edição 1, junho de 2026
Análises
A Nvidia no Golfo
As monarquias árabes voltam-se para o Vale do Silício
Em maio de 2025, Donald Trump embarcou em sua primeira viagem internacional do segundo mandato rumo à Arábia Saudita, ao Catar e aos Emirados Árabes Unidos, acompanhado por vários baluartes do Vale do Silício. No mesmo dia em que pousou em Riade, o presidente revogou o “Modelo para a Difusão da Inteligência Artificial” [Framework for Artificial Intelligence Diffusion] da era Biden, legislação que buscava proteger tecnologias estratégicas por meio da regulação do acesso a chips dos EUA. Se Biden havia imposto controles rigorosos de exportação como parte de sua estratégia de segurança nacional, na tentativa de conter a ascensão da China, Trump adotou uma abordagem mais transacional, voltada a inundar outros países com tecnologia para consolidar a dominância dos Estados Unidos no mercado.
Os anfitriões de Trump enxergaram aí uma oportunidade de ouro. Ao prometer investir até US$ 1 trilhão em empresas estadunidenses nos próximos anos, a Arábia Saudita recebeu autorização para importar 18 mil unidades do GB300, o servidor Blackwell mais avançado da Nvidia.1Leswing, Kif. 2025. “Nvidia sending 18,000 of its top AI chips to Saudi Arabia”. (<)em(>)CNBC(<)/em(>), 13 de maio de 2025. Já a Group 42 Holding Ltd (G42), conglomerado tecnológico por meio do qual Abu Dhabi conduz grande parte de seus projetos de inteligência artificial (IA), obteve permissão para importar anualmente 500 mil chips H100 da Nvidia.2Turak, Natasha. 2025. “U.S., UAE agree on path for Emirates to buy top American AI chips, Trump says”. (<)em(>)CNBC(<)/em(>), 16 de maio de 2025. Tratava-se de uma reviravolta marcante. Nas últimas duas décadas, os países do Golfo vinham injetando crédito e capital no ecossistema estadunidense de IA. Agora, embora esses fluxos financeiros estejam longe de ter desaparecido, esses países passaram também a incorporar em seus próprios territórios elementos centrais da infraestrutura de inovação tecnológica dos Estados Unidos. Os recentes acordos com a Nvidia—e a inflexão geoeconômica que representam—levantam uma série de questões. Por que Washington abandonou a postura mais protecionista e decidiu aprofundar laços comerciais com o Golfo? Por que, por sua vez, Arábia Saudita e Abu Dhabi apostaram tão pesadamente na IA? E o que isso significa, de maneira mais ampla, para a estratégia imperial dos Estados Unidos?
Durante anos, os investimentos externos do Golfo integraram a região aos circuitos de acumulação dominados pelos gigantes estadunidenses do setor de tecnologia da informação e comunicação. Após a crise financeira global, os fundos soberanos do Golfo desempenharam um papel crucial ao suprir a demanda insaciável por liquidez do Vale do Silício. Isso deu sustentação a uma economia política estadunidense cada vez mais dependente da valorização de ativos financeiros. Ainda assim, as participações financeiras do Golfo no Vale do Silício tiveram efeitos econômicos limitados em seus próprios países: trouxeram pouco em termos de transferência tecnológica ou de fortalecimento da capacidade produtiva doméstica. As empresas da região permaneceram distantes da fronteira tecnológica. Diante disso, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG)—aliança formada por Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã e Catar—parece agora mudar de rumo, reformulando não apenas sua abordagem em relação ao setor tecnológico, mas também sua posição numa economia mundial em crescente fragmentação.
Até o momento, porém, essa transição segue marcada por tensões e incompletudes. Justamente quando os Estados do Golfo apostavam seu futuro na ascensão aparentemente irresistível das big techs estadunidenses, a primazia da política voltou a se impor de maneira violenta: em resposta à guerra de mudança de regime conduzida por Estados Unidos e Israel, Teerã bombardeou centros de dados da Amazon Web Services nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein. Permanece incerto, portanto, se a aliança do CCG com Washington, mediada pelo Vale do Silício, acabará sendo uma fonte de dinamismo econômico ou um foco de vulnerabilidade aguda. O desfecho terá implicações profundas para o Oriente Médio e para o lugar da região no sistema interestatal.
