31 de outubro de 2026

Análises

Mapa congelado

Perspectivas de uma revolução política após as midterms de 2026

As eleições de meio de mandato raramente trazem à tona o melhor dos presidentes dos Estados Unidos. Quase sempre diante de um cenário eleitoral desfavorável, os presidentes recorrem a manobras e artifícios que apenas reforçam a crescente desconfiança dos eleitores em relação a seus governos. Em 1938, a tentativa fracassada de Franklin Roosevelt de expurgar do Partido Democrata os adversários do New Deal não fez mais do que lembrar aos eleitores que não haveria um terceiro New Deal. Em 1974, a campanha de Gerald Ford convenceu até os economistas republicanos de que o presidente tinha pouco a oferecer em matéria de política econômica. Este ano, diante de índices de aprovação em queda livre, o presidente Donald Trump aproveitou o ciclo eleitoral para associar os candidatos de seu partido à própria imagem e cobrar deles US$ 25 mil pela participação em um comício de arrecadação de fundos para as eleições de meio de mandato.

Mas as demonstrações de desatino presidencial nem sempre se traduzem em derrotas eleitorais acachapantes. Nesse sentido, um paralelo histórico pertinente para as eleições de 3 de novembro de 2026 talvez sejam as pouco memoráveis eleições de meio de mandato de um século atrás. Em 1926, o presidente republicano Calvin Coolidge, tão avesso à ação que era conhecido por passar horas cochilando todas as tardes, governava um país em plena expansão econômica, com um Congresso que praticamente o deixava agir como bem entendesse. Naquele ano, os republicanos perderam algumas cadeiras, mas preservaram uma maioria confortável nas duas casas do Congresso. O mapa eleitoral permanecia praticamente inalterado desde o grande realinhamento de 1896: os republicanos dominavam o Nordeste e o Meio-Oeste, enquanto os democratas monopolizavam o Sul. Nenhum dos partidos conseguia penetrar nos redutos eleitorais do adversário.

Sob a aparente estabilidade, no entanto, ambos os partidos atravessavam profundas crises internas. A associação do Partido Republicano com a alta finança, embora eleitoralmente vantajosa, começava a corroer suas estruturas. Andrew Mellon, um dos homens mais ricos do país, comandava o Tesouro e a política tributária em benefício direto de sua classe. Ao mesmo tempo, os escândalos do governo Harding, que só vieram à tona após sua morte, em 1923, revelavam um partido em que cargos ministeriais estavam à venda. A situação dos democratas não era melhor. Na convenção de 1924, foram necessárias 103 rodadas de votação para escolher o advogado de Wall Street John W. Davis como candidato à Presidência, depois que os delegados se dividiram em disputas acirradas em torno da Ku Klux Klan e da Lei Seca. Davis acabaria recebendo menos de 30% dos votos.

O mapa eleitoral parecia congelado—até deixar de estar. Na década que se seguiu às desimportantes eleições de meio de mandato de 1926, o Partido Democrata passaria por uma das transformações mais profundas da história política estadunidense, impulsionada pela mobilização de novos eleitores urbanos, imigrantes e trabalhadores. O Partido Republicano, por sua vez, seria afastado do poder nacional por uma geração.

Quem decide

O domínio de Donald Trump sobre o Partido Republicano não tem precedentes na história estadunidense. Embora presidentes como Abraham Lincoln e Franklin Roosevelt tenham exercido enorme influência sobre seus partidos, nenhum deles conseguiu consolidar o grau de controle personalista que Trump exerce sobre o Partido Republicano há quase uma década.

