Qualquer pessoa que queira compreender o processo político venezuelano precisa estudar sua democracia radical e comunitária. As manifestações populares em massa—como as que acontecem, constantemente, desde 4 de janeiro—são o alicerce da atual estabilidade política e social. O povo mobilizado nas ruas é a força social que impulsiona a convivência democrática.
Ms: Podemos falar mais sobre o modelo de democracia participativa do país? Em que o modelo de democracia da Venezuela difere de outros modelos de representação indireta e como ele se relaciona com os poderes do Estado? Qual é o papel das consultas populares nesse esquema, especialmente no que diz respeito à tomada de decisões em nível comunitário e à gestão de políticas públicas?
RD: O colapso do sistema político que governou a Venezuela durante quarenta anos, conhecido como Pacto de Punto Fijo, teve muitas razões, mas a mais importante, a meu ver, foi a marginalização das grandes maiorias populares. Os dois partidos hegemônicos, Ação Democrática e o social-cristão Copei, acabaram funcionando como um só: a elite política uniu-se à elite econômica, um poder real, ligado aos grandes meios de comunicação, enquanto o povo comum ficou excluído.
Quando as grandes maiorias emergiram na rebelião popular de fevereiro de 1989 e nos anos seguintes, o Pacto de Punto Fijo foi desmascarado: esse modelo político nunca foi plenamente democrático. Havia eleições e certas liberdades políticas, mas o povo trabalhador era marginalizado. Com a chegada da crise econômica, toda a estrutura política do Estado se fragmentou. Além disso, ocorreu um fato que não é estranho à nossa história: o “núcleo duro” do sistema, nos termos de Poulantzas, se rompeu. Esse “núcleo duro” era as Forças Armadas. A rebelião dos jovens militares em 4 de fevereiro de 1992 foi uma consequência direta da explosão popular de 1989. O massacre de mais de três mil cidadãos dos bairros populares chocou toda a sociedade e, naturalmente, também os militares patriotas, movimento do qual emergiu um líder histórico: o comandante Hugo Chávez.
Ou seja, a Revolução Bolivariana é um fenômeno profundamente democrático: surge em oposição às elites, e a Constituição de 1999 estabelece as bases de um novo sistema político. A questão das comunas e das consultas populares é uma característica própria do processo venezuelano. Nesse contexto, o comandante Chávez retomou as ideias de Simón Rodríguez, filósofo socialista e mestre de Simón Bolívar.
As teses de Simón Rodríguez incluem a educação teórica e prática, na qual, além do espanhol, devem ser ensinadas as línguas indígenas; a igualdade de direitos entre mulheres e homens; e tudo isso no âmbito de uma comunidade que trabalha e se educa em união. Da mesma forma, ele propõe que não se busque em outras latitudes o modelo das novas repúblicas surgidas com a independência, mas que sejamos originais. Insistiu inúmeras vezes que, para construir repúblicas, era preciso formar cidadãos. Sua frase mais conhecida resume essa ideia: “ou inventamos ou erramos”.
Os conselhos comunais e as comunas constituem um processo complexo e em constante transformação, com avanços e retrocessos, como todo fenômeno social. Essa proposta foi se consolidando gradualmente, apesar da forte oposição da direita, que rejeita a ideia expressa pelo grande poeta nacional Aquiles Nazoa: “creio nos poderes criadores do povo”. A direita sustenta uma concepção elitista da política e não aceita que as forças populares exerçam o poder.
Mais adiante, e em meio a graves dificuldades, o presidente Nicolás Maduro contribuiu para a construção de uma nova relação entre Estado e sociedade ao propor e realizar consultas em escala nacional, de forma simultânea, com a participação de todos os cidadãos e cidadãs a partir dos quinze anos. Essas consultas integram o sufrágio universal ao processo comunitário e ampliam para o âmbito nacional um mecanismo que antes se restringia ao nível local. Trata-se de um salto qualitativo ainda em desenvolvimento.