Washington e o Vale do Silício
A conexão entre o Vale do Silício e o Golfo Pérsico remonta ao declínio estrutural da capacidade de pesquisa e desenvolvimento nos Estados Unidos. Durante os anos 1960, as agências federais encarregadas de liderar a pesquisa pública voltada à tecnologia no pós-Segunda Guerra—como a NASA, a DARPA e instituições correlatas—absorviam cerca de 17% dos gastos discricionários do governo federal. Já na primeira década dos anos 2000, essa parcela caiu para menos de 10%. Como proporção do PIB, os investimentos federais em pesquisa e desenvolvimento recuaram de um pico de quase 2% em meados dos anos 1960 para cerca de 0,5% em meados da década de 2010.3Força-Tarefa de Inovação Americana [The Task Force on American Innovation]. 2012. “American exceptionalism, American decline? Research, the knowledge economy, and the 21st century challenge”. (<)em(>)Relatório(<)/em(>), dezembro de 2012. Mandt, Rebecca, Kushal Seetharam e Chung Hon Michael Cheng. 2020. “Federal R&D funding: the bedrock of national innovation”. (<)em(>)MIT Science Policy Review(<)/em(>). Essa transformação alterou a relação do Estado com uma fração específica do capital estadunidense, à medida que os gigantes emergentes do setor de tecnologia da informação e comunicação—Microsoft, Amazon, Alphabet (Google) e Meta (Facebook)—passaram a assumir um papel cada vez mais central nos processos de planejamento e no financiamento da pesquisa. O modelo de inovação predatório e de baixo custo dessas empresas, baseado em terceirização, controle de infraestrutura e extração de renda via propriedade intelectual, ajudou a consolidar o que passou a ser conhecido como monopólios intelectuais. Impulsionadas pelo avanço da plataformização, essas corporações passaram a capturar uma parcela crescente da riqueza produzida por uma economia cada vez mais digitalizada e orientada para os serviços.4Rikap, Cecilia. 2024. “The US national security state and Big Tech: frenemy relations and innovation planning in turbulent times”. (<)em(>)Review of Keynesian Economics, (<)/em(>)12(4). Rikap, Cecilia e Bengt-Ake Lundvall. 2022. “Big tech, knowledge predation and the implications for development”. (<)em(>)Innovation And Development, (<)/em(>)12(3).
Com isso, o Vale do Silício passou, gradualmente, de principal motor do crescimento econômico dos Estados Unidos a um dos principais centros de poder do capitalismo contemporâneo. Na década de 2010, já era um leviatã capaz de explorar e absorver empresas menores, subordinando setores inteiros à sua lógica e produzindo fortunas gigantescas ao longo do caminho. Suas tecnologias passaram a adquirir importância crescente para a segurança nacional, de modo que, se antes o Pentágono investia pesadamente no Vale do Silício, agora passou a depender das big techs para tudo, da vigilância e computação em nuvem à robótica e à inteligência artificial. À medida que o Estado americano se tornava existencialmente dependente do setor tecnológico, esse mesmo setor acumulava cada vez mais poder no sistema mundial como um todo. A Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês), por sua vez, ignorou a legislação antitruste e permitiu que as principais empresas de tecnologia—Google, Facebook e Amazon—consolidassem posições monopolistas praticamente inexpugnáveis em diversos setores.5Crobett, Jessica. 2021. “‘Total scandal’: Memos expose failure of Obama-era FTC to stop Google’s monopoly power”. (<)em(>)Common Dreams(<)/em(>), 16 de março de 2021. Essa história também pode ser encontrada aqui: Pabst, Stavroula. 2024. “How the Pentagon built Silicon Valley”. (<)em(>)Analysis: Responsible Statecraft(<)/em(>), 24 de agosto de 2024.
Ao longo dos oito anos do governo Obama, os interesses setoriais do Vale do Silício foram progressivamente elevados à condição de interesses gerais. O presidente criou novos cargos executivos, como os de diretor de tecnologia (Chief Technology Officer) e cientista-chefe de dados (Chief Data Scientist) no Escritório de Política Científica e Tecnológica, além do cargo de diretor de desempenho (Chief Performance Officer) no Escritório de Gestão e Orçamento, preenchendo todos eles com nomes alinhados à indústria de tecnologia. A criação do Comando Cibernético dos Estados Unidos (US Cyber Command), em 2009, seguida pela Estratégia de Segurança Nacional e pelas Revisões Quadrienais de Defesa de 2010, consolidou esse nexo entre as big techs e o aparato de segurança nacional, com a infraestrutura digital passando a ser tratada como um “ativo estratégico nacional”.6 A fim de proteger as participações americanas nesse ativo, também pediram explicitamente o fortalecimento das parcerias com líderes do setor privado: Pecequilo, Cristina Soreanu e Francisco Luiz Marzinotto Junior. 2022. “US power and the multinational tech companies of the digital era: an analysis of the Obama and Trump governments’ oligopolization (2009-2021)”. (<)em(>)Austral: Brazilian Journal of Strategy & International Relations, (<)/em(>)11(21).
A ascensão da IA nos EUA
Contudo, após esse impulso inicial de crescimento, o setor de tecnologia entrou à deriva no fim da década de 2010. Com poucas condições de sustentar o ritmo de inovação, as empresas passaram a tentar extrair mais lucro de produtos já existentes, o que levou a uma deterioração acentuada de sua qualidade. O investimento de US$ 77 bilhões do Facebook no metaverso—que, no fim das contas, não produziu nenhum novo produto nem gerou receita adicional—foi um sinal desse crescente desespero. Diante disso, o setor voltou suas atenções para a inteligência artificial generativa, que começara a ganhar tração em 2012, como uma possível saída. O primeiro governo Trump respondeu à corrida pela IA com a Ordem Executiva 13859 e a Iniciativa Nacional de IA. A lógica de ambas as intervenções seguia claramente os princípios do laissez-faire, conferindo ao setor privado a prerrogativa de conduzir o processo e definir as regras do jogo.