Em certo sentido, o domínio de Trump veio ocupar o lugar das estruturas partidárias tradicionais, enfraquecidas ao longo das décadas anteriores.1Para uma análise mais aprofundada dessa trajetória, ver meu livro Rogue Elephant: How the Republicans Went from the Party of Business to the Party of Chaos (Verso, 2025). Antes de sua ascensão meteórica, os financiadores tradicionais do Partido Republicano no meio empresarial já apresentavam divisões políticas crescentes. Ao mesmo tempo, um modelo de financiamento eleitoral cada vez mais centrado nos candidatos e nos comitês de ação política (PACs, na sigla em inglês) transferia essas divisões diretamente para o interior da organização partidária. O resultado foi uma espécie de guerra civil republicana entre 2008 e 2016, marcada pelo confronto entre a ala ligada ao Tea Party e o establishment tradicional. Trump ascendeu em meio ao impasse entre essas duas forças e rapidamente se tornou o principal elemento de coesão de um partido profundamente dividido, cujas facções tinham cada vez menos pontos em comum.

Embora os caprichos de uma estrela de reality show tenham se tornado o cimento que mantinha o partido unido, durante seu primeiro mandato os impulsos de Trump frequentemente esbarravam na inércia institucional, na incompetência de sua própria administração e na resistência de diferentes integrantes do aparelho republicano. No segundo mandato, porém, a inércia institucional e a resistência interna foram superadas em grande medida. Enquanto o primeiro governo contava com figuras de alto escalão como John Kelly e Jim Mattis, que encaravam sua participação na administração como uma forma de conter os danos provocados pela própria direita, os principais integrantes do segundo governo, como Stephen Miller e Marco Rubio, mostram-se dispostos a executar até mesmo as diretrizes mais delirantes de Trump. 

A maioria republicana no Congresso também passou a demonstrar obediência irrestrita ao presidente, sem oferecer resistência à concentração de poderes nas mãos do Executivo. Tudo isso permitiu ao governo agir com uma velocidade assustadora na reestruturação da burocracia federal. Ao mesmo tempo, os integrantes do segundo governo Trump desistiram de tentar dissuadir o presidente de tomar decisões precipitadas. Como resumiu um de seus assessores à imprensa: “Para quê se dar ao trabalho? Quem manda é ele.” Embora essa deferência demonstre a força de Trump dentro do partido, não há dúvida de que seus resultados vêm prejudicando as perspectivas republicanas nas eleições de meio de mandato.

Toda a campanha republicana para essas eleições foi organizada em torno dos caprichos monárquicos de Trump. Em vez de definir uma estratégia para a participação de seu gabinete na campanha, o presidente criou uma competição ao estilo de O Aprendiz, na qual autoridades como o procurador-geral e o secretário de Defesa ganham prestígio conforme o tempo que passam discursando em distritos eleitorais disputados. A convenção de meio de mandato, anunciada como um grande espetáculo para impulsionar os republicanos em novembro, serviu tanto para arrecadar fundos para o presidente quanto para financiar as campanhas ao Congresso. A Casa Branca cobrou dos candidatos para participar e, em troca, ofereceu-lhes a oportunidade de aparecer na televisão ao lado de um presidente historicamente impopular, que fez questão de discursar nas duas noites do evento. Não surpreende que muitos candidatos republicanos em disputas acirradas tenham preferido ficar de fora. Mesmo quando Trump recorreu ao seu super PAC, o MAGA Inc., para financiar anúncios em disputas apertadas, as peças publicitárias destacaram sobretudo a figura do próprio presidente.

No campo das políticas públicas, a falta de moderação de Trump tem efeitos igualmente prejudiciais. Há quase um ano, o presidente vem desqualificando as preocupações com o custo de vida, tratando-as como uma “farsa” e afirmando que a própria expressão foi “inventada pelos democratas”. Enquanto a apreensão com a inteligência artificial e a construção de centros de dados cresce entre os eleitores, Trump mantém uma posição laissez-faire em relação a ambos. O exemplo mais evidente, porém, é a desastrosa guerra contra o Irã, que se tornou um problema político tão grave para o governo que seus porta-vozes passaram a repreender os eleitores, acusando de falta de patriotismo quem reclama da alta dos preços da gasolina. A cada passo, Trump insiste em moldar a identidade do Partido Republicano segundo seus próprios impulsos, independentemente dos custos políticos para a legenda.