Desde 2024, vêm sendo realizadas consultas populares nacionais voltadas à definição de projetos comunitários e ao fortalecimento da participação direta da população . A última ocorreu em 8 de março deste ano e foi a que registrou maior participação—o que não aconteceu por acaso.
Nesse processo, as comunidades, organizadas em circuitos comunais, propõem projetos, definem prioridades, deliberam por meio de eleições, acompanham sua execução e participam diretamente de sua implementação. Trata-se, sem dúvida, de um movimento em que a sociedade retoma funções anteriormente delegadas ao Estado. Os recursos para esses projetos são fornecidos por um órgão constitucional, o Conselho Federal de Governo, com o apoio dos governos estaduais e das prefeituras.
A democracia venezuelana baseia-se em um princípio fundamental: a soberania reside no povo, que a exerce de forma direta ou indireta por meio do sufrágio universal. À existência dos conselhos comunais e das consultas soma-se o fato de que, em cada circuito comunal, há uma sala de autogoverno, um mapa de necessidades e um plano de ação para cada comuna. Trata-se de uma concepção integral que agora incorpora também a eleição de juízes de paz em todo o território nacional e a reestruturação dos parlamentos comunais.
Essa é uma realidade, mas o poder popular também se expressa de forma determinante nas eleições. Em 26 anos, foram realizados 32 processos eleitorais—regionais, municipais e nacionais—e há uma institucionalidade democrática consolidada, tanto nos cinco poderes públicos (Executivo, Legislativo, Judiciário, Eleitoral e Cidadão) quanto nas 335 prefeituras e conselhos municipais e nas 24 governações e conselhos legislativos.
A facção fascista da oposição, apoiada por setores da mídia internacional, não reconhece os resultados eleitorais—exceto quando lhe são favoráveis, como na maioria obtida na Assembleia Nacional em 2015 ou em vitórias locais. Sua posição consiste em não reconhecer a Constituição de 1999 nem as instituições do Estado, defendendo como proposta central a instauração de uma ditadura por meio da força, com o objetivo de derrubar o Governo Bolivariano e desmontar a democracia. Em contraste, a oposição democrática participa das eleições, busca acordos e se distancia dessas posições. Nós, chavistas, afirmamos: “tudo dentro da Constituição, nada fora da Constituição”.
Ms: Gostaria de abordar a reforma da Lei de Hidrocarbonetos aprovada logo após a posse de Delcy Rodríguez como presidenta interina. Essa reforma flexibiliza a participação privada—incluindo a do capital estrangeiro—na exploração petrolífera na Venezuela, abrindo o setor a novos investimentos e alterando o papel tradicional da PDVSA. Paralelamente à aprovação da nova lei, os Estados Unidos suspenderam alguns aspectos das sanções econômicas, permitindo certas transações no setor energético. No entanto, mantêm-se restrições importantes sobre a PDVSA e o sistema financeiro venezuelano, bem como mecanismos de controle sobre pagamentos internacionais.
Nesse contexto, quais mudanças podem ser esperadas na economia venezuelana? Que margem de manobra o país possui para reativar a produção petrolífera e avançar na recuperação econômica? E, em uma perspectiva mais ampla, de que forma a Venezuela pretende transitar de um modelo rentista baseado no petróleo para uma economia mais diversificada?
RD: A produção de petróleo venezuelana supera atualmente um milhão de barris por dia, tendo recuperado a queda observada no início de janeiro. O levantamento parcial de algumas medidas coercitivas contra a indústria petrolífera confirma a denúncia que temos sustentado: as sanções são a principal causa dos problemas econômicos da Venezuela. Os recentes acordos com Shell, Chevron, ENI e Repsol, bem como os entendimentos com a Colômbia em matéria de gás, demonstram que a Venezuela é—e continuará sendo—um fator importante no mercado energético internacional.