Essa abordagem de não intervenção foi bem recebida pelo Vale do Silício e, em grande medida, mantida durante o governo Biden. Embora Lina Khan, à frente da FTC, tenha tentado reforçar a aplicação das leis antitruste, Meta e Microsoft conseguiram driblar suas iniciativas nos tribunais e seguir adquirindo potenciais concorrentes.7Federal Trade Commission v. Meta Platforms Inc., et al.. 2023. (<)em(>)No. 5:2022cv04325 – Document 570(<)/em(>) (N.D. Cal. 2023). Federal Trade Commission v. Microsoft Corporation et al.. 2023. (<)em(>)No. 3:2023cv02880 – Document 305 (<)/em(>)(N.D. Cal. 2023). A FTC recorreu da decisão envolvendo a Microsoft. Em maio de 2025, a Corte de Apelações do Nono Circuito manteve a decisão da instância inferior. E embora a Casa Branca tenha buscado impor alguns limites ao desenvolvimento da IA—por exemplo, por meio do Blueprint for an AI Bill of Rights—, a orientação geral da política estatal permaneceu a mesma: apoio inequívoco às principais empresas do Vale do Silício e um compromisso inabalável com a promoção de seus interesses. Isso ficou evidente no Memorando de Segurança Nacional divulgado por Biden no segundo semestre de 2024, que reafirmava a necessidade de um desenvolvimento da IA liderado pelo setor privado diante da crescente rivalidade com a China. Em 2022, o CHIPS and Science Act já havia destinado dezenas de bilhões de dólares em subsídios e créditos tributários para a fabricação e pesquisa de semicondutores, numa tentativa de proteger o Vale do Silício da concorrência. Ao enquadrar o debate sobre política de IA no campo da segurança nacional, o governo acabou permitindo que as empresas de tecnologia se esquivassem de suas responsabilidades formais em matéria de regulação, prestação de contas e transparência.8Isso é amplamente discutido por Hao, Karen. 2025. (<)em(>)Empire of AI: Dreams and Nightmares in Sam Altman’s OpenAI(<)/em(>). Penguin Books.
O governo Biden também ajudou a garantir os volumes gigantescos de financiamento exigidos pelo Vale do Silício. Nesse contexto, o Golfo revelou-se um parceiro estratégico. Em junho de 2023, a Casa Branca intermediou encontros entre o xeique Tahnoon bin Zayed, de Abu Dhabi, e altos executivos da Microsoft, Google e OpenAI. Na mesma época, a secretária de Comércio, Gina Raimondo, atuava pessoalmente como uma espécie de emissária de Sam Altman junto aos círculos de poder do CCG. Em parte graças a esses esforços, o financiamento do Golfo para empresas de IA sediadas nos Estados Unidos quintuplicou em 2024. Documentos de divulgação pública indicaram que a Sanabil Investments, subsidiária do Fundo de Investimento Público (PIF, na sigla em inglês) da Arábia Saudita, aportou recursos nos fundos de venture capital que ajudam a sustentar o ecossistema de IA do Vale do Silício, como Coatue Management, Insight Partners, Andreessen Horowitz, Founders Fund, Radiate Ventures e General Atlantic. Já as estatais MGX e a G42, de Abu Dhabi, financiaram diretamente os chamados hyperscalers, empresas de computação em nuvem como AWS, Oracle e Google, empenhadas em expandir a IA estadunidense. A MGX figurou ainda entre os principais financiadores da OpenAI em sua rodada de captação de US$ 6,6 bilhões em outubro de 2024, poucos meses depois do Mubadala, segundo maior fundo soberano do emirado, assumir a relevante participação acionária que a FTX de Sam Bankman-Fried detinha na Anthropic.9Sigalos, Mackenzie. 2024. “FTX estate selling majority stake in AI startup Anthropic for $884 million, with bulk going to UAE”. (<)em(>)CNBC(<)/em(>), 25 de março de 2024. Dwoskin, Elizabeth, Ellen Nakashima, Nitasha Tiku e Cat Zakzrewski. 2024. “How the authoritarian Middle East became the capital of Silicon Valley”. (<)em(>)Washington Post(<)/em(>), 14 de maio de 2024. Rooney, Kate e Kevin Schmidt. 2024. “Middle Eastern funds are plowing billions of dollars into hottest AI startups”. (<)em(>)CNBC(<)/em(>), 22 de setembro de 2024.