Nesse cenário, alguns republicanos começaram a ensaiar um distanciamento do governo. Mas a margem de manobra dos republicanos para se afastar de Trump é bastante limitada. Na primavera, o presidente demonstrou que continua exercendo forte influência sobre o eleitorado republicano nas primárias, ao apoiar candidaturas que derrotaram diversos parlamentares em exercício. Em Indiana, os adversários de seis legisladores estaduais que haviam votado contra uma nova divisão dos distritos eleitorais receberam o apoio de Trump e venceram todas as disputas. No Kentucky, o deputado Thomas Massie, principal crítico do governo dentro do Partido Republicano, foi derrotado nas primárias por um candidato apoiado pelo presidente. Na Louisiana e no Texas, senadores que buscavam a reeleição também perderam para adversários endossados por Trump. Na Louisiana, Bill Cassidy foi derrotado pela deputada Julia Letlow, financiada pela OpenAI. No Texas, John Cornyn, aliado fiel de Trump, mas pouco entusiasmado em suas demonstrações de submissão, perdeu para Ken Paxton, procurador-geral do estado envolvido em diversos escândalos. Na Carolina do Sul, por sua vez, Trump escolheu Darline, irmã de Lindsey Graham, para suceder o senador falecido, e seu super PAC gastou quase US$ 1 milhão na última semana da campanha para garantir sua vitória sobre o ultraconservador Ralph Norman. Diante de tamanha demonstração de poder, a maioria dos parlamentares republicanos passou a competir para ver quem demonstrava maior lealdade ao presidente.

Além de contar com um exército de eleitores nas primárias, Trump também controla os recursos financeiros nesta eleição. O MAGA Inc. arrecadou impressionantes US$ 400 milhões de um seleto grupo de bilionários de reputação duvidosa. Entre os principais doadores, destaca-se a direita do Vale do Silício: David Brockman, fundador da OpenAI, os irmãos Winklevoss e Marc Andreessen contribuíram, cada um, com mais de US$ 10 milhões. Também figuram na lista financistas como Stephen Schwarzman e Timothy Mellon, magnatas dos cassinos como Steve Wynn e Bijan Tehrani e empresários do setor petrolífero texano, como Kelcy Warren e Tim Dunn. Este último financia a Texas Public Policy Foundation, organização que se tornou uma importante fonte de quadros e propostas para o segundo governo Trump. Graças às contribuições desse grupo relativamente restrito de financiadores, o MAGA Inc. acumulou recursos muito superiores aos de todos os demais super PACs envolvidos na disputa.

Diante de um cenário eleitoral desfavorável, muitos republicanos esperam receber alguns milhões desse caixa bilionário para conseguir chegar à vitória. Embora o comitê tenha se mostrado relutante em gastar, documentos recentes apresentados à Comissão Eleitoral Federal (FEC) sugerem que essa contenção talvez não se explique apenas pela avareza de Trump. Dois novos super PACs, o No Going Back PAC e o Safety and Affordability PAC, que compartilham o mesmo tesoureiro e endereço do MAGA Inc., foram criados em 1º de setembro e já contrataram mais de US$ 125 milhões em publicidade eleitoral. Assim, embora muitos integrantes do partido já considerem a marca MAGA politicamente tóxica, os republicanos continuam dependentes dos recursos controlados por Trump, o que dificulta um distanciamento generalizado do presidente. Os candidatos republicanos podem até reconhecer que Trump está na origem de boa parte de seus problemas, mas também sabem que dependem dele para tentar superá-los.