A reforma da Lei de Hidrocarbonetos ratifica elementos-chave da Lei Orgânica de 2002 e adapta a legislação à nova realidade do mercado e à correlação de forças em escala global. É sabido que a política petrolífera da Revolução Bolivariana tem sido a busca pela estabilidade do mercado. Também é sabido que os preços do petróleo são uma questão essencialmente política e, como tal, devem ser tratados.
Uma análise fundamentada na economia política é um requisito indispensável para abordar o tema do “capitalismo rentista” na Venezuela, particularmente a partir das contribuições teóricas de Karl Marx. No entanto, é possível afirmar que a conjunção de diversos fatores internos e externos abriu uma nova etapa da economia venezuelana. Esse processo foi identificado pelo presidente Nicolás Maduro, que avançou na formulação de uma nova política econômica em agosto de 2018—poucos dias após o atentado contra sua vida e contra a cúpula política e militar do país.
Essa inflexão estratégica ajuda a explicar como foi possível retomar o crescimento econômico mesmo em meio ao bloqueio. Foram criadas bases para a recuperação do aparato produtivo, agora com maior protagonismo da classe trabalhadora e participação do empresariado nacional, especialmente na produção de alimentos. A título de exemplo: já produzimos 29 dos 37 produtos de nossa cesta básica de alimentos, reduzimos a vulnerabilidade nutricional de 37,5% para apenas 3% no final de 2023 e, neste ano, chegaremos a 2%. Atualmente, a Venezuela produz mais de 90% dos alimentos que consome, invertendo a dependência observada antes da reorientação da política econômica iniciada em 2018.
Nesse contexto, a participação do capital privado nacional revela-se fundamental, assim como o papel da classe trabalhadora, cuja qualificação e consciência política têm permitido avanços nos chamados “motores produtivos”, mesmo sob restrições externas. Ainda assim, parte dos analistas recorre mais à especulação do que à análise científica, o que dificulta a compreensão de como uma economia pode ser conduzida em condições adversas e como se implementa uma política progressiva de distribuição de renda nesse contexto. O problema da economia venezuelana neste momento não é o grau de diversificação, mas a persistência de medidas coercitivas que continuam a limitar seu funcionamento.
Ms: Qual foi o papel da nova política econômica implementada em 2018 na estabilização do país durante a pandemia? Apesar do choque econômico global e do endurecimento do bloqueio por parte dos Estados Unidos em 2019, a Venezuela conseguiu reverter uma queda prolongada do PIB—que atingiu -30% em 2020—para voltar a um terreno positivo em 2021, com um crescimento próximo a 1%. Nesse contexto, em que medida a política contribuiu para esse ponto de inflexão e para o início do processo de recuperação econômica?
RD: O crescimento econômico está intimamente ligado ao fracasso do plano da ala fascista da direita, que instalou um “governo interino” em 2019 e promoveu tentativas de invasão e de golpe de Estado. A extrema direita foi desmascarada como antinacional e corrupta. Ainda assim, os danos econômicos provocados foram significativos, uma vez que esse grupo impulsionou a adoção de sanções econômicas e se apropriou de ativos venezuelanos no exterior.
É importante destacar, contudo, que em setembro de 2019 foi alcançado um acordo entre o governo e setores da oposição democrática, com a criação de uma mesa de diálogo e de compromissos institucionais . Esse processo abriu caminho para a recomposição política interna. Como resultado, foram convocadas eleições para a Assembleia Nacional em 2020, nas quais as forças governistas e aliadas recuperaram o controle do parlamento, enquanto a direita fascista perdeu sua principal posição institucional.
Além disso, a produção de petróleo se recuperou parcialmente com a participação de uma empresa norte-americana durante o governo de Joe Biden, o que permitiu a entrada de recursos importantes para a recuperação das missões sociais. No entanto, o fator mais relevante tem duas dimensões: por um lado, a classe trabalhadora das indústrias básicas se reorganiza e contribui para a retomada da produção de serviços e da extração de gás e petróleo; por outro, ganha protagonismo o empresariado nacional, junto com o capital interno e algumas empresas estrangeiras que operam no país em diferentes setores. A cooperação com países aliados também assume grande relevância nesse processo.