Abu Dhabi vinha flertando com alternativas chinesas de IA durante a primeira metade do governo Biden, mas negociações sigilosas entre o Departamento de Comércio de Gina Raimondo e a liderança da G42 acabaram convencendo a empresa a se desfazer de seus investimentos em companhias tecnológicas chinesas e retirar chips da Huawei de seus centros de dados voltados à inteligência artificial. O afastamento em relação à China, porém, foi apenas parcial. As participações da G42 na ByteDance (TikTok), por exemplo, foram transferidas para outro veículo estatal—a Lunate, controlada por Tahnoon bin Zayed—, enquanto os Emirados Árabes Unidos continuaram cooperando com Pequim em áreas como 5G, drones e tecnologia militar.10Allen, Gregory e Isaac Goldston. 2024. “The Biden administration’s National Security Memorandum on AI explained”. (<)em(>)Center for Strategic and International Studies(<)/em(>), 25 de outubro de 2024. Ainda assim, esse recuo aproximou Abu Dhabi do campo estadunidense da IA. Ele não apenas abriu caminho para que a Microsoft firmasse, em abril de 2024, um acordo de US$ 1,5 bilhão em computação em nuvem e inteligência artificial com os Emirados; também colocou os recursos do país—financeiros e energéticos—, bem como seu acesso aos mercados do Sul global, à disposição do Vale do Silício.
Onshoring no Golfo
O segundo governo Trump passou a mobilizar a política de IA em favor dos hyperscalers, ainda que de forma recorrentemente incoerente e irracional. Já em seu primeiro dia de volta à Casa Branca, Trump assinou uma ordem executiva intitulada “Removendo Barreiras à Liderança Americana em Inteligência Artificial” (“Removing Barriers to American Leadership in Artificial Intelligence”). A medida, de caráter desregulatório, mirava as já extremamente frágeis exigências de proteção ao consumidor e prestação de contas implementadas pelo governo Biden. O Departamento de Justiça de Trump também passou a aliviar a pressão antitruste sobre as gigantes da tecnologia. Até agosto de 2025, a procuradora-geral Pam Bondi havia encerrado mais de um terço dos processos e investigações envolvendo empresas de tecnologia herdados do governo anterior. Na primavera e no verão daquele ano, a ordem executiva “Promovendo a Educação em Inteligência Artificial para a Juventude Americana” (“Advancing Artificial Intelligence Education for American Youth”) e o AI Action Plan prometeram eliminar a “burocracia excessiva”, impulsionando a adoção da IA tanto na educação básica estadunidense quanto no que logo seria rebatizado de Departamento de Guerra, além de proteger a propriedade intelectual americana e remover obstáculos à construção de novos centros de dados e instalações de geração de energia. Esse movimento foi aprofundado em dezembro de 2025, quando Trump assinou uma nova ordem executiva destinada a impedir que governos estaduais criassem ou aplicassem regulações sobre inteligência artificial.11Allard, Leonie e Julian Blum. 2025. “U.S. foreign policy: power in the age of AI”. (<)em(>)Report: Institut Montaigne(<)/em(>). Cabe apontar que Pete Hegseth e cia. lançaram uma Estratégia de Aceleração da IA no último inverno, em acordo com os projetos do Plano de Ação para o Departamento de Guerra—financiado pelos $13,4 bilhões especificamente alocados para a adoção de IA no orçamento do Pentágono.
Estimulado pela Casa Branca, o capital do CCG continuou fluindo para o Vale do Silício. A MGX e a G42 comprometeram-se a investir US$ 1,4 trilhão nos Estados Unidos ao longo de dez anos. A MGX também participou de uma grande rodada Série C de financiamento da xAI, empresa de Elon Musk, e ajudou a financiar uma captação de US$ 10 bilhões da Databricks, plataforma estadunidense de desenvolvimento em inteligência artificial.12Além dos compromissos de capital de risco, a PIF saudita aumentou significativamente suas participações na Amazon no primeiro trimestre de 2025—ela própria uma das principais desenvolvedoras de IA—elevando sua posição para 1,2 milhão e dólares em ações. Holland, Steve e Federico Maccioni. 2025. “UAE commits to $1.14 trillion US investment, White House says”. (<)em(>)Reuters(<)/em(>), 21 de março de 2025. Não surpreende que esses investimentos frequentemente circulem por redes de patronagem pessoal. Pouco antes da posse de Trump, representantes de Tahnoon bin Zayed adquiriram uma participação de 49% na World Liberty Financial—empreendimento de criptomoedas liderado pelas famílias Trump e Witkoff—por US$ 500 milhões. Duas semanas antes da visita presidencial ao Golfo, em maio de 2025, a MGX comprometeu outros US$ 2 bilhões de capital próprio na empresa cripto ligada a Trump e Witkoff.13Kessler, Sam, Rebecca Ballhaus, Eliot Brown e Angus Berwick. 2026. “Spy sheikh bought secret stake in Trump company”. (<)em(>)Wall Street Journal (<)/em(>), 31 de janeiro de 2026. Lipton, Eric, David Yaffe-Bellany, Bradley Hope, Tripp Mickle e Paul Mozur. 2025. “Anatomy of two giant deals: the UAE got chips. The Trump team got crypto riches”. (<)em(>)New York Times, (<)/em(>)15 de setembro de 2025.