Cem anos depois, apesar da profunda impopularidade de Donald Trump, das turbulências da política nacional e das especulações sobre uma onda democrata, o mapa eleitoral estadunidense parece igualmente estático. A maioria dos analistas considera que uma mudança de vinte cadeiras na Câmara dos Representantes seria o máximo que se poderia esperar desta eleição. No Senado, até mesmo uma alteração de cinco cadeiras parece improvável. A polarização entre áreas rurais e urbanas e a manipulação dos limites dos distritos eleitorais reduziram drasticamente o número de cadeiras efetivamente em disputa. Tudo indica que esta eleição ficará muito aquém das grandes reviravoltas de 1994, 2006 e 2018, quando dezenas de cadeiras trocaram de mãos e alteraram o equilíbrio de forças na Câmara.

Como na década de 1920, porém, a aparente estabilidade do mapa eleitoral encobre profundas transformações no interior dos partidos. Em suas estruturas institucionais, nas relações com o eleitorado e nas fontes de financiamento, democratas e republicanos são hoje partidos muito diferentes daqueles de apenas uma década atrás. E nada indica que essas transformações estejam perdendo força. Um sistema político tão pouco capaz de traduzir essa efervescência em resultados eleitorais não poderá contê-la indefinidamente.

Teoria moderna do portfólio republicana

Nas décadas anteriores à ascensão de Trump, o Partido Republicano era tradicionalmente associado às grandes empresas e a seus conselhos de administração. O financiamento das campanhas dependia, em grande medida, das redes de relações da elite empresarial. Já na década de 1980, era evidente que “as empresas utilizavam suas redes de contatos para contornar os limites legais às doações eleitorais”.2Dan Clawson et al., (<)em(>)Dollars and Votes: How Business Campaign Contributions Subvert Democracy(<)/em(>) (Temple University Press, 1998), 177. Esse modelo atingiu seu auge nas campanhas de George W. Bush. Karl Rove, assessor de longa data de Bush, desenvolveu um sistema em que os apoiadores responsáveis por arrecadar contribuições de amigos, colegas e familiares recebiam títulos de prestígio conforme os valores mobilizados: os Pioneers arrecadavam pelo menos US$ 100 mil; os Rangers, US$ 200 mil. A arrecadação eleitoral funcionava, assim, como um mecanismo de coesão da própria elite empresarial.

Essa estrutura começou a se desintegrar após as decisões judiciais de Citizens United e SpeechNow, em 2010, que abriram caminho para a criação dos chamados super PACs. Ao contrário dos comitês oficiais de campanha, sujeitos a limites de contribuição que haviam estimulado a formação das redes de arrecadadores, os super PACs podem receber doações individuais de valor ilimitado. Se o modelo anterior favorecia financiadores capazes de mobilizar dezenas de pessoas com posições políticas semelhantes, os super PACs permitiram que doadores com convicções ideológicas mais marcadas destinassem às campanhas quantias muito superiores às que até mesmo o mais bem relacionado dos Rangers conseguia arrecadar. Em 2012, por exemplo, o magnata dos cassinos Sheldon Adelson doou US$ 5 milhões ao super PAC de Mitt Romney. Os mais ricos já não precisavam mobilizar seu capital social: bastava abrir a carteira.

Ao longo da década seguinte, os super PACs ganharam importância crescente no sistema de financiamento eleitoral. Embora democratas e republicanos recorram a essas organizações, elas representam uma parcela muito maior dos recursos que financiam as campanhas republicanas, já que o partido conta com uma base relativamente pequena de pequenos doadores. Em 2024, o comitê de campanha de Trump arrecadou apenas cerca de US$ 450 milhões, menos da metade do valor obtido pela campanha Biden/Harris e, ainda mais revelador, aproximadamente US$ 300 milhões a menos do que havia arrecadado em 2020. Cerca de 70% dos recursos destinados à campanha de Trump vieram de super PACs, como o MAGA Inc., e de outras organizações externas à estrutura oficial da campanha.