Está claro e já dissemos isso muitas vezes: “levantem as sanções econômicas e nós recuperaremos a economia em curto prazo”. Em 2025, a Venezuela encerrou o ano com um crescimento de quase 9%, e as previsões da CEPAL para 2026 são de que continuaremos liderando o crescimento econômico da América Latina.
Ms: Apesar da suspensão parcial de algumas sanções, os Estados Unidos mantiveram restrições explícitas que limitam as transações da Venezuela com aliados importantes do país, como a Rússia e a China. Nesse contexto, como ficam os acordos bilaterais com essas duas potências? Até que ponto eles podem ser mantidos ou adaptados?
RD: Trata-se de um momento de incertezas, no qual a execução dos acordos em curso assume diferentes formatos e dinâmicas. Ainda assim, o país busca fortalecer seus vínculos com todos os governos com os quais mantém relações diplomáticas, comerciais e políticas, sem entrar em jogos de soma zero. O Governo Bolivariano ratificou sua aliança estratégica com a Federação Russa e sua relação “em todas as circunstâncias e à prova de tudo” com a República Popular da China.
Ms: O fato de Donald Trump e o governo dos Estados Unidos terem negociado diretamente com Delcy Rodríguez—e, posteriormente, terem reconhecido formalmente sua condição de autoridade de Estado—indica sua legitimidade na condução do país na ausência de Nicolás Maduro. Esse processo ocorreu, contudo, em um contexto complexo e, inicialmente, à margem dos canais diplomáticos tradicionais.
Por um lado, essa situação dificultou, por exemplo, a abertura de um processo de renegociação da dívida externa venezuelana. Por outro, o reconhecimento formal de Delcy Rodríguez implica, em termos políticos e jurídicos, admitir que Nicolás Maduro é o presidente legítimo do país e, portanto, tem imunidade como chefe de Estado, ou seja, está nos Estados Unidos na condição de prisioneiro de guerra. Qual é a sua interpretação política dessa situação?
RD: Em primeiro lugar, é preciso afirmar que o presidente Nicolás Maduro é o chefe de Estado da República Bolivariana da Venezuela e, como tal, goza das imunidades inerentes a essa função. O tribunal que o julga não tem competência para fazê-lo e deve libertá-lo imediatamente. O presidente Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram retirados à força de sua residência por meio de uma operação militar do Exército dos Estados Unidos, realizada em um país com o qual não há estado de guerra. Maduro é um prisioneiro de guerra e é um homem decente, defensor de seu povo e do legado do comandante Hugo Chávez.
Em segundo lugar, em 6 de março de 2026, o governo dos Estados Unidos comunicou oficialmente o reconhecimento do Governo da República Bolivariana da Venezuela e as relações diplomáticas encontram-se em processo de restabelecimento pleno. Cabe recordar que a ruptura dessas relações, em 2019, foi uma decisão unilateral de Washington. Atualmente, tanto a embaixada dos Estados Unidos em Caracas quanto a da Venezuela em Washington estão abertas.
Ms: Após o reconhecimento da presidenta interina Delcy Rodríguez e o restabelecimento das relações diplomáticas, quais são os próximos passos para o país? A Venezuela está em condições de recuperar o acesso aos seus ativos depositados nos Estados Unidos, considerando as disputas legais e os mecanismos de controle ainda em vigor?
Da mesma forma, em um contexto de flexibilização parcial das sanções—que passou a permitir determinadas operações com a PDVSA, mas mantém restrições estruturais sobre o sistema financeiro—, como evoluem as negociações para uma eventual suspensão mais ampla das medidas que afetam a PDVSA e o Banco Central da Venezuela? Quais são os principais obstáculos que ainda persistem nesse processo e que cenários se colocam no curto prazo?