Após a visita de Trump em maio, o ritmo do financiamento do Golfo ao Vale do Silício acelerou dramaticamente. A rodada de financiamento de US$ 13 bilhões da Anthropic, em setembro, contou com a Qatar Investment Authority (QIA) como “investidora relevante”, enquanto a própria QIA se juntou à MGX, dos Emirados Árabes Unidos, no apoio a uma captação de US$ 20 bilhões da xAI.14Bergen, Mark e Adveith Nair. 2025. “Anthropic stake propels Qatar’s $524 billion wealth fund deeper into AI”. (<)em(>)Bloomberg, (<)/em(>)3 de setembro de 2025. “Elon Musk’s xAI raises $20 billion in Nvidia-backed funding round”.(<)em(>) Agence France-Presse(<)/em(>), 7 de janeiro de 2026. Ainda mais significativo, porém, é o recente movimento dos Estados do Golfo em direção à “internalização” da IA: não se trata mais apenas de injetar capital no hegemon, mas de incorporar suas capacidades tecnológicas aos próprios projetos nacionais de desenvolvimento. A MGX, por exemplo, juntou-se a um consórcio liderado por Nvidia, Microsoft, BlackRock e xAI para adquirir a Aligned Data Centers por US$ 40 bilhões—empresa que agora considera emitir até US$ 50 bilhões em dívida para expandir seu portfólio de inteligência artificial. Há também o Stargate UAE: um megaprojeto de cluster computacional de IA com capacidade de um gigawatt, fruto de uma joint venture entre OpenAI, Nvidia, Cisco, SoftBank e G42. Em novembro de 2025, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos autorizou oficialmente a G42 a adquirir dezenas de milhares de servidores GB300 para o projeto.
A Casa Branca apoia integralmente o plano de construir clusters computacionais de IA no Golfo e vem colocando seu peso político por trás de diversas joint ventures. Catar e Emirados Árabes Unidos aderiram à “Silicon Declaration”, iniciativa da Casa Branca voltada ao desenvolvimento das cadeias de suprimento e da infraestrutura digital necessárias para a expansão da inteligência artificial. Na Arábia Saudita, planejadores estatais passaram a redirecionar esforços e capital para a construção de seu próprio polo de centros de dados voltados à IA. Apenas no ano passado, o Fundo de Investimento Público (PIF) e a xAI lançaram a Humain, uma espécie de “campeã nacional” da inteligência artificial, responsável por operar centros de dados utilizando os recém-adquiridos servidores Nvidia GB300 do país. Seu CEO, Tareq Amin, afirma querer colocar em operação 6,6 gigawatts de capacidade computacional voltada à IA até 2034—o que significaria que a Arábia Saudita responderia por algo entre 6% e 7% da carga global de processamento de IA, participação inferior apenas à dos Estados Unidos e da China. Em novembro de 2025, Humain e Nvidia firmaram uma parceria estratégica prevendo que a primeira poderá adquirir até 600 mil GPUs—os circuitos eletrônicos especializados utilizados no treinamento de modelos de IA—da segunda ao longo dos três anos seguintes. Segundo a imprensa especializada, esses chips serão empregados em centros de dados tanto nos Estados Unidos quanto na Arábia Saudita. Nos EUA, os data centers serão administrados por uma joint venture entre a Humain e a Global AI, empresa de infraestrutura de IA fundada por ex-executivos da IBM. Já na Arábia Saudita, Humain e Amazon Web Services desenvolvem uma instalação dedicada à inteligência artificial nos arredores de Riad, também prevista para operar com tecnologia da Nvidia. Enquanto isso, desde o início de 2026, Sam Altman vem pressionando os principais fundos soberanos do Golfo para levantar US$ 50 bilhões ou mais em novos financiamentos.15“Humain expands strategic partnership with Nvidia, advancing global AI infrastructure with xAI, Global AI, and AWS at the U.S.-Saudi Investment Forum”. (<)em(>)Humain(<)/em(>), 19 de novembro de 2025. Satariano, Adam e Paul Mozur. 2025. “Saudi Arabia’s new power play is exporting A.I. to the world”. (<)em(>)New York Times(<)/em(>), 27 de outubro de 2025. Kumar, Pramod. 2026. “Humain invested $3bn in xAI before merger with SpaceX”. (<)em(>)Arab Gulf Business Insight(<)/em(>), 19 de fevereiro de 2026. “Is OpenAI betting its future on the GCC? Altman’s big ticket pitch to Middle East investors”. (<)em(>)Tech Revolt(<)/em(>), 23 de janeiro de 2026.
A capacidade do CCG de combinar subordinação ao setor privado estadunidense com investimento nacional ao longo de toda a cadeia de valor tecnológica é impressionante. A OpenAI já opera seus modelos abertos mais avançados a partir de centros de dados na Arábia Saudita, e a xAI em breve também passará a treinar ali seus modelos proprietários. As potências do Golfo vêm estruturando suas próprias operações verticalmente integradas de IA, com Humain e G42 atuando no desenvolvimento de infraestrutura, treinamento de modelos e aplicações voltadas ao consumidor. A Humain, inclusive, testa atualmente um produto controlado por voz que espera transformar, no futuro, em um concorrente do Windows, do MacOS e de outros sistemas operacionais dominantes no mercado global.16Alrajjal, Tala. 2025. “Saudi Arabia is making a massive bet on becoming a global AI powerhouse”. (<)em(>)CNN Business(<)/em(>), 2 de novembro de 2025.