A capacidade dos super PACs de canalizar somas extraordinárias de dinheiro de bilionários individuais tem sido uma tábua de salvação para o Partido Republicano. Em 2024, apenas três famílias—os Adelson, os Mellon e os Musk—contribuíram com mais de US$ 450 milhões para campanhas republicanas por meio dessas organizações. Sem esses recursos, é incerto se o partido teria conseguido conquistar simultaneamente a Presidência e a maioria nas duas casas do Congresso. Mas essa dependência crescente de um pequeno grupo de megadoadores com posições ideológicas bem definidas também estreitou sua base de financiamento. Enquanto George W. Bush contava com o apoio entusiasmado de amplos setores da elite empresarial, o Partido Republicano de Trump depende da generosidade de um número comparativamente ínfimo de financiadores. Em 2024, o cientista político Adam Bonica calculou que os 400 maiores doadores republicanos respondiam por impressionantes 60% dos recursos arrecadados pelo partido. Entre os democratas, essa proporção era pouco superior a 20%. Em um país com mais de 230 milhões de eleitores, trata-se de uma base extraordinariamente restrita para sustentar o financiamento de um partido político.

Essa dependência de um pequeno grupo de megadoadores persistiu nas eleições de meio de mandato de 2026. Considerando apenas os comitês oficiais de campanha, os republicanos estão em ampla desvantagem na arrecadação. No fim de setembro, os comitês dos candidatos democratas à Câmara dos Representantes dispunham, juntos, de cerca de US$ 200 milhões a mais que seus adversários republicanos. No Senado, a vantagem dos democratas chegava a aproximadamente US$ 275 milhões. Ainda assim, na reta final da campanha, os gastos eleitorais republicanos superam amplamente os democratas. Segundo o Politico, desde agosto os republicanos gastaram US$ 264 milhões a mais em publicidade nas disputas pelo Senado e US$ 73 milhões a mais nas disputas pela Câmara. A diferença se explica, sobretudo, pelos super PACs. Como vimos, o MAGA Inc., de Trump, dispõe de cerca de US$ 400 milhões. Já o Senate Leadership Fund, criado por Mitch McConnell e hoje controlado por John Thune, conta com quase o dobro dos recursos de seu equivalente democrata. O Congressional Leadership Fund, fundado por John Boehner e atualmente a serviço de Mike Johnson, dispõe de aproximadamente 50% mais recursos que seu correspondente democrata. Por trás dessa enorme capacidade de financiamento está um grupo de apenas algumas dezenas de pessoas.

Democratas lideram na arrecadação tradicional de recursos, enquanto republicanos dominam o financiamento por meio dos super PACs.

Essa dinâmica também se reproduziu nas disputas estaduais e locais.3As disputas por cargos estaduais não estão sujeitas à fiscalização da Comissão Eleitoral Federal (FEC) nem à legislação federal sobre financiamento de campanhas. Por isso, as estruturas institucionais de financiamento eleitoral podem variar consideravelmente de um estado para outro e não seguem necessariamente a rígida separação entre super PACs e comitês de campanha existente no âmbito federal. Em Wisconsin, por exemplo, dois terços dos recursos arrecadados pelo candidato republicano ao governo estadual, Tom Tiffany, vieram de apenas três bilionários, dois deles casados entre si, que também estão entre os principais financiadores do MAGA Inc. Essas contribuições permitiram que Tiffany gastasse três vezes mais que seu adversário democrata, David Crowley. Na Flórida, o republicano Byron Donalds dispõe de cerca de US$ 45 milhões, somando os recursos de seu comitê de campanha e de um PAC associado. Desse total, US$ 10 milhões vieram de Ken Griffin, um dos maiores financiadores do Partido Republicano e do MAGA Inc. Seu adversário democrata, David Jolly, dispõe de apenas US$ 6,3 milhões.