RD: É imprescindível ressaltar que as conversas com o governo do presidente Trump continuam em andamento. A exigência imediata da presidenta interina é o levantamento total e definitivo das sanções econômicas. Enquanto essas medidas permanecerem, o investimento privado estrangeiro tende a desacelerar, e a realização de transações internacionais continua enfrentando obstáculos significativos. Os ativos da Venezuela no exterior—entre eles, a empresa Citgo—devem retornar ao país: são patrimônio da República.
Ms: Por que a Revolução Bolivariana é percebida pelos Estados Unidos como uma ameaça de tal magnitude? O que isso revela sobre o peso político da Venezuela e que tipo de mensagem projeta para os demais países da região?
RD: Em nenhum momento da história—nem agora, nem, certamente, no futuro—a Venezuela constituiu uma ameaça à segurança dos Estados Unidos ou de qualquer outro país. Sobre nossa nação foi construída uma narrativa falsa, absurda e grotesca, com o objetivo de sabotar os avanços políticos da Revolução Bolivariana, especialmente porque o processo democrático venezuelano representa um desafio para outros sistemas políticos desgastados e plutocráticos. Além disso, a iniciativa de impulsionar a integração e a unidade da América Latina e do Caribe é, no nosso caso, uma realidade tangível e comprovável. Não falamos apenas de integração, nós a colocamos em prática.
É óbvio que os 303 bilhões de barris de petróleo que se encontram em nosso subsolo constituem a verdadeira razão dos ataques. Todos sabem que nossos imensos recursos naturais têm um potencial econômico invejável. Nossa mensagem às outras nações é unir esforços para restabelecer o Direito Internacional e a Carta das Nações Unidas. O caminho adotado para superar fatos tão graves como o de 3 de janeiro exige grande fortaleza moral. O chavismo é a principal força política da Venezuela e o esteio de sua democracia; no entanto, o desafio atual requer a união de todas as forças democráticas do continente.
Ms: Em que medida a doutrina de Bolívar se opôs historicamente à Doutrina Monroe? E, nesse contexto, o que representa a chamada doutrina “Donroe” em termos de atualização ou reformulação da estratégia bolivariana?
RD: A estratégia da Revolução Bolivariana baseia-se na unidade da América Latina e do Caribe. Trata-se de um mandato constitucional e da expressão mais autêntica do pensamento do libertador Simón Bolívar. Nossa região dispõe de recursos naturais estratégicos para o mundo e acumula ampla experiência política em espaços de integração como Caricom, Mercosul, SICA, Unasul, Comunidade Andina, ALBA e CELAC. E, acima de tudo, possui um bem fundamental: a paz, sem a qual nenhum projeto benéfico para a humanidade é possível.
Em contrapartida, a estratégia da Doutrina Monroe é a dominação hegemônica. É evidente que a doutrina bolivariana e a Doutrina Monroe se opõem; enquanto o Bolivarianismo promove a soberania e a integração regional, a doutrina Monroe tem como objetivo afirmar a influência e o controle dos Estados Unidos no hemisfério. No contexto atual, o desafio consiste em dispor da capacidade política necessária para administrar essa contradição de forma eficaz. Para isso, o povo venezuelano possui um projeto histórico e um mandato legado pelo comandante Hugo Chávez: Unidade, Luta, Batalha e Vitória!
Further Reading
Irã em revolta
Neoliberalização, sanções e repressão
A recente turbulência no Irã marca a quarta grande onda de protestos desde 2017. Nas três semanas após as primeiras manifestações, a turbulência pareceu apenas...
Da dominação ao extermínio
Estratégia militar e desenvolvimento econômico em Israel desde 1948
Embora dependa fortemente de armas importadas, principalmente dos EUA, a fabricação de armas israelense passou por mudanças significativas após o dia 7 de outubro. A...
O que foi a Bidenomics?
Do Build Back Better à síntese de segurança nacional
Do Build Back Better à síntese de segurança nacional