Em suma, a combinação entre a crescente dependência do capitalismo estadunidense em relação ao Vale do Silício e a autodestruição de sua capacidade estatal de pesquisa e desenvolvimento levou Washington a transferir a liderança da IA para as corporações dominantes do setor. A relativa abundância de recursos financeiros do Golfo, somada ao acesso a eletricidade barata e à elevada capacidade de geração de energia, fez com que essas empresas—cujas estratégias de negócios dependem da expansão contínua da capacidade computacional—passassem a enxergar as monarquias do CCG como aliadas indispensáveis. E essas monarquias, por sua vez, agora disputam espaço para se afirmar como potências da inteligência artificial por mérito próprio, com o aval do governo Trump.
A serviço do império
A aposta do CCG no Vale do Silício pode ser explicada por alguns fatores centrais. O primeiro é técnico: por enquanto, a Nvidia produz chips na fronteira tecnológica da indústria, o que torna racional para os países do Golfo alinharem-se ao setor de tecnologia estadunidense. O segundo é ideológico: o fascínio de Mohammed bin Salman pelo futurismo tecnológico ao estilo americano e sua estética cyberpunk é amplamente conhecido, e Sam Altman, da OpenAI, descreve Tahnoon bin Zayed como um “querido amigo pessoal”. Mas o terceiro e mais decisivo fator é o conjunto de incentivos, restrições e dependências históricas imposto pela posição que a região ocupa há décadas no interior do império estadunidense, muito antes do boom da inteligência artificial.
A integração do CCG à ordem do pós-guerra liderada pelos Estados Unidos começou em 1933, quando a Standard Oil of California garantiu uma concessão para exploração de petróleo em Dharan, e se consolidou após os acordos de reciclagem dos petrodólares firmados em 1974—isto é, o reinvestimento das receitas das exportações de petróleo nos bancos de Wall Street. Para os regimes do Golfo, a acumulação doméstica de capital sempre esteve baseada em responsabilidades tributárias em relação a Washington. Mas a expressão mais evidente do serviço prestado pelo Golfo ao império estadunidense era a precificação do petróleo em dólares e o redirecionamento das receitas petrolíferas para mercados financeiros dominados pelos Estados Unidos. Com o passar do tempo, porém, essa posição subordinada levou o Golfo a assumir um papel ainda mais importante na sustentação da saúde financeira dos EUA. Nos anos 1990, o grupo saudita Olayan ampliou sua participação no Chase Manhattan Corp, enquanto um membro da família real saudita, Al-Walid bin Talal, socorreu o Citicorp quando o banco enfrentava dificuldades em 1991. A crise financeira global de 2008 aprofundou essa dinâmica: a Abu Dhabi Investment Authority agiu rapidamente para salvar o Citigroup, ao mesmo tempo em que as compras de títulos da dívida pública estadunidense pelos países do Golfo se tornavam fundamentais para o “sucesso” do programa de quantitative easing do Federal Reserve.
À medida que a crise começava a perder força, os investimentos do CCG mostraram-se igualmente fundamentais para a recuperação estadunidense, cada vez mais dependente do setor tecnológico. Nesse período, os membros do CCG tornaram-se progressivamente mais conscientes da necessidade de diversificar suas economias nacionais para além do petróleo e do gás. Em parte devido ao reduzido grupo de consultorias que assessora esses governos, suas estratégias nacionais passaram a se parecer fortemente entre si: Abu Dhabi, Dubai, Arábia Saudita, Catar e Kuwait lançaram diferentes planos de “Visão”, todos baseados em um modelo bastante semelhante. Para Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, em particular, isso significou um interesse crescente pela inteligência artificial. No fim da década de 2010, o capital saudita já havia se tornado a principal fonte de investimento nas startups que floresciam nos arredores de San Francisco.17Brown, Eliot e Breg Bensinger. 2018. “Saudi money flows into Silicon Valley—and with it qualms”. (<)em(>)Washington Post(<)/em(>), 16 de outubro de 2018. O assassinato de Jamal Khashoggi pelo Estado saudita interrompeu momentaneamente a aproximação entre a Arábia Saudita e o Vale do Silício—Altman deixou o conselho do projeto Neom em protesto—, mas a reação rapidamente deu lugar a uma retomada dos negócios como de costume. Durante o aperto de crédito do período pós-Covid, o dinheiro saudita e emiradense sustentou fortunas pessoais e ajudou a recuperar os preços das ações das principais figuras do Vale do Silício.