A capacidade de financiamento dos republicanos é, sem dúvida, impressionante. Nas eleições de meio de mandato, os recursos costumam fluir para o partido com maiores perspectivas de vitória, à medida que os doadores buscam garantir acesso e conquistar a simpatia da futura maioria. Mas a capacidade republicana de mobilizar somas extraordinárias junto a um grupo tão restrito de financiadores contrariou essa tendência e garantiu ao partido uma enorme vantagem financeira. Ainda assim, uma vitória democrata na Câmara dos Representantes parece bastante provável, enquanto a conquista da maioria no Senado permanece ao alcance do partido. Paradoxalmente, a facilidade com que os republicanos arrecadam centenas de milhões de dólares de um punhado de bilionários também lhes permitiu se tornar menos atentos às demandas do eleitorado. Com recursos suficientes para tentar compensar qualquer desvantagem nas pesquisas, o partido passou a sentir menos necessidade de moderar suas posições ou responder às mudanças na opinião pública. Nesse sentido, a força financeira do novo modelo de financiamento republicano pode também ser sua principal fragilidade.

Na trilha do elefante

Muitos integrantes do Partido Democrata certamente gostariam de ter que lidar com os problemas decorrentes de uma abundância de recursos financeiros. Por enquanto, porém, embora os candidatos democratas estejam conseguindo arrecadar fundos, as estruturas partidárias e os PACs ligados ao partido vêm perdendo terreno para seus equivalentes republicanos. O Comitê Nacional Democrata (DNC, na sigla em inglês), em particular, enfrenta sua pior crise financeira desde o fim da década de 1960, quando as tentativas de Lyndon Johnson de contornar a estrutura partidária deixaram a organização praticamente sem condições de financiar a campanha presidencial de Hubert Humphrey, em 1968.4Daniel J. Galvin, (<)em(>)Presidential Party Building: Dwight D. Eisenhower to George W. Bush(<)/em(>) (Princeton University Press, 2010), cap. 9. Hoje, o comitê acumula um déficit de vários milhões de dólares.

Trata-se de uma mudança bastante recente. Nas eleições presidenciais, ao menos, os candidatos democratas arrecadaram mais que seus adversários republicanos em todas as disputas desde 2004. E, embora o DNC frequentemente tenha arrecadado menos que o Comitê Nacional Republicano (RNC, na sigla em inglês) nas eleições de meio de mandato, não há precedentes recentes de uma crise financeira dessa dimensão às vésperas de uma eleição.

As dificuldades do comitê têm diversas origens. A controvérsia em torno da divulgação da avaliação interna do Partido Democrata sobre sua derrota nas eleições de 2024 desgastou a imagem de Ken Martin, recém-empossado presidente do DNC, e suas tentativas posteriores de conter a crise acabaram enfraquecendo ainda mais sua liderança. No centro da disputa estava o impacto do apoio do governo Biden a Israel, responsável por um genocídio, sobre a campanha de Kamala Harris. Martin e outros dirigentes procuraram rapidamente encerrar a discussão, mas a controvérsia persistiu, sobretudo depois que o próprio responsável pela conturbada avaliação admitiu acreditar que esse apoio havia influenciado significativamente o resultado eleitoral. Desde 2024, a questão não dá sinais de perder força, como demonstram tanto a defesa enfática da causa palestina por Zohran Mamdani durante sua campanha à prefeitura de Nova York quanto as vitórias, nas primárias deste ano, de diversos candidatos que colocaram a guerra em Gaza no centro de suas plataformas.

As divisões em torno do apoio a Israel também abalaram a confiança dos financiadores no DNC. Diversos grandes doadores afirmaram ter suspendido suas contribuições ao comitê por receio de que os recursos fossem destinados a candidatos críticos a Israel. Ao mesmo tempo, organizações como o Democratic Majority for Israel e o United Democracy Project, ligado à AIPAC, passaram a direcionar suas contribuições por meio de outros grupos ligados ao Partido Democrata, como o Emily’s List e o BOLD America, que apoia candidatos hispânicos. Embora esse deslocamento não necessariamente reduza o volume total de recursos destinados aos candidatos democratas, ele enfraquece financeiramente o DNC, limita sua capacidade de coordenar estratégias entre diferentes disputas eleitorais e aprofunda as divisões internas do partido.