As relações do Golfo com o Vale do Silício também são sustentadas pela lógica da segurança dos regimes. Ao utilizar seu capital para apoiar uma fração de classe central tanto para a economia quanto para o Estado americano, os países do CCG esperam reciprocidade de Washington: a garantia de sustentação das monarquias no poder em um Oriente Médio cada vez mais volátil. Não por acaso, o recente acordo saudita com a Nvidia foi firmado após Mohammed bin Salman e Trump assinarem um novo Acordo Estratégico de Defesa que, além de prever cooperação em energia nuclear civil, estipulava vultosas compras sauditas de equipamentos militares estadunidenses. Entre elas estará um número não especificado de caças F-35, o sistema de armas mais caro da história e verdadeira galinha dos ovos de ouro da Lockheed Martin. Trata-se, em última instância, de investimento em IA como forma de pagamento por proteção.
Planos melhores
O que esse alinhamento pode significar para o futuro? Com sua nova tentativa de internalizar capacidade computacional voltada à IA, os principais regimes do Golfo foram levados a enxergar oportunidades inéditas de extração de renda. Em 2022, analistas da McKinsey estimaram que a adoção da inteligência artificial poderia acrescentar US$ 150 bilhões por ano às economias do CCG. Mais recentemente, a PricewaterhouseCoopers projetou que a IA contribuirá, até 2030, com pelo menos US$ 135,2 bilhões—o equivalente a 12,4% do PIB projetado—para a economia saudita, e US$ 96 bilhões—ou 13,6% do PIB—para a dos Emirados Árabes Unidos.18Berglind, Niklas, Ankit Fadia e Tom Isherwood. 2022. “The potential value of AI—and how governments could look to capture it”. Artigo: McKinsey & Company, 25 de julho de 2022. Jain, Shivangi. 2025. “US $420 billion by 2030? The potential impact of AI in the Middle East”. Relatório: PwC (2025). Essas projeções gigantescas já vêm dando origem a novas configurações institucionais, com a criação de órgãos inéditos de planejamento, regulação e financiamento, além de entidades corporativas destinadas a atuar como investidores líderes nesse processo.
No entanto, ameaças também já começaram a se acumular. As mais imediatas decorrem da guerra contra o Irã. Teerã demonstrou ser capaz não apenas de ditar os termos no Estreito de Ormuz, mas também de ameaçar os aliados dos EUA a oeste sempre que desejar. Os Estados Unidos, por sua vez, mostraram não possuir nem a disposição nem os meios necessários para proteger seus aliados do CCG das consequências da desastrosa aventura militar. Seu esquema de proteção tem limites bastante claros. Sem qualquer resolução política estável para a região no horizonte, os planos do Golfo de construir uma grande infraestrutura de IA podem acabar fracassando.
Mesmo que o status quo anterior venha a ser restaurado, os riscos financeiros sistêmicos associados ao modelo de IA do Vale do Silício podem comprometer as perspectivas de médio prazo dos projetos conjuntos entre Estados Unidos e Golfo voltados à dominação global da inteligência artificial. O ritmo extraordinário de queima de caixa das startups americanas de tecnologia, os investimentos sem precedentes dos hyperscalers—projetados em mais de US$ 800 bilhões para 2026—, as relações circulares entre os principais atores do setor e o desinteresse generalizado do Vale do Silício pela geração efetiva de receitas tornam bastante incertas as projeções econômicas de longo prazo do Golfo. Embora os investidores anteriormente estivessem dispostos a ignorar o enorme descompasso entre os gastos com IA e as receitas efetivamente obtidas, isso começou a mudar nos primeiros meses de 2026, em meio à desordem desencadeada pelo segundo governo Trump. Após a divulgação de resultados no fim de janeiro, a Microsoft perdeu US$ 357 bilhões em valor de mercado em um único dia.
Há ainda outros motivos para acreditar que a conta pode começar a chegar em breve. A Oracle emitiu bilhões de dólares em dívida para construir centros de dados que empresas como a OpenAI se comprometeram a alugar; no entanto, a capacidade da OpenAI de cumprir esses compromissos depende de continuar captando recursos junto a empresas como Nvidia e SoftBank—ambas já sinalizaram a possibilidade de recuar de seus compromissos não vinculantes. Caso parceiros centrais do lado estadunidense enfrentem dificuldades financeiras, os efeitos em cadeia poderão comprometer tanto as finanças do CCG quanto seus planos de desenvolver infraestruturas nacionais de IA.
Os investimentos projetados pelo Golfo em centros de dados voltados à inteligência artificial tornam o quadro financeiro ainda mais complexo. Segundo projeções da S&P, a carga em megawatts do setor saudita de data centers deverá crescer a uma taxa composta anual de 29% entre 2024 e 2030. Uma expansão dessa magnitude exigirá um aumento igualmente expressivo da demanda; caso contrário, as perdas decorrentes de sobrecapacidade poderão ser gigantescas. E isso sem considerar os desafios associados à rápida obsolescência dos chips, já que os componentes atualmente na fronteira tecnológica podem ser superados em apenas cinco a sete anos. Além disso, as chamadas “campeãs nacionais” da IA no Golfo enfrentam dificuldades para atrair mão de obra qualificada, apesar dos volumosos investimentos sauditas e emiradenses em educação e treinamento e dos salários extremamente elevados oferecidos pelo setor. Os obstáculos ao sucesso, portanto, são imensos.
Há também questões mais amplas sobre a utilidade efetiva da indústria de IA para o desenvolvimento econômico. Neste momento, há poucas razões para supor que a inteligência artificial produzirá ganhos substanciais de produtividade. Em escala global, os dados indicam que seu impacto mais imediato sobre o mercado de trabalho tem sido a eliminação de empregos de entrada que antes eram relativamente estáveis, especialmente nas áreas de software e setores correlatos. A Arábia Saudita já enfrenta uma taxa de desemprego juvenil em torno de 15%. Em média, jovens sauditas recém-formados no ensino médio ou na universidade levam quarenta semanas para conseguir emprego. Estudos do King Abdullah Petroleum Studies and Research Center apontam mulheres e jovens como os grupos mais vulneráveis à substituição de postos de trabalho provocada pela IA.19Brynjolfsson, Erik, Bharat Chandar e Ruyu Chen. 2025. “Canaries in the coal mine? Six facts about the recent employment effects of artificial intelligence”. (<)em(>)Working Paper(<)/em(>): Stanford Digital Economy Lab. “Slow transitions drain billions from Saudi economy”. (<)em(>)Wamda(<)/em(>), 17 de novembro de 2025. Mulligan, Cian. 2025. “AI and green jobs in the Saudi labor market: exposure and complementarity”. Relatório: King Abdullah Petroleum Studies and Research Center, novembro de 2025. Ignorar esses sinais de alerta e aprofundar a aposta na inteligência artificial em um reino já fragilizado é correr o risco de produzir graves custos sociais.
O impacto ecológico da IA também precisa ser considerado à luz dos desafios climáticos do Golfo, especialmente na Arábia Saudita, onde o Estado planeja utilizar usinas movidas a gás natural para abastecer os clusters de IA atualmente em construção. Com centros de dados sendo erguidos em regiões excessivamente quentes para um desempenho ideal, o custo ambiental associado ao resfriamento dessas instalações, mesmo com o uso de sistemas mais eficientes de ventilação e evaporação, será gigantesco. As possibilidades de reduzir a pegada de carbono da capacidade computacional voltada à IA por meio da energia solar enfrentam diversos obstáculos, entre eles a intermitência das fontes renováveis. Embora os sauditas tenham avançado significativamente nos últimos anos na ampliação da capacidade de armazenamento em baterias conectadas à rede elétrica, o país ainda está longe de conseguir armazenar os volumes de energia necessários para garantir aos centros de dados o fornecimento contínuo de eletricidade de que dependem.20Gandhi, Hazel e Rina Chandran. 2026. “We mapped the world’s hottest data centers”. (<)em(>)Rest of World(<)/em(>), 15 de dezembro de 2025. Millard, Rachel. 2026. “There’s a new ‘breakout star’ in the battery storage market”. (<)em(>)Financial Times(<)/em(>), 3 de fevereiro de 2026.
As monarquias do Golfo atuaram como aliadas indispensáveis tanto do projeto imperial britânico quanto do estadunidense, garantindo a circulação do petróleo em benefício das nações mais ricas e ajudando a sustentar a ordem financeira global baseada no dólar. O papel assumido sem pudor por esses regimes no sistema mundial é ampliar a parcela da renda apropriada pelos lucros. Seus governantes aperfeiçoaram a arte de explorar trabalhadores internamente e extrair valor no exterior, primeiro utilizando a reciclagem dos petrodólares para pilhar o Sul Global nas décadas de 1970 e 1980; depois, já no novo milênio, desenhando modelos corporativos voltados a contornar legislações trabalhistas e impedir a negociação coletiva.21Altenried, Moritz. 2022. (<)em(>)The Digital Factory: The Human Labor of Automation(<)/em(>). The University of Chicago Press. Hanna, Alex e Emily Bender. 2025. “The hidden labor that makes AI work”. (<)em(>)Rest of World(<)/em(>), 1 de julho de 2025. Resnikoff, Jason. 2024. Contesting the idea of progress: labor’s AI challenge. (<)em(>)New Labor Forum, (<)/em(>)33(3). Nesse sentido, existe uma afinidade natural entre esses regimes e a inteligência artificial, que não funciona simplesmente como um instrumento de substituição de trabalhadores, mas como uma ferramenta complexa de degradação, desqualificação, intensificação e terceirização do trabalho. A participação dos países do Golfo nos empreendimentos de Altman e companhia, impulsionada por uma combinação entre interesse econômico, conveniência política e compromisso ideológico, constitui o estágio mais recente dessa trajetória histórica mais longa. Mas, embora os Estados do Golfo tenham até aqui se beneficiado de seu papel como procuradores dourados do poder americano, essa estratégia pode se voltar contra eles em um futuro próximo, tanto por causa da volatilidade produzida pela agressividade dos Estados Unidos quanto pelas próprias contradições internas do boom da IA. Na próxima década, a saúde do império no Oriente Médio dependerá em grande medida da capacidade de sustentação desse nexo entre o Golfo e o Vale do Silício.
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