O principal problema dos democratas, porém, é mais simples: a segunda derrota para Trump abalou profundamente a confiança do eleitorado na direção do partido. O cenário é muito semelhante ao enfrentado pelos republicanos após a vitória de Barack Obama, em 2008, quando o desgaste do governo Bush e a derrota de John McCain, defensor da Guerra do Iraque, abriram caminho para a ascensão do Tea Party.5Patrick Rafail e John D. McCarthy, (<)em(>)The Rise, Fall, and Influence of the Tea Party Insurgency(<)/em(>), Cambridge Studies in Contentious Politics (Cambridge University Press, 2024), 153.

Os democratas parecem agora seguir um caminho semelhante. A insurgência do Tea Party, que combinava mobilização de base com a atuação de figuras influentes da elite, levou a um número recorde de candidaturas contra políticos estabelecidos nas primárias de 2010 e inaugurou um período de disputas internas que só chegaria ao fim com a ascensão de Trump ao comando do Partido Republicano. Hoje, a mobilização da esquerda democrata, impulsionada em grande medida, mas não exclusivamente, pelos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês), também provocou um aumento expressivo no número de candidaturas que desafiam parlamentares em exercício nas primárias.

O Partido Democrata pode, assim, estar percorrendo a mesma trajetória dos republicanos, embora com algum atraso e por caminhos distintos. No Partido Republicano, o esvaziamento das estruturas institucionais começou com a ascensão dos super PACs, que reduziram a importância do aparelho partidário, e se aprofundou com o domínio personalista de Trump, que tornou dispensáveis os mecanismos de decisão coletiva. Entre os democratas, o processo parece avançar por outra via: enquanto Trump enfraqueceu as instituições republicanas ao submetê-las a seu controle pessoal, as estruturas centrais do Partido Democrata vêm perdendo poder à medida que seus recursos financeiros se esgotam.

Ao mesmo tempo, os eleitores que participam das primárias de ambos os partidos passaram a privilegiar candidatos menos dispostos a fazer concessões à oposição. Em 2010, o eleitorado republicano rejeitou a política tradicional de negociação entre os partidos e favoreceu candidatos que prometiam um confronto mais duro com o governo Obama. Hoje, os eleitores democratas exigem candidatos comprometidos com uma oposição sem concessões ao governo Trump.

Diferentemente do Tea Party e do Freedom Caucus, na Câmara dos Representantes, porém, a insurgência dos DSA não conta com as bases autônomas de financiamento e organização que sustentaram as disputas internas no Partido Republicano. No plano federal, 60% dos parlamentares democratas que buscavam a reeleição enfrentaram adversários competitivos nas primárias deste ano, mas essa proporção já havia sido superada pelos republicanos em 2022. Além disso, o tipo de liderança que emergiu da insurgência da esquerda democrata difere daquele produzido pela revolta do Tea Party. Esta última deu projeção a figuras notoriamente obstrucionistas, como Ted Cruz, no Senado, e os integrantes do Freedom Caucus, na Câmara. Ao desafiar a liderança partidária em episódios como a tentativa de revogação do Obamacare, esses parlamentares conquistaram grande visibilidade na imprensa e atraíram contribuições generosas para suas campanhas, mas também acabaram isolados dentro do próprio partido.

Embora a ala mais à esquerda do Partido Democrata continue muito menor que sua equivalente republicana, é significativo que a intransigência não tenha sido, em geral, a estratégia adotada por lideranças como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez. Como mostrou Abhinav Ramaswamy em um artigo recente, é justamente a ala direita do Partido Democrata, organizada no Blue Dog Caucus, que tem se mostrado mais disposta a confrontar a direção partidária. Seus integrantes podem adotar essa postura porque dispõem do apoio de uma rede de financiadores empresariais relativamente independente das fontes tradicionais de financiamento do partido. Em contraste, muitas das candidaturas insurgentes da esquerda têm buscado se integrar à estrutura mais ampla de financiamento eleitoral democrata.

Resta saber se a ala esquerda, cada vez mais numerosa no Congresso, adotará uma postura de confronto interno semelhante à da direita republicana. A fragilidade da liderança de Hakeem Jeffries na Câmara certamente oferece um alvo tentador. Mas a experiência do Freedom Caucus pode levar os insurgentes de esquerda a evitar essa estratégia. Afinal, em momentos decisivos, a intransigência do grupo acabou produzindo resultados mais progressistas, e não mais conservadores. Em 2019, por exemplo, a insistência do Freedom Caucus em revogar o Obamacare da forma mais abrangente possível inviabilizou a aprovação, no Senado, da proposta de revogação que havia passado pela Câmara. Com isso, uma parcela muito maior das medidas instituídas pelo Affordable Care Act permanece em vigor do que teria sobrevivido caso o grupo tivesse simplesmente seguido a orientação de Paul Ryan.

Seja qual for a estratégia adotada pela esquerda no Congresso, está claro que, assim como ocorreu com os republicanos depois de 2008, o eleitorado democrata hoje exige um partido mais ideológico e combativo. A questão é se a direção partidária estará disposta a responder a essa demanda.

Revolução política?

Apesar das profundas transformações dos dois principais partidos políticos estadunidenses na última década, o mapa eleitoral permanece praticamente congelado. Embora os republicanos estejam estreitamente associados a um governo profundamente impopular, tudo indica que sofrerão perdas eleitorais menores do que as enfrentadas por partidos em circunstâncias semelhantes no passado. As eleições de meio de mandato de 2026 não deverão, portanto, alterar substancialmente os rumos da política estadunidense.

No longo prazo, porém, seria um erro descartar a possibilidade de mudanças profundas e repentinas. Em 2028, pela primeira vez em doze anos, Donald Trump deixará de ser a figura central do Partido Republicano. Embora as especulações sobre uma eventual candidatura a um terceiro mandato tenham despertado o interesse de democratas e republicanos, por enquanto essa possibilidade parece mais uma fantasia do que um plano concreto. Nem Trump nem o Partido Republicano tomaram medidas para preparar o terreno para uma violação tão flagrante da 22ª Emenda à Constituição. E, à medida que a popularidade do presidente continua a cair, os possíveis benefícios de uma manobra desse tipo tornam-se cada vez menores. (Além disso, seus potenciais sucessores, JD Vance e Marco Rubio, têm fortes incentivos para impedir qualquer articulação nesse sentido.) O mais provável, portanto, é que o Partido Republicano perca o principal elemento de coesão que, até agora, manteve unidas suas facções profundamente divididas.

Ao mesmo tempo, o fortalecimento da esquerda democrata abre caminho para o acirramento das disputas internas. Figuras importantes do establishment partidário, como Rahm Emanuel e Neera Tanden, preparam-se para um confronto prolongado com os Socialistas Democráticos da América (DSA) e outros grupos insurgentes. Se a situação financeira do partido continuar a se deteriorar, essa disputa será cada vez mais vista como uma questão de sobrevivência. Na década de 2010, os dois partidos atravessaram conflitos internos de intensidade inédita em décadas. Mas os conflitos que se anunciam podem fazer daquela década um período de relativa tranquilidade.

Leia mais


Political Investments

An interview with Thomas Ferguson on the 2024 US election

As the nation prepares for a second Trump administration, the mood among many Democratic Party officials has been one of bafflement and astonishment. How could...

Capitalismo de Estado trumpista

Minerais críticos e intervencionismo econômico nos EUA

Da compra de participações acionárias em empresas privadas a ameaças de intervenção em companhias de defesa, passando por acordos de compartilhamento de receitas com fabricantes...

Class Cleavages

The irrationality of American business partisanship is a symptom of its own success

Within the American business lobby, it seems there is no classwide consensus about the direction of the country’s future. The large blocs of organized money...

;